sexta-feira, setembro 11, 2026

El enemigo lucha por un Dios equivocado, por la Patria equivocada y por la Familia equivocada...

10/IX/2026: La serie es divertida y un spin-off agradable, aunque distante de la brillantez de la original, pero, aun así, nos brinda diálogos del tipo:
— Mi comandante, pero ¿por qué luchamos en esta guerra?
— Hijo, luchamos por Dios, por la Patria y por la Familia.
— Y, mi comandante, ¿el enemigo por qué lucha?
— El enemigo lucha por un Dios equivocado, por la Patria equivocada y por la Familia equivocada.
(Yo voy luchando para que Dios no me quite la capacidad de sonreír de la cara, para que las patrias se rían de sí mismas y para que las familias no se decanten por un humor fácil en estos tiempos con tan poca gracia.)

10/IX/2026: A série é engraçada e um spin-off agradável, contudo distante do brilhantismo da original, mas, mesmo assim, brinda-nos com diálogos do tipo:
— Meu comandante, mas porque é que lutamos nesta guerra?
— Filho, lutamos por Deus, pela Pátria e pela Família.
— E, meu comandante, o inimigo porque é que luta?
— O inimigo luta por um Deus errado, pela Pátria errada e pela Família errada.
(Eu vou lutando para que Deus não me tire a capacidade de sorrir da cara, para que as pátrias se riam de si mesmas e para que as famílias não se decantem por um humor fácil nestes tempos com tão pouca graça.)

"A Colina d'Courela" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 171, p. 80

A Colina d'Courela

Um mastim espanhol, naturalizado rafeiro alentejano, caminha devagar pelo alto da colina. A sua sombra larga e lobeira acompanha-o neste fim de tarde, quando o sol do Alentejo, cansado de calor, se inclina a poente. Conheceu o abandono quando era apenas um cachorro e, talvez por isso, os seus olhos guardem uma gravidade serena. Com a ferida do desamparo cicatrizada pela sua família adotiva, encontrou na Colina d'Courela a paz que ainda se pode reconhecer no campo.

Da sua matilha destaca-se um elemento sem genes caninos: um burro. Não é um asno qualquer, nasceu em Itália e atravessou, ainda pequeno, a Europa dentro da bagageira de um carro, num périplo digno de um filme de ação, contrabando e comédia. Talvez por isso pareça mais cosmopolita, mais aberto ao humor das coisas, e se ria das voltas do mundo (que deveria, mais do que ele, ter orelhas de burro). Aqui encontrou o seu lugar e uma planície aberta à sua graça filosófica e absurda, que arranca gargalhadas ao seu velho amigo.

A diferença fez com que ambos se tornassem inseparáveis, como se o destino lhes tivesse concedido a missão de olhar o mundo a partir daquele alto, onde o horizonte se estende até Espanha e a timidez das serras e dos rios se mostra alheia a quaisquer fronteiras. Ali conversam entre o ladrar e o zurrar, entendendo-se mais pelos silêncios e pelas pausas. O cão (atento e prudente) e o burro (divertido e observador) formam uma dupla improvável, mas profundamente harmoniosa.

O correr do tempo e a cadência das estações trouxeram outro tipo de silêncio, que parece ensurdecer os humanos. Antes, lembrava-se o rafeiro, ouviam-se vozes a atravessar os campos, vizinhos a chamar uns pelos outros, crianças a inventar jogos nos montes. Agora, parece que o diálogo (mesmo entre quem fala a mesma língua) se extingue lentamente, como o fogo que se apaga sem lenha. O ouvido atento do burro notava que os poucos sons da freguesia já não eram conversas, sim sinais curtos, toques de dedos em aparelhos brilhantes nas mãos dos homens.

A voragem, essa pressa febril e fabril, também quer subir à colina. Veem-se carros cada vez mais velozes e chegam notícias como relâmpagos. Até o vento parece querer imitar essa rapidez, levando consigo, de rajada, palavras mal começadas a dialogar.

“Sabes, os homens nunca foram grande coisa, mas agora acho que ainda estão mais aparvalhados”, disse o burro, coçando-se contra uma azinheira.

O cão abanou as orelhas, afastando de si a afirmação do amigo (e uma mosca chata). Não precisava de responder. Ambos sabiam: a pressa e a distração roubam aos humanos estas colinas mundo fora, onde o espaço é encontro e oportunidade entre o si e o outro.

Cão e burro ainda veem pequenas exceções. Algumas crianças, curiosas por essência, continuam a subir à colina, observam formigas, riem-se com as cócegas de uma borboleta, constroem refúgios secretos no meio do pasto (que já nem repasto é de ovelhas). Mas até mesmo tais criaturas de um Deus benévolo e desconhecido parecem ameaçadas de extinção. Os adultos oferecem-lhes os aparelhos brilhantes, essas caixas de luz e som artificial, que lhes sequestram a imaginação e os sonhos, para os capitalizarem nesses mesmos aparatos. O burro viu uma dessas caixas e ficou intrigado: era como um espelho sem reflexo, a sugar a alma de quem o olhava. Teve receio, mas não chegou a medo. O mastim, que aprendera a confiar apenas no que podia cheirar e tocar, desconfiava ainda mais, aquele brilho roubava o vagar que antes pertencia ao verdadeiro silêncio e ao jogo livre.

Mas a colina, erguida em paciência sedimentada, persiste em esperança e traz outra companhia ao duo de amigos. Um menino de quatro anos, membro da família adotiva do cão, subiu até ao cimo. Não trouxe nenhuma caixa luminosa nem pediu nada. Sentou-se, como de costume, entre o rafeiro e o burro e, com um pauzinho, começou a riscar a terra seca e arenosa. Desenha linhas sem forma, animais circulares, casas imaginárias, talvez algum rio navegável em sonhos. Não fala, apenas sorri enquanto inventa pequenos mundos com um simples gesto.

O cão deitou-se a seu lado, guardando aquele instante apenas com um pensamento: “Estou a ver o meu menino crescer.” Não lhe faltava mais, não necessitava de mais. O burro inclinou a cabeça e soltou um zurro baixo, risonho, como quem se reconhece desajeitado e arredondado  num desenho infantil.

Todos habitam a Colina d'Courela: o rafeiro, o burro e a criança. Todos contemplam algo. O sol desce devagar e a tarde parece prometer qualquer coisa no risco leve de um pauzinho na terra. 




"A Colina d'Courela" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 171, p. 80

O que podem ter em comum um mastim espanhol, naturalizado rafeiro alentejano, um burro italiano e um menino de quatro anos? Talvez um fragmento do tempo que se tornou um pequeno espaço que alguns conhecem como Colina d’Courela… e um dos lugares onde a natureza nos ensina que não precisa de adjetivos. Se puderem, miúdos e graúdos, tinha muito gosto que lessem e partilhassem este lugar que se encontra nas páginas da “Mais Alentejo”. 

¿Qué pueden tener en común un mastín español, naturalizado como “rafeiro alentejano”, un burro italiano y un niño de cuatro años? Tal vez un fragmento del tiempo que se convirtió en un pequeño espacio que algunos conocen como Colina d’Courela… y uno de esos lugares donde la naturaleza nos enseña que no necesita adjetivos. Si podéis, pequeños y mayores, me gustaría mucho que lo leyerais y compartierais este lugar que se encuentra en las páginas de “Mais Alentejo”. 

 

quarta-feira, setembro 02, 2026

Un recorte de prensa... un privilegio de recortes...

2/IX/2026: Es un privilegio tener a un amigo que siempre se acuerda de ti y te recorta un artículo de un periódico o de una revista (y no es que no te mande también una buena sugerencia por WhatsApp o por e-mail). Es un acto de gran aprecio que merece mi total gratitud. Tengo carpetas y libros llenos de recortes con los que D. Pedro L. Cuadrado me obsequia, con la sensibilidad del hermano mayor que no quiere que me despiste, que me desentienda de un mundo que pensamos que se está muriendo, cuyo vaticinio es la extinción, pero que, en realidad, únicamente se está reconfigurando, como es propio del mundo.
Acabo de leer un montón de recortes que tenía atrasados (tengo un lugar favorito para hacerlo que, también gracias a Pedro, me recuerda esa escena mítica de la película "1 franco, 14 pesetas") y me siento muy a gusto, muy bien acompañado en la lectura y en las intenciones. Algunos me encantan, otros no tanto, pero todos me aportan ese placer de leer la prensa física que, a la par de las molestias oftalmológicas de la pantalla, es el mayor acto de resistencia a la inmaterialidad del algoritmo, que no puede monetizar ni controlar tu atención fuera del mundo online.
(¿Cómo va esta red social a promover esta divagación? ¿Los "me gusta" le traerán algún retorno a la casa madre o mis palabras sobre estos recortes y recuerdos se quedarán en el olvido algorítmico?)

2/IX/2026: É um privilégio ter um amigo que se lembra sempre de ti e te recorta um artigo de um jornal ou de uma revista (e não é que não te envie também uma boa sugestão por WhatsApp ou por e-mail). É um ato de grande apreço que merece a minha total gratidão. Tenho pastas e livros cheios de recortes com que o Sr. Pedro L. Cuadrado me presenteia, com a sensibilidade do irmão mais velho que não quer que me distraia, que me desinteresse de um mundo que pensamos estar a morrer, cujo vaticínio é a extinção, mas que, na realidade, apenas se está a reconfigurar, como é próprio do mundo.
Acabo de ler um monte de recortes que tinha atrasados (tenho um lugar favorito para o fazer que, também graças ao Pedro, me recorda aquela cena mítica do filme '1 Franco, 14 Pesetas") e sinto-me muito à vontade, muito bem acompanhado na leitura e nas intenções. Gosto muitíssimo de alguns, outros nem tanto, mas todos me proporcionam esse prazer de ler a imprensa em papel que, a par dos incómodos oftalmológicos do ecrã, é o maior ato de resistência à imaterialidade do algoritmo, que não pode monetizar nem controlar a tua atenção fora do mundo online.
(Como é que esta rede social vai promover esta divagação? Os "gostos" trarão algum retorno à casa-mãe ou as minhas palavras sobre estes recortes e recordações ficarão no esquecimento algorítmico?)

La vulgaridad y la envidia

2/IX/2026: Aya Kōda está considerada una de las mejores, si no la mejor, novelista y ensayista japonesa del siglo XX. Al leer sus palabras traducidas al español, me doy cuenta de su sensibilidad poco común y alejada de lo vulgar, concepto este alejado de cualquier pedantería. ¿Qué es la vulgaridad? Quizás sea algo de largo espectro, de escala benigna hasta niveles dañinos. (Desconozco mi grado de vulgaridad, me parece que hay momentos en que es considerable, no obstante, me doy cuenta de que en otros es difícil de encontrar y me empequeñece).
Kōda asocia la vulgaridad a la envidia, enunciando que "la envidia convive con frecuencia con los corazones vulgares". Es posible, como también es posible que la vulgaridad de uno no dé ninguna importancia a lo que está fuera de sí mismo, sea aún más ignota que envidiosa. ¿Qué será más frecuente: la vulgaridad que envidia o la que ignora todo aquello que queda fuera de sí misma? Lo que me parece cierto es que la vulgaridad convive con tantas cosas... Convive, ese verbo que no me apetece ignorar.
2/IX/2026: Aya Kōda é considerada uma das melhores, senão a melhor, romancista e ensaísta japonesa do século XX. Ao ler as suas palavras traduzidas para espanhol, apercebo-me da sua sensibilidade pouco comum e afastada do vulgar, conceito este afastado de qualquer pedantismo. O que é a vulgaridade? Talvez seja algo de largo espectro, de uma escala benigna até níveis danosos. (Desconheço o meu grau de vulgaridade, parece-me que há momentos em que é considerável, não obstante, dou-me conta de que noutros é difícil de encontrar e isso me empequenece).
Kōda associa a vulgaridade à inveja, enunciando que "a inveja convive frequentemente com os corações vulgares". É possível, como também é possível que a vulgaridade de alguém não dê qualquer importância ao que está fora de si mesmo, seja ainda mais ignota do que invejosa. O que será mais frequente: a vulgaridade que inveja ou aquela que ignora tudo aquilo que fica fora de si mesma? O que me parece certo é que a vulgaridade convive com tantas coisas... Convive, esse verbo que não me apetece ignorar.