segunda-feira, fevereiro 17, 2020

O rapaz da camisola (Manuel de Freitas)




O RAPAZ DA CAMISOLA

para o Manolo

O rapaz da camisola era espanhol e tinha
a minha idade (fumámos juntos
alguns charros, se é que isso vos interessa).
Estava lá, no dia em que finalmente
comprou a t-shirt do bar onde julgava
encontrar amigos, rebaixas de amor e música.
Deixou-me então uns discos, o sorriso
de sempre, truques de Pradera que incertamente
o reconduziam ao volante do pai e à
infância que passou, nos arredores de Cáceres.

Tinha vindo trabalhar, por poucos meses.
Não ganhava mal e eu, sem nunca
o dizer, talvez perdesse ainda melhor. Mas apaixonou-se
pela cidade (eu entendo). Morava na Graça,
sorria de facto muito, tornava mais próximos e comuns
os amigos que não tenho. A Ibéria, a desoras,
parecia subitamente possível – embora
a rapariga, loura, insistisse em dizer que não.

São tristes aqueles que partem e reduzem Lisboa
à vaga rotina dos escombros, ao despovoamento
dos afectos. Talvez um dia o rapaz da camisola
me telefone para que falemos de tudo
menos de poesia. Para já, gostava de lhe dedicar
um poema melhor, sem custos alfandegários, simples
como os copos que nos encostaram juntos ao balcão.

Manuel de Freitas


Sunny Bar, sel. de Rui Pires Cabral, Alambique, Lisboa, 2015.


 (Fonte: Hospedaria Camões)


domingo, fevereiro 16, 2020

Ambição

Gosto de falar com ele. Sempre que nos encontramos, há conversa agradável e tenho a certeza de estarmos sintonizados na amizade e na visão do mundo.
E a coisa derivou para ambição, para os meus planos a curto e a médio prazo. Ouviu-me com atenção e pousou a cerveja e o olhar na mesa. Apenas me disse:
- Sabes tenho uma grande ambição. Que não me fodam a cabeça.
Poderia ter sido uma indirecta para os meus anseios, mas não precisa desses subterfugios para me dizer o que pensa. Foi sinceridade e da boa. Agradeço-lhe a companhia, a ver se nos vemos em breve.

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

Coisas da rádio...

É velhinha esta companhia. Acompanhou o meu pai e há muito que me acompanha todos os dias no prazer da rotina. Na era do “streaming” e do “podcast”, não abdico da liberdade das ondas de rádio e acreditem que sou capaz de abdicar de muitas coisas...
Feliz Dia Mundial da Rádio!

Es viejita esta compañía. Acompañó a mi padre y hace mucho que me acompaña todos los días en el placer de la rutina. En la era del “streaming” y del “podcast”, no abdico de libertad de las ondas de radio y créeme que soy capaz de abdicar de muchas cosas...
¡Feliz Día Mundial de la Radio!

domingo, fevereiro 09, 2020

Dignidade de Domingo

Era uma gravação que estava a ver. «Kirk Douglas, el indomable», da «Dos». E por algum motivo, não sei se pelo seu posicionamento contra o macarthismo, contra a Caça às Bruxas em Hollywood, ou o seu orgulho pelas suas raízes humildes, de filho de trapeiro, exclamei que o velhinho Kirk Douglas, o Espartacus do Kubrick, sabia o que era a dignidade. Não sei bem o porquê de exclamar dignidade, podia ter mencionado coragem, rectidão, princípios, mas destacou-se dignidade. 
Apenas me lembro de tê-lo dito em voz alta porque o meu filho mais velho me perguntou o que significa dignidade.
Descalcei a bota com alguns exemplos de respeito pelos outros porque sobressai o respeito pelo próprio, mas com um pragmatismo adaptado aos seus nove anos acagaçados com o «Corona Vírus», já a contagiar em Espanha.
No entanto, não sei se lhe ficou vincado o espírito do velho Espartacus, de rebelar-se contra a escravidão imposta por outrem. O facto de me perguntar é um sinal que me deixa feliz, me orgulha. Pode não saber definir o que é dignidade, mas o seu íntimo já se rebela contra a ignorância, contra o comodismo de preferir não saber nada. Dentro do peito dos meus filhos brilha a luz da liberdade. Cabe-me protegê-la enquanto sejam minha responsabilidade paternal. O que é que eles vão iluminar será decisão sua, aí já não me meto.
Como pai, até acredito que me possam custar futuras decisões. Parece fazer parte do fado progenitor. Mas espero estar disponível para irmos caminhar, ver o pôr do sol de domingo e ouvi-los. Se eles quiserem também posso falar e lembrá-los das perguntas que eles me faziam em criança, essas que, mesmo sem resposta, eram sempre respondidas...