quinta-feira, março 05, 2026

Morreu o António Lobo Antunes

5/III/2026: Morreu o António Lobo Antunes. Morreu o escritor de quem mais crónicas li, "ex aequo" com o Manuel António Pina. As novelas, nem tanto. O seu "Fado Alexandrino" ecoará para sempre nos meus paradoxos existenciais, tal como a sua personagem literária, controversa, a dar para o maldito, que não se coibia de afirmar que “Saramago masturbava os seus leitores” (disse-o num anfiteatro cheio de gente, no qual também me senti tocado pelo mencionado onanismo) e que “só dava autógrafos a quem tinha as pernas bonitas”. Eu, literalmente, mostrei-lhe as minhas com 20 anitos e acho que gostou, pois devolveu-me a sua firma, alertando-me para não entrar tão depressa nessa noite escura. Ainda hoje, se puder evitar entrar, não entro.

5/III/2026: Murió António Lobo Antunes. Murió el escritor del que más crónicas he leído, "ex aequo" con Manuel António Pina. Las novelas, no tanto. Su "Fado Alexandrino" resonará para siempre en mis paradojas existenciales, al igual que su personaje literario, controvertido, con tendencia a lo maldito, que no se cohibía de afirmar que "Saramago masturbaba a sus lectores" (lo dijo en un anfiteatro lleno de gente, en el que yo también me sentí tocado por el mencionado onanismo) y que «solo daba autógrafos a quien tenía las piernas bonitas». Yo, literalmente, le mostré las mías con 20 añitos y creo que le gustaron, pues me devolvió su firma, advirtiéndome de que no entrara tan deprisa en esa noche oscura. Aún hoy, si puedo evitar entrar, no entro.
(António Lobo Antunes, 1997, foto de João Francisco Vilhena, in revista "Ler")

terça-feira, março 03, 2026

domingo, março 01, 2026

Iyasareru

28/II/2026: A los que nos fascinan los idiomas, las culturas cercanas y lejanas, además de lo invisible que se hace visible en lo cotidiano, solemos recurrir al diccionario para nombrar aquello que parece no tener nombre o que resulta difícil de nombrar. Este, de japonés, recopilado por Alex Pler, que de vez en cuando me acompaña, me llevó a sentir esa expresión —iyasareru— en un ratito al sol, en el porche gatuno, mientras mi mente se acordaba de buena gente como mi gran amigo Pedro Martín y Noriko Yamashita, quien lleva, mejor que cualquiera de nosotros, este vocabulario precioso en las venas.

"Iyasareru" (癒される):
Relajarnos gracias al efecto placentero y terapéutico que nos provocan cosas sencillas:
tomar una infusión caliente mientras llueve fuera, acurrucarnos en el sofá viendo nuestra serie favorita, escuchar música con los ojos cerrados o incluso embobarnos con un gato que duerme cerca.


28/II/2026: Aos que nos fascinam as línguas, as culturas próximas e distantes, além do invisível que se torna visível no quotidiano, costumamos recorrer ao dicionário para nomear aquilo que parece não ter nome ou que se torna difícil de nomear. Este, de japonês, compilado por Alex Pler, que de vez em quando me acompanha, levou-me a sentir essa expressão —iyasareru— num bocadinho ao sol, no alpendre felino, enquanto a minha mente se lembrava de boa gente como o meu grande amigo Pedro Martín e Noriko Yamashita, que traz, melhor do que qualquer um de nós, este precioso vocabulário precioso veias.

"Iyasareru" (癒される):
Relaxarmos graças ao efeito prazenteiro e terapêutico que as coisas simples nos provocam: tomar uma infusão quente enquanto chove lá fora, aconchegarmo-nos no sofá a ver a nossa série favorita, ouvirmos música com os olhos fechados ou até ficar a olhar,  simplesmente, para um gato que dorme perto.



Los EEUU de Enrique... (4 años)


 

quinta-feira, fevereiro 26, 2026

História do Silêncio


26/II/2026: Há tantas formas de encontrar consolo e, se me puser a pensar com calma, uma das mais comuns na minha vida tem sido o estudo. Necessito de estudar e, felizmente, já nem me apercebo do que estudo. Contudo, sei que, nas últimas semanas, tenho estudado a atenção e a sua atual degradação, principalmente a voluntária. Este campo de estudo levou-me, casualmente, a uma disciplina que conhecia (talvez até já tivesse uns créditos por homologar!), mas à qual não dava este nome: "História do Silêncio". (Algo semelhante ao que me aconteceu com a língua: só comecei a vislumbrar minimamente uns laivos de compreensão quando a minha estimada professora Filomena Gonçalves me ensinou a sua história.)
Neste caso, Alain Corbin tem-me chamado a atenção para a histórica comparação de méritos entre o silêncio e o serviço, entre a mudez da contemplação, o recolhimento voluntário e a dedicação à causa, às múltiplas tarefas de servir algo, alguém ou até mesmo um eu necessitado de estímulo, compreensão ou repreensão nos labores da vida ativa. Qual das duas é a melhor? As Escrituras parecem indicar que até Cristo se inclinava mais para a ausência de palavra, apesar de "no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus."
Estudar leva-me à indecisão pacífica do debate e à bela alternância entre posturas: silêncio e palavra; contemplação e ação, tal como nos ensinaram e nos ensinam os irmãos franciscanos. Talvez entre ambas encontremos uma ética da atenção: silêncio para a compreensão, falar para materializar a certeza e a dúvida e estudar para obter o consolo de sabermos que não estamos a trair nenhuma das duas.

26/II/2026: Hay tantas formas de encontrar consuelo y, si me detengo a pensar con calma, una de las más habituales en mi vida ha sido el estudio. Necesito estudiar y, afortunadamente, ya ni siquiera me doy cuenta de lo que estudio. Sin embargo, sé que, en las últimas semanas, he estado estudiando la atención y su actual degradación, principalmente la voluntaria. Este campo de estudio me llevó, casualmente, a una disciplina que conocía (¡quizá incluso tuviera ya unos créditos por convalidar!), pero a la que no daba este nombre: «Historia del Silencio». (Algo semejante a lo que me ocurrió con la lengua: solo empecé a vislumbrar mínimamente algunos atisbos de comprensión cuando mi estimada profesora Filomena Gonçalves me enseñó su historia.)
En este caso, Alain Corbin me ha llamado la atención sobre la histórica comparación de méritos entre el silencio y el servicio, entre la mudez de la contemplación, el recogimiento voluntario y la dedicación a la causa, a las múltiples tareas de servir a algo, a alguien o incluso a un yo necesitado de estímulo, comprensión o reprensión en las labores de la vida activa. ¿Cuál de las dos es mejor? Las Escrituras parecen indicar que incluso Cristo se inclinaba más por la ausencia de palabra, a pesar de que «en el principio era el Verbo, y el Verbo estaba con Dios, y el Verbo era Dios».
Estudiar me conduce a la indecisión pacífica del debate y a la bella alternancia entre posturas: silencio y palabra; contemplación y acción, tal como nos enseñaron y nos enseñan los hermanos franciscanos. Tal vez entre ambas encontremos una ética de la atención: silencio para la comprensión, hablar para materializar la certeza y la duda y estudiar para obtener el consuelo de saber que no estamos traicionando a ninguna de las dos.

domingo, fevereiro 22, 2026

"Escribir es desobedecer" - Juan José Millás

Amadeo e Lucie de Sousa Cardoso

 



Amadeo e Lucie no Tibidabo (Barcelona, Espanha). Data de produção das fotografias: 1914.



Fotografia elaborada na Casa Alvão a partir de uma fotografia de grupo de 1910.
Fotógrafo: Casa Alvão (Porto, Portugal)
Data de produção da fotografia: 1912.

Biblioteca de Arte. Fundação Calouste Gulbenkian




segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Hamnet

15/II/2026 (Évora) — Não li o livro de Maggie O’Farrell (e agora duvido que o venha a fazer), mas a adaptação de Chloé Zhao de "Hamnet" é de uma elegância digna do legado de Shakespeare que lhe serve de base intertextual. Agnes (interpretada brilhantemente por Jessie Buckley), esposa de William, é a natureza que não nos oculta a verdade: eles não são nossos, nós não somos deles; o fim da viagem encerra o percurso, mas o amor e a dor podem ser eternos.
Não sei se os gritos nas páginas, os que trazem à vida e os que dela se despedem, têm a mesma intensidade natural. Mesmo sendo arte, atravessaram-me o corpo, tocaram o que de mais íntimo levo na alma e a fragilidade do que sou, do que somos, escorreu para além do olhar. "Ser ou não ser", que muitas vezes associei à indecisão crónica, é apenas a dúvida. Os que somos pais talvez ainda tenhamos mais dúvidas, e o grito que nos vincula à vida daqueles que queremos que nos sobrevivam, dado ou albergado ao longo das nossas existências, é ensurdecedor, afasta-nos da humanidade e entrega-nos à nossa natureza animal. Essa mesmo que sabe que, sem qualquer uso da razão, tudo "o resto é silêncio".
15/II/2026 (Évora) — No he leído el libro de Maggie O’Farrell (y ahora dudo que llegue a hacerlo), pero la adaptación de "Hamnet", de Chloé Zhao, posee una elegancia digna del legado de Shakespeare que le sirve de base intertextual. Agnes (interpretada brillantemente por Jessie Buckley), esposa de William, es la naturaleza que no nos oculta la verdad: ellos no son nuestros, nosotros no somos suyos; el fin del viaje cierra el recorrido, pero el amor y el dolor pueden ser eternos.
No sé si los gritos en las páginas, los que traen a la vida y los que de ella se despiden, tienen la misma intensidad natural. Aun siendo arte, me atravesaron el cuerpo, tocaron lo más íntimo que llevo en el alma, y la fragilidad de lo que soy, de lo que somos, se deslizó más allá de la mirada. "Ser o no ser", que muchas veces asocié a la indecisión crónica, es apenas la duda. Quienes somos padres quizá aún tengamos más dudas, y el grito que nos vincula a la vida de aquellos a quienes queremos que nos sobrevivan, dado o albergado a lo largo de nuestras existencias, es ensordecedor, nos aleja de la humanidad y nos entrega a nuestra naturaleza animal. Esa misma que sabe que, sin ningún uso de la razón, todo "lo demás es silencio".

sábado, fevereiro 14, 2026

Amigável Homem-Aranha da vizinhança...

14/II/2026: Ao olhar para esta cara, entendo perfeitamente por que razão a Marvel já vestiu o Tobey Maguire, o Andrew Garfield e o Tom Holland com o fato do escalador de paredes: foi passando do mais velho para o mais novo... Aqui temos a nossa terceira geração de aracnídeos. Todos eles diferentes, mas com algo em comum: esse lado de "amigável Homem-Aranha da vizinhança".
14/II/2026: Al mirar esta cara, entiendo perfectamente por qué Marvel ya vistió a Tobey Maguire, a Andrew Garfield y a Tom Holland con el traje del trepamuros: fue pasando del hermano mayor al pequeño… Aquí tenemos a nuestra tercera generación de arácnidos. Todos ellos diferentes, pero con algo en común: ese lado de "amigable Spiderman del vecindario".