15/II/2026 (Évora) — Não li o livro de Maggie O’Farrell (e agora duvido que o venha a fazer), mas a adaptação de Chloé Zhao de "Hamnet" é de uma elegância digna do legado de Shakespeare que lhe serve de base intertextual. Agnes (interpretada brilhantemente por Jessie Buckley), esposa de William, é a natureza que não nos oculta a verdade: eles não são nossos, nós não somos deles; o fim da viagem encerra o percurso, mas o amor e a dor podem ser eternos.
Não sei se os gritos nas páginas, os que trazem à vida e os que dela se despedem, têm a mesma intensidade natural. Mesmo sendo arte, atravessaram-me o corpo, tocaram o que de mais íntimo levo na alma e a fragilidade do que sou, do que somos, escorreu para além do olhar. "Ser ou não ser", que muitas vezes associei à indecisão crónica, é apenas a dúvida. Os que somos pais talvez ainda tenhamos mais dúvidas, e o grito que nos vincula à vida daqueles que queremos que nos sobrevivam, dado ou albergado ao longo das nossas existências, é ensurdecedor, afasta-nos da humanidade e entrega-nos à nossa natureza animal. Essa mesmo que sabe que, sem qualquer uso da razão, tudo "o resto é silêncio".
15/II/2026 (Évora) — No he leído el libro de Maggie O’Farrell (y ahora dudo que llegue a hacerlo), pero la adaptación de "Hamnet", de Chloé Zhao, posee una elegancia digna del legado de Shakespeare que le sirve de base intertextual. Agnes (interpretada brillantemente por Jessie Buckley), esposa de William, es la naturaleza que no nos oculta la verdad: ellos no son nuestros, nosotros no somos suyos; el fin del viaje cierra el recorrido, pero el amor y el dolor pueden ser eternos.
No sé si los gritos en las páginas, los que traen a la vida y los que de ella se despiden, tienen la misma intensidad natural. Aun siendo arte, me atravesaron el cuerpo, tocaron lo más íntimo que llevo en el alma, y la fragilidad de lo que soy, de lo que somos, se deslizó más allá de la mirada. "Ser o no ser", que muchas veces asocié a la indecisión crónica, es apenas la duda. Quienes somos padres quizá aún tengamos más dudas, y el grito que nos vincula a la vida de aquellos a quienes queremos que nos sobrevivan, dado o albergado a lo largo de nuestras existencias, es ensordecedor, nos aleja de la humanidad y nos entrega a nuestra naturaleza animal. Esa misma que sabe que, sin ningún uso de la razón, todo "lo demás es silencio".