domingo, setembro 16, 2018

«Nossa Senhora da Piedade» e «Silêncio»

Os ex-votos e a tradição da Senhora da Piedade foram relembrados pela publicação de um livro da minha amiga Tânia Morais Rico, uma eborense, do meu bairro, que actualizou a fé de muitos elvenses nessas páginas. Estive lá e fiquei orgulhoso de a Senhora da Saúde zelar pela história das devoções da raia.
À noite, impôs-se o «Silêncio» de Shusaku Endo adaptado à sétima arte pelo Scorcese. Sebastião Rodrigues, esse jesuíta interpretado pelo Andrew Garfield, foi o último padre no Japão. Francisco Xavier - a quem devo o nome do meu filho mais novo - usara o vocábulo japonês de sol para poder traduzir a noção de Deus ao povo japonês. Não são o mesmo e Shimawara encarregou-se de o confirmar, relegando para os resíduos da história nipónica uma qualquer presença do cristianismo português ou espanhol.
«Silêncio» esteve à altura da homenagem que o realizador propôs, à cristandade japonesa e aos seus padres, porém, para mim, teria sido uma obra perfeita se o inglês não tivesse corrompido esse «Silêncio» que eu ouvia na minha língua...
Andrew Garfield in "Silence"

quarta-feira, setembro 12, 2018

"De cada vez que abria uma gaveta..." - Paul Auster

"De cada vez que abria uma gaveta ou espreitava para dentro de um armário, sentia-me como um intruso, um ladrão devassando os locais secretos da mente de um homem. A todo o momento esperava que o meu pai entrasse, parasse incrédulo a olhar para mim e me perguntasse que raio é que eu pensava que estava a fazer. Não me parecia justo que ele não pudesse protestar. Eu não tinha o direito de invadir a sua privacidade"."

Paul Auster, Inventar a Solidão


segunda-feira, setembro 10, 2018

Viver entre velhos...

Acho que tinha acabado de fazer nove anos quando a minha mãe foi trabalhar para o Centro de Dia. Do final da minha infância até ao princípio da minha vida adulta, já a residir em Valencia de Alcántara, acompanhei o trabalho da minha mãe. Ia com frequência buscar e levar os idosos a casa, depois duma jornada num centro que se tornara parte do seu dia-a-dia. A solidão era paliada, naquele rés-do-chão do Bairro da Sra. da Saúde, por gente capitaneada pela minha mãe. Perdemos muito em casa graças à boa samaritana que sempre foi a minha progenitora, essa é a verdade. Também é verdade que, se assim não tivesse sido, o centro à frente de casa, talvez hoje não visse o mundo como o vejo, nem o sentisse como sinto.

Ter visto a incontinência do tempo nesses idosos, fraldas e andarilhos antes de as ter mudado como pai, a mobilidade apoiada nos braços de tantas famílias divididas entre a gratidão, o amor filial, ou o peso de um bem-parecer duma estrutura familiar que não puderam escolher, para além de ter visto demasiados fins de vida a serem cobertos à pazada, fez de mim um órfão circunstancial de tantos avós que não me eram nada.

O medo foi constante. As aprendizagens  também. A falta de maturidade notava-se no sofrimento que me causava ver lutos em roupas que não compreendia, em casas vazias de família e em velhotes tão bons para mim e visivelmente tão nefastos para os seus. Os meus verdadeiros avós eram a luz nesta minha idade entre a terceira idade. Foram tantos os nomes, os rostos, as mãos, o cheiro que adjectivam de velho. 

A minha mãe, mesmo reformada nunca deixará o Centro de Dia, a sua vocação voluntária. A família continuará em casa, à espera que chegue. Eu, ande por onde ande, vou buscar muitas destas recordações a casa, ajudo-as a subir e a descer da carrinha das minhas lembranças. Ao final do dia, regressamos todos ao lar do que é possível...

«Paisagem» de Paciência

Work less, PLAY MORE, enjoy life...

domingo, setembro 09, 2018

Peter H. Fürst - Herbert Tobias with his Cat, 1962



Herbert Tobias (1924 - 1982), foi um fotógrafo alemão que se tornou conhecido por sua fotografia de moda durante a década de 1950.