terça-feira, junho 27, 2017

Angústia adormecida

Estava cansado. Há dias que durmo a correr, depressa. Acordo cansado e o primeiro pensamento é quando poderei dormir outra vez. Se encontro uma resposta mental distante do final do dia, há uma sensação de consolo. Pouca vezes acontece e entro no remédio da rotina.
Estava cansado. Mas não dormi à pressa. Dormi descansado até que o sono, pesado de tantos dias acumulados, começou a sonhar angústias de pai ainda filho e neto. 
Despedidas. Ritmo cardíaco acelerado. Perguntas sem resposta. Saudades que não deveriam existir. A vida real projectada num inconsciente dum homem que não consegue deixar de querer ter fé nos olhos herdados da infância.

«Saudades de mim» é um livro tardio de António Ferro. O polémico homem da política do espírito do Estado Novo não é um poeta de referência para mim, ao contrário da sua personalidade fascinante, e aqui o tenho na mão, lido, estudado. Debruço-me sobre o título e acabo por reconhecer neste saudosismo algo de mim também.
Amanhã comerei as minhas palavras. Esquecerei noites de subconsciente incontrolável, angústias das minhas circunstâncias de homem de fronteira e negarei a saudade com medo da sua existência. Uma coisa só existe se a aceitarmos.

Infância moderna (Pedro Leite)








Que, um problema relativo

Que, um problema relativo de escrita. É verdade da qual estou consciente há muito e sem ter tido grandes conselhos de redacção criativa. Ao contrário de mim, os grandes escritores, os do panteão e os anónimos, não abusam da primeira pessoa do singular e não recorrem com demasiada frequência ao pronome relativo que.
Que esta seja a nota de hoje, não é de estranhar. Decidi abandonar o espanhol como língua da primeira pessoa, uso-o apenas como idioma do dia-a-dia e com peso de oralidade em casa, na rua e em grande parte do meu trabalho. Desde a publicação do [33] que decidi centrar-me na língua materna ao invés de investir a pena na língua do país de acolhimento. Não é um abandono convicto, voltarei se assim o sentir, também porque o espanhol cada vez mais está presente no meu português, algo extrapolável ao meu ser e estar. No caso da língua usada para escrever, nota-se num predomínio conjuntivo, com recurso aos pronomes relativos, e num certo desuso do infinito pessoal típico do português. Não é que me preocupe demasiado com estilística, apesar duma vez ter contado os «ques» duma crónica dum referente literário, mas, como o meu pai sempre diz, há que ter brio. A palavra merece atenção, a sinceridade relativa de quem a escreve, portanto merece ser revista sempre que possível.
Ultimamente apenas lhe tenho dedicado a sinceridade, o brio vai-se ficando pelo arquivo, onde, qualquer dia, alguém o possa rever.

sábado, junho 24, 2017

Córdoba de encontros (e reencontros)

Pensava vir a Córdoba encontrar-me com Góngora, com as lições de cultismo que me levaram (insipidamente) a conhecer o barroco espanhol e o seu «siglo de oro». Já fiz os deveres e, num alfarrabista de sonho, levo uma breve antologia do mais célebre poeta e peculiar sacerdote cordobês. No entanto, à beira do Guadalquivir, num dos pilares de uma ponte vejo um graffiti, pouco elaborado de arte pictórica, que me fez pensar: «Sin poesía no hay ciudad».
Será a poesia o ordenamento territorial necessário à subsistência da cidade? Um motor de desenvolvimento económico, tipo indústria do espírito? O que seria das cidades sem os seus poetas? Como seria Córdoba sem Góngora? Continuei a andar e à senhora que vendia águas e cervejas junto à ponte romana voou-lhe a tampa da geleira onde guardava o fresco das bebidas dum final de tarde a escaldar quase aos 40°c. Exclamou baixinho, impotente, a olhar para a tampa a navegar no rio da cidade: «tu puta madre».
Deixei de divagar sobre versos a alicerçarem urbes e tive pena de ver o sustento da vendedora de cerveja e água fresca ir, literalmente, água a baixo.
Acabei por refrescar-me junto à estátua de Averroes, sentado nuns degraus a partilharmos umas «granizadas» em família. O intelecto activo caracteriza a forma como vivo as cidades, os passos dados em caminhos desconhecedores das minhas rotinas, porém luto com convicção e, por vezes desilusão, de querer sentir a passividade da inteligência, aquela que, este médico e filósofo devoto de Aristóteles, me ensinou encontrar-se unida à alma humana, a única coisa que me parece possível conceber como divina e eterna...
Afinal, pensava vir a Córdoba encontrar-me com Góngora, mas quem reencontrei foi o meu velho mestre muçulmano.

Encinarejo, a horta de Córdoba

Por aqui dizem-me que estou na segunda zona mais fértil do mundo, depois das margens do Nilo. É uma boa forma de divulgar este «pueblo» de 2000 habitantes da bacia hidrográfica do Guadalquivir e o primeiro de «colonización» nos anos 50 com a reforma agrária franquista.
Andei a tocar a terra com as mãos, a comer pêras directamente da árvore, a ver como subsiste esta região tão quente como a minha à qual chamam «a horta de Córdoba».
Aqui entre aromáticas, aloé vera, flores, viveiros de oliveiras, verduras e frutas da temporada, dou por mim a falar húmus real, de minhoca, de fertilizante agrícola e não de literatura, do «Húmus» do Raúl Brandão que conheci graças ao Sr. Edmundo, o motorista bibliófilo da carrinha do Centro de Dia, numa das épocas mais férteis da minha existência.
A fertilidade dos nossos dias depende de tantas misturas, de dosagens pessoais, e da matéria orgânica da qualidade das vidas que os povoam. Gostava de ser como as margens deste rio, fértil de vidas orgulhosas de trabalhar aquele solo... 
(Não tenho a modernidade de Brandão e já aceitei o Gabiru sem filosofia nenhuma.).

sexta-feira, junho 23, 2017

Fita-Cola

Se o mundo se arranjasse com fita-cola, o meu filho mais velho seria um grande estadista com remédio para tudo. É incrível a fita adesiva que esta alma gasta! Desde muito pequeno, sabe usar esta invenção de escritório e usa-a para tudo, papéis, livros, brinquedos, palitos, etc.
«Papá, ¿puedo usar el tesa film?». Não sou capaz de dizer muitas vezes não e lá vão rolos gastando-se à medida do seu crescimento. Haverá um dia em que descobrirá a ineficácia da fita-cola, que o que está partido partido fica, porém até chegar esse dia vai desenrascando-se com material de papelaria. Se o seu coração for de papelão a sua infância poderá remediar qualquer coisa. Tesoura na mão, um bocadinho de fita cola estes momentos na nossa memória antes de se converterem em fragmentos do futuro.

quinta-feira, junho 22, 2017

O vilão que lia García Lorca

Uma boa história pode ser tão má que fico a adorá-la. Um mau actor pode ser tão canastrão que me fica no coração. Porque é que a arte tem de ser só sublime? Não há arte pateta? Quanto mais estudo arte, mais dúvidas tenho em defini-la, catalogá-la, ainda menos hierarquizá-la.
Nos últimos dias, tenho feito a digestão do jantar tarde. Eu, que não sou de me deitar demasiado tarde, tenho ido para a cama depois da uma e com um ou dois filmes vistos. Para o critério cinéfilo só tenho visto série b, talvez mesmo z, ou, simplesmente, merda. Mas para um escatológico o dejecto é resultado da vida. Só caga quem está vivo e nestes últimos serões as interpretações foram o menos importante, as histórias agradavelmente previsíveis, mas a porradaria épica!
Ainda hoje estava a divagar sobre o tanto que aprendi graças a ter sido um fã do Bruce Lee, de como, para além de Wing Chun ou métodos de Jet Kune Do, fiquei curioso com filosofia oriental e com a sua própria filosofia. Lee era mais que um pontapé rápido, era um mestre de aforismos cuja figura ganhou a imortalidade porque a sua vida merece a pena ser recordada.
O Sylvester Stallone também está no rol. O Rocky é indissociável do «Italian Stalion» que começou pelo porno e se manteve erecto no meio duma indústria que já não necessita dos anabolizantes de outrora, mas que continua sem perceber que o Rambo é muito mais do que o soldado do regime Reagan.
O regime Trump terá um canastrão como o Reagan teve nos 80? É capaz, mas o género já não vinga. Talvez qualquer coisa rápida e com carros furiosos de vários milhões de dólares possa evadir as mentes dos novos cinéfilos de coca-cola e pipocas no centro comercial e em streaming.
Não sendo velha escola (totalmente), ainda vejo DVDs e vou gravando filmes na box. Streaming nunca me habituei e as internets caseiras também não ajudavam...
Tudo isto para dizer que vi uns quantos filmes maus com a felicidade de os ter visto numa tarde de Verão escaldante em que não tinha para onde ir, tal qual como quando era miúdo.
Mas a idade pesa. Já não quero ser tão bom à porrada como o Van Damme e tenho um olho apurado para o verossímil. Gosto de boas coreografias de luta mas com fundos de realidade e menos espectacularidade. O efeito «Matrix» já é estilo clássico e o MMA não é só grappling, o «pound to pound» devolveu a espectacularidade de combinações e rotativos dignas dum hipster de 70 anos chamado Chuck Norris.
No entanto, para voltar à essência do que me fez escrever esta entrada no diário, foi no filme «Undisputed III», com o Scott Adkins, em que a poesia não abandona os filmes fáceis e previsíveis com a personagem do colombiano dopado, protegido pelos vilões acima dos vilões (os vilões ao quadrado digamos), a ler a poesia de Federico García Lorca à sobra do chapéu de sol, enquanto os adversários trabalham (mas convertem-no num treino) num campo de trabalhos forçados.
Dois mundos estes. O da dureza da força da picareta e o da subtileza da poesia...

«Ninguém consegue ajudar todo o mundo, mas todo o mundo é capaz de ajudar alguém» -Anónimo, mas com muita generosidade

quarta-feira, junho 21, 2017

Ismael

O Ismael não é para mim a personagem principal do Moby Dick. Não anda embarcado no mar às ordens dum louco Capitão Ahab.
O Ismael é o professor do meu filho Santiago e, aos seis anos, é uma grande referência para ele. Eu fico muito feliz por ver o meu pequeno adorar a escola e ter em conta tudo o que o seu professor lhe ensina. Uma criança que quer aprender é um universo que se quer dar a conhecer e não o contrário, como vulgarmente pensamos.
Como pai fico-lhe grato pelo brio e profissionalismo que põe na sua profissão, só com isto já é suficiente e não lhe posso exigir a tremenda vocação que tem. Como profissional da educação revejo-me na sua atitude e tenho fé que todas as coisas boas que tentamos fazer sempre salpicam com uma espécie de água benta os que ao nosso redor por bem estão.
Amanhã termina o ano lectivo e o Santi não deve poder estar presente por o "rotavirus" chato cá de casa. Não vai poder despedir-se e desejar boas férias ao seu professor e está triste. Eu fico feliz pela sua tristeza. Vale a pena acreditar na educação, vale a pena lutar por estas crianças e, no meu caso, por tantos jovens.
Tal como o Ismael deveria sentir, assim o espero, demos o nosso melhor e demos o exemplo que há que dar, imperfeito, mas como deve de ser, consciente. Consciente que na escola somos um exemplo e temos de ser coerentes com o que predicamos. Hoje fecho a loja como docente para férias. Há alguma papelada antes de desconectar da escola. Foi duro para mim como profissional, no entanto, acompanhar o trabalho do Ismael com a turma do meu filho, ajudou-me a superá-lo.