sábado, agosto 19, 2017

Valeu a pena?

Acabo de ler um ensaio, muito resumidamente e pecando por alguma interpretação errónea da minha parte, sobre a actividade do escritor em Portugal. Tiro o chapéu à autora, Inês Fonseca Santos, e à Fundação Francisco Manuel dos Santos que promove uma verdadeira colecção de serviço público.
«Vale a pena? Conversa com escritores» faz a radiografia, através da conversa com onze escritores portugueses, como se vive a e da literatura neste país. Fá-lo com conhecimento de causa e duma maneira exemplar. Soube rodear-se de opiniões consistentes de criadores interessantes como António Cabrita, Mega Ferreira, Afonso Cruz ou Patrícia Portela, e outros que guardo a essência das palavras mas olvido o nome.
Inês, guardiã da poesia de Manuel António Pina, põe o dedo numa ferida estructural, que alguns remetem para características de pouco refinamento cultural português quando comparadas com outras realidades, a educação.
Quanto à minha humilde interpretação, é nesta base, influenciada pelo mundo global, que determina tudo: escritor, mercado literário nacional, editor, revisor, distribuidor e leitor. Pelo meio há os auxiliares desta cadeia, crítica e redes sociais. O caso da crítica não foi explorado como estava à espera, tal como o caso das revistas literárias que, na história da literatura portuguesa, geraram cânones («Orpheu», «Seara Nova», «Presença»...). A revista continua a ser um veículo de difusão, discreto é verdade, mas de grande qualidade quer em prosa, quer em poesia.
Outra coisa que a minha sensibilidade me chamou à atenção, foi o centralismo das duas grandes urbes, Lisboa e Porto, nesta reflexão. Isto impede que a literatura portuguesa imponha géneros regionais, impossível mesmo subliteraturas alentejana, transmontana, estremenha. Até que ponto as autarquias e a produção cultural veinculada pelo poder local deveria ser estudado e inventariado? Espanha tem essa realidade regional sem a qual se pode falar de literatura espanhola. Falar de literatura no país vizinho é ter em conta uma amálgama de regiões autónomas, algumos com língua própria. O centralismo em Espanha existe a nível editorial, oscilando entre Madrid e Barcelona, mas a dimensão e distribuição pode levar-nos aos mercados iberoamericanos.
O caso português não é assim.
Ficando nomes importantíssimos, e que ajudariam a entender o mercado e a escrita actual, para trás como Virgílio Ferreira, Miguel Torga (o seu caso de primeiro candidato plausível a Nobel e nobre editor, junto com a esposa, da própria obra), Mário Viegas a declamar, Carlos Pinto Coelho a acontecer diariamente um magazine cultural, o Jornal de Letras quinzenal, os cantautores de talento literário reconhecido, o Sérgio Godinho, por exemplo ou o egocentrismo (com possibilidade de Nobel) de Lobo Antunes que tem leitores ainda mais reduzidos que em poesia no que respeita aos seus romances mas que chega à leitura massiva com as suas crónicas.
O passado condiciona demasiado este «Valer a pena». O tamanho do país também, pequeno e com grandes valores literários, tal como livro que alberga este ensaio de excelente abordagem e registo mixto, ensaístico e jornalistico, ao qual lhe faltariam umas páginas para ser completo.
Mas há que ser realista. O que é preferível, esta reflexão na estante da biblioteca da universidade ou em milhares de topos em supermercados e livrarias do país?
De obrigatória leitura para quem quer escrever e ler boa literatura portuguesa. O mesmo se aplica a quem quer viver dela, escrevendo, editando e ensinando.

sexta-feira, agosto 18, 2017

Comparativa de performances pueris

E é comparar. Preços, materiais, carros, casas, países, economias, corpos, tamanhos, performances... e filhos. Não falo da quantidade, nem se é entre o mais velho, o do meio ou o cassula. Falo de filhos.

«Vejam só, tem seis anos mas já veste de dezoito. Já fala três línguas, sabe judo, toca piano e guitarra, programa aplicações e acabou de receber propostas de várias universidades para ir estudar. Mas ainda não nos decidimos pois teve um convite para ir para o governo e, como pais, não sabemos se o devemos aconselhar a emigrar, com o potencial que tem...».

É verdade. Tem tanto potencial que só é pena eu não ter inveja porque sou um pai preguiçoso demais, até para isso. Os meus têm percentis normalíssimos (mais a dar para o pequeno). A roupa, se possível herdada, é do tamanho que mais jeito dá ao corpo e à carteira dos pais. Falam e abusam do portunhol. São um bocado patosos e riem-se dos próprios puns e de uma aplicação que os reproduz. Têm um cavaquinho desafinado que usam para, se me descuido, se agredirem e só os aceitam mesmo no infantário e na escola primária. Do governo, só conhecem o de casa e o orçamento que possibilita, ou não, a aquisição de um novo brinquedo.

Enfim, não lhes vejo potencial para além de encher fraldas, o mais novo, e a esperança de descobrir uma forma de produzir energia alternativa com o chulé das sapatilhas do mais velho.

Deveria de estar preocupado. Deveríamos, porque isto também é culpa da minha mulher. Já tentei melhorar, tentámos, melhorá-los, mas parece-me que isto é uma questão de cepa torta...

Epá, espera lá! És parvo ou quê?! Com o marketing adequado, até de uma vulgar cepa se pode vender um vinho extraordinário!!! É tudo uma questão de rótulo!!!

«Contou-me um alentejano» - J. Rentes de Carvalho

"Contou-me um alentejano: «Tive um avô que ia ouvir a água a correr como quem vai ouvir a banda filarmónica a tocar no coreto», e fico a recordar que em criança, quando o meu avô ia tratar da horta e me levava consigo - na minha fantasia uma manhã inteira de jornada, as burras transmudadas em corcéis - ficava eu junto do açude, entretido a seguir os girinos, surpreso de não compreender se o som da corrente mudava por eu mudar de sítio, ou se havia ali mistério, talvez elfos emigrados da fria Noruega para o calor transmontano, e que regalados, escondidos entre seixos, sopraravam nas flautas estranhas melodias.".

J. Rentes de Carvalho, in «Trás-os-Montes, o Nordeste», pp. 11 e 12.

quinta-feira, agosto 17, 2017

O vizinho do lado

Há quatro anos que nos conhecemos, nos cumprimentamos, e partilhamos o local de veraneio sem sabermos o nome um do outro.
Este ano temos falado mais desde o primeiro dia. Pescador submarino diário nesta Foz, o simpático vizinho do lado tem mostrado cavalos marinhos, ostras, ameijoas, santolas e outro marisco que o meu vocabulário de sequeiro desconhece.
Hoje obsequiou-nos mais umas ostras e uma pequena santola. Agradeci a atenção e a simpatia, escondendo o pânico de ser incapaz de coser vivo o animal e depois comê-lo.
Lá está ele dentro do alguidar e, amanhã cedo, com medo de ser descoberta a minha ingratidão marisqueira, vou soltá-lo ao mar.

Reiki

Uma vez estive a falar com uma «reikiana» - esse é o nome que têm os seguidores dos fluxos de energia que emanamos - e, para demonstrar a um público de um programa de televisão de então no que consistia esta terapia, usou-me como cobaia. O riso é uma forte energia em mim, contudo o respeito pela energia da convicção do outro conteve-o nos cantos discretos da boca que iam sorrindo nervosismo e falta de fé.
Terminada a sessão/demonstração, disse-me ter encontrado uma fervilhante energia criativa num chakra, ou coisa parecida, situado lá para as bandas da minha testa. Agradeci-lhe sincero. Ainda hoje gostaria de acreditar em coisas que não acredito.

Uma simples medida de cafeína

«Yo he medido mi vida en cucharitas de café.»/«Eu medi a minha vida em colherzinhas de café» (T.S. Eliot)

terça-feira, agosto 15, 2017

«HAPPINESS ONLY REAL WHEN SHARED» Chris McCandless

De volta a «Into the Wild» de Jon Krakauer, para sublinhar palavras de solidão, fascínio, idealismo, aceitação, eu, outro, de filho a pai, pai de filho, natureza, pureza, decalque, egoísmo, erros cheios de inocência. A morte dum filho que rumou a norte de si mesmo.

Ao meu redor, os meus filhos brincam, discutem por brinquedos, matam formigas. O mais velho paciente com os movimentos abebezados e egocêntricos do mais novo a articular aos berros o seu carácter reivindicativo e privilegiado por o ter como irmão.

Quero terminar para eles uma ideia em movimento há tempos. Sinto que o tenho de fazer sem mais ideia de legado que a realidade de por aqui estarmos ser irrepetível. Não sei como o farei sem lhes impor mais presença paternal minha que a necessária para poderem ser eles próprios. Termine como o terminar, a responsabilidade é minha.

«For children are innocent and love justice, while most of us are wicked and naturally prefer mercy.» - G. K. Chesterton

Fila G, Lugar 11, uma sala de cinema só para ele...

segunda-feira, agosto 14, 2017

«Dolcevita, ralaxar ao ar, sem amor não sou nada...», Leiria, 14/VIII/2017

Uma escadaria cheia de sabedoria.

O passado patego do "Running"

Antes de ser actividade marca registada, de ser tema de secção da grande superfície desportiva e de revista de corredor técnico, o "running" não estava na moda. Porém, era barato e, salvo algum problema físico ou lesão, caracterizava-se por ser o mais democrático de todos os desportos.

Em Évora, sem grandes infraestruturas então, à volta das muralhas, a corta-mato nos descampados dos bairros, ou aqui, no campo da universidade, o passado patego do "running" chamava-se correr.

Ontem, deparei-me com esta fotografia, a qual me remete para o meu passado (e presente) patego. Avesso a nostalgias desnecessárias, agrada-me ver gente a fazer o seu "jogging" (terminologia dos 80's) e até suporto políticos a darem entrevistas sobre a resistência das suas meias-maratonas (será que o Sócrates deu umas corridinhas no pátio da prisão da minha cidade?). O que me chateia verdadeiramente é gostar tanto duns ténis técnicos de "trail" que, mesmo nos saldos, teimam em ter mais de três dígitos no preço!

(Foto de Duarte Belo)

A vida encerrada entre quatro paredes, sem frinja de luz, tende a apodrecer