quarta-feira, setembro 02, 2026

Un recorte de prensa... un privilegio de recortes...

2/IX/2026: Es un privilegio tener a un amigo que siempre se acuerda de ti y te recorta un artículo de un periódico o de una revista (y no es que no te mande también una buena sugerencia por WhatsApp o por e-mail). Es un acto de gran aprecio que merece mi total gratitud. Tengo carpetas y libros llenos de recortes con los que D. Pedro L. Cuadrado me obsequia, con la sensibilidad del hermano mayor que no quiere que me despiste, que me desentienda de un mundo que pensamos que se está muriendo, cuyo vaticinio es la extinción, pero que, en realidad, únicamente se está reconfigurando, como es propio del mundo.
Acabo de leer un montón de recortes que tenía atrasados (tengo un lugar favorito para hacerlo que, también gracias a Pedro, me recuerda esa escena mítica de la película "1 franco, 14 pesetas") y me siento muy a gusto, muy bien acompañado en la lectura y en las intenciones. Algunos me encantan, otros no tanto, pero todos me aportan ese placer de leer la prensa física que, a la par de las molestias oftalmológicas de la pantalla, es el mayor acto de resistencia a la inmaterialidad del algoritmo, que no puede monetizar ni controlar tu atención fuera del mundo online.
(¿Cómo va esta red social a promover esta divagación? ¿Los "me gusta" le traerán algún retorno a la casa madre o mis palabras sobre estos recortes y recuerdos se quedarán en el olvido algorítmico?)

2/IX/2026: É um privilégio ter um amigo que se lembra sempre de ti e te recorta um artigo de um jornal ou de uma revista (e não é que não te envie também uma boa sugestão por WhatsApp ou por e-mail). É um ato de grande apreço que merece a minha total gratidão. Tenho pastas e livros cheios de recortes com que o Sr. Pedro L. Cuadrado me presenteia, com a sensibilidade do irmão mais velho que não quer que me distraia, que me desinteresse de um mundo que pensamos estar a morrer, cujo vaticínio é a extinção, mas que, na realidade, apenas se está a reconfigurar, como é próprio do mundo.
Acabo de ler um monte de recortes que tinha atrasados (tenho um lugar favorito para o fazer que, também graças ao Pedro, me recorda aquela cena mítica do filme '1 Franco, 14 Pesetas") e sinto-me muito à vontade, muito bem acompanhado na leitura e nas intenções. Gosto muitíssimo de alguns, outros nem tanto, mas todos me proporcionam esse prazer de ler a imprensa em papel que, a par dos incómodos oftalmológicos do ecrã, é o maior ato de resistência à imaterialidade do algoritmo, que não pode monetizar nem controlar a tua atenção fora do mundo online.
(Como é que esta rede social vai promover esta divagação? Os "gostos" trarão algum retorno à casa-mãe ou as minhas palavras sobre estes recortes e recordações ficarão no esquecimento algorítmico?)

La vulgaridad y la envidia

2/IX/2026: Aya Kōda está considerada una de las mejores, si no la mejor, novelista y ensayista japonesa del siglo XX. Al leer sus palabras traducidas al español, me doy cuenta de su sensibilidad poco común y alejada de lo vulgar, concepto este alejado de cualquier pedantería. ¿Qué es la vulgaridad? Quizás sea algo de largo espectro, de escala benigna hasta niveles dañinos. (Desconozco mi grado de vulgaridad, me parece que hay momentos en que es considerable, no obstante, me doy cuenta de que en otros es difícil de encontrar y me empequeñece).
Kōda asocia la vulgaridad a la envidia, enunciando que "la envidia convive con frecuencia con los corazones vulgares". Es posible, como también es posible que la vulgaridad de uno no dé ninguna importancia a lo que está fuera de sí mismo, sea aún más ignota que envidiosa. ¿Qué será más frecuente: la vulgaridad que envidia o la que ignora todo aquello que queda fuera de sí misma? Lo que me parece cierto es que la vulgaridad convive con tantas cosas... Convive, ese verbo que no me apetece ignorar.
2/IX/2026: Aya Kōda é considerada uma das melhores, senão a melhor, romancista e ensaísta japonesa do século XX. Ao ler as suas palavras traduzidas para espanhol, apercebo-me da sua sensibilidade pouco comum e afastada do vulgar, conceito este afastado de qualquer pedantismo. O que é a vulgaridade? Talvez seja algo de largo espectro, de uma escala benigna até níveis danosos. (Desconheço o meu grau de vulgaridade, parece-me que há momentos em que é considerável, não obstante, dou-me conta de que noutros é difícil de encontrar e isso me empequenece).
Kōda associa a vulgaridade à inveja, enunciando que "a inveja convive frequentemente com os corações vulgares". É possível, como também é possível que a vulgaridade de alguém não dê qualquer importância ao que está fora de si mesmo, seja ainda mais ignota do que invejosa. O que será mais frequente: a vulgaridade que inveja ou aquela que ignora tudo aquilo que fica fora de si mesma? O que me parece certo é que a vulgaridade convive com tantas coisas... Convive, esse verbo que não me apetece ignorar.

domingo, agosto 30, 2026

"Los años de carne y hueso" - Antonio Rivero Machina

29/VIII/2026: Em alguns âmbitos, os estudos ibéricos são uma cadeira que leva a comparativismos históricos, culturais, linguísticos, literários... No meu âmbito, bastante geral, é o prazer de estudar, e o rigor académico e a prosa agradável de Antonio Rivero Machina, neste "Los años de carne y hueso - Estudios comparados de literatura ibérica (1930-1960)", são uma das melhores companhias deste final de agosto para quem gosta de aprender e compreender o porquê de alguns falarmos deste sentimento de sermos peninsulares.
29/VIII/2026: En algunos ámbitos, los estudios ibéricos son una asignatura que lleva a comparatismos históricos, culturales, lingüísticos, literarios... En mi ámbito, bastante general, es el placer de estudiar, y el rigor académico y la prosa agradable de Antonio Rivero Machina, en este "Los años de carne y hueso - Estudios comparados de literatura ibérica (1930-1960)", son una de las mejores compañías de este final de agosto para quienes gustan de aprender y comprender el porqué de que algunos hablemos de este sentimiento de ser peninsulares.

A deriva de escrever...

29/VIII/2026: A deriva de escrever por linhas incertas de sentido, vocação, leva à pulsão da necessidade, cujo rasto é difícil ou impossível de encontrar, por mais atenção, crítica ou análise de que seja alvo. Mencionar maiores ou menores, de primeira, segunda ou terceira linha, reconhecidos ou recatados na obra e no pensamento, é passar ao lado do principal traço identitário do que define a arte, tão diferente do concretismo de outras manifestações do "Homo sapiens". A literatura está inscrita nesse risco que pode levar à palavra, à ideia, à narração, ao verso, porém indiferente a qualquer tipo de absolutismos, principalmente ao da certeza.
29/VIII/2026: La deriva de escribir por líneas inciertas de sentido, vocación, conduce a la pulsión de la necesidad, cuyo rastro es difícil o imposible de encontrar, por mucha atención, crítica o análisis de que sea objeto. Mencionar a mayores o menores, de primera, segunda o tercera linea, reconocidos o discretos en la obra y en el pensamiento, es pasar por alto el principal rasgo identitario de lo que define el arte, tan diferente del concretismo de otras manifestaciones del "Homo sapiens". La literatura está inscrita en ese trazo que puede conducir a la palabra, a la idea, a la narración, al verso, pero indiferente a cualquier tipo de absolutismos, principalmente al de la certeza.

quarta-feira, agosto 26, 2026

Fazer a cama e ter respeito...

26/VIII/2026: Há um capítulo neste novo ensaio de Byung-Chul Han que, a meu ver, vale pelo livro inteiro e me fez pensar bastante e recordar pormenores que já estavam na gaveta do esquecimento: "A Atenção para com o Outro".
"O respeito é devido ao outro" e a nós próprios, com níveis mínimos de "libido narcisista", dado que a sua acumulação excessiva é uma evidência de o "respeito, enquanto elemento de coesão social, [estar] a deteriorar-se". Eis uma síntese sintomática do presente que podemos justificar com vários exemplos tristemente massificados no dia-a-dia. Han equivale a irresponsabilidade à falta de respeito, e a minha forma de ver o mundo leva-me a concordar com este filósofo, com o qual discordo frequentemente, e, sim, "a responsabilidade, respeito e atenção são interdependentes".
Neste ponto, lembro-me do polémico Jordan B. Peterson dizer aos jovens que o primeiro passo para assumirem a sua responsabilidade perante a vida é fazerem a sua própria cama. É provável que saber fazer a cama nos ajude a entender a nossa responsabilidade nas pequenas rotinas controláveis e não nos faça mal nenhum quando as variáveis cósmicas nos arrastam a cama ou alguém nos queima os lençóis, sem que a nossa responsabilidade tenha nada a ver com o facto de todos sermos potenciais vítimas da maldade de outrem.
Há pouco tempo, o meu irmão José Antonio Santiago e eu estávamos a falar noite dentro e lembrámo-nos de que os nossos pais, ambos da mesma geração, mas os seus "extremeños" e os meus alentejanos, quando iam a um hotel ou dormiam nalguma pensão, sempre deixavam a cama feita. Quantos de nós vimos as gerações anteriores à nossa fazerem isso e, como eu, ficámos com essa imagem no subconsciente?
À luz do século XXI, é possível ver-se tal comportamento como um ato desnecessário, inútil, que impede os lençóis de arejarem, para não dizer que é um comportamento servil e de perdedor. Houve uma época em que pensei que fosse uma herança do feudalismo do latifúndio, até que conheci uma herança comportamental semelhante noutras latitudes, o que me levou a compreender que esse gesto rotineiro de deixar a cama feita fora de casa, além de fora de tempo, talvez primasse pelo respeito, respeito pelo outro e por eles mesmos.
Todos os dias, quando me levanto, não faço logo a cama, não estou na tropa, deixo-a a arejar. É raro deixá-la por fazer, mas pode acontecer. Aprendi que é minha responsabilidade fazê-la e uma forma de respeito pelos outros e por mim mesmo, que sou consciente de me deitar na cama que eu próprio faço.

26/VIII/2026: Hay un capítulo en este nuevo ensayo de Byung-Chul Han que, a mi parecer, vale por el libro entero y me ha hecho pensar bastante y recordar detalles que ya estaban en el cajón del olvido: "La atención hacia el otro".
"El respeto se debe al otro" y a nosotros mismos, con niveles mínimos de "libido narcisista", dado que su acumulación excesiva es una evidencia de que "el respeto, como elemento de cohesión social, [se está] deteriorando". Aquí tenemos una síntesis sintomática del presente que podemos justificar con varios ejemplos tristemente masificados en el día a día. Han equipara la irresponsabilidad con la falta de respeto, y mi forma de ver el mundo me lleva a estar de acuerdo con este filósofo, con el que discrepo frecuentemente, y, sí, "la responsabilidad, el respeto y la atención son interdependientes".
En este punto, recuerdo al polémico Jordan B. Peterson diciendo a los jóvenes que el primer paso para asumir su responsabilidad ante la vida es hacerse su propia cama. Es probable que saber hacer la cama nos ayude a entender nuestra responsabilidad en las pequeñas rutinas controlables y no nos venga nada mal cuando las variables cósmicas nos arrastran la cama o alguien nos quema las sábanas, sin que nuestra responsabilidad tenga nada que ver con el hecho de que todos seamos víctimas potenciales de la maldad ajena.
Hace poco, mi hermano José Antonio Santiago y yo estábamos hablando hasta bien entrada la noche y recordamos que nuestros padres, ambos de la misma generación, pero los suyos extremeños y los míos alentejanos, cuando iban a un hotel o dormían en alguna pensión, siempre dejaban la cama hecha. ¿Cuántos de nosotros vimos a las generaciones anteriores a la nuestra hacer eso y, como yo, nos quedamos con esa imagen en el subconsciente?
A luz del siglo XXI, quizá se vea dicho comportamiento como un acto innecesario, inútil, que impide que las sábanas se aireen, por no decir que es un comportamiento servil y de perdedor. Hubo una época en la que pensé que sería una herencia del feudalismo del latifundio, hasta que conocí una herencia de comportamiento semejante en otras latitudes, lo que me llevó a comprender que ese gesto rutinario de dejar la cama hecha fuera de casa, además de estar fuera de época, quizá primase por el respeto, respeto por el otro y por ellos mismos.
Todos los días, cuando me levanto, no hago inmediatamente la cama, no estoy en la mili, la dejo airearse. Es raro que la deje sin hacer, pero puede ocurrir. Aprendí que es mi responsabilidad hacerla y una forma de respeto hacia los demás y hacia mí mismo, que soy muy consciente de que me acostaré en la cama que yo mismo hago.

sábado, agosto 22, 2026

Nomeações Prémio Mais Literatura (2026)

21/VIII/2026: Nunca fui muito dado a competições e a prémios para além de mim mesmo (admito uma existência a oscilar entre o medo à rejeição e uma autoconfiança a marimbar-se para o que os outros pensam), no entanto, a equipa da Mais Alentejo (da qual faço parte, mas, em abono da verdade, não tive qualquer voto na matéria) achou que o meu trabalho no âmbito da escrita merece ser nomeado para o Prémio Mais Literatura da Gala da nossa revista. O que é que eu posso dizer? Obrigado.
Não estava à espera e se sou digno de se lembrarem que vou escrevendo é principalmente graças a esses dois territórios que me têm dado horizonte, o Alentejo e a "Extremadura", e essas duas línguas que albergo dentro de mim mas, a realidade é que são elas que me dão guarida, o português e o espanhol.
Atente-se que as votações são online (www.galapremiosalentejo.net) e os restantes nomeados são digníssimos representantes da literatura e da cultura contemporânea portuguesa. Apesar de me sentir estranho, não me sinto um intruso graças à foto que o meu sobrinho, o fotógrafo Simão Lopes, tirou ao seu tio e nem sequer se vêem os cabelos brancos.

21/VIII/2026: Nunca he sido muy dado a las  competiciones y a los premios más allá de mí mismo (admito una existencia que oscila entre el miedo al rechazo y una autoconfianza a la que le importa un bledo lo que piensen los demás), sin embargo, el equipo de Mais Alentejo (del que formo parte, pero, en honor a la verdad, no tuve voz ni voto en el asunto) consideró que mi trabajo en el ámbito de la escritura merece ser nominado al Premio Mais Literatura de la Gala de nuestra revista. ¿Qué puedo decir? Gracias.
No me lo esperaba y, si soy digno de que se acuerden de que voy escribiendo, es principalmente gracias a esos dos territorios que me han dado horizonte, el Alentejo y Extremadura, y a esas dos lenguas que albergo dentro de mí pero, en realidad, son ellas las que me dan cobijo, el portugués y el español.
Téngase en cuenta que las votaciones son online (www.galapremiosalentejo.net) y los demás nominados son dignísimos representantes de la literatura y de la cultura contemporánea portuguesa. A pesar de sentirme extraño, no me siento un intruso gracias a la foto que mi sobrino, el fotógrafo Simão Lopes, le hizo a su tío y ni siquiera se ven las canas.

quinta-feira, agosto 20, 2026

"Sobrevivência através da excelência" - Dozie Kanu

20/VIII/2026: Admitindo um presente bastante complexo e a tender para subníveis de mediocridade, salva-nos gente como Dozie Kanu, oriundo de Houston (EUA), descendente de nigerianos, a viver em Portugal e a desenvolver a sua arte a partir da Europa. Rejeitando as categorias identitárias rígidas, Kanu recorda o exemplo da sua família, que lhe deu "disciplina, pressão, expectativa, espiritualidade, hierarquia e uma consciência profunda da sobrevivência através da excelência".
Da sua entrevista, sublinho "sobrevivência através da excelência" e "uma sucata ensina o potencial daquilo que foi descartado". Enquanto a caneta desliza por debaixo das palavras, lembro-me de este tipo de sobrevivência ser tão típico daqueles que necessitam de migrar, quer seja de uma região do mundo a outra, quer seja para subir degraus na escada (cada vez melhor escondida) das classes sociais.
Sublinho mais uma vez "sobrevivência através da excelência". Porquê? Pergunto-me. Talvez porque, como ouvi um dia a alguém, "arte é fazer as coisas bem", ou porque me pareça que estas anotações ajudam alguém a resistir um pouco mais, a não sucumbir ao desleixe. Eu não sou excepção.
20/VIII/2026: Admitiendo un presente bastante complejo y con tendencia hacia subniveles de mediocridad, nos salva gente como Dozie Kanu, oriundo de Houston (EE. UU.), descendiente de nigerianos, que vive en Portugal y desarrolla su arte desde Europa. Rechazando las categorías identitarias rígidas, Kanu recuerda el ejemplo de su familia, que le dio "disciplina, presión, expectativa, espiritualidad, jerarquía y una profunda conciencia de la supervivencia a través de la excelencia".
De su entrevista, subrayo "supervivencia a través de la excelencia" y "una chatarra enseña el potencial de aquello que fue descartado". Mientras el boli se desliza por debajo de las palabras, recuerdo que este tipo de supervivencia es tan típico de quienes necesitan migrar, ya sea de una región del mundo a otra, ya sea para subir escalones en la escalera (cada vez mejor escondida) de las clases sociales.
Subrayo una vez más "supervivencia a través de la excelencia". ¿Por qué?, me pregunto. Tal vez porque, como le oí decir un día a alguien, "arte es hacer bien las cosas", o porque me parezca que estas anotaciones ayudan a alguien a resistir un poco más, a no sucumbir a la dejadez. Yo no soy una excepción.