domingo, abril 14, 2024

14/IV/2024

Quando se cresce num ambiente onde existe a superstição, é difícil escaparmos ilesos e, quando escapamos, não queremos que os nossos descendentes sejam expostos a tal atmosfera. Hoje, tão distante dos primeiros anos da minha vida, abriram um pouco a porta desse quarto escuro, dessas trevas impostas por outrem, que, há anos, fechei com as chaves da lógica e da razão. A tempo, voltei a empurrá-la com experiência, mantendo o pulso firme. De dentro nada saiu, contudo vislumbrei uma sombra dum passado que ainda não compreendo e não quero compreender. Apenas o quero fechado, porque compreendi que não vale a pena procurar compreensão.
Os meus filhos não saberão por mim o porquê de qualquer superstição, os resíduos existentes foram renegados para o plano do ritual, quase sempre em forma de homenagem à memória dos que já cá não estão. Esforço-me por que assim seja, tal como me esforço para que saibam acender dentro de si mesmo uma qualquer luz num quarto porque alguém lhes pode desejar que seja bem escuro...

domingo, abril 07, 2024

"Évora" - Poema de Carlos Medrano

A distância ainda não me concedeu o privilégio de conhecer pessoalmente o Carlos Medrano, mas ao longo dos anos trocámos várias epístolas digitais, li os seus livros, sigo-o nas redes sociais, no seu blog, e fui digno da sua confiança para a publicação "Recobrada Memoria", dedicada a Ángel Campos Pámpano. Recentemente, fui obsequiado, através de Álvaro Valverde, com este poema cujo título me leva à minha cidade e cujos versos se encontram no ADN que denuncia o meu sangue. Carlos Medrano escreveu este precioso "Évora" que partilho com todos os que sentem, ou são, essa cidade "de cal e pedra".
La distancia todavía no me ha concedido el privilegio de conocer personalmente a Carlos Medrano, pero, desde hace años, varias veces nos remitimos epístolas digitales, he leído libros suyos, lo sigo en redes, en su blog y fui digno de su confianza para la publicación "Recobrada Memoria", dedicada a Ángel Campos Pámpano. Hace poco, fui obsequiado, a través de Álvaro Valverde, con este poema cuyo título me lleva a mi ciudad y sus versos al DNA que llevo en la sangre. Carlos Medrano escribió este precioso "Évora" que comparto con todos los que sentimos, o somos, esa ciudad "de cal y piedra".

ÉVORA
Novamente na cidade de cal e pedra,
Évora amuralhada e cadenciosa,
devo pedir perdão à rosa que chora.
A pétala sosteve não só a ternura
mas sim a sua grandeza de aroma numa grade.
O touro no montado pasta, inclina
a sua liberdade solar, a sua calma intacta.
Carlos Medrano (trad. Luis Leal)

ÉVORA
De nuevo en la ciudad de cal y piedra,
Évora amurallada y cadenciosa,
debo pedir perdón a la rosa que llora.
Sostuvo el pétalo no sólo la ternura
sino su magnitud de aroma en una reja.
El toro en la dehesa pace, inclina
su libertad solar , su calma intacta.
Carlos Medrano 


segunda-feira, abril 01, 2024

Luis Leal, in "Diário do Sul, 21/II/2024, p.4

Em nome de todos os que continuam a dinamizar e divulgar o Prémio Hispano-Português de Poesia Jovem Ángel Campos Pámpano, o meu bem-haja ao Diário do Sul que, fazendo jus ao nome do seu suplemento "Dom Quixote", acredita que a cultura é, e deve ser, "livre e a habitar a substância do tempo"... como o mês que hoje começa.
En nombre de todos los que siguen dinamizando y difundiendo el Premio Hispano-Portugués de Poesía Joven Ángel Campos Pámpano, mi agradecimiento al Diário do Sul, que, haciendo honor al nombre de su suplemento "Don Quijote", cree que la cultura es, y debe ser, "libre y habitando la substancia del tiempo"... como el mes que hoy empieza.
(in "Diário do Sul, 21/II/2024, p.4)

Uma fotografia de Pedro Alves

 


Pedro Alves - Gerações, S. Domingos de Rana, 2015




terça-feira, março 19, 2024

"A Senhora Condescendência" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 165, p. 68


Ia a caminho de um almoço familiar e tinha acabado de passar a fronteira quando a rádio me deu a notícia do falecimento do Comendador Rui Nabeiro. À cabeça veio-me “hoje não vou ver a minha irmã e é bem possível que no céu já se possa tomar um bom café".

    Apesar da relação laboral privilegiada da minha irmã no trato diário com o Sr. Rui e da estima e da saudade que lhe deixou, nunca tive a oportunidade de o conhecer. Porém, sou ciente do seu legado na região, no país, na minha Espanha adoptiva e, para além da fortuna e do património, não abdicou de ser um homem bom, cuja essência não se viu corrompida pelo deus pecunio. A sua biografia é notável, quer seja vista através da comparativa de escalar um Everest empresarial com o alpinista João Garcia, através de grandes entrevistadores como a Anabela Mota Ribeiro ou o Luís Osório, através dum “Almoço de Domingo” ficcional do José Luís Peixoto, ou, simplesmente, através de quem com ele lidou durante os seus quase 92 anos a provarem que no capitalismo cabe o altruísmo. Em suma, como dizia alguém e subscrevo, “mais Srs. Rui e menos Musks!”. 

    Nove décadas de vida e não acredito que, na sua senectude, alguém no seu perfeito juízo se tenha dirigido ao “Sr. Rui” (como sempre fez questão de ser tratado) com qualquer tipo de condescendência como algumas pessoas se dirigirem a outros nonagenários. Tristemente, o dinheiro, o estatuto, traz algumas garantias de como a sociedade nos vai tratar se tivermos a ventura (ou desventura) de chegarmos a esta idade. Vejam-se as claras diferenças no uso lexical de “cota”, “idoso”, "ancião" e “velho” e o “peso da idade” (vulgo PDI) mais do que evidentes em sociedades sensíveis à moda da denúncia de todo o tipo de pretensas injustiças, contudo, a necessitarem prestar mais atenção ao “idadismo”.

    Confesso, caro leitor, há muito tempo que não pensava nisto. Cresci entre pessoas de idade no seio da minha família e no entorno laboral da minha mãe (que dedicou mais de duas décadas da sua vida a um Centro de Dia) e, de maneira quase intuitiva, aprendi a respeitar todo tipo de rugas e cabelos grisalhos. Creio que vi um pouco de tudo, desde o queixume do reumático, a viuvezes traumáticas e libertadoras, a demência progressiva, a solidão, o mau caráter (quanto mais velho pior!), a miséria de corpo e de espírito, até ao júbilo de um ser de ter vivido uma vida que mereceu ser vivida, à sabedoria, ao humor geriátrico, e à contemplação tantas vezes condenada à apatia da televisão.

    Como numa foto, voltei aos meus verdes anos rodeado de gente já amarelecida por ter em mãos uma tradução duma peça ambientada num Lar de Terceira Idade espanhol e, na hora de adaptar à realidade sociolinguística portuguesa, deparei-me com uma das formas de tratamento que mais abomino com qualquer ser humano, quero dizer, quando nos dirigimos a alguém infantilizando-o. Que fique claro que não outorgo más intenções ou desprezo a quem muitas vezes se dirige assim a um idoso, tratando-o como uma criança, usando um tom condescendente que nem sequer com as verdadeiras crianças me parece pertinente usar em excesso. Não é por uma pessoa ter caído nas garras do Alzheimer, do Parkinson, ou da passagem do tempo, que automaticamente as devemos tutear ou usar um registo infantilóide. O Sr. João lá por não se lembrar do nome dos netos e estar acamado não passa a ser o “Joãozinho”, mesmo que a sua calvície redondinha nos remeta para um bebé fofinho. É preciso ter cuidado, o “carinho”, a meu ver, não deriva por aí. Evoluímos, temos diversos meios e gente consciente que a terceira idade deve ser tratada de maneira diferente da primeira infância pelo simples facto de, por mais que o idoso pareça regredir à infância, há uma diferença significativa entre ambos: ser criança implica ainda não ter passado.

    Se chegar à idade do Sr. Rui, por mais infantil que seja a minha personalidade e fisionomia, não quero ser o “velho Luisinho”, nem que falem comigo como nem sequer falo ao meu filho de 2 anos. Não quero salamaleques, nem títulos. Sentir-me-ei bem se continuar a ser o Luis e, caso mereça ser chamado “Ti Luis”, será porque o Alentejo sempre me fez ver que a sombra dum carrasco jamais se pode comparar à sombra duma azinheira.

Sr. Rui Nabeiro



"A Senhora Condescendência" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 165, p. 68

Esta crónica já tem uns meses, tal como o Sr. Rui já faleceu há um ano, contudo creio que continua vigente e reitero o que se disse por aí: “Mais Srs. Rui e menos Musks!”. O falecimento deste homem ímpar e um trabalho de tradução literária que tive em mãos também me levaram a refletir se, em pleno século XXI, na era do “omniecrã”, tratamos com o devido respeito e prestamos a devida atenção aos nossos idosos. (in “Mais Alentejo”, nº165, p. 68)

Esta crónica tiene ya unos meses, al igual que el Sr. Rui falleció hace un año, sin embargo, creo que sigue siendo relevante y reitero lo que se ha dicho por ahí: “¡Más Sres. Rui y menos Musks!”. El fallecimiento de este hombre excepcional y un trabajo de traducción literaria que tuve entre manos también me llevaron a reflexionar si, en pleno siglo XXI, en la era de la “omnipantalla”, tratamos con el debido respeto y prestamos la debida atención a nuestros ancianos.