quarta-feira, maio 23, 2018

“Ó gente da minha terra” - pedal(e)ar em Évora, onde aprendeu a equilibrar-se...


Canta a Amália que tenho na voz:

“Ó gente da minha terra”
Agora é que eu o tempo vi
Parece que amanhã vai chover
Que isso não me impeça de vos ver!

(Debaixo de tecto não chove e, em Évora, estou em casa).



segunda-feira, maio 21, 2018

O despertador

- Papá, oferece-me um despertador? - Diz-me o mais velho, de sete anos.
-Para quê? - Pergunto eu, a conduzir com ele e o irmão nos bancos de trás.
- Porque gostava de ter um despertador! - Diz-me ele com toda a convicção do seu mundo ainda a ser obrigatório usar cadeirinha de segurança.
- Vais-te arrepender de quereres um despertador e um dia vais odiá-lo. - Digo-lhe eu, agora sem saber se lho haveria de ter dito e deixá-lo sem os meus ódios de estimação.
- Não, eu quero ter um despertador! - Replicou com afinco analógico numa era digital.
- Ok, deve haver algum lá para casa... - Termino a conversa a pensar que, quando a merda do despertador tocar outra vez, o meu primeiro pensamento é: "quando é que posso dormir outra vez?".



domingo, maio 20, 2018

Por acaso, Adélia Prado



Por acaso vi este livro de Adélia Prado na estante, peguei nele para reler qualquer um dos poemas, e reparei na data da compra: "Leiria, 20.V.2017". Lembras-te, Luís? Olha aí: exatamente um ano. Foi por acaso.


UM SALMO

Tudo que existe louvará.
Quem tocar vai louvar,
quem cantar vai louvar,
o que pegar a ponta de sua saia
e fizer uma pirueta, vai louvar.
Os meninos, os cachorros,
os gatos desesquivados,
os ressuscitados,
o que sob o céu mover e andar
vai seguir e louvar.
O abano de um rabo, um miado,
u’a mão levantada, louvarão.
Esperai a deflagração da alegria.
A nossa alma deseja,
o nosso corpo anseia
o movimento pleno:
cantar e dançar TE-DEUM.

Adélia Prado



Tudo que existe louvará. antologia (Adélia Prado), escolha dos poemas, organização e prefácio de José Tolentino Mendonça e Miguel Cabedo e Vasconcelos. Assírio & Alvim, 2016.



"O Bebé/El Bebé" - Luis Leal


For children are innocent and love justice,
while most of us are wicked and naturally prefer mercy.

G. K. Chesterton



O BEBÉ


A serra dificulta pedalar para cima, é necessária
a mudança de carreto e o correcto ritmo.
O pai vai buscar o filho ao colégio frio de inverno.
O bebé feliz, veste-se quentinho,
sorri com rosetas nas bochechas.

Ambos descem devagar a serrania
dos olhares incrédulos e idosos
duma cidade necessitada de sorrisos.
Incredulidade e sorrisos.

Aquele é que vai bem!

Chegada a casa, a família
vive normal o dia-a-dia
de papas, banhos, fraldas,
brinquedos desarrumados
e dolorosamente pisados,
afazeres de seres a viverem
a etapa de serem pais
porque têm filhos.

No outro dia, a manhã no carro convencional
(com soufagem e cadeirinha homologada pela CEE),
a mamã deixa o bebé adorminhado ao cuidado
da auxiliar de infância que lhe denuncia:

Sabe que o seu marido veio buscar o seu filho de bicicleta?

Descansada, a mãe diz que sim.
Desconfiada, a outra pergunta-lhe se tem a certeza.

Epílogo:
O pai, esse inconsciente,  
voltou sempre que pôde
ao colégio de bicicleta.
Ciente de preferir ser conhecido
como imprudente que dependente
de ainda mais coisas que aquelas
que tem de ser.

Talvez um dia o bebé o perdoe.

For children are innocent and love justice,
while most of us are wicked and naturally prefer mercy.

G. K. Chesterton

EL BEBÉ


La sierra hace difícil pedalear hacia arriba, es necesario
cambiar de piñón y el ritmo correcto.
El padre va a recoger al hijo al colegio frío de invierno.
El bebé feliz, se viste calentito,
sonríe con las mejillas sonrosadas.

Ambos bajan despacio la serranía
de las miradas incrédulas y ancianas
de una ciudad necesitada de sonrisas.
Incredulidad y sonrisas.

¡Ese sí que va bien!

Llegada a casa, la familia
vive normal el día a día
de papillas, baños, pañales,
juguetes descolocados
y dolorosamente pisados,
quehaceres de seres que viven
la etapa de ser padres
porque tienen hijos.

Otro día, la mañana en el coche convencional
(con calefacción y silla homologada por la CEE),
la mamá deja al bebé adormilado al cuidado
de la auxiliar de guardería que le pregunta:

¿Sabe que su marido vino a buscar su hijo en bicicleta?

Descansada, la madre dice que .
Desconfiada, la otra le pregunta si está segura.

Epílogo:
El padre, ese inconsciente,  
volvió siempre que pudo
al colegio en bicicleta.
Consciente de preferir ser conocido
como imprudente que dependiente
de aún más cosas que las
que tiene que ser.

Tal vez un día el bebé le perdone.


(trad. Fátima Beltrán Cabrera)

in "pedal(e)ar", luis leal, pp.20 e/y 21
pedal(e)ar luis leal - "O Bebé"

pedal(e)ar luis leal - "El Bebé"