quarta-feira, agosto 26, 2026

Fazer a cama e ter respeito...

26/VIII/2026: Há um capítulo neste novo ensaio de Byung-Chul Han que, a meu ver, vale pelo livro inteiro e me fez pensar bastante e recordar pormenores que já estavam na gaveta do esquecimento: "A Atenção para com o Outro".
"O respeito é devido ao outro" e a nós próprios, com níveis mínimos de "libido narcisista", dado que a sua acumulação excessiva é uma evidência de o "respeito, enquanto elemento de coesão social, [estar] a deteriorar-se". Eis uma síntese sintomática do presente que podemos justificar com vários exemplos tristemente massificados no dia-a-dia. Han equivale a irresponsabilidade à falta de respeito, e a minha forma de ver o mundo leva-me a concordar com este filósofo, com o qual discordo frequentemente, e, sim, "a responsabilidade, respeito e atenção são interdependentes".
Neste ponto, lembro-me do polémico Jordan B. Peterson dizer aos jovens que o primeiro passo para assumirem a sua responsabilidade perante a vida é fazerem a sua própria cama. É provável que saber fazer a cama nos ajude a entender a nossa responsabilidade nas pequenas rotinas controláveis e não nos faça mal nenhum quando as variáveis cósmicas nos arrastam a cama ou alguém nos queima os lençóis, sem que a nossa responsabilidade tenha nada a ver com o facto de todos sermos potenciais vítimas da maldade de outrem.
Há pouco tempo, o meu irmão José Antonio Santiago e eu estávamos a falar noite dentro e lembrámo-nos de que os nossos pais, ambos da mesma geração, mas os seus "extremeños" e os meus alentejanos, quando iam a um hotel ou dormiam nalguma pensão, sempre deixavam a cama feita. Quantos de nós vimos as gerações anteriores à nossa fazerem isso e, como eu, ficámos com essa imagem no subconsciente?
À luz do século XXI, é possível ver-se tal comportamento como um ato desnecessário, inútil, que impede os lençóis de arejarem, para não dizer que é um comportamento servil e de perdedor. Houve uma época em que pensei que fosse uma herança do feudalismo do latifúndio, até que conheci uma herança comportamental semelhante noutras latitudes, o que me levou a compreender que esse gesto rotineiro de deixar a cama feita fora de casa, além de fora de tempo, talvez primasse pelo respeito, respeito pelo outro e por eles mesmos.
Todos os dias, quando me levanto, não faço logo a cama, não estou na tropa, deixo-a a arejar. É raro deixá-la por fazer, mas pode acontecer. Aprendi que é minha responsabilidade fazê-la e uma forma de respeito pelos outros e por mim mesmo, que sou consciente de me deitar na cama que eu próprio faço.

26/VIII/2026: Hay un capítulo en este nuevo ensayo de Byung-Chul Han que, a mi parecer, vale por el libro entero y me ha hecho pensar bastante y recordar detalles que ya estaban en el cajón del olvido: "La atención hacia el otro".
"El respeto se debe al otro" y a nosotros mismos, con niveles mínimos de "libido narcisista", dado que su acumulación excesiva es una evidencia de que "el respeto, como elemento de cohesión social, [se está] deteriorando". Aquí tenemos una síntesis sintomática del presente que podemos justificar con varios ejemplos tristemente masificados en el día a día. Han equipara la irresponsabilidad con la falta de respeto, y mi forma de ver el mundo me lleva a estar de acuerdo con este filósofo, con el que discrepo frecuentemente, y, sí, "la responsabilidad, el respeto y la atención son interdependientes".
En este punto, recuerdo al polémico Jordan B. Peterson diciendo a los jóvenes que el primer paso para asumir su responsabilidad ante la vida es hacerse su propia cama. Es probable que saber hacer la cama nos ayude a entender nuestra responsabilidad en las pequeñas rutinas controlables y no nos venga nada mal cuando las variables cósmicas nos arrastran la cama o alguien nos quema las sábanas, sin que nuestra responsabilidad tenga nada que ver con el hecho de que todos seamos víctimas potenciales de la maldad ajena.
Hace poco, mi hermano José Antonio Santiago y yo estábamos hablando hasta bien entrada la noche y recordamos que nuestros padres, ambos de la misma generación, pero los suyos extremeños y los míos alentejanos, cuando iban a un hotel o dormían en alguna pensión, siempre dejaban la cama hecha. ¿Cuántos de nosotros vimos a las generaciones anteriores a la nuestra hacer eso y, como yo, nos quedamos con esa imagen en el subconsciente?
A luz del siglo XXI, quizá se vea dicho comportamiento como un acto innecesario, inútil, que impide que las sábanas se aireen, por no decir que es un comportamiento servil y de perdedor. Hubo una época en la que pensé que sería una herencia del feudalismo del latifundio, hasta que conocí una herencia de comportamiento semejante en otras latitudes, lo que me llevó a comprender que ese gesto rutinario de dejar la cama hecha fuera de casa, además de estar fuera de época, quizá primase por el respeto, respeto por el otro y por ellos mismos.
Todos los días, cuando me levanto, no hago inmediatamente la cama, no estoy en la mili, la dejo airearse. Es raro que la deje sin hacer, pero puede ocurrir. Aprendí que es mi responsabilidad hacerla y una forma de respeto hacia los demás y hacia mí mismo, que soy muy consciente de que me acostaré en la cama que yo mismo hago.

sábado, agosto 22, 2026

Nomeações Prémio Mais Literatura (2026)

21/VIII/2026: Nunca fui muito dado a competições e a prémios para além de mim mesmo (admito uma existência a oscilar entre o medo à rejeição e uma autoconfiança a marimbar-se para o que os outros pensam), no entanto, a equipa da Mais Alentejo (da qual faço parte, mas, em abono da verdade, não tive qualquer voto na matéria) achou que o meu trabalho no âmbito da escrita merece ser nomeado para o Prémio Mais Literatura da Gala da nossa revista. O que é que eu posso dizer? Obrigado.
Não estava à espera e se sou digno de se lembrarem que vou escrevendo é principalmente graças a esses dois territórios que me têm dado horizonte, o Alentejo e a "Extremadura", e essas duas línguas que albergo dentro de mim mas, a realidade é que são elas que me dão guarida, o português e o espanhol.
Atente-se que as votações são online (www.galapremiosalentejo.net) e os restantes nomeados são digníssimos representantes da literatura e da cultura contemporânea portuguesa. Apesar de me sentir estranho, não me sinto um intruso graças à foto que o meu sobrinho, o fotógrafo Simão Lopes, tirou ao seu tio e nem sequer se vêem os cabelos brancos.

21/VIII/2026: Nunca he sido muy dado a las  competiciones y a los premios más allá de mí mismo (admito una existencia que oscila entre el miedo al rechazo y una autoconfianza a la que le importa un bledo lo que piensen los demás), sin embargo, el equipo de Mais Alentejo (del que formo parte, pero, en honor a la verdad, no tuve voz ni voto en el asunto) consideró que mi trabajo en el ámbito de la escritura merece ser nominado al Premio Mais Literatura de la Gala de nuestra revista. ¿Qué puedo decir? Gracias.
No me lo esperaba y, si soy digno de que se acuerden de que voy escribiendo, es principalmente gracias a esos dos territorios que me han dado horizonte, el Alentejo y Extremadura, y a esas dos lenguas que albergo dentro de mí pero, en realidad, son ellas las que me dan cobijo, el portugués y el español.
Téngase en cuenta que las votaciones son online (www.galapremiosalentejo.net) y los demás nominados son dignísimos representantes de la literatura y de la cultura contemporánea portuguesa. A pesar de sentirme extraño, no me siento un intruso gracias a la foto que mi sobrino, el fotógrafo Simão Lopes, le hizo a su tío y ni siquiera se ven las canas.

quinta-feira, agosto 20, 2026

"Sobrevivência através da excelência" - Dozie Kanu

20/VIII/2026: Admitindo um presente bastante complexo e a tender para subníveis de mediocridade, salva-nos gente como Dozie Kanu, oriundo de Houston (EUA), descendente de nigerianos, a viver em Portugal e a desenvolver a sua arte a partir da Europa. Rejeitando as categorias identitárias rígidas, Kanu recorda o exemplo da sua família, que lhe deu "disciplina, pressão, expectativa, espiritualidade, hierarquia e uma consciência profunda da sobrevivência através da excelência".
Da sua entrevista, sublinho "sobrevivência através da excelência" e "uma sucata ensina o potencial daquilo que foi descartado". Enquanto a caneta desliza por debaixo das palavras, lembro-me de este tipo de sobrevivência ser tão típico daqueles que necessitam de migrar, quer seja de uma região do mundo a outra, quer seja para subir degraus na escada (cada vez melhor escondida) das classes sociais.
Sublinho mais uma vez "sobrevivência através da excelência". Porquê? Pergunto-me. Talvez porque, como ouvi um dia a alguém, "arte é fazer as coisas bem", ou porque me pareça que estas anotações ajudam alguém a resistir um pouco mais, a não sucumbir ao desleixe. Eu não sou excepção.
20/VIII/2026: Admitiendo un presente bastante complejo y con tendencia hacia subniveles de mediocridad, nos salva gente como Dozie Kanu, oriundo de Houston (EE. UU.), descendiente de nigerianos, que vive en Portugal y desarrolla su arte desde Europa. Rechazando las categorías identitarias rígidas, Kanu recuerda el ejemplo de su familia, que le dio "disciplina, presión, expectativa, espiritualidad, jerarquía y una profunda conciencia de la supervivencia a través de la excelencia".
De su entrevista, subrayo "supervivencia a través de la excelencia" y "una chatarra enseña el potencial de aquello que fue descartado". Mientras el boli se desliza por debajo de las palabras, recuerdo que este tipo de supervivencia es tan típico de quienes necesitan migrar, ya sea de una región del mundo a otra, ya sea para subir escalones en la escalera (cada vez mejor escondida) de las clases sociales.
Subrayo una vez más "supervivencia a través de la excelencia". ¿Por qué?, me pregunto. Tal vez porque, como le oí decir un día a alguien, "arte es hacer bien las cosas", o porque me parezca que estas anotaciones ayudan a alguien a resistir un poco más, a no sucumbir a la dejadez. Yo no soy una excepción.

sábado, agosto 08, 2026

Uma fotografia de Pierre Saïah

 


Pierre Saïah - 35 GT : Kodak Portra 400 // Campeche, Yucatan, Mexico 2022




domingo, julho 26, 2026

L'Odyssée

26/VII/2026: A malta farta-se de escrever e de comentar "A Odisseia" do Nolan, mas optei por manter-me alheio a essas leituras e vi o filme como gosto, isto é, com gosto e com uma contaminação mínima dos "gostos" ou "não gostos" de gente que até pode saber muito ou nada sobre a obra de Homero.
E, como gosto de gente imperfeita, outros Odisseus perdidos nesses mares de vidas únicas, com tanta dificuldade em atracar em portos seguros, tenho este "L'Odyssée" à espera de ser visto em cima do móvel da sala após ser adquirida por 0'80€. Submergir-me-ei nele com o mesmo gosto com que vi o do Nolan? Não sei. Sei, sim, que o Cousteau me levou em viagens mar adentro muito antes de eu saber que existiu um Odisseu (ou Ulisses) e de me atrever a pretender saber de cultura clássica...

26/VII/2026: La gente no se harta de escribir y comentar "La Odisea" de Nolan, pero opté por mantenerme al margen de esas lecturas y vi la película como me gusta, es decir, con gusto y con una contaminación mínima de los "me gusta" o "no me gusta" de gente que puede saber mucho o nada sobre la obra de Homero.
Y, como me gusta la gente imperfecta, otros Odiseos perdidos en esos mares de vidas únicas, con tanta dificultad para atracar en puertos seguros, tengo esta "L'Odyssée" esperando a ser vista encima del mueble del salón tras adquirirla por 0'80€. ¿Me sumergiré en ella con el mismo gusto con el que vi la de Nolan? No lo sé. Lo que sí sé es que Cousteau me llevó mar adentro mucho antes de que yo supiera que existió un Odiseo (o Ulises) y de atreverme a pretender saber de cultura clásica...

segunda-feira, julho 13, 2026

Toda resistencia a la pluralidad étnica, religiosa y cultural de la nación acabará en barbarie

13/VII/2026: Regresé de Francia a la Península Ibérica hace dos días por uno de los ejes viarios que se remontan al empedrado romano y que son vertebrales para una Europa que se yergue de Norte a Sur y se ensancha de Este a Oeste. El tráfico impresiona, al igual que me impresionan las declaraciones de figuras públicas que confunden patria, nación, identidad cultural colectiva e individual y, la más importante para la coexistencia democrática, ciudadanía. Como ciudadano bicéfalo que soy, suscribo las palabras de Daniel Oliveira, hace una semana en el "Expresso", y si tuviese que elegir una selección sería la de la dignidad del ser humano:
"No existe una identidad nacional original. La nacionalidad es ciudadanía —derechos y deberes compartidos—, no una etnia, religión o cultura homogéneas. La nación es un proceso, no un retrato: hecha de capas, exclusiones e invenciones. Y toda resistencia a la pluralidad étnica, religiosa y cultural de la nación acabará en barbarie". 

13/VII/2026: Regressei de França, há dois dias, por um dos eixos rodoviários que remontam ao empedrado romano e são vertebrais para uma Europa que se ergue de Norte a Sul e se alarga de Este a Oeste. O trânsito impressiona, tal como me impressionam as declarações de figuras públicas que confundem pátria, nação, identidade cultural colectiva, individual e, a mais importante para a coexistência democrática, cidadania. Como cidadão bicéfalo que sou, subscrevo as palavras de Daniel Oliveira no "Expresso" de há uma semana, e se tivesse que escolher uma selecção seria a da dignidade do ser humano: 
"Não existe uma identidade nacional original. Nacionalidade é cidadania — direitos e deveres partilhados —, não etnia, religião ou cultura homogéneas. A nação é um processo, não um retrato: feita de camadas, exclusões e invenções. E toda a resistência à pluralidade étnica, religiosa e cultural da nação acabará em barbárie".