quinta-feira, dezembro 05, 2019

A propósito de deixá-los ir... de deixar fugir...

Não procuro na literatura respostas. Nem quando leio, nem quando me atrevo a escrever. Mesmo que algo em mim indague o que quer que seja, sei que não busco soluções para o questionário constante da minha existência com pão na mesa.
Sim, com pão na mesa. Como hoje falávamos, o Pedro e eu, escrever, e por que não ler, alimentado não pode ser nunca o mesmo gesto quando o nosso estômago resiste, na penúria, colado às costas fruto de murros de fome e joelhadas de sociedade.
Tenho a barriga aconchegada e durmo numa cama quente. Não vejo os meus filhos subnutridos, nem a minha mulher a fazer das tripas coração para chegarmos ao fim do mês. Se cabe à literatura, à arte, ao artista, denunciar as injustiças, eu também não sei responder, nem me interessa. Talvez porque sou um funcionário aburguesado, talvez porque não esteja comprometido o suficiente com o meu semelhante, talvez porque não sou digno do chão pobre de onde venho.
Vejo tudo a fugir. Não falo dos desgraçados dos refugiados, dos migrantes, dos infelizes cuja sociedade lança às ruas, às valas, ao mar. Desses não posso escrever. Não seria justo com o seu sofrimento e não merecem mais injustiça.
Vejo tudo a fugir. O meu chão. A minha infância. A minha ingenuidade. Os meus mortos. As casas onde habitei. Os meus pais. A capacidade de rezar, ferverosa intenção de jovem crente, parece que já lá vai. Ficou amplificado o silêncio, mas não me grita como então.
Quando vemos tantas coisas a fugirem apodera-se de nós a realidade paradoxal do pensamento. Pensar pesa. É um lastro que afunda o mergulhador descompensado. Vou por aqui fazendo contas no papel, umas quantas equações diárias, para não ir ao fundo. Não quero deixar de mergulhar, apesar de ver o mar cada vez mais cheio de cadáveres de tantas coisas reais e imaginárias.
Comecei a escrever esta entrada de diário por causa de um apontamento sobre literatura e a corrente de escrita levou-me para onde quis. Quando estamos tristes, é mais fácil deixarmo-nos ir. Deixei-me ir. São poucos os que vêem dentro de mim. A minha cara barra muitas entradas com um sorriso afável. Tem de ser. Quem te vê não tem de saber quem és, mas também não merece azedumes, nem rispidez. A amabilidade tem-me salvado de tanta coisa que não lhe posso falhar. A violência vive com mais facilidade dentro de nós e foram raros os momentos em que verdadeiramente me salvou. Não posso deixar que me fuja a amabilidade, não posso... por favor.

«A los muertos hay que dejarles ir» - Manuel Rivas

"(...) a los muertos hay que dejarles ir. No hay que tirar de ellos hacia abajo. Hay que abrir una teja en el tejado. Y que el alma busque su sitio." 
Manuel Rivas, in «Cuentos de Invierno», p.26

terça-feira, dezembro 03, 2019

domingo, dezembro 01, 2019

quarta-feira, novembro 27, 2019

O mundo mostra...

O mundo mostra
o insignificantes
que somos. Pois é...

(Prestemos-lhe atenção.)

Después de la lluvia... tarde de domingo con un rato de sol...


«El respeto» - Azorín

"Si me preguntara cuál es, a mi entender, la cualidad fundamental de la civilización, contestaría sin vacilar: el respeto. El respeto en la familia, en el municipio y en el Estado. El respeto para el amigo y para el adversario. Y el respeto del individuo con su propia persona. «Nunca perderse el respeto a sí mismo», ha dicho Gracián. El hombre que se respeta a sí mismo, respeta a los otros. Las sociedades ascienden o descienden según que en ellas suba o baje el respeto." 
Azorín, in "Madrid" (1952), p.104.

terça-feira, novembro 26, 2019

Fragas e fragas.../Rocas y rocas...

Fragas e fragas,
duro horizonte que
sempre humilda...

Rocas y rocas,
duro horizonte que
siempre nos hace humildes...



Poema do Desamor (Alexandre O'Neill)



Poema do Desamor

Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Alexande O'Neill