sexta-feira, março 31, 2017

meraki - μεράκι








TPC: Cópia

Contrariado pela mãe
lá começou a copiar
o poema do pai.

TPC de poesia
para voar em aviões de papel
reciclado que aterrará
num recreio
cheio de versos em bruto.

Baldou-se.
Não o copiou todo.
Chateou-se com o lirismo,
a inutilidade da tarefa,
e foi ser o que qualquer poeta deseja:
criança.

quinta-feira, março 30, 2017

Géneros...

Estive a assistir à projecção dum filme interessantíssimo na presença da sua realizadora e da sua argumentista. Falou-se no feminino sem se falar de género. Mesmo na predominância do estrogénio, a testosterona não foi relegada para a típica brutidade masculina e senti-me bem como homem biológico que sou, indiferente a géneros, mas profundamente, e tendencialmente, respeitoso com outrem.
Contudo, falou-se, e bem, de palavra, de poesia e de poeta no feminino. Aprendi, lá na terra da Florbela, na sua campa, a dizer poetisa. Aprendi assim, também de versejadoras de quadras, o feminino do poeta. Pensava que era correcta a formação irregular, mas, ao mesmo tempo, singular (não confundir com número), deste feminino. Hoje em dia a igualdade de género chegou à poesia e poeta tanto é a Sophia como o Miguel, a Florbela como o Fernando, a Filipa como o Luís. Não me aperceber desta igualdade lexical relegou-me para a baixa cultura com que me criei, pouco polida mas igualitária entre analfabetos e analfabetas.
Convencionou-se haverem só poetas. Eu continuo a admirar quem também se assume poetisa, com convicção de género e imune à convenção. Se algum dia tiver que assumir alguma coisa, vou assumir-me no feminino. Não é preciso saber muito de palavras para saber que as mais belas são feminino, é a minha forma de reivindicar os seus direitos de igualdade de género.

Jane Fonda - Barbarella (1968)







terça-feira, março 28, 2017

Ter voz sem voto

«Ter voz sem voto», esse é o estatuto que tenho e represento para a administração escolar. Uma total incongruência, dessas ditas democráticas, para camuflarem o totalitarismo real que têm.
Tenho voz e não voto. Escolherei muito bem o uso das minhas cordas vocais, não as farei trinar neste sufrágio indigitado. A competência não é ruidosa, é professional e dorme profundamente no silêncio da sua consciência.

Se tens de competir com alguém...

Se tens de competir com alguém,
compete contigo mesmo.
Sempre serás o melhor dos dois.
O do antes superado pelo do depois.

domingo, março 26, 2017

"A história não se repete, mas rima"

"A história não se repete, mas rima" foi uma interessante reflexão ouvida da boca de um professor catedrático de economia, que aqui aponto por partilhar o seu ponto de vista.
"Nem direita, nem esquerda" era uma das frases de ordem do Partido Fascista Francês (penso que o mesmo que apoiou Vichy, mas teria de investigar mais) e hoje vemos emulada no discurso de Marinne LePenn. Como é que a Europa chegou a isto? Como é que os EUA chegaram a Trump? Onde chegaremos? Será rima perfeita, assonante, dissonante?
Para a malta dos versos livres, está tudo em branco, em preto, em cinzento...
Nem políticos de oportunidade, nem populistas de respostas fáceis. Só a educação nos pode salvar, o honesto conhecimento a par do pão na mesa. Nem uns nem outros nos darão um sem abdicar do outro...

Correr à chuva...

Aprendi da chuva a não parar de correr,
A aguentar até poder mudar
De roupa e secar o suor,
Elemento único visível na frente do trabalho.

Aprendi da chuva a não ser queixinhas,
A atrever-me a dar o primeiro passo
E a não lamentar a instabilidade do clima.

"Não há mau tempo, só mau vestuário."
Provérbio adequado à liberdade  dum corpo
Saudável acompanhado por mentes abertas,
"Outdoors", diria o vendedor desportivo
Da secção de ar livre, impermeável à sabedoria da chuva.

Cheguei a casa como o pinto que sou.
Arrefeci o que me aqueceu lá fora por dentro.
O conforto da torneira liberta
Memória pluviosa cano a baixo.
E pensas em garantias grátis.

Envergonhas os elementos.
A chuva ensinou-te a absorver
E tu deixas-te alagar de mentiras
Porque acreditas merecer
A comodidade da água sem ter
Sede.

"Silva verde não me prendas, quero ser livre para amar..." in "Campaniça do Despique" de Pedro Mestre

Memória do sol de Dezembro (Jardim Municipal de Évora)

Thoreau...

sexta-feira, março 24, 2017

Tenho uma herança de fé cada vez mais silenciosa com o exterior, contudo cada vez mais ruidosa no interior.
A dúvida fez-se certeza e o humano encontrou Deus dentro. Sem conflitos, caminho curioso e não sou capaz de evitar emocionar-me com a honestidade duma crença. Há beleza nisso, o que me impede de juntar-me aos estóicos. Convertido ao hedonismo, agradável e forte apelo, não me consigo ver. São profundas as raízes numa terra humilde e empática ao sofrimento do outro. Sem cultos, fecho os olhos e respiro. Dou graças a quem me ensinou a rezar, eu sei quem foram para mim. Não o serei para outros...

quinta-feira, março 23, 2017

Lobos solitários (22/III/2017)

Mais um lobo solitário, desta vez em Londres. Terror cirurgico. No final desta guerra quantos valores teremos amputados?

quarta-feira, março 22, 2017

Contrato? Pedagogia? Idiotas? Não.

Esta nota é escrita com cuidado para não ser iniciada com recurso ao calão. 
Acabo de ver na televisão uma reportagem sobre uma mãe processada por um filho por esta lhe ter retirado o direito ao telemóvel. O ministério público pedia uma pena de 9 meses para a progenitora. O juiz afinal absolveu esta mãe mas não foi capaz de ressarcir a sociedade, e os jovens especialmente, dos efeitos negativos que se agigantam.
Há psicólogos a proporem aos pais para redigirem um contrato relativo aos direitos e deveres dos filhos, com cláusulas óbvias para os smartphones. Pedagogia. Sou a favor dela. Entendo-a. Estudo-a. Reconheço-lhe um estatuto fundamental desde a Antiguidade e aceito o matemático «mais infinito».
Mas ao ouvir esta recomendação, talvez o contexto em que foi feita, pensei na pedagogia do bom senso. Pena não haverem muitos artigos científicos sobre ela. 
Se daqui a uns anos, alguém lê esta nota só espero ter um efeito pedagógico, o de não permitir que se idiotize quem o lê, lhe mostrar o receio de pensar se vamos perder muito mais tempo com estes direitos e deveres, que não têm em conta o discernimento e maturidade dum adulto responsável por educar, e não estar tudo fodido. 
Desculpem lá, não me aguentei e falhei pedagogicamente ao recorrer a um palavrão.

"Despojos de Alexandria" dedicado à Sala Públia Hortênsia da Biblioteca Municipal de Elvas

Perante o óbvio da necessidade de reconhecimento diário e não duma efeméride, como é o caso dos dias dos pais, dos avós, da mulher, da poesia, etc., sempre penso nos níveis gerais de atenção dos miúdos, isto é, entre 15 a 25 minutos. No caso da humanidade passa-se o mesmo, mas com dias, anos, até mesmo séculos.  Esse é o motivo porque não me indigno nem polemizo. Alguns dias dou por eles e outros, como tanta coisa, passam-me ao lado.


No caso do “Dia da Poesia”, efeméride de ontem, não lhe dediquei muita atenção, porém tive o privilégio de, previamente, poder colaborar na sua celebração através duma instituição amiga, fundamental nesta “rai(y)a” como é a Biblioteca Pública de Elvas. Ali tenho duas coisas que me fascinam. Um espólio riquíssimo de serviço público e uma sala, como a “Públia Hortência” (à qual dedico este “Despojos de Alexandria”), que me fazem dar razão a Borges: “Siempre imaginé que el Paraíso sería algún tipo de biblioteca.”. 


segunda-feira, março 20, 2017

Adubar 19/III/2017

Carregado o reboque com as sacas de matéria orgânica e de fósforo para misturar nos baldes, adubámos cada um dos tutores que, em breve, ampararão as nossas árvores. Assim passei o dia de S. José. Primeiro os meus pensamentos eram áridos, duros, rochosos, mas, à medida que ia enriquecendo a terra com os componentes para corrigir a escassez, foram-se tornando mais férteis. O cansaço físico, quando acompanhado de tempo e contemplação, liberta-te do intelecto. Estava a fazer-me falta cultivar-me assim, em solidão vigiada pela família, vendo como as minhas mãos não são diferentes dum solo carente.

Ontem, dia do pai. Hoje, morte dum pai.

Ontem, celebrava a vida. Hoje, relembro a fragilidade da mesma. Morreu o pai de um dos meus mais próximos amigos. Mais uma raiz que secou na terra onde germinei antes de ser transplantado. O Sr. Jorge que, como eu, também leu Mário de Sá Carneiro em adolescente. A sua vida e o seu fim foram diferentes. Gostava de falar comigo e eu gostava de lhe prestar atenção. No fundo, é o que todos precisamos. Ter e prestar atenção.
Não senti que começasse a primavera.

domingo, março 19, 2017

«Cuando juego con mi padre/Quando brinco com o meu pai»

Hoy empecé la mañana con estos bonitos versos, y con este trabajo, que mi hijo mayor me regaló aún estaba yo acostado en la cama (me acordé de mi padre y de mi abuelo). ¡Solo por él hoy seré más fan de Superman que de Batman!

"Cuando juego con mi padre
Siempre le quiero ganar
Aunque con el rabillo del ojo
Yo le trato de imitar.

Cuando yo sea grande
Quiero ser como papá.
Fuerte y valiente, dulce y cariñoso
De verdad.

Aunque sabes que te quiero
Hoy te lo voy a decir
Con estos bonitos versos
Que me aprendí para ti.
Felicidades, papi."

Otra mañana en el mundo en que todo tuvo, y fue, sentido.

Hoje comecei a manhã com estes bonitos versos, e com este trabalho, que o meu filho mais velho me ofereceu ainda estava eu deitado na cama (lembrei-me do meu pai e do meu avô). E só por ele hoje serei mais fã do Super-Homem do que do Batman!

"Quando brinco com o meu pai
Eu sempre lhe quero ganhar
Ainda que pelo canto do olho
Eu o trato de imitar.

Quando eu for grande
Quero ser como o papá.
Forte e valente, doce e carinhoso.
É verdade.

Sabes bem como gosto de ti
Mas hoje vou dizer-to
Com estes bonitos versos
Que aprendi para ti.
Parabéns papi."

Outra manhã no mundo em que tudo teve, e foi, sentido.


sábado, março 18, 2017

Texto de presentación de “Habitar” de José Antonio Santiago y “Égloga Perdida” de José Luis Calvo (Biblioteca Pública Bartolomé J. Gallardo de Badajoz, 18/III/2017)



Buenos días, me gustaría empezar este acto dando las gracias a todos los asistentes, a la biblioteca pública de Badajoz, por su apoyo y disponibilidad en acogernos, y a Elsa Lopes, que es la persona que dio la cara por el proyecto “Oficina da Língua Portuguesa” y una pequeña colección que, esperamos muy pronto que tenga nombre propio como un proyecto editorial afín pero independiente.

Esta semana, mientras preparaba esta presentación, me di cuenta de algo que hace mucho sentía, pero nunca había verbalizado. Mi iberismo.  Es decir, una idea de harmonía de todas las culturas y lenguas de la península, algo muy parecido a lo que escribió Torga en su diario, “todas hermanas y todas independientes”.

Sin desfigurar el concepto de patria con ideologías políticas, comparto con Torga la patria de la lengua portuguesa, con Unamuno la patria de adopción y me gusta poder sentir en el corazón la patria de Emilia Pardo Bazán.

Pero no son estos autores que me hacen estar aquí delante de vosotros. Son dos obras hermanas, de ámbitos distintos, redactadas en español y en gallego, de dos interesantísimos autores.
Os hablo de José Antonio Santiago y de José Luis Calvo.

No me gusta hablar sobre el currículo del artista, casi siempre el currículo habla por sí mismo y, muchas veces no habla para nada, es mudo porque el currículo no es arte, por eso, os dejo el mérito académico para la curiosidad de la solapa. En este ámbito, solo os digo que merece la pena echar un vistazo.

Pero, si me permitís, ya que tengo que empezar por algún sitio, me gustaría empezar por José Antonio.

Es difícil hablar sobre José Antonio con total objetividad, si es que eso existe o si debe de existir en este caso. Habitar es un verbo común a los dos. Existe en nuestras dos lenguas maternas y sabemos que ambos habitamos uno en el otro. Sin embargo, intentaré alejarme de este verbo y centrarme en este volumen que aquí compartimos con vosotros.

Recuerdo que, cuando José Antonio me regaló este “Habitar”, me dijo: «creo que te va a gustar más el segundo texto “Casar la Casa” que el primero “Poetizar o la necesaria superstición del lenguaje”». Sé porque me lo comentó, conoce tan bien mi lado diáfano, físico, incluso el escatológico, pero se equivocó.

Ambos textos me llegaron con el efecto pretendido de un excelente ensayo, riguroso en investigación y argumentación, sin embargo, el que me trajo más reflexiones fue el primero, esa mirada sobre el acto de poetizar. Me atrevo a decir que, esta primera parte, celebra la poesía como un territorio más en un mundo tan amplio e imposible de acotar. En esta contradicción de “territorializar” y acotar algo intangible como la poesía, encontré una posible morada de la poesía y una justificación para mí mismo, que me considero un ser humano sensible a este territorio artístico.

¿Dónde habita entonces la poesía? José Antonio Santiago disecciona el verbo para llegar, desde mi punto de vista, a la necesidad del hombre en seguir habitando en su humanidad, preservando, o como nos dice el autor: “Preservar. Una labor humilde, precaria y contingente, tan natural en sus diversos estratos, así en el animal como el hombre, que se lleva a cabo en este último activamente – y en la medida de lo posible – a partir de materiales, que también, y sobre todo son en gran medida, simbólicos, artísticos.”.

Desde la reflexión más filosófica de la primera parte, llegamos a otro territorio, este más tangible, marcado biológicamente y biográficamente por la señalización espacial y temporal. La casa y quizás como ella nos define en tantas condiciones y es transversal a las diversas culturas y tradiciones erigidas por el ser humano.

En el modo de habitar, en las divisiones de la casa, José Antonio nos remite para lo primario de la vida. Los cuatro elementos: fuego, tierra, agua y aire, elementos sin los cuales el verbo, quizás, no pudiera existir.

La casa es el elemento aquí diseccionado. La cocina, sin glamor, realista y sin deconstrucción, la sala, con una reminiscencia del portugués, “de estar”, el cuarto de baño, donde todos efectivamente somos reyes sin corona en un trono de igualdad, y, de la verticalidad del ser humano, llegamos a la horizontalidad de la habitación la suma de tantas necesidades, placeres y lecho. Lecho diario, vital, de sueños, sexual y de muerte. La división donde suele cohabitar el inicio y el fin.

Pero el final de este libro se acerca a otro tipo de habitar, al que yo hablaba al principio, el del habitar en el otro. Este volumen termina con el discreto, como José Antonio, capítulo “Prójimos”. Aquí el ensayista, el filósofo, libera el poeta que, como dice Elías Moro, no asume en voz alta para no incurrir en abominable arrogancia.

Pero lo digo yo. “Habitar” es un pequeño volumen que merece la pena leer y subrayar, sin ningún tipo de miedo de hacer daño al libro, todo lo contrario. Este es un libro donde se puede meter gente dentro.

Ahora, si me permitís, me gustaría de cambiar de idioma y, como dice un amigo mío, de voz.

A literatura da Galiza chegou-me tarde e não me considero conhecedor da sua literatura, com exceção da raiz, desse berço que partilha com a minha língua materna, essa à qual, como dizia o Manuel António Pina, sempre regresso.

Porém, recordo que foi com a lírica galaico-portuguesa que me senti, em plena adolescência, identificado com um trovar tão diferente do dos provençais, a quem se acusava de apenas trovarem no tempo da flor. A partir daí a Galiza ficou-me em caminhos, devoções e em convicções, como a que tenho de que não deve fazer parte do espaço da lusofonia. O galego é irmão gémeo do português, nasceram do ventre da mesma mãe, partilharam placenta, mas cada qual tornou-se língua no seu próprio saco amniótico.

No nascimento destas duas línguas “há uma profunda incerteza do que pôde ser e não foi”, algo inerente a este livro de José Luis Calvo, “Égloga Perdida” que aqui tenho o prazer de vos apresentar.
Mas no desenvolvimento destas duas línguas não encontramos a aura de derrota, a névoa que encontramos neste conjunto de poemas. Numa língua tão impregnada de mar como o galego, estes “prosopoemas” de Calvo ardem febris sem o efeito anti-inflamatório do Atlântico, num sintoma pretérito, numa ausência, numa perda por um bosque nostálgico e abandonado. Neste bosque onde ecoa a palavra, essa mesma que, de acordo com o sujeito poético, sempre “semeia o desterro”.

Contudo, no final desta “Égloga Perdida”, a semente da ausência, a cicatriz da “breve ferida”, converte-se em abertura, um descerramento tal qual como a do fruto da castanha, que se desprende, pouco a pouco, do seu espinhoso ouriço.

Infelizmente, as ausências deste livro configuram-se aqui, entre nós, uma vez que o autor, por motivos pessoais, não pôde estar presente. No entanto, esta contrariedade não me impede de afirmar que este trabalho poético nada tem a ver com este belo verso de José Luis Calvo: “fráxiles como eramos confundíamonos coas follas”.

Moitas grazas.

Muchas gracias.

Muito obrigado.

sexta-feira, março 17, 2017

"Respeito pelo público" — A-PV

Deverá o artista ter respeito pelo público da sua arte? 
Sentado ao lado do António-Pedro Vasconcelos, a falarmos sobre legendas nas edições de DVD de filmes portugueses, disse-me: «Sabes Luis, eu, ao contrário de muitos dos meus colegas, tenho respeito pelo público».
Há anos que sinto esse respeito.

segunda-feira, março 13, 2017

Mi iberismo.../O meu iberismo ("Habitar" y "Égloga Perdida")

Mi iberismo es una idea de armonía de todas las culturas y lenguas de la península, como decía Torga “todas hermanas y todas independientes”. Este acto de presentación de “Habitar” (de José Antonio Santiago Sánchez) y “Égloga Perdida” (de J. Luis Calvo) tiene mucho que ver con el hecho de haber nacido en el oeste de esta Iberia, con Portugal de patrimonio, España de adopción y Galicia en el corazón.


O meu iberismo é uma ideia de harmonia de todas as culturas e línguas da península, como dizia Torga “todas irmãs e todas independentes”. Este acto de apresentação de “Habitar” e “Égloga Perdida” tem muito a ver com o facto de ter nascido a Oeste desta Ibéria, com Portugal como património, Espanha como adopção e a Galiza no coração. 


Adriana Queiroz - A noite passada (Sergio Godinho)





Ser responsável até ser bem velhinho...

Ser responsável até ser bem velhinho. Eis uma boa definição de pai e mãe. E hão de haver sempre dias, como o de hoje, em que ninguém é responsável por ti. Custa ser responsável. Ó se custa! Eles veem todos os teus gestos, ouvem os teus palavrões, apercebem-se das tuas incertezas, cheiram a tua adrenalina, mas têm o contacto do teu abraço e tudo fazes para que sintam o teu amor. Incondicional e a única coisa que te faz ser crente na eternidade.
Talvez eu tenha um caráter muito atípico para a ligeireza, a diluição dos valores dos dias de hoje. Sou austero nas regras, acredito que o advérbio de negação «não» é fundamental para moldar o caráter da criança. Também não ajudo muito no que eles são capazes de fazer sozinhos. Deixo experimentar, mas gosto de ensinar esse velho provérbio oriental «sábio não é o que não erra, é sim o que aprende com os seus erros». Sou tão tosco e imperfeito como pai que, como em tudo, tento humildemente melhorar para amanhã. Sei que hoje não fui grande coisa. Consola-me, apesar disso, querer estar presente, saber que este é o sítio onde quero estar e não o trocaria por nada, nem por essa vida sem responsabilidades de longo prazo. Sou capaz de adormecer, porque acredito que eles sabem isso.

sábado, março 11, 2017

Pessoa para a ceifeira de "Mais Alentejo"



 Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões para cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente está pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa



Anti-sistema?

Porque acredito que todos devemos ter direito a um trabalho digno, pão na mesa, igualdade de oportunidades mediante o acesso à educação, aos cuidados de saúde e um telheiro em condições de habitabilidade a proteger-nos das intempéries, estou no mesmo saco dos apelidados anti-sistema. Pergunto então para os que me atiraram para dentro dessa bolsa de incómodos:
«Que merda de sistema é esse do qual sou anti?»
Ninguém responde claro. Vou ver à Wikipedia, essa ao menos põe a identidade de quem difunde e publica a informação.

quinta-feira, março 09, 2017

Três cabeças, três poetas. Um filho, um pai.

Tive de socorrer o meu filho mais velho numa missão feita TPC. Tivemos uma semana para a cumprir mas só hoje consegui deslocar-me com ele ao local destinado pelo professor. Os seis anos que tem exigem o nosso auxílio, apesar de tentarmos que faça tudo o que conseguir com a maior autonomia (e brio) possível.
Lá fomos nós. Carro malparado, quatro piscas, a correr com a máquina fotográfica na mão. Ele com o símbolo da mascote da sua biblioteca escolar. Eu a tentar o melhor, e rápido, ângulo para não me multarem. Desenrascámo-nos assim. Voltámos ao carro, agarrei no telemóvel com o qual estou a escrever este diário, e confirmei os nomes dos três poetas da escultura. A distância, o trânsito e a infração, atenuada pelos quatro piscas, não me haviam permitido apontar os nomes.
"Jesús Delgado Valhondo, Manuel Pacheco y Luis Álvarez Lencero" são os poetas da sua cidade, da sua infância (como ontem o Vicente Aleixandre que ouviu para adormecer). Eu não tive poetas na infância. Tive o privilégio de os ter, bem vivos, na adolescência. Fico feliz por o acompanhar e faço questão de verbalizá-lo e, agora, grafá-lo.
A estátua, apoiada numa base de três livros, ali está numa rotunda às voltas com a vida da cidade. E nós à volta com a nossa. Nunca imaginaria isto, nem nos mais paternalistas sonhos que nunca tive. Ter filhos e descobrir com eles uma poesia tão diferente da minha, de verso e rima condicionada pela alma dum país que não é o deles de nascimento. Um Parnaso português de mão dada com um infantil discípulo de Cervantes. Haverá melhor união ibérica que esta?

"Ceifeira, linda ceifeira..." (08/III/2017)

O dia de hoje dedica-se à mulher. Entristece-me ver ser ainda necessário um dia para recordarmos as nossas mães. Sim, por mais madrasta que seja ou tenha sido, todo ser humano tem uma.

Eu lembrei-me hoje, ao divulgar a minha crónica na revista "Mais Alentejo, da minha segunda mãe (como ela tantas vezes gostava de referir), que foi a minha avó Helena.


A capa da "Mais Alentejo" nº137, dignifica a mulher alentejana, essa linda ceifeira (por acaso não tive tempo de ver de quem é a autoria da foto da capa - rectificarei em breve), mas a mais linda de todas foi a minha avó...

Está quase a chegar o tempo da espiga e já quase não me lembro da ir apanhar...

"Porque a vida é como andar de bicicleta"

Porque a vida é como andar de bicicleta: quando você perde o medo, aprende, está indo muito bem e feliz... Aí Deus diz: Ok, agora sem rodinhas!

Caio Fernando Abreu

quarta-feira, março 08, 2017

"Regresso ao futuro e dança com lobos" - Luis Leal (in revista "Mais Alentejo" nº137, p.76)


"Regresso ao futuro e dança com lobos" - Luis Leal (in revista "Mais Alentejo", nº137, p.76)

Viajar no tempo e poder fazê-lo num utilitário (sem ser um DeLorean), de bicicleta e algumas vezes a pé, é-me intimamente circunstancial. Do passado ao futuro, passo a fronteira e sinto o tempo como um mecanismo de areia numa ampulheta, mais ou menos apertada, consciente da existência derradeira dum último grão de areia.

Esta é a flexibilidade duma geografia com dois fusos horários. Greenwich (GMT) e Greenwich mais um (GMT+1). Viaja-se no tempo, o roaming altera o relógio do telemóvel e, como já me aconteceu, chega-se uma hora antes ou depois ao local combinado.

Percorrer o tempo assim, alheio às máquinas do tempo do H.G. Wells e do Doc Brown, é o dia-a-dia de muita gente raiana e, até mesmo, de cidadãos dentro dos próprios países, basta pensarmos nos Estados Unidos ou no nosso irmão tropical, Brasil. O tempo transfronteiriço é propicio à viagem dentro de nós mesmos, à reflexão de porquê saímos de Badajoz às 8h e chegamos a Évora – através dum portal temporal de 5’90€ - às 8 horas. Deslocamo-nos num limbo, numa segunda oportunidade de aproveitar o tempo.

Ir de Espanha a Portugal oferece-te isso mesmo, tempo. Em 1942, Franco preteriu da pontualidade britânica a favor dum conveniente Eixo. Graças a simpatias, mais do que assumidas, do Caudilho, os anos foram passando e a Península Ibérica celebra o ano novo duas vezes. Primeiro come as doze uvas ao som de campanadas em Espanha e, mal passa a fronteira, sobe a uma cadeira, come mais doze uvas já em passas. No meio de tanta correria, desejos e resoluções de ano novo, poder-vos-ia dizer que a maioria estreia roupa interior (em Portugal impera o azul, talvez pela vocação marítima, e entre os “nuestros hermanos” o vermelho “pasión”!), no entanto não sou pessoa de me andar a meter na vida dos outros, muito menos em lingerie alheia!

É possível que o ano, que agora findou, seja o último ano em que roubamos umas migalhas da riqueza de Cronos. Debate-se o horário espanhol, fala-se de sestas de identidade cultural (apesar de cada vez menos as dormirem) e de costumes tão típicos (e tão pouco europeus, como alguns gostam de mencionar), questionando-se as refeições tardias e os “aperitivos” sociáveis.

Comecei os primeiros dias do ano novo com uma tradução espontânea dum excerto do livro “fracasar mejor (fragmentos, interrogantes, notas, protopoemas y reflexiones)” de Jorge Riechmann: «Deverias seguir o exemplo de “shunk tokecha” (o lobo). Ainda que o surpreendas e corra para salvar a sua vida, parar-se-á para dirigir-te outro olhar antes de entrar no seu último refúgio. Assim deves também tu dirigir outro olhar a tudo quanto vês.» O autor termina a sua reflexão incitando: «Historiador, ativista, poeta: aprende a ver como o lobo nesse instante de libertação ou condenação, de proximidade da morte ou do milagre, do supremo perigo».

Eu vejo que vivo dois fusos. Por vezes ando confuso, mas não me confundo com o presente que este novo ano trouxe. Um presente cheio de erros do passado, desconfiado, amuralhado em ideologias, afogado no mediterrâneo, com tantos atentados à liberdade, à igualdade, como também à inteligência, de preferência colectiva, em rede, para ser bem controlada pelo sistema operativo.

Infelizmente, não me é possível viajar no tempo, mais do que essa hora paga por tabela (e indexada à taxa de inflação) à Brisa. Também aqui pela península, o lobo-ibérico, de olhar articulado historicamente com o passado da sua espécie, é uma espécie ameaçada de extinção.

Não sei como terminar esta crónica e não quero imaginar como vai terminar este ano. Vou regressar aos apontamentos, à nota inicial excluída: “o lobo dança sobre o tempo e na fronteira do ser, olha tudo quanto vê antes de entrar no seu último refúgio”. 

terça-feira, março 07, 2017

Caçador furtivo (dentro dum zoo)

Foi em França. Parece uma cena dum filme de ação. Um rinoceronte abatido a tiro num zoológico por um caçador furtivo que, à socapa, ainda levou o chifre do pobre animal.

Se existe um ciclo da vida, que a falta de sentido que esta barbaridade teve, carregue de dor quem retirou a vida a este ser vivo na esperança do sobrenatural pago a mais de 40.000€'

Já não se mata furtivamente só nos santuários da natureza. Assaltam-se os refugios feitos pelo homem. Nada nem ninguém está a salvo. A realidade é dura e já a aceitámos. Não temos medo e defender-nos-emos. A natureza é assim, acaba por encontrar uma maneira de se proteger.

Provérbio: «O meu bom coração fez de mim cabrão»

Sem dúvida um provérbio, com vernáculo, chocante para ouvidos púdicos. Todavia, bem real.
Tem uma moral de experiência empírica traiçoeira e com peso na frente. Outra imagem de saber popular.
Hoje pensei nele, reflecti sobre ele, até o ensinei com recurso à moral para o distinguir duma expressão idiomática despida de preconceitos, mas carregada de valor cultural, mas foi um «não» que me apertou o coração e me impediu rimar com cabrão.
Tenho dificuldade em dizer não. Quase sempre está tudo bem. Quando tenho muito para fazer desenrasco tempo para fazer ainda mais e isso, que me dá alento e brio, também me prejudica. O abusador está sempre à espreita, como é típico de todo tipo de abusador.
Porém hoje até nem era um oportunista. Era a inexperiência para quem esse «não» acredito ter sido um enorme reforço positivo para ajudar a entender a sua função. Por melhores intenções que tenhamos, é fundamental aprendermos a pôr-nos no nosso lugar. Por vezes quietos. A observar. A evitarmos que nos ponham a todos no mesmo saco. Não é que isso faça muita diferença para os demais, que quase nem se apercebem (ou apercebem, os que valem a pena), mas faz para ti. Para a dignidade da tua conduta. Se queres ser bombeiro, sê-lo para deixar este mundo melhor, apagar os fogos justos, os que ameaçam o património de quem te educou. Se não, é queimada. Deixa arder. Não assumas as responsabilidades dos outros mesmo que alguém, que não conseguiu pôr-te os cornos, queira deixar-te peso na consciência... 
O coração não tem porque ser escravo. O coração também se liberta.

Nostálgico de não ser nostálgico

Vivemos a enorme ilusão da estagnação. Que isto não avança ou se avança é para trás. Somos vintage, somos retro, somos saudosistas do consumo possível (frugal unicamente por circunstância), das matinés e das músicas em k7s que hoje se recordam em capas de telemóveis. Somos nostálgicos porque somos os que têm possibilidades de criar nichos de mercado.
O que há por aí de novo está convertido ao passado e é no passado que encontramos o modernismo da arte e não só. Que manifesto escreveria o Almada neste presente? Seria processado pelo Dantas? (pobre desgraçado que até nem cheirava tão mal da boca comparado com os cardeais da sua ceia).
Sei lá, abro um jornal, uma revista, um suplemento qualquer, e lá me querem vender, pela milésima vez, os anos 80, as séries da minha infância, uma estética que é esta ânsia de ser revivida que a faz estar parada no tempo.
Gosto de ouvir gente de todas as idades, mas são os jovens nesta época os representantes da artrite intelectual. É pena. Até a coragem do mancebo está colada à comodidade do aparato e mistura no mesmo tempos idos não compreendidos com uma indiferente rebeldia. Apáticos, é-lhes mais fácil irem na maré das rimas fáceis e nos mitos do «forever young» que a minha geração ouve na M80.
Gostei de ter tido uma Super Nintendo, ter brincado com GI Joes, visto centenas de VHS, ter sido sócio de clubes de video, ter andado de BMX, etc, etc, etc. Os brinquedos e as bicicletas antigas ainda me dão esse prazer infantil, mas caramba, há mais vida para além do retro, há crise mas dos problemas sai-se com criatividade.
Este é o tempo que estamos a viver. É único como todos os segundos com que convencionamos o tempo. Tenhamos nós a possibilidade de os ir vivendo com intensidade e curiosidade. A experiência de vida de outros diz-me que é quase inevitável fugir à saudade, à nostalgia do que se foi, se teve porque se sabe que se vai definhando o corpo de sentidos, num ser marcado por ausências. Porém, a malta da minha idade ainda tem alguns beneficios da biologia. Chega de tanta caderneta de cromos e vamos coleccionar nostalgias para o futuro.

Complicado?

Complicado?
Bicicleta velha.
Bola das meias da mãe.
A verdadeira felicidade é simples.

Francismar Prestes Leal

domingo, março 05, 2017

Like the flowers... Kim Dong-Hwa

El ciclista (Jim McGurn)

"The cyclist creates everything from almost nothing, becoming the most energy-efficient of all moving animals and machines and, as such, has a disingenuous ability to challenge the entire value system of a society. Cyclists don't consume enough. The bicycle may be too cheap, too available, too healthy, too independent and too equitable for its own good. In an age of excess it is minimal and has the subversive potential to make people happy in an economy fuelled by consumer discontent."

"El ciclista lo crea todo a partir de casi nada, convirtiéndose en el ser más eficiente energéticamente entre todos los animales y máquinas que se mueven; y, como tal, tiene una capacidad ímproba para desafiar todo el sistema de valores de esta sociedad. Los ciclistas no consumen bastante. La bicicleta puede ser demasiado barata, demasiado saludable, demasiado independiente y demasiado equitativa como para que le vaya bien. En una era de exceso, es minimalista; y ostenta el potencial subversivo de hacer feliz a la gente en una economía impulsada por la frustración de los consumidores."

Jim McGurn 
(citado por Keith Farnish, en el capítulo 16 de "A Matter of Scale")

sexta-feira, março 03, 2017

Declaração de intenções – Jesús Montiel (in “Memoria del Pájaro”)

"O autor deste livro gosta da vida. O problema é que quase ninguém gosta da sua vida. A sua vida, por assim dizê-lo, não é bem vista, é uma vida improdutiva, fora da lógica do lucro. A escrita, a arte em geral, é uma tarefa inútil para o Governo. Um pedreiro, um electricista e um marceneiro sim são pessoas que fazem algo que merece o esforço: um tubo, um quadro de luzes, uma mesa, são todas coisas úteis. Mas um poema, o que é que é isso, diz o Governo. Para que é que serve, pergunta a olhá-lo com estranheza. Gera algum lucro?, insiste.

E assim os dias do autor sucedem-se inutilmente. Não são rentáveis. A sua fábrica não busca o maior rendimento no tempo mais curto. Pode passar alguns dias sem escrever uma só linha convertido numa orelha, deixando-se assaltar pela beleza do minúsculo, aquilo que passa inadvertido: a folha, a árvore, uma luz a cair da janela. Coisas todas que hoje não servem para nada, que já tiveram a sua importância em outras épocas, antes da Técnica. Pode viver uma semana num parágrafo, num verso, como um pássaro cansado que não muda de ramo.

Digo que o autor deste livro gosta da sua vida. O problema, insisto, é que a sua vida é um fracasso em todos os sentidos. Que alguém se dedique a treinar a fera do seu silêncio não é algo que contemplem as cláusulas do moderno. Não se pode tolerar tanta lentidão. Um homem dedicado ao descobrimento não serve para nada, há que desterrá-lo. Está muito bem inclui-lo, já morto, num livro de texto. Para dizer que nasceu nesta ou na outra cidade. Mas agora mesmo estorva. É um mau exemplo. Não se gosta. Uma pedra no sapato do Progresso. Os poemas que aqui se seguem, amável leitor, não são outra coisa que os filhos desse tempo entregue ao mundo da lua."

Granada, março de 2016 (Trad. Luis Leal)

Como gostaria de ver este livro de Jesús Montiel, bilingue, disponível em língua portuguesa... um autêntico prazer conhecer um poeta assim. Que continue a treinar a fera do seu silêncio e que ruja lentamente.


Amanhã o meu pai... (Kim Dong-Hwa)

Para o meu pai, que hoje faz 65 anos.

Amanhã, o meu pai de certeza
vai calçar as meias esburacadas,
porque é o primeiro a levantar-se e
o primeiro a sair de casa...


Mesmo podendo escolher, sempre calça
as rotas. Será porque é um pouco parvo.


Um pai deixará sempre as melhores
meias para os seus filhos, e ele
ficará com as que estão gastas.


É como se o facto de se ser pai
nos tornasse um bocado parvos.

Kim Dong-Hwa (trad. Luis Leal)


quinta-feira, março 02, 2017

"Já não se vendem objectos. Vendem-se experiências."

Que sentido tem o comércio físico? Ir a uma loja e adquirir um qualquer produto que nos faça falta? Hoje compram-se os objectos on-line. Se nos faz falta o livro x ou os sapatos y, clica-se e, em menos de 24 horas, materializa-se o pedido na caixa do correio. Puro pragmatismo e materialismo.
Segundo o marketing vigente, não compramos pão, compramos a experiência de comprar pão, que, para os marketeers, é o verdadeiro alimento. Os nutrientes, em breve, disponíveis em cápsulas ou comprimidos, são necessidade física e não têm glamour como experiência.
Na loja não tem sentido os stocks acumulados. Aí deve viver-se a experiência de comprar, de ter o prazer de abrir os cordões à bolsa, pois na Internet já sabemos ser difícil pagar com dinheiro de bolso.
Cada dia que passa me sinto mais estúpido e agradeço a esta gente, filósofos dos rótulos e códigos de barra, fazerem-me sentir acompanhado, uma vez que não me sinto um parvo sozinho. Em grupo é sempre mais fácil lidarmos com os nossos defeitos de fabrico.
O dia está estupendo lá fora. Vejo-o pela janela e pelo ecrã do telemóvel. Não tem sentido sair para apanhar ar. Se saio é para viver a experiência "outdoor", uma aventura do outro mundo como a que aconteceu a um amigo meu. Pisou merda de cão. Para além da experiência, dizem que dá sorte.

1985, Agosto, S. Pedro de Moel

A praia é o antepassado duma família emigrante em França. Um pai, uma mãe, a sentir-se já doente, dois meninos e uma menina. O carro parado contempla o Atlântico e arrefece os quilómetros do motor. A menina sai do carro, corre para a areia e fecha os olhos azuis nesse segredo só seu, nesse mar só seu.
Devagar, Adolfo caminha com a sua esposa. Vê a menina de olhos fechados, sol doirado nas madeixas, e não consegue ficar indiferente àquela visão, àquele olhar sem tempo, só com mar.
Andrée, a esposa, confere a ternura no rosto do marido e, espontânea, mete-se com a menina:
- Olá, como te chamas?
Tímida, consentida com o acenar da mãe, responde.
- Elsa.
- És muito bonita e tens um nome muito bonito, Elsa. Boas férias.
Cordialmente, expressa-se um desejo comum de bom descanso e veraneio. A vida e a morte seguem.
Adolfo nessa noite escreve no seu diário que com tanto mar a sua dimensão só pode ser peninsular. O diário custodia essa nota até hoje eu a ler.
Elsa brinca no pinhal e vê o sonho dum lar construído pelos pais em Portugal.
Elsa e Adolfo. Elsa e Miguel. Elsa menina. Elsa hoje mulher. Elsa, de olhos fechados, a levar-me para o seu mar, para os aposentos da sua infância...
Elsa a quem quero tanto, como Adolfo quis a Andrée... Elsa. S. Pedro de Moel. Eu.