terça-feira, abril 29, 2014

O aroma do alento

O aroma do alento
Trá-lo de suão o vento,
Mas no Alentejo dos temperos
Encontra-lo num raminho de coentros.

António Orla

quinta-feira, abril 24, 2014

Acta de Abril (ainda por aprovar)

Acta de Abril (ainda por aprovar)

Num país obscuro, numa exacta madrugada do vigésimo quinto dia do quarto mês do ano de 1974, no Terreiro do Paço (posteriormente no Largo do Carmo) e tendo a maioria cidadã recém-desoprimida, teve lugar o começo de uma utopia florida a cravo vermelho.
Na impossibilidade de nomear todos os presentes, identifica-se apenas o seu porta-voz:
Fernando José Salgueiro Maia.
Patente:
De cavalaria capitão.
Estiveram ausentes:
Todos os descrentes que em cada rosto existe igualdade.
Ordem do dia:
1)      Restaurar a liberdade;
2)      Recuperar a dignidade;
3)      Reimplantar a esperança;
4)      Readquirir o direito a questionar em alta voz.
Todos os presentes efusivamente renegam o dia 24. A emancipação de um povo saiu à rua. A imperfeição não se erradicou, apenas disso ficou a sensação. A integridade voltou para os braços da sua mulher em Santarém.  

E, nada mais havendo a tratar, foi lavrada a presente acta que, nunca será lida nem aprovada, muito menos vai ser assinada pelo actual Presidente da República, apenas por mim, um sonhador, na qualidade de secretário, que a redigi.

Acta de Abril (ainda por aprovar)


segunda-feira, abril 07, 2014

Sul (Jorge Fallorca)


Memória descritiva

Sul

O Sul não existe.
E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.

Jorge Fallorca 

[Longe do mundo; frenesi, 2004]


O cheiro dos livros é o blogue de Jorge Fallorca, que infelizmente morreu há poucos dias. Vale a pena visitá-lo, a sério.



A ti me confesso converso.

Como começar um verso
que não tem passado
nem futuro?
Com o presente da incerteza
ou com a delicadeza do acaso,
Furtuito e furtivo,
Em cada minuto que vivo
Anelando
Uma qualquer paz perspicaz?

Todo o universo não cabe num verso.
Um verso, uno, dificilmente divisível,
Jaz fraccionado pelo ego e seu manejo.
À nossa frente está o acidente do presente.
Não há verso, reverso, perverso… incontrolado.
Fernando. Onde estás travesso?
- Aqui, de pé, cómodo encostado à cómoda.
Ouço alguém a entrar e fechar a porta.
A oportunidade, mãe de verdade, tem tendência à orfandade.
Não quero ar fresco. Gosto de ambientes tétricos. Ridículos.
Do outro lado está o mistério métrico dum verso.
Ansiando um começo, tropeço, em mim mesmo, e escrevo:
Prosa, a ti os meus versos devo.