sexta-feira, novembro 30, 2018

«En la veleta el viento monta en bicicleta» - Ramón Gómez de la Serna

«En casa del poeta» - Ramón Gómez de la Serna

En casa del poeta:
- ¿Qué tenemos esta noche?
- Haikai con perejil.

"Cenando con Ramón" (autor desconocido)

«El sillín de la bicicleta está hecho con dos muelles locos» - Ramón Gómez de la Serna

Recordamos Assis Pacheco

Fotografia de Joaquim Duarte em vidas & memórias de uma comunidade


Neste dia de 1995 morreu Fernando Assis Pacheco na livraria Buchholz de Lisboa, no mesmo dia que Fernando Pessoa, 60 anos atrás.


RONDA DOS POVOS

Adeus Quissala, Quimuanassala,
Hihinga-Zambi.
Adeus Mussesse, lavras mortas.
Poeira trazida pelo vento.

Adeus Calala, Canacassala,
Quimaio, Tabi.
O tchimbeco está vazio.
Passam os porcos do mato.

Adeus Hungo, povo do Hungo,
Fui lá uma sexta-feira
e era cinza, coisa pouca.
O capim vai comer-te.

Adeus Cazanga, Quimazanga,
Caguenguele, Mufuca, Praia.
Adeus Quijai, Cabári, Chengue.
Apodreceis ao sol.

Fernando Assis Pacheco




quinta-feira, novembro 29, 2018

«El dolor psíquico» - Ana Olivera

«(...) el dolor psíquico es un planeta desconocido para quien no lo habita.» - Ana Olivera, in «Del otro lado», p. 37.
Ana Olivera, "Del otro lado"

“Mi alma y mi perro”/“A minha alma e o meu cão” – Fernando Aramburu (in “Autorretrato sin mí”, pp. 121 e 122)

“Mi alma y mi perro” – Fernando Aramburu 

En este armario guardo mi alma. Entre camisas y pantalones cuelga, limpia y planchada, de su percha. Por tratarse de una prenda valiosa la llevo conmigo solamente en ocasiones especiales. Un alma es para toda la vida. Un alma no se arregla. Si se rompe no hay otra.

Por eso la reservo para cuando voy a sitios adonde no se debe de ir sin alma. Cuando voy al poema, por ejemplo. Cuando acerco el olfato a una flor aromática o cuando, al alzar la copa de buen vino, dirijo unos instantes a los colores de la tarde.

De niño, en cambio, no iba sin mi alma a ningún sitio. Ni para dormir me la quitaba. La echaba a volar junto a los ángeles que surcaban en bandada el cielo de mi infancia. Me complacía columpiarme con ella en las campanas. Y, al caer la noche, se la enseñaba a Dios, que de tanto conversar conmigo me parecía un miembro más de mi familia.   

El caso es que ya no salgo casi nunca con el alma a la calle. Se me hace que la gente, al verme, lo va a saber todo de mí. O que el viento y la lluvia me podrían arruinar. Los ángeles, mientras tanto, emigraron lejos, a otras infancias, y Dios murió como mueren todos los abuelos entre dos crepúsculos.

Eso sí, cuando me pongo el alma gano en dimensiones. Me revisto de una atmósfera que me hace más brillante que mi perro. Soy de pronto transparente. Soy un depósito de resplandores. Soy espiritual. Ataviado con mi alma, me prolongo en altura; alcanzo mayor profundidad y me dilato, en fin, en todas direcciones hasta dejar atrás la última estrella transitoria.

Pero luego, al borde de la eternidad, me cruzo con la mirada de mi perro, sentado y melancólico cerca de la puerta con su alma peluda de perro, y no sé qué me da dejarlo allí solo, abandonado a horas polvorientas, sin nadie que le hable ni le ponga la comida. Vuelvo entonces sobre mis pasos y hasta la saliva me sabe a amistad. Restituida la percha del armario a la ingrávida envoltura, me visto mis humildes y carnales pingos de diario, acaricio al perro, lo saco a pasear.  

“A minha alma e o meu cão” – Fernando Aramburu 

Neste armário guardo a minha alma. Entre camisas e calças está pendurada, limpa e passada a ferro, no seu cabide. Por tratar-se de uma peça valiosa apenas a uso em ocasiões especiais. Uma alma é para toda a vida. Uma alma não se arranja. Se se rasga não há outra.

Por isso reservo-a para quando vou a sítios onde não se deve ir sem alma. Quando vou ao poema, por exemplo. Quando aproximo o olfato a uma flor aromática ou quando, ao alçar o copo de bom vinho, dirijo uns instantes às cores da tarde.

Em criança, ao contrário, não ia sem a minha alma a nenhum sítio. Nem para dormir a tirava. Lançava-a a voar junto aos anjos que sulcavam em bandada o céu da minha infância. Agradava-me balançar-me com ela nas campanas. E, ao cair a noite, mostrava-a a Deus, que de tanto conversar comigo me parecia um membro mais da minha família.   

A realidade é que já não saio quase nunca com a alma à rua. Parece-me que a gente, ao ver-me, saberá tudo sobre mim. Ou que o vento ou a chuva ma poderiam arruinar. Os anjos, entretanto, emigraram para longe, para outras infâncias, e Deus morreu como morrem todos os avós entre dois crepúsculos.

Isso sim, quando ponho a alma ganho em dimensões. Revisto-me de una atmosfera que me faz mais brilhante do que o meu cão. Sou de imediato transparente. Sou um depósito de resplandores. Sou espiritual. Ataviado com a minha alma, prolongo-me em altura; alcanço maior profundidade e dilato-me, enfim, em todas as direções até deixar atrás a última estrela transitória.

Porém, logo que, à beira da eternidade, me cruzo com o olhar do meu cão, sentado e melancólico próximo da porta com a sua alma peluda de cão, e não sei porquê me dá para deixá-lo ali sozinho, abandonado a horas poeirentas, sem ninguém para falar-lhe ou pôr-lhe a comida. Volto então sobre os meus passos e até a saliva me sabe a amizade. Restituído o cabide do armário à envoltura sem peso, visto os meus humildes e carnais trapos do dia-a-dia, acaricio o cão, levo-o a passear. 

(in “Autorretrato sin mí”, pp. 121 y 122) 
Autor desconhecido

Um papel e uma pedrinha

Que eu sou um bocado neandertal é algo já adquirido e assumido. Sou um bocado abrutalhado nos hábitos, espartano em alguns costumes e um grande maricas (leiam a palavra como quiserem) noutros. Sou tão bom a cumprir regras como a questionar outras. Neste caso tem a ver com brinquedos.

O meu filho mais novo, agora no seu primeiro ano de jardim de infância, não pode levar brinquedos de casa para o colégio. Assim nos pediu a educadora, assim nos foi justificado com critérios que nos parecem justos e inteligentes, e, desde sempre, os objectos lúdicos domésticos não frequentam a escola. Não me custa cumprir esta regra e reiteramos estar totalmente de acordo com ela.

Porém, o meu pequenito, com o carácter típico e o desenrascanço de irmão mais novo, todos os dias tenta levar (inclusivamente à socapa) alguma das suas brincas consigo. Aí, o polícia que há nas minhas funções parentais é inflexivel e confisca antes da saída de casa tal material cheio de histórias e sonhos que mal falam.

Tenho a característica de não mexer um músculo facial mesmo que, por dentro, me esteja a escangalhar a rir. Isso é o que me separa da autoridade e do autoritarismo. Tento explicar e, em casa, é raro explicar mais do que três vezes. Se a argumentação democrática não é suficiente, impõe-se a ditadura. Por vezes custa-me esse golpe de Estado caseiro, mas tem de ser.

A sua rebeldia ganha força na sua imaginação. Os seus três anos sem preconceitos nem definições consumistas de brinquedos, enganam a postura parental, o veto imposto desde casa, e um papelinho e uma pedrinha ganham vida nos seus dedos e habitam nos bolsos das suas calças e dos seus casacos.

À porta do colégio, na fila para o seu dia-a-dia, vejo como os outros pais deixam os seus filhos levarem figuras de acção quase do tamanho dos seus próprio filhos, escudos, carrinhos e tantas outras coisas às quais já não presto atenção. O meu filho, ainda sem vergonha de ter o que é possível ter, mostra a sua pedrinha, uma pequenita china polida pelo Guadiana e pelos seus deditos, e o seu papelinho rabiscado em casa enquanto o irmão fazia os TPC.

O eu neandertal, abrutalhado, espartano nos hábitos e um grande maricas, emociona-se e duvida de todos os regimes que tem de impor para educar.
Quando toca, vão todos a correr para a fila onde a mochila lhes guarda o lugar. Ajudo-o a pôr bem as alças e ainda nos abraçamos. Digo-lhe que se porte bem e que o amo. Despeço-me com um «logo o papá vem-te buscar».

Afasto-me mais da fila do que a maioria dos pais. Talvez o faça porque já vivi esta etapa com um mais velho que já entra sozinho na escola, porque não tenho paciência de espírito graxista para estar de roda da educadora a falar das últimas técnicas pedagógicas e de puericultura ou talvez porque sou neandertal, abrutalhado, e não quero que os demais pais conheçam esse eu. Mas o que me diz o papel e a pedrinha vale mais por tudo o que se possa conhecer de nós.

quarta-feira, novembro 28, 2018

Os putos brincam

Os putos brincam.
Em cima do sofá a
gata observa.

«Lo más bonito de la bicicleta es su sombra» Ramón Gómez de la Serna

Lo más bonito de la bicicleta es su sombra - Ramón Gómez de la Serna

Lençóis quentes

Lençóis quentes e
lá fora noite fria.
Um duplo prazer.

Autor desconhecido

El capote «alentejano» - Ramón Gómez de la Serna

El capote «alentejano», ese capote lleno de esclavinas hasta la cintura y con un cuello de piel de conejo, sigue siendo la gran prenda epopéyica de Lisboa. Hemos dado un ideal abrazo, el abrazo del «volverse a ver», a ese capote «alentejano», «¡Hola! ¡Hola!... Otra vez por aquí». 

O capote «alentejano», esse capote cheio de esclavinas até à cintura e com uma gola de pele de coelho, continua a ser a grande peça de roupa epopeica de Lisboa. Demos um abraço ideal, o abraço do «voltar-se a ver», a esse capote «alentejano», «Olá! Olá!... Outra vez por aqui». 

Ramón Gómez de la Serna, in «Pombo», p.395
Autor desconhecido ("pinterest")

segunda-feira, novembro 26, 2018

Pés submersos

Pés submersos no
chão do jardim escrevem
folhas outonais.

Folhas de plátano e uns raios de sol matinais/outonais... (26/XI/2018)

Antonio Sáez inaugura a temporada 2018/2019 da Aula de Poesía Díez-Canedo

Mañana, el maestro de esa escuela de “trágicos”, que viven y sienten "En otra patria", estará en el Aula de Poesía Díez-Canedo. Allí estará Antonio Sáez, allí estarán España y Portugal, Badajoz y Évora... 

Amanhã, o mestre dessa escola de "trágicos", que vivem e sentem "Noutra pátria", estará na "Aula de Poesía Díez-Canedo". Ali estará o Antonio Sáez, ali estarão Portugal e Espanha, Badajoz e Évora...

Antonio Sáez inaugura a temporada 2018/2019 da Aula de Poesía Díez-Canedo
Portada del cuadernillo de Antonio Sáez Delgado
Programa da temporada 2018/2019 da "Aula de Poesía Díez-Canedo"


sábado, novembro 24, 2018

Não gosto e exerço o meu direito a não assistir.


Não gosto e exerço o meu direito a não assistir a este fenómeno talvez erroneamente confundido com tradição. Tampouco disserto sobre sofrimento humano ou animal. Adjectivar o sofrimento não me ajuda a acabar com ele, porém não discuto o quanto ajuda a entendê-lo. Custa-me sim ver como o que é complexo se tende a tratar com simplismo, para não dizer absolutismo de mundivisão. 

Não me imagino, nem quero, impor morais nem costumes. Qualquer um que reflita bem sobre tal imposição, quiçá chegue a notar o peso da mesma às suas costas. Dispenso carga extra à que tenho que levar.

Esta é a nota de um aficionado em respeitar o que pensa o vizinho, o pai, o primo ou o desconhecido, mesmo quando os seus argumentos não o convencem de nada, à excepção, de que estão verdadeiramente convencidos.

Não admitir a opinião do outro leva ao conflito, à imposição de mais baixas e sofrimento (aqui vou adjectivá-lo de desnecessário), por vezes até fratricida.

Resta-me unicamente a serenidade duma liberdade de pensamento enunciada na primeira frase deste diário. Não gosto e exerço o meu direito a não assistir. Com o passar dos anos, tenho visto muitos espectáculos e modas extintos por falta de público e não por imposição legislativa. Algo me diz que, com as touradas, acabará por acontecer o mesmo...

Foto do jornal "Público"



Crescer fungo

Crescer fungo com
vistas e à sombra do
velho sobreiro.

(uma semana depois...)

quarta-feira, novembro 21, 2018

"Flanear" en Évora - Luis Leal (in "Rayanos Magazine")




Flanear en Évora

Nací en Évora, esa vieja ciudad amurallada en tres culturas: la romana, la árabe y la cristiana. Aquí el silencio y el recogimiento, casi místico, se mezclan con el movimiento típico del comercio y de los servicios administrativos de una capital de distrito. Creo que esta combinación se me metió en el alma nada más nacer y no dudo de que, aparte de otras circunstancias, fue el clima pausado, la calidad de vida de esta ciudad, en mi niñez y mocedad, lo que determinó en gran parte la formación de mi carácter.

Siempre la conocí turística, incluso antes de la locura (hecha panacea) del turismo. Recuerdo muy bien cuando logró el estatus de Patrimonio de la Humanidad. También me acuerdo perfectamente de cuando vino Isabel II de Inglaterra y como se fregaban muchas de las pintadas revolucionarias de un pueblo unido jamás será vencido.
 
Photo by Matt Thompson
Ya no forma parte de mi día a día como antes, en esa época en que me enamoré de Cesário Verde y recorría la ciudad imitándolo, sin genio poético, pero con Évora como musa. Tampoco vuelvo con la frecuencia que me gustaría, pero siempre vuelvo. No residir allí no me impide de habitarla y, si puedo, flanear. Aprendí de Assis Pacheco esta palabra, del francés flanêr. Va más allá del caminar. El caminante no tiene destino, va sin rumbo, sin nada ni cosas con las que se preocupe.

Hoy, si me obsequia con su compañía, flaneemos juntos. Tal vez nos perdamos por un recorrido antiguo, quizás nos alejemos del interés turístico de primera clase o low-cost. A lo mejor iremos por caminos llenos de inutilidad y donde, seguro, está prohibido el multitask impuesto por el cotidiano. Empecemos.

Le invito a una bica en una plazoleta de mi barrio, el Bairro de Nossa Senhora da Saúde. En realidad, no tengo ni idea de cómo se llama, y corriendo el riesgo de ser linchado por lo socialmente correcto, la llamamos Largo das Pichas Murchas. Qué pena que ya no saludames a Ti Zé, se fue al otro barrio rozando los 100, pero las conversaciones y las partidas siguen dignamente con gente igual de mayor pero que cada vez usan menos la boina alentejana.

Sigamos por debajo del Ponte de Ferro. Ya no pasa el comboio (el Alentejo es como Extremadura, sin tren) pero tiene una ecopista que nos lleva sanamente más allá de Arraiolos. Caminemos en dirección al casco antiguo. Aprovechemos para hundir nuestros pies en las hojas de los plátanos, darle patadas infantiles, olvidando alergias y simplemente oliendo el otoño. Entremos por el fondo de la Rua de Machede. A nuestra derecha tenemos un discreto baluarte de la muralla nueva. Por detrás, en la rotonda, está el monumento de los bomberos, y mi antiguo instituto, algo que siempre me alegra de ver al llegar a Évora.

Subamos para arriba, pues para abajo es imposible. Si nos entra hambre o, en mi caso, alguna nostalgia de pan portugués, entremos en el Lavrador y comamos una tosta mista. Al lado estarán un par de estudiantes desaparecidos del Colégio do Espírito Santo, recuperándose de la juerga de la noche anterior. Algunos visten el traje negro universitario, bonita tradición siempre y cuando no se les suba a cabeza la ilusión indumentaria de poder y se transformen en murciélagos idiotas, gritando y haciendo novatadas apodadas de integradoras.

Más adelante, un poquito antes de Portas de Moura, fijémonos en el pequeño Jardim do Bacalhau. Un eborense siempre identificará primero su forma de bacalao y solo después se preocupará en saber su nombre de verdad. Habría que preguntar si, por estos pagos, sigue abierto el alfarrabista, esa preciosa palabra que se traduce por tienda de libros de viejo.

Parémonos y sentémonos un rato en la fuente de Portas de Moura. Es del siglo XVI, pero a las palomas les da igual y la contemplación puede terminar con alguna imprevista evacuación aérea. Estamos al sur y nuestros pasos ignoran el GPS o Google Maps. Es imposible perderse en Ebora Libaralitas Julia, pues su tradición romana evoca el refrán quien tiene boca se va a Roma.

Si fuese verano una mini Sagres nos calmaría la sed, pero empieza el frio y huele a castañas. Persigamos su olor y disfrutemos de los árboles del Largo da Misericordia. Por la noche, si estamos en navidad, se iluminan. Todos los años da que hablar a la gente, si el ayuntamiento debería, o no, gastarse más en el alumbrado navideño.

De camino a la plaza, debaixo dos arcos está el quiosco del Sr. Joaquim y de D. Esmeralda. Echemos un vistazo a la prensa internacional. Los periódicos españoles llegan con un día de retraso, pero todavía llegan y dan de comer a los dueños de este pequeño negocio.

Llegando al centro, a la Plaza de Giraldo, compremos las castañas, añadiendo al olor el sabor de este fruto del otoño. La Fonte Henriquina, la Igreja de Santo Antão, la Sociedade Harmonia Eborense se quedarán atrás. Vayamos en dirección al Largo Luís de Camões. Cualquier espíritu bricolero exige que entremos en Drogaria Azul para comprar algo que no hace falta, pero puede hacer. Justo en frente, del otro lado de la calle, se ve el Sr. Ernesto en su Pronto-a-vestir. Salúdemoslo.

Me gusta tocar las paredes. Estas son de piedra, granito, y me imagino los siglos de manos que le han tocado. Flanear exige que nos olvidemos del pasado, del futuro, y nos abandonemos en el presente. El mío necesita abrazos. Por eso sigamos, caminemos despacio, miremos a la izquierda al Teatro Garcia de Resende (algún día le contaré mi carrera frustrada de bailarín) y, bajando la Rua da Lagoa, tenemos una cita con dos muñecos de Playmobil de tamaño real. Estamos en la tienda de juguetes Neroca y le presento al propietario y mi gordito favorito: Rui. Me gustaría presentarle a Andreza pero está ocupada cuidando de la visión de la gente en Oculista Carrilho. Otro día.

A los afectos deberíamos dedicarle más tiempo. Siempre hay la excusa del reloj, del horario, de la distancia, de los niños. Yo soy el primero en decir mea culpa. Sin embargo, y en el contexto de vivir en dos husos horarios, siempre intento poner las pilas de mis relojes en la tienda del Sr. Cabeça. Aquí se pueden comprar los básicos Casio, esos que, desde la infancia, sobrevivirán al apocalipsis.

Sigamos bajando por la calle. En estos tiempos de absolencia programada, Évora sigue con la misma fuerza de antaño. El horizonte nos trae el Aqueduto da Água da Prata. Puesto que llegamos a las afueras de la ciudad, lo llevaré a un sitio que solo conozco por fuera, el Mosteiro da Cartuxa. No nos dejarán entrar. Es un templo de silencio y los monjes cartujos predican con el ejemplo. Nosotros nos quedaremos con el silencio entre cada latido de nuestro corazón.

Recuperado el movimiento, nuestro camino sigue hasta el Alto de S. Bento. Virgilio Ferreira lo inmortalizó en su novela existencialista Aparição. Desde aquí no se contempla solo la ciudad, se ve la Serra de Arrábida, se entrevé el mar, y se alcanza España. Yo veo parte de lo que fui y de lo que soy. Un pesado, reconozco. Un insufrible feliz por haber disfrutado de su compañía en este flanear por mi ciudad. Hasta cuando le apetezca. Aquele abraço.