domingo, dezembro 31, 2017

O 2017 já está pendurado... venha daí o 2018!

Lavrámos, plantámos, pedalámos, caíram primeiros dentes, contemplámos atardeceres, abraçámos e abraçámo-nos. Vimos como a nossa vida é esse filme foleiro, de Domingo à tarde, em que tanto estamos felizes no ecrã como estamos, de lágrima ao canto do olho, na plateia. Ganhámos dias e perdemos dias. Perdemos mais dentes, de leite, felizmente. Fizemos amigos e despedimo-nos de amigos. Despedimo-nos de família. 

2017 foi mais um ano, por mais voltas que lhe queiramos dar, não foi nada mais que 365 dias. A nossa percepção é que foi particular, talvez um pouco bipolar, a oscilar entre a alegria e a tristeza. As coisas são como as sentimos.

Para mim, agora a escrever, possivelmente, a última nota do ano, faz-me lembrar o estendal da roupa em frente ao pátio dos meus avós. Um ano com muita roupa estendida. Houve sol a secá-la num instante e vendavais que nos fizeram ir apanhar peúgas para além da linha de caminho de ferro. A corda, apesar de esticada e a denunciar a tensão resequida, lá aguentou as peças que se foram estendendo e apanhando. Manteve-se fiel às suas funções de fio conductor. 

Amanhã começa 2018. Aproveito as últimas horas deste ano para dobrar e arrumar a roupa. Meias e cuecas na gaveta. Camisas e casacos no armário. Sweats e camisolas de algodão dobradas na divisão para o efeito. A corda já foi inspecionada. Está dentro do prazo de validade e cumpre com as normas de segurança da UE. No entanto, exige uma vigilância constante. Em épocas de alterações climáticas, não nos podemos dar ao luxo de perder a corda que nos amarra ao outro, que nos amarra ao ser humano...

Venha daí 2018. Pode parecer que estamos pendurados, mas o que nos interessa é a corda que nos une.

Vida adulta

No último sábado de 2017, tivemos a sorte de o passar com amigos de sempre. Amigos da minha cidade, de Évora, aqui, na cidade onde vivemos em família, Badajoz. 

Definir amizade é coisa para livros e postais de aniversário, tão profundos quanto banais. Para mim, o amigo é aquele que caminha em paralelo, o qual a tua visão periférica te permite ver sempre e existe numa sintonia contigo. Assim são o Cajó e a Elsa. Tenho orgulho das amizades da infância e da adolescência terem passado a fronteira comigo. É um privilégio acessível a poucos.

Porém, este tipo de nota, de gratidão, é algo repetitivo de neste diário. Não é que isso me traga qualquer problema de estilo ou consciência, mas o que me levou a anotar o que hoje vivi, foi um comentário do meu amigo acerca da minha vida de adulto. Segundo ele, e dou-lhe razão apesar de nunca ter pensado nisso, a maior parte da minha vida adulta já foi passada em Espanha. 

A minha vida adulta é aquilo que se tornou visível para a sociedade. O trabalho, o casamento, os filhos, a casa comprada/alugada, os bens-materiais, os projectos, o que vou escrevendo e sendo lido, até, quem sabe, uma certa atitude consciente de cidadania, são elementos comuns entre todos aos quais se  me atribui esse estatuto de adulto. 

Mas eu, talvez por cansaço, só me apetece que este 2017 que amanhã finda não seja coisa de adulto, tão sério e responsável. Preciso de rir. Precisamos de rir. E eu sei que este ano não me fez rir como gosto, isto é, de mim mesmo.

quarta-feira, dezembro 27, 2017

The Last Jedi

People think being remembered most for one character is a negative thing, but I don't. I never expected to be remembered for anything! - Mark Hamill

E 40 anos depois, aquele miúdo loiro de kimono ridículo de karaté, supera todos os grandes gurus da galáxia, recordando-me que «a força», radiosa e luminosa, como o azul dos seus olhos (marcados pela cicatriz dum acidente de percurso), tem tanto impacto na cultura popular como qualquer máscara ou capa negra de uma personagem com voz ofegante e distorcida.

Luke Skywalker, ou esse discreto actor chamado Mark Hamill, voltou para mostrar a todos os fãs do universo Star Wars que esta odisseia galáctica não é mais do que um autêntico conto de fadas, cujo irmão Grimm do século XX, George Lucas, levou a ser frequentemente confundido com pura ficção científica.

Mais, ou não, do mesmo, é-me indiferente. Ver mais um episódio desta saga é voltar a sentar-me como criança à frente do ecrã, sem mais pretensões que essa, ser uma criança à espera dum conto emocionante. 

Hoje, num ritual de sala de cinema, sentado ao lado do meu filho, foi muito fixe voltar a encontrar o Luke da minha infância. Enquanto a infância do meu filho se ri com os bips do BB8 e os fofinhos porgs, a minha já vai compreendendo as possíveis morais da história. Fico-me pela arrogância e prepotência daqueles que se apropriam da "força". Seja ela de que lado for.

segunda-feira, dezembro 25, 2017

Pontos de suspensão

Para alguns, não são elegantes e manifestam a falta de estilo de quem os usa. Há quem aponte que delatam o silêncio numa ideia declarada que algo há por dizer.
Há editores a brigarem por escritores pela sua presença. Teimosias, estéticas e incertezas, três pontos entre tantos sinais que regem a vida de quem escreve.
Para mim, de entre todos os sinais de pontuação, vírgulas e outros pontos em pares ou finais, não sou reticente em aceitar a ausência de fim ou o final à consideração de uma possível eternidade em suspensão...
Eis o porquê das reticências, a única forma de quem escreve deixar o texto, o futuro da ideia, à consideração do leitor.

Natal num Centro Comercial (às moscas)

Natal num Centro Comercial (às moscas)

Os motivos que me levam a estar aqui podem ser considerados de várias maneiras. Tristes é uma delas, egoístas, outra, e parvos também pode ser uma consideração para a minha presença, neste dia de Natal, num centro comercial, às moscas, mas com todas as luzes da quadra e com boa música natalícia a acompanhar-me pelas colunas do Shopping.  

Admito todos os motivos, e mais alguns que existirão e os meus olhos não reconhecem. Carrego-os comigo e não os atribuo a mais ninguém. Aceito não poder falar pela consciência dos outros, apenas pela minha. Estou aqui por opção. Nesta época do calendário (e da minha vida), estou convencido que qualquer tristeza minha, egoísmo e parvoíce das situações devem ser superadas por uma tranquilidade de espírito e uma exigência de conduta que não leve os outros a perderem tempo comigo e, consequentemente, eu a perder tempo com eles.

É justo. A minha família nuclear entende-o e respeita-o. A família acessória, tal como os acessórios que vou dispensando na vida, continua como tal, acessória. Não a ostento, não me adorno com ela, nem lhes exijo outro estatuto para além do figurativo. Sei que eles estão conformes com estas circunstâncias. Reconheço não ser grande coisa para os acompanhar e ser um chato, um desses, nada interessantes, com tendências a emocionar-se com a inutilidade que, perfeitamente, rima com futilidade.

Por isso estou aqui. Um bocado envergonhado por trazer o lanchinho na mochila e ser visto pelas câmaras de segurança. Pensarão em mais um pobre desgraçado sem afectos, sem ninguém com quem partilhar o almoço no dia de Natal.

Uma vez mais, aqui se revela a minha parvoíce. Tendo a analisar a minha vida segundo as vidas ao magote e segundo aquilo que se quer socialmente transparecer. É difícil não o fazer.

Tal como é difícil viver sem se fazerem fretes. É algo imposto por educação. Faço alguns sem grandes problemas e hei-de fazer muitos mais se a vida assim mo permitir, há até alguns que considero uma espécie de caridade. Porém, parece-me que a idade começa a ser selectiva em relação a muitas imposições. Não por sabedoria, como muitos dizem, mas por biologia. Quando se é mais jovem tem-se corpo e estômago para tudo e eu já sinto um certo reumatismo em relação ao frio de certas relações humanas.

Isso leva-me a estar aqui, abrigado num centro comercial, com tudo fechado com excepção do cinema – à espera de abrir a bilheteira para poder ir ver mais um episódio da minha telenovela galáctica favorita. Entram e saem famílias à procura de restaurantes abertos e acerca-se-me a senhora da limpeza a dizer-me:

- Você é que está bem! Aqui ninguém o chateia!

Estabeleço diálogo com alguém que provavelmente até quereria estar em casa com os seus e pergunto-lhe se na mesa onde estou sentado incomodo o seu trabalho. Diz-me que não, original, com o seu cabelo tingido de azul. E continuou, escova na mão, a limpar os abajures que iluminam a zona de restauração deserta.

Tal como a sandocha envergonhada, escondida na mochila, envergonhei-me de lhe confirmar o meu bem-estar. Estou muito bem, em paz com o dia de Natal e comigo mesmo. Envergonhei-me porque milhões de pessoas nem sequer têm de fazer fretes. São, simplesmente, obrigadas a aguentarem abusos do patrão, da família, da sociedade e não se lhes reconhece o direito ao descanso, à família ou à paz da solidão por opção.

Tenho sorte. Muita sorte. Opto por não passar este dia com aqueles que a mudança de estado civil me impôs, com a compreensão de quem amo. Esta opção não tem o mais mínimo rancor, apesar do passado o reconhecer e não o esconder. Esta opção foi tomada ao abrigo de uma vivência baseada no amor-próprio. Para que os outros estejam bem, eu tenho de estar bem.

domingo, dezembro 24, 2017

Excerto de "A vida recém-nascida" de José Tolentino Mendonça in "O pequeno caminho das grandes perguntas", p.59

O Natal torna-nos cúmplices da fé no nascer. Pede-nos para acreditarmos na potencialidade que tem a vida frágil, a vida extrema, a vida na sua condição mais pequena. Desafia-nos a dar valor àquilo que apenas surge: ao rebento e não apenas à flor, à aurora esboçada e não unicamente ao esclarecedor meio-dia, àquilo que é murmurado, insinuado apenas...

Esse investimento de confiança é uma alavanca para a nossa transformação e para a reconfiguração do mundo. O Natal deve empestar-nos do perfume da vida recém-nascida.

José Tolentino Mendonça, in "O pequeno caminho das grandes perguntas", p. 59

sábado, dezembro 23, 2017

"Circunvalação" - Luis Leal


"As Cidades Invisíveis" - Luis Leal (in revista "Mais Alentejo", nº140, p. 86)


Plasencia, Cáceres, Mérida, Badajoz... terão a visibilidade que merecem em Portugal? Creio que não. Nesta época de tantos presentes e desejos, desejo-vos mais do que o óbvio (saúde, amor, etc.). Desejo-vos curiosidade. A curiosidade não mata gatos, faz com que o invisível se revele ante os olhos como oportunidade. Italo Calvino sabia-o bem. Podem começar pela Extremadura espanhola.

Plasencia, Cáceres, Mérida, Badajoz...  ¿tienen la visibilidad que se merecen en Portugal? Creo que no. En esta época de tantos regalos y deseos, os deseo más que el obvio (salud, amor, etc.). Os deseo curiosidad. La curiosidad no mata gatos, hace con que el invisible se revele delante de los ojos como oportunidad. Italo Calvino lo sabía bien. Podéis empezar por Extremadura.


Se fosse religioso... (23/XII/2017)

Se fosse religioso, estaria em falta com a minha religião. Deveria de confessar humildemente o tempo longe do templo de devoção, quando comparado com tempo dedicado à oração em forma de lista de compras.
Os supermercados, os centros comerciais, escrevo-o sem nenhum moralismo ou atitude de superioridade intelectual, são os templos que o século XX ergueu para exercermos a nossa devoção monoteísta ao deus dinheiro que aceita o culto de todos os credos, até ao clube dos agnósticos e faz descontos aos usuários do cartão de ateu. 
Eu sou um deles. De carrinho cheio de intenções de consoada e umas quantas coisas que não me servem para nada. 
Escrevo esta nota com a mala do carro cheia de compras, chateado porque tenho o elevador do prédio estragado, e a pensar que o capitalismo se nos revela de tantas formas (há algo de experiência religiosa nisso, se pensarmos bem), neste caso através dos hábitos do dia-a-dia e do urbanismo das nossas cidades.
Cada qual tem o que merece segundo o templo no qual se ajoelha. O meu acto de contrição pesa como o caraças e ainda tenho que o subir mais dois vãos de escadas...


sexta-feira, dezembro 22, 2017

As Cidades Invisíveis (in revista "Mais Alentejo" nº140)

As Cidades Invisíveis (de Luis Leal)

Nada garante que o leitor acredite em tudo o que diz o cronista ao descrever-lhe as cidades por si visitadas ao longo da fronteira, mas a verdade é que o nobre leitor continua a ler estas linhas, aumentando a esperança do cronista de despertar a sua curiosidade e não ver este papel, como diziam os velhos tipógrafos, a embrulhar o peixe do dia seguinte.

A Cidade e a Memória

Quem lá habita, habita uma cidade de memória, agradecida a Deus e aos homens. Amuralhada na entrada do sopé do vale do Jerte, Plasencia detém o caminhar do peregrino da Via da Prata e viu-se disputada entre cristãos e muçulmanos, castelhanos e leoneses, e até portugueses. Partindo-se dali, para norte, espera-nos a douta Salamanca e, se a academia nos falha, que nos valha o misticismo de Ávila. A história lê-se nos anais, nos relatos de antanho, no entanto, o cronista, ali, viu cerejeiras em flor e meditou sobre o destino nos versos de poetas placentinos cujo vento soprou pela península. Sendo de fora, pensou entender como se pode viver numa cidade sujeita ao vaivém do vento. E da memória.

A Cidade Monumental

Se quiser acreditar, muito bem. Cidade subtilmente a sul de Plasencia, Cáceres, capital de província, remonta a sua vocação administrativa à sua fundação romana de “Norba Caesarina”. Igualmente alinhada com a Via, comercial e espiritual, da Prata, os visigodos não quiseram saber de burocracia, arrasando-a até ser outra vez posta no mapa pelos muçulmanos, como base militar, visando deter o fervor de reconquista. Tal não impediu o ímpeto de S. Jorge invadir as suas ruas, transformar mesquitas em igrejas e palácios muçulmanos em palácios cristãos. Longe da sua Capadócia natal, orgulha-se de ter domesticado o dragão e assume-se padroeiro duma verdadeira cidade monumental.

A Cidade Capital

Censura-se o cronista por nunca haver pisado o seu templo. Perdoa-se a lacuna por haver nascido na sua irmã gémea, Évora. Nas margens do Guadiana, Mérida ergue-se como capital da Extremadura. Fundada 25 anos antes do carpinteiro salvador ter vindo à terra redimir-nos dos pecados e revolucionado o calendário, “Emerita Augusta” foi a capital da Lusitânia, anos mais tarde tornada “ocidental praia Lusitana” nuns “Lusíadas” muito épicos e escassos de rigor histórico. Mas, um eborense sabe que Mérida não necessita de reverências de Portugal, pois tem Roma no sangue, tem um império que definiu o que é ser ocidental. 

A Cidade e o Desejo

Em Badajoz tudo é uma questão de luz. Os néons, os leds dos escaparates, os “outdoors” dos centros comerciais, encandeiam o primeiro olhar. Iluminam o desejo de comprar após vários quilómetros a culminarem em depósitos cheios de gasolina, sapatos novos, roupa da moda e cosmética variada a maquilhar bem-estar material de felicidade. Porém, a claridade da “Plaza Alta”, os amanheceres e os pores-do-sol que unem a Ponte de Palmas, o resplendor recatado do açude, impede outras perspectivas de serem escravas da economia da cidade, ademais de ter enamorado os passos e pedaladas diáfanas do cronista.

O mapa do caríssimo leitor será mais credível, vasto, terá cidades espalhadas e marcadas mundo fora. Terá prioridades de milhas, desejará vê-las convertidas em quilómetros de experiência de vida, contudo permita-se-lhe a recomendação destas linhas, destas cidades subjectivas, ao lado, invisíveis. A única garantia que o cronista lhe pode dar é que para um “extremeño” as cidades do Alentejo são visíveis e lhe despertam curiosidade, mais oportunidades do que abastecer o carro na gasolineira do supermercado. Escrito isto, este papel já pode embrulhar qualquer peixe que se venda no futuro.




quarta-feira, dezembro 20, 2017

O Desejo

O Desejo

O desejo não reconhece as estações,
não se oculta debaixo da roupa,
não é uma onda de temperatura, 
um vendaval de sentimentos
ou moda vendida para momentos.


O desejo habita nos corações vivos,
na circulação periférica consciente do tempo,
na idade que perde vigor mas ganha certezas.


O desejo anda de mão dada pela vida,
Passeia ao lado e tropeça a dois.
O desejo é voluntário. É a iniciativa empresarial do amor, desde um corpo real, 
duma alma despida e sincera.


O desejo é uma palavra.

Eu e tu somos desejo.
Tu e eu somos individualismo feito caminho comum.

Tu e eu somos.
Mulher. Homem. Filha. Filho. Mãe. Pai. Tudo 
o que a responsabilidade das circunstâncias
nos impôs.

Porém, 
jamais deixarei de desejar 
ver pelo horizonte dos teus cabelos, 
pelo abraço da tua pele, 
a eternidade da nossa juventude, 
o plátano cúmplice. 

O nosso desejo a habitar na Rua da Cal Branca.

(18/XII/2017)

Uma fotografia de Nigel Jonze



Nigel Jonze.





segunda-feira, dezembro 18, 2017

«Vende um dos teus pães e compra um lírio» - Li Po

La alternativa a la inercia

La alternativa a la inercia 
Es dejarnos caer, suavemente,
Disfrutando o sufriendo el absurdo recorrido.

Reseña de "Habitar", de José Antonio Santiago, in revista "El Espejo", nº9, pp.89 y 90, AEEX



Dedicatória do livro de António Ferro, "Saudades de Mim", à Sr.ª D. Sara Biscaia por parte de António Quadros e Fernanda de Castro

Dedicatória do livro de António Ferro, "Saudades de Mim", à Sr.ª D. Sara Biscaia por parte de António Quadros e Fernanda de Castro, há exactamente 60 anos. Exemplar encontrado num alfarrabista de rua, em Lisboa, há dois anos atrás. Vale o que vale, para mim vale toda a história da literatura portuguesa (e não só) do século XX.

domingo, dezembro 17, 2017

Os poetas conhecem-se pelas bicicletas... (15/XII/2017)

À chuva, lá estava a sua bicicleta.
Reconheci-a ao passar ao lado
e fiquei descansado com a visão 
do cadeado no quadro posto
não se vá a ocasionar qualquer furto.

É versado o seu dono poeta.
Amigo estimado, alado e lírico,
companheiro que nos faz mais ricos,
cuja humilde grandeza, discreta 
como todo viajante pelo mundo rodado,
mantém essa genial essência

de um homem felizmente despistado.

(Há dois anos, amigalhaço, estava a tua "pasteleira" à chuva. Fotografei-a para me meter contigo e hoje encontrei-na na feliz memória do telemóvel).



¿Adonde pertenezco? - Rentes de Carvalho

“¿Adonde pertenezco? De verdad y por entero, a ninguna parte. La tierra donde nací se me hizo extraña como un teatro, cuando estoy en ella tengo la idea de que represento un papel. La otra, donde vivo hace más de medio siglo, me da a veces la idea de un navío que se aleja y me dejó en el puerto. ¿Buscar otro fondeadero? Ni la edad me lo permite ni las amarras me lo dejarían. Porque es eso: no pertenezco, pero es muy fuerte lo que me ata.”.

in «, Cinzas e Recordações», p.56, José Rentes de Carvalho (trad. Luis Leal)



quarta-feira, dezembro 13, 2017

Diário dum presente que não se perdeu totalmente do seu passado

Metade do dia foi como sempre, a trabalhar, a tentar ensinar a língua, que os meus pais me deram à nascença, na cidade, no país, de nascimento dos meus filhos. Tudo normal. Rotina com as imprevisões da profissão, alguns momentos de tédio dos que me aturam e outros de atenção. Deixo a labuta com a sensação de dever cumprido, de responsabilidade face ao profissionalismo que nos é exigido e, no espaço laboral, fica o professor, apesar de em casa continuar o trabalho invisível daqueles que enveredam pelo ganha pão docente.

Entre o trabalho e a casa, vive o homem. Recolhe descendência e permite ao entorno vislumbrar a cara despida de mais caras necessárias à sobrevivência. A minha está desleixada, cheia de barba, acompanhada de tiques típicos dos ursos e da minha linhagem que outrora povoou as cavernas da pré-história.

À tarde, esperava-me o compromisso com o Manuel Chacón, a minha presença ao seu amável convite num dos “Miércoles Poéticos”, em português “Quartas-feiras Poéticas”. Foi uma pena a língua portuguesa ter abandonado o paganismo dos dias da semana. Mercúrio tem mais lirismo que qualquer feira enumerada pela ordem que seja. Ao Manuel une-me muito mais do que a profissão. Une-nos a raia, o ar livre, estas coisas da arte e os Pearl Jam. A amizade creio ser mais um dos elementos de união, mesmo que grande parte dela se tenha forjado pela internet. Eis um bom exemplo, para mim próprio, de que nem tudo o que prolifera na rede é nocivo ao meu tempo.

Estes “Miércoles poéticos”, nada mais do que tardes literárias dinamizadas pelo Manuel no “Colegio Diocesano San Antón” de Badajoz, fez-me pensar em tantas coisas. Uma delas, à qual já começo a estar habituado, e talvez farto, a fronteira que levo em mim. E outra, entre muitas mais, como o catolicismo está presente em muitas das linhas que escrevo e em parte do homem que vou sendo, sem necessidade de instituição, mas profundamente devoto a um templo de silêncio, a uma ideia maior do que o meu pensamento pode conceber.

Como li, há tempos, e sublinhei na autobiografia do “Boss” Springsteen, “com os anos cheguei a sentir a fadiga emocional e corporal do catolicismo”. As suas palavras expressam o que também senti e não consegui verbalizar. Optei por declarar guerra a mim mesmo, bombardear a catedral erguida no meu espírito infantil e deixar em escombros uma adolescência necessitada em acreditar numa qualquer possibilidade de atadura frente ao abismo de perfeição que toda a chavalada traz dentro de si. Porém, à medida que ia ficando mais velho, notei que, no meio de tantas ruínas, de tanto entulho, ainda restava alguma inocência do “cruzado” educado para a paz pela irmã Lídia. Ainda restavam os alicerces duma humilde capelinha de bairro.

Fale espanhol, português, ou inglês enferrujado, a minha forma de pensar, reagir e comportar-me, denota esse passado “cruzado”, essa conjuntura na qual está a origem das primeiras coisas que escrevi.  

Hoje, no “Colegio Diocesano San Antón” falei de “Fronteiras da literatura e de Literatura de fronteiras”. E houve jovens a ouvirem-me com atenção. E houve iniciativa própria. E houve uma das mais belas declamações que um poema meu poderá conhecer por parte dum rapaz já a resistir no trabalhoso universo das letras.

E houve um Luis que assumiu há muito que deixara de enganar-se. Um Luis que, mesmo sem saber no que, ou em quem, acreditar, assume que um católico o é para sempre.

Mais sobre este dia, melhor, sobre esta tarde escreverei. Mas neste exacto momento, nesta secretária onde assento o computador, tenho a certeza que partilho algo com alguém.


quinta-feira, dezembro 07, 2017

Carregado, malestacionado e sem bateria...

«Gotas» (autor desconhecido)

Henrique Jorge (Santa Cruz, 19/VIII/2017)

É um lugar-comum que a família ninguém escolhe, os amigos sim, mas é verdade e isso converteu-a num tópico recorrente.

O sangue não nos une, apesar de partilharmos família, contudo desde a minha adolescência que, num escasso leque de primos, poderia dizer primas, genealógicos, o considero o meu primo mais velho. Ainda por cima desses que tinha curiosidade por mim, um puto patego, e com quem, desde sempre partilhou o prazer de conversar.

O Henrique (para mim sempre foi, e sempre há-de ser, o Jorge, como o chamava o nosso tio António) pode ser adjectivado de várias maneiras. Sem pensar muito, diria brilhante. Mas isso é pouco e juntar-lhe-ia brilhante outra vez. O lado humano nem para aqui é chamado, porque é tão bom, e próximo do outro, que deixo isso lá para as velhotas de Vale do Pereiro.

Até hoje, nunca pensei nisto de forma a exteriorizá-lo. Aproveito o momento em palavras e converto-o numa entrada neste diário. O Henrique Jorge é uma das pessoas, e eu conheço, lidei e lido com muitas, que mais me estimulou e respeitou intelectualmente desde tenra idade. Assim são os mestres, apesar dele não se sentir e assumir assim, ficar-se-á pelo gosto de conversar com os putos. Ainda bem.

Dono do seu tempo, como bom matemático que é, leva um narrador dentro, desses bem dispostos e irónicos,  é artesão de aforismo, e relembra um sketch dos Monty Python ou ilustra uma jogada magnífica de futebol que se irá converter em pedagogia, se fizer falta, ou em deleite filosófico a oscilar entre os polos positivos e negativos da utilidade.

Quando nos vemos, no Natal e no Verão, é pena os ponteiros do relógio regerem-se pelo tempo do mecanismo e não pararem um bocadinho essa lógica acumuladora e cartesiana. Para se conversar precisa-se parar um pouco neste tempo moderno e entrar nessa lógica improdutiva para o lucro económico, pois as boas conversas sucedem-se porque sim. Já está. Dialogar por prazer é assim, uma mistura de sucessões de ideias ao relantim. 

Conversar com ele é apreciar o acto em si. Admirar o outro sem genuflexões intelectuais e sentir que há muito que aprender com uma boa conversa, com a atenção ao outro ser humano. Pode ser que um guru qualquer do youtube responda aos seus seguidores, mas nunca será o mesmo que dois dedos de bom paleio, muito menos com o Henrique Jorge.

  

quarta-feira, dezembro 06, 2017

Reflexões inúteis

Durante os últimos dias, têm-me passado pela cabeça diversos pensamentos e reflexões de teor condicional, dessas que sempre começam por se. Se isto, se aquilo, se aqueloutro. É verdade que a maior parte do que me passou pela cabeça tinha a ver com o fim da vida do meu avô.

Se a sua mãe não tivesse morrido tão cedo? Se ele tivesse ido à escola? Se ele soubesse escrever? Se ele tivesse tido as mesmas oportunidades que eu tive? Se ele tivesse ficado em casa e não tivesse ido caçar no dia em que teve o AVC? Se não tivesse sofrido tanto tempo?

Obtenho duas respostas. A primeira, não teria sido o homem que foi. A segunda, és um idiota a perder o pensamento para a inutilidade do modo condicional, quando este é coisa do passado. 

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Crónica do enterro do meu avô e da profunda admiração que tenho pelo meu pai

Enterro o meu avô e admiro o meu pai. Os dois homens mais presentes na minha vida. Um sogro e um genro, em nada diferente dum pai e dum filho. Admiro-os. São especiais e invulgares de tão diferentes entre eles. Neles vi como a estima e o respeito forjam uniões sem biologia comum.

Um viveu como os pássaros. Voou por onde quis e fez ninho numa árvore acolhedora. O outro não conheceu a proteção da asa, como dita a natureza materna. Cresceu órfão de carinho enraizante como o que lançou no lar que construiu entre as ruínas da casa da sua infância.

O meu avô e o meu pai são o belo labirinto de flores e ruínas que frequentemente percorro dentro de mim. Não encontro a saída, porém sei não estar perdido.

Hoje, ao enterrar o meu avô e a admirar o meu pai, por mais luz e transparência que os meus olhos tenham, por mais alegria resplandeçam os meus gestos, o meu pai é o melhor de mim. Com todas as inseguranças que a vida lhe tenha dado, é melhor do que eu. Escrevo-o neste diário porque assim lho devo, com uma gratidão a correr-me nas veias, igual à gratidão com que se despediu do pai da sua mulher, a minha mãe.

O meu pai é melhor do que eu porque estava disposto a acolher, na última morada dos seus pais, a memória do seu sogro. Dar-lhe o último abrigo no que lhe resta da casa dos pais. Tal assim não foi pois existem protocolos a seguir e o corpo da minha avó paterna não reside há tempo suficiente para se reabrir o tampo da campa a um novo inquilino.

É por isso que, aquele que outrora foi o meu avô João Leal, jaz em terreno alugado a prazo. Apenas o período suficiente para a matéria se tornar pó. No fundo, algo análogo ao que somos em vida, com a ressalva de sermos matéria orgânica ainda com tempo, a outra já expirou.

Contudo, a gratidão do meu pai, o discreto Hipólito Pinto, esse a quem reconheço ser melhor ser humano do que eu, ficou-me numa retina insegura de paraíso, mas profundamente crente numa qualquer eternidade destas coisas que se sentem e são completamente impossíveis de deixar como crónica.






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