terça-feira, junho 27, 2017

Angústia adormecida

Estava cansado. Há dias que durmo a correr, depressa. Acordo cansado e o primeiro pensamento é quando poderei dormir outra vez. Se encontro uma resposta mental distante do final do dia, há uma sensação de consolo. Pouca vezes acontece e entro no remédio da rotina.
Estava cansado. Mas não dormi à pressa. Dormi descansado até que o sono, pesado de tantos dias acumulados, começou a sonhar angústias de pai ainda filho e neto. 
Despedidas. Ritmo cardíaco acelerado. Perguntas sem resposta. Saudades que não deveriam existir. A vida real projectada num inconsciente dum homem que não consegue deixar de querer ter fé nos olhos herdados da infância.

«Saudades de mim» é um livro tardio de António Ferro. O polémico homem da política do espírito do Estado Novo não é um poeta de referência para mim, ao contrário da sua personalidade fascinante, e aqui o tenho na mão, lido, estudado. Debruço-me sobre o título e acabo por reconhecer neste saudosismo algo de mim também.
Amanhã comerei as minhas palavras. Esquecerei noites de subconsciente incontrolável, angústias das minhas circunstâncias de homem de fronteira e negarei a saudade com medo da sua existência. Uma coisa só existe se a aceitarmos.

Infância moderna (Pedro Leite)








Que, um problema relativo

Que, um problema relativo de escrita. É verdade da qual estou consciente há muito e sem ter tido grandes conselhos de redacção criativa. Ao contrário de mim, os grandes escritores, os do panteão e os anónimos, não abusam da primeira pessoa do singular e não recorrem com demasiada frequência ao pronome relativo que.
Que esta seja a nota de hoje, não é de estranhar. Decidi abandonar o espanhol como língua da primeira pessoa, uso-o apenas como idioma do dia-a-dia e com peso de oralidade em casa, na rua e em grande parte do meu trabalho. Desde a publicação do [33] que decidi centrar-me na língua materna ao invés de investir a pena na língua do país de acolhimento. Não é um abandono convicto, voltarei se assim o sentir, também porque o espanhol cada vez mais está presente no meu português, algo extrapolável ao meu ser e estar. No caso da língua usada para escrever, nota-se num predomínio conjuntivo, com recurso aos pronomes relativos, e num certo desuso do infinito pessoal típico do português. Não é que me preocupe demasiado com estilística, apesar duma vez ter contado os «ques» duma crónica dum referente literário, mas, como o meu pai sempre diz, há que ter brio. A palavra merece atenção, a sinceridade relativa de quem a escreve, portanto merece ser revista sempre que possível.
Ultimamente apenas lhe tenho dedicado a sinceridade, o brio vai-se ficando pelo arquivo, onde, qualquer dia, alguém o possa rever.

sábado, junho 24, 2017

Córdoba de encontros (e reencontros)

Pensava vir a Córdoba encontrar-me com Góngora, com as lições de cultismo que me levaram (insipidamente) a conhecer o barroco espanhol e o seu «siglo de oro». Já fiz os deveres e, num alfarrabista de sonho, levo uma breve antologia do mais célebre poeta e peculiar sacerdote cordobês. No entanto, à beira do Guadalquivir, num dos pilares de uma ponte vejo um graffiti, pouco elaborado de arte pictórica, que me fez pensar: «Sin poesía no hay ciudad».
Será a poesia o ordenamento territorial necessário à subsistência da cidade? Um motor de desenvolvimento económico, tipo indústria do espírito? O que seria das cidades sem os seus poetas? Como seria Córdoba sem Góngora? Continuei a andar e à senhora que vendia águas e cervejas junto à ponte romana voou-lhe a tampa da geleira onde guardava o fresco das bebidas dum final de tarde a escaldar quase aos 40°c. Exclamou baixinho, impotente, a olhar para a tampa a navegar no rio da cidade: «tu puta madre».
Deixei de divagar sobre versos a alicerçarem urbes e tive pena de ver o sustento da vendedora de cerveja e água fresca ir, literalmente, água a baixo.
Acabei por refrescar-me junto à estátua de Averroes, sentado nuns degraus a partilharmos umas «granizadas» em família. O intelecto activo caracteriza a forma como vivo as cidades, os passos dados em caminhos desconhecedores das minhas rotinas, porém luto com convicção e, por vezes desilusão, de querer sentir a passividade da inteligência, aquela que, este médico e filósofo devoto de Aristóteles, me ensinou encontrar-se unida à alma humana, a única coisa que me parece possível conceber como divina e eterna...
Afinal, pensava vir a Córdoba encontrar-me com Góngora, mas quem reencontrei foi o meu velho mestre muçulmano.

Encinarejo, a horta de Córdoba

Por aqui dizem-me que estou na segunda zona mais fértil do mundo, depois das margens do Nilo. É uma boa forma de divulgar este «pueblo» de 2000 habitantes da bacia hidrográfica do Guadalquivir e o primeiro de «colonización» nos anos 50 com a reforma agrária franquista.
Andei a tocar a terra com as mãos, a comer pêras directamente da árvore, a ver como subsiste esta região tão quente como a minha à qual chamam «a horta de Córdoba».
Aqui entre aromáticas, aloé vera, flores, viveiros de oliveiras, verduras e frutas da temporada, dou por mim a falar húmus real, de minhoca, de fertilizante agrícola e não de literatura, do «Húmus» do Raúl Brandão que conheci graças ao Sr. Edmundo, o motorista bibliófilo da carrinha do Centro de Dia, numa das épocas mais férteis da minha existência.
A fertilidade dos nossos dias depende de tantas misturas, de dosagens pessoais, e da matéria orgânica da qualidade das vidas que os povoam. Gostava de ser como as margens deste rio, fértil de vidas orgulhosas de trabalhar aquele solo... 
(Não tenho a modernidade de Brandão e já aceitei o Gabiru sem filosofia nenhuma.).

sexta-feira, junho 23, 2017

Fita-Cola

Se o mundo se arranjasse com fita-cola, o meu filho mais velho seria um grande estadista com remédio para tudo. É incrível a fita adesiva que esta alma gasta! Desde muito pequeno, sabe usar esta invenção de escritório e usa-a para tudo, papéis, livros, brinquedos, palitos, etc.
«Papá, ¿puedo usar el tesa film?». Não sou capaz de dizer muitas vezes não e lá vão rolos gastando-se à medida do seu crescimento. Haverá um dia em que descobrirá a ineficácia da fita-cola, que o que está partido partido fica, porém até chegar esse dia vai desenrascando-se com material de papelaria. Se o seu coração for de papelão a sua infância poderá remediar qualquer coisa. Tesoura na mão, um bocadinho de fita cola estes momentos na nossa memória antes de se converterem em fragmentos do futuro.

quinta-feira, junho 22, 2017

O vilão que lia García Lorca

Uma boa história pode ser tão má que fico a adorá-la. Um mau actor pode ser tão canastrão que me fica no coração. Porque é que a arte tem de ser só sublime? Não há arte pateta? Quanto mais estudo arte, mais dúvidas tenho em defini-la, catalogá-la, ainda menos hierarquizá-la.
Nos últimos dias, tenho feito a digestão do jantar tarde. Eu, que não sou de me deitar demasiado tarde, tenho ido para a cama depois da uma e com um ou dois filmes vistos. Para o critério cinéfilo só tenho visto série b, talvez mesmo z, ou, simplesmente, merda. Mas para um escatológico o dejecto é resultado da vida. Só caga quem está vivo e nestes últimos serões as interpretações foram o menos importante, as histórias agradavelmente previsíveis, mas a porradaria épica!
Ainda hoje estava a divagar sobre o tanto que aprendi graças a ter sido um fã do Bruce Lee, de como, para além de Wing Chun ou métodos de Jet Kune Do, fiquei curioso com filosofia oriental e com a sua própria filosofia. Lee era mais que um pontapé rápido, era um mestre de aforismos cuja figura ganhou a imortalidade porque a sua vida merece a pena ser recordada.
O Sylvester Stallone também está no rol. O Rocky é indissociável do «Italian Stalion» que começou pelo porno e se manteve erecto no meio duma indústria que já não necessita dos anabolizantes de outrora, mas que continua sem perceber que o Rambo é muito mais do que o soldado do regime Reagan.
O regime Trump terá um canastrão como o Reagan teve nos 80? É capaz, mas o género já não vinga. Talvez qualquer coisa rápida e com carros furiosos de vários milhões de dólares possa evadir as mentes dos novos cinéfilos de coca-cola e pipocas no centro comercial e em streaming.
Não sendo velha escola (totalmente), ainda vejo DVDs e vou gravando filmes na box. Streaming nunca me habituei e as internets caseiras também não ajudavam...
Tudo isto para dizer que vi uns quantos filmes maus com a felicidade de os ter visto numa tarde de Verão escaldante em que não tinha para onde ir, tal qual como quando era miúdo.
Mas a idade pesa. Já não quero ser tão bom à porrada como o Van Damme e tenho um olho apurado para o verossímil. Gosto de boas coreografias de luta mas com fundos de realidade e menos espectacularidade. O efeito «Matrix» já é estilo clássico e o MMA não é só grappling, o «pound to pound» devolveu a espectacularidade de combinações e rotativos dignas dum hipster de 70 anos chamado Chuck Norris.
No entanto, para voltar à essência do que me fez escrever esta entrada no diário, foi no filme «Undisputed III», com o Scott Adkins, em que a poesia não abandona os filmes fáceis e previsíveis com a personagem do colombiano dopado, protegido pelos vilões acima dos vilões (os vilões ao quadrado digamos), a ler a poesia de Federico García Lorca à sobra do chapéu de sol, enquanto os adversários trabalham (mas convertem-no num treino) num campo de trabalhos forçados.
Dois mundos estes. O da dureza da força da picareta e o da subtileza da poesia...

«Ninguém consegue ajudar todo o mundo, mas todo o mundo é capaz de ajudar alguém» -Anónimo, mas com muita generosidade

quarta-feira, junho 21, 2017

Ismael

O Ismael não é para mim a personagem principal do Moby Dick. Não anda embarcado no mar às ordens dum louco Capitão Ahab.
O Ismael é o professor do meu filho Santiago e, aos seis anos, é uma grande referência para ele. Eu fico muito feliz por ver o meu pequeno adorar a escola e ter em conta tudo o que o seu professor lhe ensina. Uma criança que quer aprender é um universo que se quer dar a conhecer e não o contrário, como vulgarmente pensamos.
Como pai fico-lhe grato pelo brio e profissionalismo que põe na sua profissão, só com isto já é suficiente e não lhe posso exigir a tremenda vocação que tem. Como profissional da educação revejo-me na sua atitude e tenho fé que todas as coisas boas que tentamos fazer sempre salpicam com uma espécie de água benta os que ao nosso redor por bem estão.
Amanhã termina o ano lectivo e o Santi não deve poder estar presente por o "rotavirus" chato cá de casa. Não vai poder despedir-se e desejar boas férias ao seu professor e está triste. Eu fico feliz pela sua tristeza. Vale a pena acreditar na educação, vale a pena lutar por estas crianças e, no meu caso, por tantos jovens.
Tal como o Ismael deveria sentir, assim o espero, demos o nosso melhor e demos o exemplo que há que dar, imperfeito, mas como deve de ser, consciente. Consciente que na escola somos um exemplo e temos de ser coerentes com o que predicamos. Hoje fecho a loja como docente para férias. Há alguma papelada antes de desconectar da escola. Foi duro para mim como profissional, no entanto, acompanhar o trabalho do Ismael com a turma do meu filho, ajudou-me a superá-lo.

domingo, junho 18, 2017

Bomberos extremeños a la espera de ser movilizados para ayudar a Portugal

Após acordar com a notícia do inferno em Pedrógão Grande, passámos a manhã a ouvir rádio e a tentar perceber o que aconteceu. A geografia portuguesa ardida não é novidade, é recorrente todos os Verões, mas este é o primeiro destas dimensões, com, de momento 62 mortos, vários feridos e todas as pessoas de bem afectadas.

Quem me conhece bem, sabe que tento evitar moralismos, que não domino soluções científicas de ordenamento do território nem de engenharia florestal, que não gosto de pirómanos de florestas nem de redes sociais, que a política somos todos e não apenas os outros nos quais não votamos, por isso o que quer que escreva ou opine nada vai melhorar esta tragédia ainda a deflagrar num dos distritos mais importantes no meu trajecto de vida, Leiria.

No entanto, após uma manhã a ouvir rádio portuguesa e um telejornal espanhol, espero que este dia não seja um mais para estatística anual, que se junte ao caso dos fenómenos naturais causados pelas alterações climáticas por todo o mundo. Lembram-se do furacão Kartina ou dos incêndios no Chile? Que sirva de exemplo de não ser normal ondas de calor a roçarem os 45º em pleno Junho e que se actue em consciência dos factos e não dos tweets dum Trump. 

O que virá depois da terra queimada? Podia ir pela resposta de teoria da conspiração e mencionar algum benefício para privado, mas não. Já não é isso que me preocupa. Depois da terra devastada pelo fogo, das brasas feitas cinzas, vem a violência da inundação duma água sem vegetação para ser absorvida. Quais serão as notícias no Outono? Mortos em Reguengos do Alviela? Espero que não.

A esperança vem também pela geografia, no meu caso particular, que tanto gosto de falar e escrever da “geografia dos afectos”, vem da Península (e de muitas outras partes do mundo felizmente), de Espanha, da minha Extremadura, para quem Portugal não é outro país, mas também o seu país, a sua herança lusitana com capital, para sempre, na Emérita Augusta. A minha Extremadura, pela mão do meu amigo Emilio Mateos Ortega, que escreve “Bomberos extremeños a la espera de ser movilizados para ajudar a Portugal”…

Terra Devastada (Incêndio de Pedrógão Grande)

"Tenho andado distante. Por preguiça, por necessidade de silêncio, por necessidade de mais realidade empírica que virtual. Porém o dia chegou com más notícias a passarem a fronteira. O distrito de Leiria (que também é cá de casa) arde descontrolado e a queimar vidas... O fogo do Pinhal Interior chegou ao nosso íntimo e deixou tudo devastado. Teimam algumas lágrimas, algum sal, herança, como diz o poeta, de Portugal..." in Facebook

sexta-feira, junho 16, 2017

Este sou eu a ter pena de si próprio...

Há dias em que tenho pena de mim mesmo. Dias de sentido lamecha, doridos, febris, de pouca perspectiva e cheios de miopía do que é a minha vida e as vidas por essa humanidade fora.
São dias virulentos, de rotação, como o vírus que me afecta o corpo, me sobe a temperatura e que não me aceita comida no estômago. Estes dias são ausentes do Luis saudável, afastados do optimismo trabalhado por filosofia e por resignação, são dias espectrais em que me vejo de fora, deitado na cama, com sesta suada e forçada, e me enfado por não controlar o que sinto e, como comecei esta nota, a ter pena de mim.
Tenho de permitir-me este desânimo pois sou homem e isso é legítimo para a minha condição. Tenho de permitir ver-me falível e desmotivado. Tenho de permitir o jovem activo, trintão, caminhar para a realidade física dos quarenta. Tenho de queixar-me um pouco para não cair no queixume. Tenho de dizer claramente que também necessito dumas palmadinhas nas costas como as que vou dando por brio profissional e pessoal. Tenho de reconhecer que sinto saudades do colo da minha mãe e dos braços da minha avó e mais presença de pai. Tenho de reconhecer que, apesar de pensar que sou um Super-Homem, não passo dum Clark Kent de carne e osso e alérgico a muito mais coisas que kriptonita e, ainda por cima, com a tripa fraca...
Tenho tanto para reconhecer, tantas máscaras quotidianas para tirar e ser o que sou. Pouca coisa, bastante insignificante, com sonhos e silêncio, com direito à tristeza, à falibilidade de ser, à impossibilidade de estar... Este sou eu a ter pena de mim. Não busco grande consolo, escrevo e abuso de verbos transitivos...

Cântico negro (Rui Knopfli)



CÂNTICO NEGRO

Cago na juventude e na contestação
e também me cago em Jean-Luc Godard.
Minha alma é um gabinete secreto
e murado à prova de som
e de Mao-Tsé-Tung. Pelas paredes
nem uma só gravura de Lichtenstein
ou Warhol. Nas prateleiras
entre livros bafientos e descoloridos
não encontrareis decerto os nomes
de Marcuse e Cohn-Bendit. Nebulosos
volumes de qualquer filósofo
maldito, vários poetas graves
e solenes, recrutados entre chineses
do período T´ang, isabelinos,
arcaicos, renascentistas, protonotários
– esses abundam. De pop apenas
o saltar da rolha na garrafa
de verdasco. Porque eu teimo,
recuso e não alinho. Sou só.
Não parcialmente, mas rigorosamente
Só, anomalia desértica em plena leiva.
Não entro na forma, não acerto o passo,
não submeto a dureza agreste do que escrevo
ao sabor da maioria. Prefiro as minorias.
De alguns. De poucos. De um só se necessário
for. Tenho esperança porém; um dia
compreendereis o significado profundo da minha
originalidade: I am really the Underground.

Rui Knopfli

O passo trocado
Memória consentida 20 anos de poesia 1959/1979. Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1982


 Lido em canal de poesia


 

quinta-feira, junho 15, 2017

Chamaram-me cigano e maltês...

Por acaso nunca me chamaram cigano e maltês, mas houve uns quantos adultos nos meus tempos moços que me apelidaram de má companhia a uns pais duns amigos meus pelo simples facto de já tentar pensar pela minha própria cabeça. Na época sofri a fama e senti um certo ostracismo e, como qualquer adolescente a querer afirmar a sua personalidade perante o mundo, passei um mau bocado, principalmente porque vivi estes momentos no seio duma comunidade católica que predicava de forma muito peculiar a doutrina do JC. Neste caso, a falta de cultura, de bom-senso, até mesmo alguma inveja pessoal (triste sentimento de difícil entendimento hoje, imagine-se então), estavam na base desta visão deturpada da minha jovem pessoa por parte desses adultos, cujas vidas dos filhos preenchiam os vazios pessoais das mesmas.
O tempo encarrega-se de pôr tudo no sítio e esta má companhia continua a tentar pensar pela sua própria cabeça, ciente que deve estimular o mesmo na cabeça dos seus filhos e fazer o mesmo como profissional da educação. Valeu a pena ter sofrido essas falsas acusações, deram-me a resistência em forma de iniciativa e quem valia a pena conservar como adulto não foi em conversas de outros ditos adultos que necessitam denegrir adolescentes para sobressair virtudes que nem eles nem os seus descendentes têm.
A minha mãe não soube ver os sinais do que se passava então. Obrigou-me a frequentar locais, cerimónias e instituições que, graças à sua distracção, passei a odiar mas com as quais, rapidamente, fiz as pazes. Infelizmente, o meu pai pouco voto teve na matéria e não se opôs à sentença materna. Só não me converti num rebelde sem causa, a pinta de James Dean até já tinha estado na moda com o Beverly Hills 90210, porque os alicerces de leal eram fortes e tinha vida para além da paróquia de Nossa Senhora da Saúde.
Não tinha nenhuma intenção de relembrar esta vivência, não é nenhum trauma, mas ao ensinar hoje os versos da canção «Chamaram-me cigano» do Zeca aos meus filhos, lembrei-me que outrora fora má companhia, um maltês. Talvez ainda o seja como adulto e não seja boa rês para uns quantos Dons Fulanos Marqueses. Ao contrário de há decadas, não passo nenhum mau bocado com isso, pois «limpei a viseira, agarrei no arpão, mas tive o diabo na mão».

Una postal de Sicilia

"Querido hijo,

Quizás hoy no lo entiendas, pero recuerda que «navegar es preciso, vivir no es preciso». Siempre que puedas viaja. Dile a tu hermano...

De papá, que te quiere..."

terça-feira, junho 13, 2017

A democracia é também permitir a ideias contrárias às minhas poderem expressar-se e representar-se no colectivo.

A democracia é também permitir a ideias contrárias às minhas poderem expressar-se e representar-se no colectivo. Sou laico. Se um dia quiser que os meus filhos tenham uma educação religiosa levá-los-ei ao local adequado, não à escola, no entanto não sou capaz de entender porque motivo se veta a opinião e voto à minha colega de religião no seio dos diversos departamento escolares. É-me indiferente quem a contrata, se o arcebispo, a junta, a direcção. É fora da comunidade educativa que se luta por o laicismo e contra a influências dos lobbies que sejam e quero que tenha o direito a poder votar como qualquer um dos meus colegas que, na teoria, representam os seus pares de disciplina no âmbito duma comissão pedagógica, algo que, no fundo, não passa de um grupo de trabalhadores a representarem outros. 
Veta-se-lhe o voto em nome da lei educativa, esse é o argumento contextualizado. E a lei do bom senso? A lei do dia-a-dia, da pessoa que vai mais além do sistema? É nestas incongruências que a democracia perde para os extremismos. No caso em questão apenas ultrapassa a falta de educação e companheirismo, porém noutras latitudes leva ao germinar de ódios que não se acalmam com palavras, nem com tolerância.
Serei criticado por, ao defender o direito de intervenção desta colega de religião, de não ser verdadeiramente laico. Vivo bem com isso. Não vivo bem é entre colegas que pensam ter mais direitos interventivos graças a um qualquer vínculo administrativo. Enquanto o sistema educativo permitir a presença desta colega entre nós, e não somente na paróquia (onde creio que deveria de estar o adoutrinamento religioso), deve poder pronunciar-se como qualquer um de nós, com voz e voto. 

Robert Vickrey - Bicycles and Ricky








segunda-feira, junho 12, 2017

«Si quieres buenas sementeras por San Mateo siembra las primeras»

Onda de calor em Junho

Ainda nem chegou o Verão ao calendário e já dormi umas quantas noites tropicais. O calor é um dos substantivos mais usados e escritos por mim desde que me tornei pacense de residência. Não gosto deste calor, sofro com ele, mas não tenho outro remédio que aclimatar-me e rir-me dele com as típicas piadas de whatsapp como «cariño dime algo caliente: Badajoz» ou o Darth Vader a seduzir-nos para o lado negro da força com o argumento de que têm sombra. Assim vivo eu há uns anitos refém do ar condicionado, da sombra e sempre a querer refugiar-me em locais mais frescos. Évora criou-me habituado ao calor, Leiria e Valencia de Alcántara sempre me exigiram um casaco pelos ombros nos serões de Verão, mas Badajoz, nem com o Guadiana aqui a correr, desfaz-me em suor durante mais de dois meses. É o que há e já está, resumindo a minha resignação climatológica. Porém, começo a sentir o cansaço e a sede da terra. Não gosto de extremos em nada e em questões de clima o meu corpo começa a dar sinais de necessitar descansar mais com o termostato a temperaturas que não sejam febris...

sábado, junho 10, 2017

10 de Junho

Portugal e o seu dia, Portugal e o seu poeta, Portugal e as suas comunidades. Portugal aqui ao lado, Portugal país onde nasci, Portugal na língua que escrevo, Portugal irmão de quem me adoptou. Sentir Portugal não é difícil, até mesmo para quem não é português, mas o meu Portugal está num quintal duma tarde de Junho, de calor refrescado por uma mini Sagres, em que me sento, com quem me criei, a ver os nossos filhos a brincarem sem dia de Portugal, nem preocupações de país que não seja o da sua infância.

A minha infância não está longe do bairro de Almeirim onde queríamos ir a pé comprar caracóis. Estava fechado. O César, feliz, como nos deixa feliz vê-lo, foi ao «Rei dos Caracóis», à minha Senhora da Saúde, de propósito para palitarmos este final de tarde na casa do nosso «piquinino» Gonçalo de sempre. O passeio pelo bairro levou-nos aos despojos de alguém espalhados pela rua. Restos de electrodomésticos, uma grelha de churrasco reaproveitada pelo Cajó, de cadernos e vários livros por mim recolhidos do ostracismo literário que jazia no chão. Vários títulos de leitura obrigatória, forçada pelo sistema educativo, do qual um título é igual ao meu dia, «A Relíquia». A minha relíquia não é a obra de Eça de Queirós por mim resgatada, é o facto de há mais de 20 anos o nosso passado continuar saudável e com os nossos filhos a darem à nossa juventude uma perspectiva de futuro.

Planta que cura...

Dentro dum pequeno vaso levei uma planta a uma colega de trabalho, no inicio desta semana. Com a picareta recolhi um pouco de terra dura, seca pelo clima alterado, mas fértil. Acomodei-a junto à raíz e dei-lhe uma pinguinha de água, apesar dos manuais de plantação não o recomendarem, reguei-a por solidariedade de saber que a sede extrema é das piores sensações que o corpo e a alma podem ter.
Preparei tudo com o gosto de partilhar uma coisa boa e com potencial curativo. Aprendi-o da minha mulher, de como a medicina da natureza nos ajuda a não esquecer a saúde e o passado, e cada vez tenho mais curiosidade sobre esta planta que sobrevive com tão pouco e que cura tanto, cuida tanto. Conheço pessoas assim, como o aloé vera, discretas de beleza, com picos que não picam, adaptadas às circunstâncias duras do seu substrato, mas que não negam uma folha curativa a quem dela precisa. Essa gente, como este cacto, vão buscar força à terra e são imunes a quase tudo, pegam em todo tipo de solo, escaldam ao sol desértico, adoptam a forma do vento dominante, mas morrem por falta de agasalho, de reconhecimento, de esquecimento que até a malta rija morre de frio se o sangue, a seiva, se congela coberta por geadas negras.
Os cravos sempre me impressionaram. São sonhadores e florescem no meu jardim por terem sido plantados pelos meus pais. Sei que eles gostariam de ver mais cores, mais flores formosas, vistosas ao olho, e menos ervas para roçar, carrascos a rebentar, amêndoas rústicas a florirem em linha com tantos aloé veras. O meu jardim, cada vez menos secreto, não se resume ao contemplar, nele muitas das minhas feridas posso curar...

quinta-feira, junho 08, 2017

Alegre

Na política deu-me o sonho de quase ser realidade ter um presidente poeta, mas na literatura trouxe um canto combativo que é a sua principal arma.
Não sendo um poeta de cabeceira, pois da política perdi-lhe o rasto, Manuel Alegre escreve para o meu agrado e a sua voz tem o mesmo efeito radiofónico de liberdade que difundia na Rádio Argel. Por isso, e apesar de não lhe fazer muita falta o prémio, não me produz mal-estar a atribuição do prémio Camões ao seu percurso literário tão parecido a uma gaveta, um armário cheio recordações do antes e do depois da mais importante Primavera dos últimos 60 anos, essa estação florida a vermelho cravo em Abril de 1974. Aos 81 anos, Alegre é ainda o nosso poeta político e ambas facetas fazem-nos falta. A primeira ao ser e a segunda à cidadania.
Quando se atribue este prémio anualmente, penso sempre em quem lhe dá nome, Camões. Ponho-me na sua pele, na sua perspectiva zarolha e imagino o que é que o poeta pensaria. Triste de certeza não estaria.

Orlando Pedroso - "Claro que eu minto..."







terça-feira, junho 06, 2017

John Gutmann. Kids Reading Comics. San Francisco. 1938

Arrepender-se numa era de estupidez

Arrepender-se é de corajosos ou de cobardes? Reconhecer remorsos é nobreza de espírito ou vil forma de se sentir?
Não o pergunto com algum tipo de arrependimento ou remorso que seja. Pergunto-o porque uma das formas de vida que adoptei, e a vida assim mo tem permitido, é viver para não me arrepender de ter vivido. Como disse Borges, tento ter «mais problemas reais e menos imaginários». Dá um bom mantra e ajuda-me neste momento de cansaço em que escrevo roubando tempo ao descanso e imerso no pânico colectivo de atentados no Reino Unido e noutras partes do mundo mais anónimas e menos mediatizadas.
Mais do que remorsos, muita gente deve pensar como eu estou a sentir, um distanciamento, uma incredulidade, uma insensibilidade que nos torna indiferentes à realidade em massa transmitida pelos media. 
Quem não tem acesso à informação porque é manipulado pelo poder sofre a ausência de liberdade, porém quem tem acesso a informação manipulada sofre de igual privação. Ultimamente, tenho sentido demasiada manipulação e vejo que o mundo não se arrepende. Mundo corajoso ou cobarde? Nem um, nem outro. Um mundo apenas, um tanto ou quanto, estúpido. Terroristas da tanga e Trumps de trampa imperam nesta era de estupidez que já está a gerar muitos remorsos...

domingo, junho 04, 2017

«Alguns gostam de poesia» - SZYMBORSKA,Wisława

Alguns gostam de poesia

Alguns -
ou seja nem todos.
Nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
Sem contar a escola onde é obrigatório
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.

Gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xale velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.

De poesia -
mas o que é isso, poesia.
Muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
Pois eu não sei e não sei e me agarro a isso
como a uma tábua de salvação.

SZYMBORSKA,Wisława. Poemas. Trad. de Regina Prazybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 

¿Qué es el éxito? - Ralph Waldo Emerson

sexta-feira, junho 02, 2017

Fugir ao destino

Fugi ao destino de quarta geração de caminho de ferro. Bisavô, avô e pai, eu seria o quarto.
Porque é que fugi? Não sei e nem os meus antepassados me poderiam alinhar as agulhas desta linha de vida.
Creio que o caminho de ferro existirá na minha infância enquanto conseguir ouvir o apito do comboio em frente à minha casa no bairro, enquanto puder abraçar a roupa do trabalho do meu pai e ele me deixar acelerar a automotora para Casa Branca sentado no seu joelho. 
O Leal impôs-se ao Pinto por circunstâncias administrativas e de aliteração. Apenas isso. As minhas veias são linhas que me unem ao meu pai, ao meu avô Ventura e ao seu pai. São de ferro, como o destino da sua profissão, e são inquebráveis...
Volto à pergunta inicial, porque é que fugi? Pensando bem, nem sequer se trata de fugir. Há muitas maneiras de se seguir o caminho férreo da vida. Pode ser a construí-lo, a cuidar das suas agulhas, a conduzir na sua bitola ibérica, como o meu bisavô, avô e pai, respectivamente, ou como eu, a escrever o que sinto, com medo que no futuro o único ferro que tenho nas veias seja por ingestão e não por herança patrimonial...

Essa negra Fulô (Jorge de Lima)



Essa negra Fulô

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

"Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu que nem a negra Fulô).

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!


Jorge de Lima  (1893 – 1953)





quinta-feira, junho 01, 2017

"O mais difícil de ser professor é não ser só professor"

Para a minha Martita. 

Um dos grandes objectivos de quem ensina é que lhe prestem atenção. Tenho tido o privilégio de alguns alunos me dedicarem alguma como foi o caso da Marta Pirón Bruno, hoje ex-aluna com estatuto de amiga, que apontou esta minha frase, talvez mais de desabafo do que filosofia...
Muito obrigado Marta. A tua atenção ajuda-me muito a não ser só professor... Se a vida te enveredar por esta profissão, a vocação já a tens e a formação, como quase tudo na vida, é contínua. Não deixes de tirar apontamentos, eu não me canso de anotar coisas e tenho muito orgulho em poder ter-te nos meus apontamentos. Primeiro como jovem aluna com vontade de deixar este mundo melhor e, agora, como jovem profissional a ajudar outros a acreditarem que vale a pena continuar a acreditar. 

(Tenho um desejo profissional para ti de realização, ajuda nesta parte das nossas vidas, mas, se o futuro for docente, gostaria muito que fosses professora dos meus filhos. Estariam em boas mãos. Mãos abertas e com fé no futuro.).

Eu cá não sou supersticioso, mas, pelo sim, pelo não, deixa-me lá usar o meu amuleto da sorte...

Ter superstições não é algo que me caracterize facilmente, mas sou um pouco como a canção dos Heróis do Mar, "eu cá não sou supersticioso, mas o pai dela dá-me azar". Tampouco me reconheço demasiado supersticioso, desses dos gatos pretos, escadas abertas, ou horóscopo consultado diariamente, no entanto tenho as minhas manias, algumas partilhadas com a Elsa, outras herdadas dos meus pais e dos meus avós. Vou tentar enumerar umas quantas e analisar-me enquanto me escrevo.
Não conto os sonhos antes de comer qualquer coisa de manhã. Gosto de arrumar os chinelos ao fundo da cama. Respeito o pão e não o ponho de cabeça para baixo na mesa. Evito abrir guarda-chuvas dentro de casa. Não digo a frase «cheira a terra molhada». Ponho a decoração de elefantes de cu virado para a porta e tenho uma tacinha de sal que reponho para limpar o ambiente energético cá de casa.
Estas são algumas das minhas pancas, todas herdadas e adaptadas às minhas vivências. Na verdade, só tenho uma superstição inventada por mim. Tem por base um objecto de afecto convertido em amuleto de coragem, a navalha do meu avô João, gravada na Suiça por um dos seus amigalhaços da caça. Sempre disse que seria para mim e já me acompanhou e deu segurança em momentos em que qualquer das minhas navalhas não o fariam. Muitos desses momentos implicavam alguma exposição pública, alguma intervenção com necessidade de parecer formado e inteligente e foi a navalha do "Ti João" quem me trouxe sabedoria de vida e não de letras. À navalha juntei-lhe o relógio de bolso e a corrente. Dou-lhe corda muitas vezes à noite, antes de me deitar, e sinto uma união material, humilde mas pragmática, com ele.
«Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia», aprendemo-lo de Shakespeare, e eu, que não acredito em bruxas, dou-lhe razão. A minha filosofia não tem grandes alicerces racionalistas, tem mais raízes de fé, e hoje escrevo e assumo que tremo de lembrar a roda traseira do nosso jipe explodir a metros de casa após quilómetros na autoestrada. Não temos nenhuma medalha do S. Cristóvão como tem o meu pai, acho que há para lá um pequeno Buda dado por um dos poucos chineses proprietários de Lojas da China que conheci, ainda estudávamos na universidade. A quem é que devo agradecer este rebentar desagradável que não passou disso, desgradável?
Eu cá não sou supersticioso, mas vou dar graças a Deus, vou mudar o sal da tacinha e esperar que o mau-olhado seja só a merda de conjuntivite do remeloso do meu olho esquerdo...

terça-feira, maio 30, 2017

Conjugar...

Conjugar é dos actos mais determinados e, por vezes, mais difíceis que se podem ter. Conjugar uma coisa com outra, afim ou antagónica, exige determinação e um querer que tantas vezes nos levam à exaustão ou a uma realização pessoal mais completa. Quase tudo o que conjuguei até hoje levou-me mais a campos de realização, mesmo que o caminho tenha sido de exaustão. Corri por gosto e não me cansei.

Porém, este conjugar começa a ser cada vez mais pragmático do que estóico. Paro para pensar - ou não, pois quase sempre medito em movimento - e concluo que a realização pessoal cada vez mais se encontra em ter tempo, em somar – aí, sim, não me sinto escravo dum verbo - ao tempo qualidade. Este tipo de soma não acumula materialmente como estamos habituados, mas adiciona essas coisas, invisíveis aos olhos, que um aviador francês contou a adultos a quem as circunstâncias haviam subtraído a infância.

Conjugo uma vida de ritmo moderno com uma vida de ritmo campestre. Pode parecer a conjugação perfeita, e talvez o seja, mas para um homem de formação epicurista como eu, deformado por a óptica de Spinoza, confesso não estar a ser fácil para corpo e mente este conjugar.

Há anos atrás, um dos meus mais estimados amigos, o Jorge Neto, falava-me de sermos “caçadores de experiências”. Ouvia-o com entusiasmo e o horizonte era outro, vislumbrava fronteiras e vontade de cruzá-las. Estamos a vários quilómetros, e países, de distância um do outro, cada um “caçou” e “caça” experiências que conjuga com as nossas parceiras de caçada - o cônjuge, a acção substantivada na pessoa – mas o nosso tempo já não é esse, o nosso espaço já não é o quintal da casa dos meus pais e a nossa dimensão humana alberga novos seres, como os nossos filhos.

Escrever, o que vejo desde esta janela do ser, têm-me ajudado a memorizar formas de conjugar, com alguma correcção, as suas irregularidades, ajuda-me a ser flexível e a ter uma certa percepção do tempo, o que a experiência me faz ver como o mais importante do verbo…

O frontal é o grande amigo do bom leitor. Isto é, do leitor que se preocupa em não incomodar os outros.

«SAL SOBRE A FERIDA» - Piedad Bonnett (trad. Luis Leal)

Tradução dedicada ao meu amigo Adolfo Fernández.

"Basta olhar fixamente a cicatriz,
as suas imperfeitas costuras,
para que a ferida comece a abrir-se
e a contar as suas histórias.

Cuida do sal dos teus olhos".

segunda-feira, maio 29, 2017

Cuido de flores

Cuido flores
Numa estufa
Com a ilusão do ar livre...
Emoção do crescimento.
Remoção de ervas daninhas.
Motivação de substrato rico em esperança.

Muitas ficam pelo caminho
Outras tornam-se ornamentais
E algumas fundamentais.
A maioria é colhida pela necessidade de trabalho.
Porém algumas, de flores, transformam-se em árvores e, em momentos extremos de calor, abraçam-me com a sua sombra.

¡Luis! ¡Dame un abrazo! ¡Cuándo yo diga a los amigos que te he visto!

E, como diz aquele que me ensinou:

Parece que o mundo, afinal, tem sentido.

07/IV/2017

domingo, maio 28, 2017

Lembranzas de Fernando Assis Pacheco



"Neto de emigrante galego a Portugal, Fernando Assis Pacheco é un recoñecido xornalista e escritor portugués." (Outono de 1995 - Memoria da Galiza)

Assis Pacheco morreu a 30 de novembro de 1995. Nesse mesmo dia, sessenta anos anos, tinha morrido Fernando Pessoa.





sábado, maio 27, 2017

Tudo apita...

A semana foi febril e cansativa e acabei por adormecer no sofá da sala hoje à tarde. Este maio já precisa de ventoinha e a/c para se poder estar em casa, mas o céu está carregado de cinzento. Sofro bastante fisicamente com este calor que me alaga o cachaço e, quando estou a trabalhar, me entra como gota a arder pelo canto do olho.
A sesta impôs-se ao meu corpo desabituado de tão revitalizante costume. Os olhos olharam para dentro mas não passaram da fase REM. Rápido apitou o final da máquina de lavar e o termómetro com 38.5°c do meu filho mais velho. O corpo lento cumpre com as rotinas e a mente apercebe-se que tudo nesta vida apita. O despertador, o micro-ondas, as máquinas de lavar, os toques de entrada e de saída, as luzes acesas esquecidas do carro, o relógio desportivo com pulsómetro e gps, o telemóvel, a chaleira, o aviso de falta de bateria e até mesmo os ouvidos quando a sede do corpo desidratado dá sinal, essa apitadela interna a avisar para repor reservas.
A febre do meu filho não baixou. Voltámos à urgência e aí fizeram-lhe a sua primeira análise ao sangue desde que tem consciência. Chorou algo desconcertado com o local e com o termostáto do seu pequeno organismo a indicar o motor em excesso de temperatura. Com as lágrimas a escorrerem lá lhe correu o sangue por umas vias que se mantiveram no braço durante quase uma hora, o tempo necessário a investigar a origem destes dias febris.
Enquanto esperávamos o resultado, sentado no meu colo e com o braço direito esticado em cima do meu, fomos falando de aprender com o que vivemos, manter a calma, de como o seu avô ia comigo tirar sangue em jejum e que depois de encher seringas de plasma tinha os melhores pequenos-almoços com o meu pai, de como foi ter um avô que madrugava para que o neto fosse atendido pela médica de família e até contámos uma história. Gostava de ter tempo para lha escrever e que esta nota diária me de uma apitadela à memória e à criatividade. Ele e o irmão merecem.
Porém, vou apagar os dados do telemóvel e tentar isolar-me de tantas apitadelas. Espera-me o despertador dentro de sete horas e mais trabalho no campo. Tenho esperança que o amanhã seja mais fresco.

quinta-feira, maio 25, 2017

Todas as Quintas-feiras da Ascensão, a minha avó Helena ia ao campo apanhar um ramo de espiga

Todas as Quintas-feiras da Ascensão, a minha avó Helena ia ao campo, muitas vezes ao descampado entre o pátio e a linha de caminho de ferro, apanhar a espiga. Toda a vida vi um viçoso ramo de várias plantas, composto por uma espiga, um malmequer, uma papoila, um raminho de oliveira, videira e alecrim, atado por uma linha de coser e pendurado na parede da sua cozinha, exactamente no mesmo prego onde o meu avô João pendurava o calendário anual da espingardaria, na qual se munia de cartuchos para a caça, e pelo qual ambos organizavam os seus dias.

Lembro-me de ir à espiga sem entender a tradição do ramo que compúnhamos. Nunca mo explicaram, porém, aprendi a sua simbologia no pão que nunca me faltou, na fortuna de tempo que comigo gastaram, no amor incondicional que me deram, na candeia que iluminou as minhas noites, nos sorrisos e nas gargalhadas cúmplices de ser imperfeito e na gratidão pela saúde e força com que me puderam ver crescer.

Abundância, alegria, saúde e sorte, quem não as deseja? À frente da minha casa tenho um descampado onde posso encontrar tudo o que é necessário para compor um ramo de espiga como os da minha avó. Muitos não têm, nem tiveram, este privilégio. No entanto eu cresci, tenho mesmo certificados que o atestam, e já não vou à espiga.  Deveria envergonhar-me e não me desculpar com a falta de tempo desta minha vida dita “moderna”… 

quarta-feira, maio 24, 2017

Árvores sem água...

O sistema radicular duma árvore procura sempre, com mais ou menos intensidade, com mais ou menos profundidade, água. As nossas árvores são como os nossos filhos, isto é, crianças e algumas ainda bebés, precisam do nosso cuidado, da nossa supervisão, mas, tal como eles, também têm de aprender a sobreviver em momentos de seca, de escassez e de negligência por parte de outros com quem se cruzam no caminho.
Estamos no final de maio, porém lá fora estão 38°c sem perspectivas de chuva. O sistema de rega é o reflexo da incompetência de quem o montou e da nossa inexperiente boa-fé. Revolta-nos a mentira, o «é ainda hoje», mas a batalha não é fácil, pois o nosso exército só tem como aliado a paciência consciente num terreno que não nos permite nem ataques, nem manobras invasivas. Há batalhas condenadas desde o princípio ao empate para não serem derrotas. Há que manter a calma, erguer o olhar com coragem até que o campo de batalha seja abandonado. Nunca imaginei que para plantar árvores, para as ver crescer sem outras intenções mais além da sustentabilidade familiar e do nosso entorno natural, tivesse de me socorrer da arte da guerra. Tampouco imaginei voltar atrás no tempo, ter necessidade de fé para ir na procissão da cidade para pedir chuva a Deus ou ao seu secretário S. Pedro. 
Tenho medo de falhar aos nossos filhos, tenho medo que as nossas árvores morram de sede num terreno comprado com esforço e cheio de poços secos. Tenho medo de mostrar medo e não a confiança de quem tem aliados. Tenho medo de perder a paz encontrada no trabalho duro do campo e do orgulho da humildade de trabalhador rural dos nossos antepassados... 
Se árvores e pessoas sobrevivermos à seca, espera-nos continuarmos de pé... 
Amanhã espera-se mais trovoada, mas água nada... 
Há quantos anos abandonei a procissão?

À hora da sesta não se contam carneiros... contam-se elefantes!

El primer poema de Santi

Mi hijo mayor, en la plenitud de sus 6 años, se acercó a mí y me dijo:
«papá, he escrito un poema».
En su cuaderno amarillo, con un “Sr. Caca” en la portada, donde escribe lo que le apetece, había escrito (la ortografía nada me importa):
“Mosca, mosca está en el
árbol y se marcha a la
ventana, y vio abejas
saludando a la mosca.”.
Podéis pensar, legítimamente, que lo hemos estimulado a eso, a saber lo que es un poema. Algo habrá visto en casa, seguro. Sin embargo, el mérito lo tiene su profesor, el incansable Ismael que le enseña desde el primer día que en todo lo que él y sus compañeros hacen hay dignidad, hay sueños, hay magia y hay poesía… Gracias Ismael por pulir este poema escrito, hace ya seis años, por su madre y por mí en el cuadernillo amarillo de nuestras vidas.

Um homem de palavra sem palavras

Para alguém como eu, cujo silêncio é muitas vezes o encontro com uma palavra, não conseguir dizer ou escrever nada é uma realidade frequente. 
Fico em silêncio na ausência dos que me são queridos, dos que estão longe e daqueles a quem a minha boca só diria banalidades. Um homem de palavra também fica sem palavras. Apesar de agora estar a transcrever o meu silêncio, ele ficou patente no meu olhar triste em frente da televisão e na atrapalhação mundana ao telefone com um dos amigos que mais quero.
Manchester é mais um lugar mediatizado por "lobos solitários", termo que desprestigia a honra animal do lobo ao usar a sua espécie para denominar uma indigna de vida, como a do terrorista, e do outro lado da linha há uma voz que quero sempre ouvir, uma voz que trago orgulhosamente da terra das raízes. Espero que, mesmo quando a terra nos for leve ou pesada, o timbre das nossas vozes se possa ouvir e continuar a existir naqueles que por aqui ficarem. Se alguma coisa merece a eternidade, para além do amor verdadeiro, é uma amizade...

«No hay mejor desprecio que no hacer aprecio»

segunda-feira, maio 22, 2017

"Circunvalação" - Luis Leal

Circunvalação

à Industrial
aos meus professores
aos meus pais

Cotovelo apoiado na mesa, o professor não se apercebe
do olhar a fugir pela janela, do giz que se evade
do quadro e da matéria inerte dos livros.

A pé, não fica longe daqui a academia
aberta por Abril às vocações humildes da periferia.
Quero ousar ir para lá. Dizem-me poder abrir portas com notas
e ser aceite num colégio de santos espíritos.
(Imagino o honesto estudo misturado com anseios
adolescentes acarinhados por o sangue analfabeto dos avós.)

Do outro lado da estrada há promessas de conhecimento,
de diplomas vetados a passados familiares.
A via rápida é uma fronteira de carros em movimento.
Alguns dos que para o outro lado passaram de si inseguros
vestem trajes negros, gritam regras e regem-se por estatuto
que lhes proíbe luto por os que pereceram atropelados.

Então, estás a prestar atenção?

Ter tão pouca idade
não me permite ir
mais além da circunvalação,
ir lá a cima e voltar ao bairro,
ao perímetro da cidade,
ciente da verdadeira faculdade
ser onde se está, curioso, nesta escola viva,
que me ensina imperfeita, mas por todos e para todos.

Desculpe professor, estava distraído.
Eu já sei a matéria, os meus pais viveram
a Revolução Industrial.


quinta-feira, maio 18, 2017

«Poema» - Nuno Júdice

«Poema»

O mar, e por cima de nós os ramos
do crepúsculo, e os remos do sol que
se afundam no mar do horizonte.

Nuno Júdice, "O Movimento do Mundo", 1996
(fotografia de Fernando Manuel)


terça-feira, maio 16, 2017

"Fermoso rio Lis, que entre arvoredos" - Francisco Rodrigues Lobo

Fermoso rio Lis, que entre arvoredos
Ides detendo as águas vagarosas,
Até que üas sobre outras, de invejosas,
Ficam cobrindo o vão destes penedos;

Verdes lapas, que ao pé de altos rochedos
Sois morada das Ninfas mais fermosas,
Fontes, árvores, ervas, lírios, rosas,
Em quem esconde Amor tantos segredos;

Se vós, livres de humano sentimento,
Em quem não cabe escolha nem vontade,
Também às leis de Amor guardais respeito.

Como se há-de livrar meu pensamento
De render alma, vida e liberdade,
Se conhece a razão de estar sujeito?

Francisco Rodrigues Lobo 



"Nasceu o rio Lis junto a uma serra" - José Marques da Cruz

Nasceu o rio Lis junto a uma serra
No mesmo dia em que nasceu o Lena;
Mas com muita Paixão, com muita pena
De o seu berço não ser na mesma terra

Andando, andando alegres, murmurantes,
Na mesma direcção ambos corriam;
Neles bebendo, as aves chilreantes
Contavam esse amor que ambos sentiam.

Um dia já espigados, já crescidos
Contrataram casar, de amor perdidos
Num domingo, em Leiria de mansinho…

Mas Lena, assim a modo envergonhada
Do povo, foi casar toda enfeitada
Com o Lis mais abaixo um bocadinho
                           
José Marques da Cruz (1888-1958)

Painel decorativo «Lenda do Lis e Lena» (1,80 x 3,60m) da autoria de Augusto Mota



segunda-feira, maio 15, 2017

Salvador

O meu irmão José Antonio recorda-me sempre as palavras de Juarroz cuja ideia de lembrar-se de alguém se assemelha a uma salvação. Os finados que não conhecem a eternidade são aqueles esquecidos pela memória, penso, e cada dia interiorizo mais as suas palavras e as sinto como as orações que me foram ensinadas na fé da infância. 
Lembramo-nos constantemente um do outro e somos, em grande parte, a salvação um do outro e isso é algo que mostramos com orgulho. A verdadeira amizade equilibra-se entre felicidade e tristeza. Alegramo-nos e entristecemo-nos com os sucessos e fracassos, com a saúde e a doença, com os caminhos em frente e com os sinuosos, mas também com as pequenas coisas que nos simbolizam. O Atleti, o Benfica, a filosofia, a poesia, Espanha e Portugal escatológicos e devoções a santos como o Torrente. Ontem foi com o Salvador, com um festival que não vejo, me passa ao lado, mas que, com um jovem cantor, comprometido com a sua arte, nos salvou a todos por breves momentos, até que cheguem as piranhas em busca de sangue fresco e imediato. 
O José soube da vitória festivaleira histórica antes de mim e sentiu-a por ter sido na língua do seu irmão, também sua, porque a escolheu para a sua família. O Salvador, que o cristianismo promoveu desde a nosso berço, apresenta-se de várias formas. Eu, míope e com estigmatismo, ouvi esta música, em partilhas massificada pelas circunstâncias, com o coração e vi uma aura de beleza, de necessidade de voltar a viver "devagarinho". Não conhecia este Salvador, tinha ouvido falar dele na rádio, e, tal qual como o outro, mesmo que não me consiga salvar para a eternidade, é verdade o que transmite. Que se massifique a sua individualidade, ele pode fazê-lo por nós os dois. O José e eu. É em português por casualidade, mas a salvação não conhece línguas.

domingo, maio 14, 2017

Leaving Sicily...

Há um ritmo italiano e um ritmo siciliano. É a base do nosso ritmo latino sem as especificidades ibéricas, mas, mesmo assim, não sendo eu compassado pelos ritmos do norte, tive dificuldade em adaptar-me aos vinte minutos que se podem transformar em duas horas ou à frenética condução automóvel alérgica ao cinto de segurança e indiferente a passadeiras.
Cada povo tem o seu ritmo vital e o da Sicilia é originalíssimo. Apesar do cansaço, foi um privilégio vivê-lo no meio da sua gente. Voo sobre o mar da nossa civilização em direcção às penínsulas, primeiro a bota que me chutará para a jangada de pedra do José Saramago, essa península atracada por uma corda bastante velha à Europa.
Poderei um dia ir ao Novo Mundo?

Haiku de aeroporto 8

Quando se abrem as portas
De embarque já não há
Volta atrás na viagem.

Navegar

Ser o timoneiro dum veleiro por momentos, durante um passeio pela costa de Palermo, é o exemplo irónico dum alentejano navegador que, quase em saber nadar, parte em conquista do mar. O exemplo pouco se adapta a mim, pois sei nadar relativamente bem, e não sou navegador como muitos dos meus antepassados que se foram embora, partiram e mantiveram a esperança de correr o mundo inteiro.
Esta foi uma sensação ocasional repleta de emoções. Primeiro a de ser o homem do leme, essa que nasce do fundo do ser, e depois, à volta, quando nos apercebemos que não somos capazes de chegar ao destino, o reflexo da tristeza, a fraternidade de saber do sofrimento do outro e ver, na nossa incapacidade de resgatar os náufragos, o rosto dos nossos seres queridos. Assim foi o meu Mediterrâneo, o entusiasmo inicial afogado num cemitério aquático. A surdez do grito rebenta-me os tímpanos.
Nunca serei timoneiro de nada, com excepção da minha alma. Talvez esteja condenado desde tempos amnióticos. O meu corpo é da terra, a sua força vem das raízes, mas tudo o resto é água. E, como o poeta me disse, é salgada.

sábado, maio 13, 2017

Centenário

Em terra de "Madonnas", penso como teriam sido os últimos cem anos de Portugal sem Fátima? Mas, no fundo, o que penso é como teria sido a minha infância sem a presença desta virgem na vida de duas das mulheres mais importantes da minha vida, a minha mãe e a minha avó. Escrevo isto em paz, pois aprendi que os "ses", as realidades paralelas, não existem. As pessoas sim.

Em Palermo não sejas D. Vito

«O Polvo» teve várias temporadas mas na minha memória de poucos canais ficou um comissário honrado, a cidade de Palermo e a máfia. Já se passaram muitos anos desde então e eu quase não me lembro de pormenores relacionados com essa época hoje vendida como «caderneta de cromos». No entanto, hoje estou em Palermo, sou visto como espanhol, falo todo o dia em inglês e escrevo o que sinto em português. No meio desta esquizofrenia de dia, a qual aceito sem divagar mais que a conta, sou acarinhado por amigos italianos. Conheci Ungaretti, também ele com um vínculo com a língua portuguesa, devido aos seus anos brasileiros, levo-o na mala e espero entrar no seu hermetismo, mas também levo diálogos com pessoas como a Carmen, que, com coragem siciliana, me contou sobre como a sombra da máfia eclipsa muita da luz desta região. Apesar de muito ter mudado desde a norte de Falconne, o espectro da máfia paira sobre esta sociedade. Há mais coragem por parte dos «parlamitanos» graças a uns quantos mártires que ajudaram a assumir a existência de grupos criminosos organizados. Assumir é sempre o primeiro passo para resolver o que quer que seja. Admiro profundamente a coragem de quem se assume. Este povo fê-lo após anos de negação, o problema ainda existe, mas esta gente já se ri dele. Basta vermos a quantidade de merchandising a ridicularizar todos aqueles que se querem assumir Vitos Corleones...

Palermo's balcony

sexta-feira, maio 12, 2017

Scirocco

Em Palermo, o vento que sopra, cor de terra, vem de África e chama-se «Scirocco». Ontem soprava forte e deixou rasto na minha pele e cabelos. Foi o momento em que o mediterrâneo tentou ser mais forte que a violência atlântica que me corre nas veias. Apesar de não lhe ser indiferente, não foi possível esta intrusão marítima. Como é sabido a grande diferença entre mares e oceanos nada tem a ver com dimensão de ambos, mas sim com marés. Num mar, a maré quase não se nota, porém num oceano pode atingir niveis de autêntica devastação ou afastamento.
A minha língua nasceu à beira-mar, mas cresceu com vontade oceânica e, mesmo filha de pais separados, edifica-se como pátria em qualquer lado.

quarta-feira, maio 10, 2017

Uma excelente entrevista dum amigo que muito estimo e dos poucos a quem chamo mestre, Antonio Sáez Delgado

Ojos negros (Luana Ribeiro)






Fabrizio de André

Fabrizio de André, cantautor e poeta italiano até hoje desconhecido para mim. Fez parte da banda sonora duma visita guiada no banco traseiro dum pequeno carro citadino pela cidade de Palermo. Ao volante ia Antonio e ao lado a sua adorável mulher, Carmen. Valeu a pena a espera, por tanta coisa mesmo com o cansaço duma rotina de actividades de projectos europeus.
Lembrei-me várias vezes da vespa do Nani Moretti, devido às ruas e o carácter italiano, mas tive a sorte de vislumbrar a cidade que me acolhe desde o alto, um «Montreale» com um «Duomo» turístico e ao qual chegámos fora de horas. A presença de Salvatore e a sua namorada, e dos dois fantásticos guias foi um dos melhores momentos desta semana «apalermada». Uma vez mais, a poesia salva o homem de fé no verbo adjectivado pela alma. Foi bonito ver como Antonio e Carmen partilharam a sua canção de amor com dois quase desconhecidos. Só alguém com uma tremenda confiança é capaz disso, neste caso uma musa com dois filhos chamada Carmen e um poeta cumplice do mês de maio, de toda sua beleza, quer dizer, Antonio Maggio.

terça-feira, maio 09, 2017

Palermo windows... (09/V/2017)

Um dia palerma em Palermo

Palermo é a capital duma Sicilia que sempre me remeteu para os filmes do Francis Ford Coppola, para a pobreza emigrante e para a proteção dum padrinho. Nunca imaginei a possibilidade de aqui estar, contemplar o mediterrâneo enquanto provo uma iguaria daqui, a «carranchina», e falo com gente da terra, uma terra tão latina como as minhas.
Mas neste contemplar, algo cansado da viagem de ontem, nada faria adivinhar a notícia que chegaria de casa, da fronteira vigiada por causa da visita do Papa Francisco. A morte dum conhecido estimado, a tragédia absurda dum sofrimento que pode levar a atirar-se uma pessoa contra uma árvore, o fim duma vida e, quem sabe, rezo para que não, o tormento para outras.
Estou em Palermo, aparvalhado, mas rodeado de gente que a vida me deu o privilégio de conhecer. Longe de casa, é fácil sentirmo-nos culpados de termos embarcado na viagem, do apoio que não damos, mas é errado sentirmo-nos assim. Por mais que as imagens se assomem à minha mente, não fui eu quem escolheu que elas existissem. Apenas escolho não esquecer-me deste dia. Honrá-lo pela estima que tenho aos presentes e aos finados. Peço perdão por não conseguir mais, reconheço sentir-me palerma em Palermo.

Eduardo Salles - "¿Y qué hiciste de tu vida?"




Eduardo Salles é mexicano.





segunda-feira, maio 08, 2017

Badajoz, Madrid, Roma e Palermo

Duas penínsulas e uma ilha em menos de meio dia. Desde o ar, as fronteiras são o que são, isto é, limites de humanidade nos quais se estruturam homens e mulheres, os únicos seres vivos com consciência disso. A natureza tem fronteiras diferentes, estruturam paisagens, potenciam faunas e floras diferentes, porém a grandeza criadora não necessita consciência. Aí somos diferentes. Sabemos que somos natureza, mas não só. Não faz mal, desde que saibamos coexistir.

Haiku de aeroporto 7

Para atingir o Nirvana
Basta recostar-me e iluminar-me com a luz atribuída ao meu assento.

Haiku de aeroporto 6

Aeroporto: templo de técnica
supervisionada por Ícaro.
Antes de viajar vejo opções de concorrência.

Haiku de aeroporto 5

Transbordo: um intervalo
de um filme a correr
entre assentos e assentos.

Haiku de aeroporto 4

Quis ser amável.
Não fez falta.
Aqui tudo anda sobre rodas.

Haiku de aeroporto 3

Esperanças e medos viajam
Com cinto de segurança posto
Como perfeitos desconhecidos.

Haiku de aeroporto 2

É fácil reconhecer o viajante
com mais bagagem mesmo
sem malas leva a família dentro.

Haiku de aeroporto 1

Facturas a pressa viajante
Numa passadeira rolante.
Até ao instante pelo qual passas...

sábado, maio 06, 2017

"Fronteiras" por Luis Leal no "III Jantar Literário da Escola Secundária Gabriel Pereira" (5/V/2017)

Quando era adolescente, desde a Escola Secundária Gabriel Pereira, vislumbrava a circunvalação, talvez a primeira fronteira consciente. Quase 20 anos depois, falámos de outras fronteiras, não só as das nossas identidades peninsulares, mas também sobre aquelas que impomos a nós próprios. Parabéns a todos os alunos e docentes da agora “GP” (para mim foi “Industrial”) por me mostrarem que esta continua a ser uma “Escola Viva”! Obrigado.

Cuando era adolescente, desde el Instituto de Secundaria Gabriel Pereira de Évora, vislumbraba la circunvalación, quizás la primera frontera consciente. Casi 20 años después, hablamos de otras fronteras, no solo sobre nuestras identidades peninsulares, pero también sobre aquellas que imponemos a nosotros mismos. ¡Enhorabuena a todos los alumnos y docentes de la ahora “GP” (para mí era “Industrial”) que me enseñaron que esta sigue siendo una “Escuela Viva”! Gracias.




Uma nota de gratidão minha a uma nota anónima. «Gracias/Obrigado». Quero continuar a acreditar que é o meu dever...

quinta-feira, maio 04, 2017

III JANTAR LITERÁRIO NA ESCOLA SECUNDÁRIA GABRIEL PEREIRA - ÉVORA (05/V/2017)

"Realiza-se no próximo dia 5 de maio, pelas 20horas, na sala polivalente da Escola Secundária Gabriel Pereira, em Évora, o III Jantar Literário.

Contamos com a presença de Luís Leal, professor de Português em Espanha. Para além de nos falar da sua experiência profissional, o Luís, ele próprio um antigo aluno de humanidades da Escola Secundária Gabriel Pereira, fará uma breve exposição sobre a literatura de fronteira. A organização lançará, depois, alguns tópicos para um pequeno debate (Produção literária em contexto regional; associativismo “literário”; perspetiva comparada: Espanha/Portugal  - Andaluzia/Alentejo).

Num segundo momento, queremos fazer uma breve homenagem à poetisa Fernanda Seno. Para tal, alguns alunos estão já a preparar a leitura de poemas desta nossa tão querida colega. Estende-se aqui o convite a todos os professores e alunos que, de alguma forma, queiram participar neste tributo.
Desta vez o III jantar literário será um “jantar sem jantar”. O bar da escola estará aberto. Será servido um pequeno “chá, tostas e torradas” e estarão também disponíveis, para venda, outras bebidas. A entrada no jantar é gratuita.

Regista-se, assim,  o convite a todos aqueles que nos queiram acompanhar, de novo, nesta jornada estimulante, alunos do agrupamento de escolas nº 2 de Évora, pais e encarregados de educação, a comunidade em geral. Outras informações organizacionais, podem ser obtidas através dos seguinte endereço electrónico  manuelpicarra@gmail.com".

III Jantar Literário

Escola Secundária Gabriel Pereira

20.00 – Abertura

20.10 – Homenagem à poetisa Fernanda Seno: leitura de poemas

20.30 – “Chá e torradas” + Momento musical

21.10 – Conversa com o professor Luís Leal: “Fronte(i)ras”

22.30 – 2º parte da homenagem a Fernanda Seno: intervenções de alunos e professores;
               leitura de poemas

23.15 – Encerramento