sábado, agosto 19, 2017

Valeu a pena?

Acabo de ler um ensaio, muito resumidamente e pecando por alguma interpretação errónea da minha parte, sobre a actividade do escritor em Portugal. Tiro o chapéu à autora, Inês Fonseca Santos, e à Fundação Francisco Manuel dos Santos que promove uma verdadeira colecção de serviço público.
«Vale a pena? Conversa com escritores» faz a radiografia, através da conversa com onze escritores portugueses, como se vive a e da literatura neste país. Fá-lo com conhecimento de causa e duma maneira exemplar. Soube rodear-se de opiniões consistentes de criadores interessantes como António Cabrita, Mega Ferreira, Afonso Cruz ou Patrícia Portela, e outros que guardo a essência das palavras mas olvido o nome.
Inês, guardiã da poesia de Manuel António Pina, põe o dedo numa ferida estructural, que alguns remetem para características de pouco refinamento cultural português quando comparadas com outras realidades, a educação.
Quanto à minha humilde interpretação, é nesta base, influenciada pelo mundo global, que determina tudo: escritor, mercado literário nacional, editor, revisor, distribuidor e leitor. Pelo meio há os auxiliares desta cadeia, crítica e redes sociais. O caso da crítica não foi explorado como estava à espera, tal como o caso das revistas literárias que, na história da literatura portuguesa, geraram cânones («Orpheu», «Seara Nova», «Presença»...). A revista continua a ser um veículo de difusão, discreto é verdade, mas de grande qualidade quer em prosa, quer em poesia.
Outra coisa que a minha sensibilidade me chamou à atenção, foi o centralismo das duas grandes urbes, Lisboa e Porto, nesta reflexão. Isto impede que a literatura portuguesa imponha géneros regionais, impossível mesmo subliteraturas alentejana, transmontana, estremenha. Até que ponto as autarquias e a produção cultural veinculada pelo poder local deveria ser estudado e inventariado? Espanha tem essa realidade regional sem a qual se pode falar de literatura espanhola. Falar de literatura no país vizinho é ter em conta uma amálgama de regiões autónomas, algumos com língua própria. O centralismo em Espanha existe a nível editorial, oscilando entre Madrid e Barcelona, mas a dimensão e distribuição pode levar-nos aos mercados iberoamericanos.
O caso português não é assim.
Ficando nomes importantíssimos, e que ajudariam a entender o mercado e a escrita actual, para trás como Virgílio Ferreira, Miguel Torga (o seu caso de primeiro candidato plausível a Nobel e nobre editor, junto com a esposa, da própria obra), Mário Viegas a declamar, Carlos Pinto Coelho a acontecer diariamente um magazine cultural, o Jornal de Letras quinzenal, os cantautores de talento literário reconhecido, o Sérgio Godinho, por exemplo ou o egocentrismo (com possibilidade de Nobel) de Lobo Antunes que tem leitores ainda mais reduzidos que em poesia no que respeita aos seus romances mas que chega à leitura massiva com as suas crónicas.
O passado condiciona demasiado este «Valer a pena». O tamanho do país também, pequeno e com grandes valores literários, tal como livro que alberga este ensaio de excelente abordagem e registo mixto, ensaístico e jornalistico, ao qual lhe faltariam umas páginas para ser completo.
Mas há que ser realista. O que é preferível, esta reflexão na estante da biblioteca da universidade ou em milhares de topos em supermercados e livrarias do país?
De obrigatória leitura para quem quer escrever e ler boa literatura portuguesa. O mesmo se aplica a quem quer viver dela, escrevendo, editando e ensinando.

sexta-feira, agosto 18, 2017

Comparativa de performances pueris

E é comparar. Preços, materiais, carros, casas, países, economias, corpos, tamanhos, performances... e filhos. Não falo da quantidade, nem se é entre o mais velho, o do meio ou o cassula. Falo de filhos.

«Vejam só, tem seis anos mas já veste de dezoito. Já fala três línguas, sabe judo, toca piano e guitarra, programa aplicações e acabou de receber propostas de várias universidades para ir estudar. Mas ainda não nos decidimos pois teve um convite para ir para o governo e, como pais, não sabemos se o devemos aconselhar a emigrar, com o potencial que tem...».

É verdade. Tem tanto potencial que só é pena eu não ter inveja porque sou um pai preguiçoso demais, até para isso. Os meus têm percentis normalíssimos (mais a dar para o pequeno). A roupa, se possível herdada, é do tamanho que mais jeito dá ao corpo e à carteira dos pais. Falam e abusam do portunhol. São um bocado patosos e riem-se dos próprios puns e de uma aplicação que os reproduz. Têm um cavaquinho desafinado que usam para, se me descuido, se agredirem e só os aceitam mesmo no infantário e na escola primária. Do governo, só conhecem o de casa e o orçamento que possibilita, ou não, a aquisição de um novo brinquedo.

Enfim, não lhes vejo potencial para além de encher fraldas, o mais novo, e a esperança de descobrir uma forma de produzir energia alternativa com o chulé das sapatilhas do mais velho.

Deveria de estar preocupado. Deveríamos, porque isto também é culpa da minha mulher. Já tentei melhorar, tentámos, melhorá-los, mas parece-me que isto é uma questão de cepa torta...

Epá, espera lá! És parvo ou quê?! Com o marketing adequado, até de uma vulgar cepa se pode vender um vinho extraordinário!!! É tudo uma questão de rótulo!!!

«Contou-me um alentejano» - J. Rentes de Carvalho

"Contou-me um alentejano: «Tive um avô que ia ouvir a água a correr como quem vai ouvir a banda filarmónica a tocar no coreto», e fico a recordar que em criança, quando o meu avô ia tratar da horta e me levava consigo - na minha fantasia uma manhã inteira de jornada, as burras transmudadas em corcéis - ficava eu junto do açude, entretido a seguir os girinos, surpreso de não compreender se o som da corrente mudava por eu mudar de sítio, ou se havia ali mistério, talvez elfos emigrados da fria Noruega para o calor transmontano, e que regalados, escondidos entre seixos, sopraravam nas flautas estranhas melodias.".

J. Rentes de Carvalho, in «Trás-os-Montes, o Nordeste», pp. 11 e 12.

quinta-feira, agosto 17, 2017

O vizinho do lado

Há quatro anos que nos conhecemos, nos cumprimentamos, e partilhamos o local de veraneio sem sabermos o nome um do outro.
Este ano temos falado mais desde o primeiro dia. Pescador submarino diário nesta Foz, o simpático vizinho do lado tem mostrado cavalos marinhos, ostras, ameijoas, santolas e outro marisco que o meu vocabulário de sequeiro desconhece.
Hoje obsequiou-nos mais umas ostras e uma pequena santola. Agradeci a atenção e a simpatia, escondendo o pânico de ser incapaz de coser vivo o animal e depois comê-lo.
Lá está ele dentro do alguidar e, amanhã cedo, com medo de ser descoberta a minha ingratidão marisqueira, vou soltá-lo ao mar.

Reiki

Uma vez estive a falar com uma «reikiana» - esse é o nome que têm os seguidores dos fluxos de energia que emanamos - e, para demonstrar a um público de um programa de televisão de então no que consistia esta terapia, usou-me como cobaia. O riso é uma forte energia em mim, contudo o respeito pela energia da convicção do outro conteve-o nos cantos discretos da boca que iam sorrindo nervosismo e falta de fé.
Terminada a sessão/demonstração, disse-me ter encontrado uma fervilhante energia criativa num chakra, ou coisa parecida, situado lá para as bandas da minha testa. Agradeci-lhe sincero. Ainda hoje gostaria de acreditar em coisas que não acredito.

Uma simples medida de cafeína

«Yo he medido mi vida en cucharitas de café.»/«Eu medi a minha vida em colherzinhas de café» (T.S. Eliot)

terça-feira, agosto 15, 2017

«HAPPINESS ONLY REAL WHEN SHARED» Chris McCandless

De volta a «Into the Wild» de Jon Krakauer, para sublinhar palavras de solidão, fascínio, idealismo, aceitação, eu, outro, de filho a pai, pai de filho, natureza, pureza, decalque, egoísmo, erros cheios de inocência. A morte dum filho que rumou a norte de si mesmo.

Ao meu redor, os meus filhos brincam, discutem por brinquedos, matam formigas. O mais velho paciente com os movimentos abebezados e egocêntricos do mais novo a articular aos berros o seu carácter reivindicativo e privilegiado por o ter como irmão.

Quero terminar para eles uma ideia em movimento há tempos. Sinto que o tenho de fazer sem mais ideia de legado que a realidade de por aqui estarmos ser irrepetível. Não sei como o farei sem lhes impor mais presença paternal minha que a necessária para poderem ser eles próprios. Termine como o terminar, a responsabilidade é minha.

«For children are innocent and love justice, while most of us are wicked and naturally prefer mercy.» - G. K. Chesterton

Fila G, Lugar 11, uma sala de cinema só para ele...

segunda-feira, agosto 14, 2017

«Dolcevita, ralaxar ao ar, sem amor não sou nada...», Leiria, 14/VIII/2017

Uma escadaria cheia de sabedoria.

O passado patego do "Running"

Antes de ser actividade marca registada, de ser tema de secção da grande superfície desportiva e de revista de corredor técnico, o "running" não estava na moda. Porém, era barato e, salvo algum problema físico ou lesão, caracterizava-se por ser o mais democrático de todos os desportos.

Em Évora, sem grandes infraestruturas então, à volta das muralhas, a corta-mato nos descampados dos bairros, ou aqui, no campo da universidade, o passado patego do "running" chamava-se correr.

Ontem, deparei-me com esta fotografia, a qual me remete para o meu passado (e presente) patego. Avesso a nostalgias desnecessárias, agrada-me ver gente a fazer o seu "jogging" (terminologia dos 80's) e até suporto políticos a darem entrevistas sobre a resistência das suas meias-maratonas (será que o Sócrates deu umas corridinhas no pátio da prisão da minha cidade?). O que me chateia verdadeiramente é gostar tanto duns ténis técnicos de "trail" que, mesmo nos saldos, teimam em ter mais de três dígitos no preço!

(Foto de Duarte Belo)

A vida encerrada entre quatro paredes, sem frinja de luz, tende a apodrecer

sábado, agosto 12, 2017

À procura, por entre fragas...

Estou de acordo quando se diz que, na poesia portuguesa moderna, é impossível escapar da influência de Pessoa. Porém, a Torga há que estar disposto a encontrá-lo por entre fragas. As minhas botas denunciam que o procuro frequentemente. Hoje faria 110 anos.

(Foto da montra da Livraria Nazareth em Évora, 2016)

Foz do Arelho, 12/VIII/2017

Dia especial. Chego à Foz do Arelho uma hora antes de dia onze terminar, com várias horas de viagem, uma carrinha a arder na autoestrada e pizza e cafezinho num supermercado da capital do gótico português.

Venho à Foz graças à amizade e estima do mestre Jorge. Aqui tenho escrito muitas notas e lido muitíssimo mais, neste local onde, durante uma semana, somos unicamente família e Atlântico. 

Deitado debaixo do enorme mapa mundo pendurado na sala, não sou capaz de deixar de sentir a sua ausência em cada livro da sua biblioteca e  em cada objecto deste seu refúgio que, ironicamente, o tem sido mais para mim que para ele. Dá-me pena não estarmos aqui fisicamente juntos, as nossas famílias juntas.

Há uns anos, onde agora escrevo, disse-me com toda a sua experiência de trotamundos e ainda com muito para viver.

- Sabes, o português emigrante tem muito aquela ideia de voltar à pátria para morrer...

Não sei o porquê de me lembrar desta conversa. Escrever entradas de diário é escrever ao sabor do pensamento e, escusado será dizer, a minha cabeça está cheia de correntes de ar...

Portugal é a nossa pátria, terra dos nossos pais, e ambos já a passámos aos nossos filhos, assim como espécie de herança forçada pelas nossas circunstâncias. O nosso voltar à pátria não é ascendente, apesar de toda a lealdade ao nosso passado, é descendente, tal qual como os corpos descem sete palmos abaixo de qualquer terra lavrada de pedras.

A quilómetros de distância do meu amigo, do mestre Jorge, celebro a sua vida, a nossa amizade, tal como a vida de outro grande, como ele, o transmontano, mas com título à alentejana, o mestre Miguel Torga. 

Há uma enorme ironia neste dia que trouxe à vida estes dois seres humanos cuja humanidade  e excepcionalidade não se limitou à fronteira mais antiga da Europa. Ainda nos tempos da universidade, foi o Jorge Rosmaninho Neto quem me ofereceu o primeiro livro do Torga, «Câmara Ardente», edição do autor, capa branca e com as folhas coladas para que o leitor, como eu, vá lendo à navalhinha. 

O nosso futuro é tal e qual como os seus livros, os publicados em vida, edição de autor, capa branca e com folhas que, para serem escritas, têm de se desbravar à lâmina...

Muitos parabéns querido amigo.

sexta-feira, agosto 11, 2017

A Promessa

A promessa que não teve tempo
não passou disso,
de promessa.

O nosso «room mate» Cocas

Ensinaram-me a ter cuidado com os sapos pois podem mijar-nos para os olhos e levar-nos à cegueira. De ciência pouco sei, de mitos só o que me contam, mas o Cocas, como eu e o meu filho mais velho o baptizámos, parece não ter problemas de incontinência e, com o seu ritmo marreta, lá anda pela secura da nossa plantação à procura de insectos, principalmente nas pequenas Amazónias de infestantes que se formam nos gotejadores. O Cocas vai de oásis em oásis no nosso imenso deserto.
Hoje cruzámo-nos com ele e convidámo-lo a descansar num Aloe Vera e a tirar uma foto para a posteridade. Ao princípio estava com medo. Ele e eu. Nenhum se mijou...

quinta-feira, agosto 10, 2017

Se tivesses de escolher entre...

Perguntava a menina loura e de tranças invejáveis:
- Se tivesses de escolher entre animais e humanos, qual escolherias?
Não houve resposta. Ela tão pouco a queria, para os seus 14 anos, já a havia encontrado.
Eu, alheio a tal pergunta, tenho multas dificuldades em diferenciar o natural do artificial. Quase sempre me parecem o mesmo.

É a primeira vez que aqui escrevo...

É a primeira vez que aqui escrevo. Sentado à sombra, a esperar que passe a hora do calor, faço-me acompanhar por um dos mais afamados escritores de língua portuguesa da actualidade. Ouvindo-se as cigarras como se fossem interferências na onda do meu rádio, aqui sintonizo silêncio.
Dou por mim emocionado. Este escritor escreve sobre outro escritor duma maneira inesperada para a minha leitura, à minha percepção que homem e literatura não se podem indissociar. 
Algo em mim se revê naquelas palavras, naquelas mãos delicadas de previlégio capazes de saudar as mãos calejadas e sofridas sem o mais mínimo sentimento de caridade.
Tenho aqui tanto para fazer e nada tem a ver com estas leituras. A temperatura até me perdoa e não está para assar-me a trinta graus, contudo hoje não há ferramenta que me distraia, árvores para tutorizar, ervas daninhas para sachar e me evada desta condição de corpo convicto em terras e incapaz de lançar raízes.

segunda-feira, agosto 07, 2017

"Talking about my generation", os "Xennials"

Até na minha geração vivo uma espécie de fronteira, não entre dois países, mas um limbo entre a inteligência da massa cinzenta e a inteligência artificial. Dizem por aí os sociólogos que a minha geração, ora «rasca», ora «à rasca», se pode orgulhar de ficar para a história da humanidade como os últimos exemplares de uma espécie condenada: o "Homo Sapiens Pré-Web". Justificam isto com as nossas infâncias analógicas e definem-nos como pessimistas e dados a nostalgias.

Como dou bastante importância a estes estudos geracionais, ponho-me a pensar e dou-lhes razão tendo em conta as repercussões evidentes na minha vida. É verdade, antes ia sempre acompanhado à casa de banho por uma revista, uma bd, até por uma enciclopédia. Hoje vou de smartphone na mão e não é preciso procurar por ordem alfabética na Wikipédia. Dizem eles que é a evolução, mas só consigo pensar que, num WC, papel é sempre papel...

«Vamos a banhos? (destacar o que não interessa)», cartoon de Miguel Feraso Cabral (in, revista «Visão», 03/VIII/2017)

Fins-de-semana com Imposto de Valor Acrescentado

A semana terminou cansada, em casa, em rotinas de sábado e domingo de responsabilidades e algum lazer. Supermercado, alguns artigos de papelaria no Chinês e casa. O Xavier pôs o sono em dia, o Santiago andou quase todo o fim-de-semana de cuecas e nós estivemos a tratar de vários deveres domésticos e laborais intercalados com cinema passado na televisão.
Lá fora, o calor sufocante de agosto fez com que não nos custasse tanto a burocracia e contas do IVA, essa surreal tarefa da qual a Elsa trata com competência contabilística. Eu apenas dito números de contribuinte, confirmo valores e separo trimestres.
Não é um fim-de-semana de sonho, apesar de o termos passado ensonados, meio adormecidos e encafuados em casa. Escrevo por mim, até me soube bem. O imposto de valor acrescentado do meu tempo, possibilitou-me ver filmes agradáveis, despretensiosos, e rever uma ou outra obra de arte. 
Rever filmes, reler livros, para mim, tem sido como regressar a um local agradável, de feliz experiência. Há algo de novo no prefixo «re» quando se tem curiosidade. 
Não sei quantos fins-de-semana já teve a minha vida. Se me agarrasse a um calendário, e usasse a calculadora Casio que usámos para os somatórios e percentagens de IVA, talvez averiguasse um número inútil, como quase todos os números que não dão o mais mínimo sentido aritmético ao que sou.

domingo, agosto 06, 2017

Conto Zen

Pergunta o abade ao cozinheiro do mosteiro.
- O que é que é mais valioso, uma barra de ouro ou um balde de terra?
O cozinheiro não hesita.
- A barra de ouro, é claro!
O abade apenas responde.
- Nunca para a semente.

«Unforgiven» by Clint Eastwood

Isto não tem nada a ver
com merecer.

Não se dispara primeiro
ao mais hábil pistoleiro.
Dispara-se.

Matar um homem
é tirar-lhe tudo o que tem
e o que poderá ter.

Eu sou William Munny.
Já matei de tudo o que caminha
e se arrasta por este mundo.

Ninguém se salva de mim.
Nem tu, meu amor...

sábado, agosto 05, 2017

"O leitor de poesia não é menos leitor" - Filipa Leal

O leitor de poesia não é menos leitor
do que o leitor de romance.
O leitor de poesia não é menos
culto do que o leitor de romance.
Ser leitor de poesia não é um
defeito.
Ser leitor de poesia não é ter lido
menos.
A literatura não é um concurso
de palavras.
A literatura não se faz com
fita métrica.
Não obriguem o leitor de poesia
a ler o que não quer. A não ser que
se comprometam a ler poesia também.
E nem assim.
O leitor de poesia tem o direito
de não ler os romances na integra,
como o leitor de romance lê um
poema aqui, outro ali.
O leitor de poesia tem o direito
de só ter lido Tolstoi. Ou Thomas
Mann. Ou Clarice Lispector. Ou
Philiph Roth. Ou nenhum deles.
O leitor de poesia tem o direito
de não conhecer as novidades.

A poesia também é literatura

Filipa Leal, in “Pelos Leitores de Poesia”, p.23.  
   

José Rentes de Carvalho (Fotografia do DN)


Amigos de sempre... (Serão de 200 km)

Fizemos 200 quilómetros para ir a Évora e passámos duas horas na estrada. Não é nada do outro mundo para os quilómetros que tenho feito ao longo dos últimos doze anos e comparando com as milhas diárias que se fazem em países gigantescos como os Estados Unidos. Fi-los com a certeza de sexta-feira, de que amanhã não trabalhamos. 
A temperatura despreocupada de Agosto e a Praça do Giraldo a cantar com o amigalhaço Duarte, juntou-nos como antes. O Nunecas, o Gonçalinho, o Cajó e eu. A pandilha estaria completa com o Juba, o Carlos, o Catapeta, o mestre Jorge e talvez outro, se não fosse parvo e quezilento. 
Partilhámos uma infância e uma juventude juntos em Évora, porém só eu e o Jorge fomos viver para outro lado. Pode parecer uma estupidez anacrónica para o presente que vivemos, mas, cada um à sua maneira, mais ou menos cúmplices, mais ou menos em contacto, todos mantemos intacta a nossa amizade desde tenra idade. Algo aparentemente estranho, hoje em dia, em que tudo se descarta, tudo é rápido, tudo é efémero e sobresselente. Em Évora, a minha cidade, estão lá os que me fizeram ser quem sou, os que não necessitam de falar com filtros de educação ou contexto. Estão lá os que, há 20 anos, estavam no quintal dos meus pais ou numa tasca a beber uma mini. Em Évora estão os meus amigos. 
Posso ter gasto 1/4 do depósito, ganhado e perdido uma hora entre fusos horários, pago a portagem correspondente, mas agora, às tantas da madrugada, na minha cama, escrevo a minha profunda gratidão (e orgulho) a todos os meus amigos de infância, de juventude, de sempre...

sexta-feira, agosto 04, 2017

Em cuecas e fraldas frescas nesta manhã de Agosto


Ainda lhe pedem que lhes ate os balões. Confiam que é capaz de solucionar tudo com todo o tipo de colas, fita-cola, super-cola.  A sua cara é uma autêntica mentira e o seu corpo decidido também, pois vão inspirando essa confiança. 
O que não se vê, por dentro deste pai, são as suas dúvidas, o seu medo de deixar de conseguir usar todos os tipos de pegamento, mostrar-lhes que há fragmentos que jamais se voltarão a unir, que apesar da sua navalha, a fita-americana e sentir-se desenrascado, não ressuscita quem já não está e, se tal o fizesse, não seriam Lázaros agradecidos mas sim Frankensteins de lojas de ferragens.
Aqui estão à sua frente. Brincam com o balão por si atado, num futebol lento, aéreo e aleatório de gargalhadas e trapalhices. Vê que estão felizes, entretidos em cuecas e fraldas frescas nesta manhã de Agosto, e não reparam na sua cara verdadeira, enternecida ao vê-los irmãos, diferentes, mas tão cúmplices por aqui estarem com o seu pai. 

quinta-feira, agosto 03, 2017

Aliança perdida

Aliança perdida. Tristeza no rosto da Elsa. Entendo-a. Ter o símbolo do nosso vínculo no dedo, nesse precário anel, é importante para ela. 
A minha nem a uso. Ainda é mais humilde, nem de ouro é. Usei-a pouco tempo, enquanto foi novidade ceremonial, apesar do incómodo que fazia um calo na palma da minha mão. Acabei por descartá-la para o fundo da gaveta que tenho à cabeceira.
Faz questão de substitui-la e eu apoio a sua decisão, como ela apoia a minha indiferença a objectos, adornos, que simbolizam o nosso amor.
Se algum dia formos um calo no caminho um do outro, agradece-se o discernimento para retirar o objecto, descalçar o sapato, ou a rotina que endurece as camadas de pele no nosso ser.

Diários (e dias) há muitos...

Li algures que a literatura portuguesa, ao invés da inglesa, para dar um exemplo, não tem uma tradição dita diarística, com excepção dos volumes de Torga e a conta-corrente de Virgílio Ferreira. O tempo contado em português não sai do diário, do bloco de notas ou do blog. A não publicação não é falta de atenção ao dia-a-dia. Essa talvez seja a tradição.

quarta-feira, agosto 02, 2017

«Pó, Cinza e Recordações» de José Rentes de Carvalho, p.56

«Aonde pertencerei? De verdade e por inteiro, a parte nenhuma. A terra onde nasci tornou-se-me estranha como um teatro, quando estou nela tenho a ideia de que represento um papel. A outra, onde vivo há mais de meio século, dá-me por vezes a ideia de um navio que se afasta e me deixou no cais. Procurar outro poiso? Nem a idade mo permite nem as amarras o deixariam. Porque é isso: não pertenço, mas é muito forte o que me prende.».

in «, Cinzas e Recordações», p.56, José Rentes de Carvalho

«Praia» de Manuel Altolaguirre (trad. Luis Leal)

As barcas de duas em duas,
como sandálias ao vento
postas a secar ao sol.

Eu e a minha sombra, ângulo recto.
Eu e a minha sombra, livro aberto.

Sobre a areia estendido
como despojo do mar
encontra-se um menino adormecido.

Eu e a minha sombra, ângulo recto.
Eu e a minha sombra, livro aberto.

E mais além, pescadores
a puxarem as maromas
amarelas e salobras.

Eu e a minha sombra, ângulo recto.
Eu e a minha sombra, livro aberto.

Manuel Altolaguirre (Trad. Luis Leal)

Uma Victorinox que pode viajar de avião...

Qual destas navalhas irá ficar em terra? Há que ter cuidado com alguma para não se derreter no bolso? Todas podem ser um souvenir de viagem à Suiça e são produtos emblemáticos deste país. 
Há uns meses que as tinha na estante e nem me lembrava que estas navalhas Victorinox de chocolate suíço se podiam estragar pois a única coisa que podem cortar é a digestão de algum glutão lambuzado de cacau ou ocultando o seu prazo de validade...
Pelo sim, pelo não, vou comer um pedacinho de vez em quando, cortado pela navalha proscrita dos aeroportos. Só quero adoçar a língua.

terça-feira, agosto 01, 2017

Praça Dr. José Afonso (Figueira da Foz)

Procurávamos esticar as pernas e tomar um cafezinho depois de jantar. Fizemo-lo junto a esta praça «Dr. José Afonso». 
Não pude deixar de pensar que a malta ainda não percebeu não existirem títulos académicos numa terra de fraternidade. Tenho a certeza do Zeca estaria muito agradecido com a atribuição do seu nome a esta praça, com todos os meios e iniciativas que preservem a sua memória, porém o seu legado não necessita um Dr. para ser identificado em qualquer esquina deste Portugal.

segunda-feira, julho 31, 2017

Ladeira da Boa Morte

Tantas vezes a venceu a pedais, a deslizou com a pasteleira atirada, quando se sentiu velho, para a ribanceira, que a Ladeira da Boa Morte não lhe perdoou tal ousadia. O meu avô continua a morrer dia-a-dia impedido de ter uma boa morte.
Tantos anos a definhar não compensam nenhuma glória, nenhuma vitória sobre a morte...

Lugar-comum (Leiria, 31/VII/2017)

A minha vida é única porque está repleta de lugares-comuns. Nem sempre me sinto bem com isso, mas há tempo aceitei a banalidade do meu lugar no mundo.

domingo, julho 30, 2017

Figueira da Foz-Coimbra/Coimbra-Figueira da Foz

Estive fora de casa. A passear, pois viajar implica mais curiosidade e menos logística de carrinho de bebé e mochila cheia de fraldas. 
O passeio consistiu em dois bilhetes e meio (o Xavier com dois anos ainda não pagou) de ida e volta a Coimbra desde a Figueira da Foz. Por outras palavras, duas horas e meia do nosso dia a andar de comboio. 
Valeu a pena metermo-nos neste regional e parar em todos os apeadeiros que confundiam os meus filhos e promoviam um inquérito constante: «já chegámos?»; «é aqui?» ou «isto é Coimbra?».
Chegámos, estivemos lá e viram um bocadinho do centro de cidade. Enquanto cumpri com os meus deveres familiares, não pude deixar de pensar como gostaria de ter cumprimentado o Adolfo Rocha, de como o seu olhar de poeta se projectava desde a janela do seu consultório em direcção ao Mondego e a sua alma atingia uma dimensão peninsular por devoção literária a Cervantes e a Unamuno. Porém, a sua maior devoção sempre me pareceu ser à integridade do seu ser, essa herança telúrica de S. Martinho da Anta. Consolei-me com uma rápida visita à placa em forma de mão, na Praça da Portagem, e a uma referência rápida à sua pessoa, ao seu pseudónimo, e explicar ao meu filho mais velho, também ele um amante de «Bichos», que ali viveu uma das maiores referências que a literatura me deu. 
O turismo das massas traz um certo glamour, mas não oculta muita da degradação que se vai vendo a pedir esmola na cidade do Mondego. A última vez que a visitei, pensei o mesmo. Pena que este sentimento me acompanha em muitos dos centros históricos que vou visitando por esse Portugal fora. É curioso ver, desde uma rua comercial do centro da cidade, a imponência do centro comercial massivo apenas separados pelo rio. Os outroras centros comerciais no interior das urbes, têm sido deslocados para locais que emulam outras sociedades de consumo, como a norte-americana, e com possibilidade de estacionamento, já se assumem como nossas. Os centros históricos acabam entregues a turistas e à miséria à procura das migalhas dos negócios da China.
Regressámos da mesma maneira como fomos, de comboio. Vimos o maquinista, falámos com o revisor, usámos vocabulário do passado da nossa família, da via férrea, essa à qual penso que escapei.
Chegados à Figueira da Foz, terminámos o dia entre livros, numa Feira do Livro bastante bem programada e munida de exemplares. Por pouquíssimo tempo não assisti à apresentação do Francisco Moita Flores. Tive pena. Foi dos primeiros autores a quem prestei atenção em miúdo. Foi à Industrial e graças a ele prestei atenção a um lado oculto do Estado Novo e que o escritor não era propriamente um tipo académico como os dos livros de texto escolares.
Gastei pouco dinheiro. Primeiro, porque não posso malgastar (não é que investir em livros seja por mim considerado um mau investimento), ao viver em família temos de priorizar. Segundo, porque, apesar de ter o sonho de ter uma biblioteca organizada na courela, me custa saber que vou acumular, que pouco vão circular e que um livro numa estante é um bocado de egoísmo da minha partes. (No entanto, fico bastante chateado quando necessito consultar a página tal e não tenho o livro perto ou anda em mãos desrespeitadoras com a bibliografia alheia. Às vezes, fico mesmo fodido e perco a vontade de partilhar. Esse é o motivo porque não empresto livros a qualquer um.).
Bom, e para não me esquecer, escrevo-o como se fosse para dizê-lo em voz alta. No saco trago Manuel António Pina (para o Pedro -se leres esta entrada já sabes!-), Egito Gonçalves e a sua «Ferida Amável», e Xosé Lois (o apelido não me lembro), um galego lusofilo com um livro de poemas inspirado pelos azulejos da estação de caminho-de-ferro de Caminha. Onde abri os cordões à bolsa foi numa grande livraria em Coimbra. Voltei a encontrar-me com Paul Celan através da sua ensaística em «O Meridiano e outros textos», creio que reeditado, há menos de um mês. Pequeno, mas já bastante sublinhado, a aguardar algum tempo para poder esmiuçá-lo, pois, estes dias, os meus putos não mo permitem como gosto.
A nota diária já vai longa. O dia também o foi. Na feira do livro, vejo que há muita oferta, que quem lê não tem preconceitos, compra de acordo com o mercado, com o acesso da distribuição livreira. A crítica continua a funcionar com a relatividade que a actividade implica e a academia está mais preocupada com os livros do passado, com os livros de texto, e com artigos de pontos científicos, que com novos horizontes artísticos. 
Com uma feira do livro numa praia bastante movimentada e numa época em que nunca antes se leu tanto, porque é que saí de lá com conversa de cu fodido? (Isto é, a queixar-me.).
Disse à minha mulher, «O sublime está cada vez mais barato e ninguém lhe pega. Há poesia, narrativas e ensaios ao preço de um euro e pouca gente os compra. Há magotes de editoras falidas a venderem obras e autores a peso, pois é melhor facturar-se qualquer coisa que nada. E as novas colecções? Os catálogos rebuscados, sofisticados, de editoras tão selectivas que acabam por perder a oportunidade de possibilitar o seu grande objectivo, ler. Reconheço, contra mim mesmo, que o hermetismo de Celan não é para qualquer sensibilidade, contudo não posso deixar de acreditar que, com vontade, todos somos capazes de ter capital de evoluir ou retroceder nas nossas leituras. Não entro por binómios de qualidade/quantidade, sim por liberdade. O mercado editorial português (e, atrevo-me a dizer, europeu ou mesmo mundial) é refém dos grandes grupos económicos detentores da publicação, da distribuição e, até mesmo, dos espaços físicos em loja ou destas típicas feiras do livro de Verão. 
O autor, no fundo quem nos leva a ler, o motor do acto de criação, é o último elo da cadeia e, se quer publicar em formatos ditos «dignos» para o público, tem de fazer parte da corrente. Entendo a dinâmica, mas custar-me-ia fazer parte da engrenagem porque, como o poeta que desejava alguma vez ter cumprimentado, tenho ao meu lado uma pessoa, a minha mulher e isso faz-me estar fora do mercado convencional, esse mercado que promove títulos e temas tão interessantes como «o que fazer para ter sexo e os vossos filhos não ouvirem». Ainda não li porque é um assunto silencioso, íntimo, nada elegante, sobre o qual é preciso talento e mercado para se escrever.  Não duvido do talento destes autores com prefácios «fofinhos», fico contente com a informalidade e o humor que vai proliferando por campos literários. Rir é de deuses, mas, no acesso globalizado, fácil, a criação está cada vez mais próxima da medida humana que de Deus. 
Se calhar isso até é bom, se não jamais escreveria...


sábado, julho 29, 2017

«Fronteira» por Gloria Anzaldúa

«Penso na fronteira como o único ponto da terra que contém todos os outros lugares dentro de si». - Gloria Anzaldúa

A fertilidade da língua portuguesa e dos campos do Mondego (excerto de "Encontros Marcados" de Gonçalo Cadilhe)

Gonçalo Cadilhe explica melhor como sente a língua portuguesa e o rio que corre no fundo da sua rua, o Mondego:

“A ideia de Pessoa, o português como elemento definidor de pátria, que tantas vezes me iria emocionar na vida que eu levaria no futuro – em Goa, em Malaca, no Brasil, em África, até em resquícios de palavras nas Molucas -, tinha uma coluna vertebral: esse rio Mondego desde sempre habitado pela poesia e prosa que fixaram a língua, que a construíram. Era um monumento à ideia de nacionalidade que era não de mármore nem de granito, que não era civil nem religioso, não era gótico nem Estado Novo, não tinha conotações de qualquer tipo. Era um monumento líquido, claro e transparente, intemporal, vivo, cantante. O rio a que os romanos chamavam Munda, “puro”, o rio que corre no fundo da minha rua, oferece a Portugal o centro da língua portuguesa e, ao dividi-la e espalhá-la pelo mundo, define-a como um só território. O todo acontece porque existem as partes.”

Gonçalo Cadilhe, in “Encontros Marcados”, p.145



Uma viagem em cima de uma queimadura de primeiro grau... (28/VII/2017)

Atravesso Portugal desde a raia até ao litoral. Desde casa até ao Cabo Mondego. Deixo o calor da canícula e aproximo-me da brisa do mar para refrescar a mente e poder tirar o corpo da rotina.
Enquanto conduzo em direcção ao meu destino, o interior do país que vejo coincide com o meu íntimo. Devastado, terra queimada com vontade de aplicar a mesma política pirómana aos diversos e sucessivos governos, para quem a floresta é um jardim abandonado longe dos grandes interesses do e da capital. A esses senhores jamais lhe ardeu o mato do quintal, muito menos uma habitação.
Passo pelo IP2, com o incêndio de Nisa ainda a deflagrar. Tantos quilómetros feitos naquele itinerário principal durante tantos anos fazem-me sentir próximo daquela região. Ouço na rádio que 130 habitantes do conselho foram evacuados e que já poderão voltar a casa. Sem sabê-lo, tenho a certeza da maioria serem idosos. Indigno-me mais. Revolto-me mais.
Continuo e entro na A23. Nem imagino o que me espera. O incêndio de Mação fulminou a paisagem da terra do presunto português. A vista é apocalíptica. A flora não se caracteriza pelo verde clorofila, a fauna fugiu ou ficou a fazer parte da cinza e as pessoas, se já por ali viviam poucas, menos condições de vida têm reunidas.
Perco a conta aos quilómetros queimados, às árvores mortas de pé em frente ao fogo invasor, aos meios disponíveis no terreno, porém, ao cruzo-me com a minha UME («Unidad Militar de Emergencia»), de volta a casa depois duma ajuda fraterna ao irmão Portugal. Sinto um grande orgulho por estes profissionais e uma profunda tristeza de saber que o país onde nasci continua a arder ignorante dos seus direitos, do perigo de entregar nas mãos de outrem o seu destino, de contar com a caridade do irmão e não aprender com o seu bom exemplo...
Viajo em cima de uma enorme queimadura em primeiro grau. Até dá dó... Da revolta do roteiro queimado, estaciono junto ao Atlântico e sou mais um turista a veranear, ridículo na minha impotência...

sexta-feira, julho 28, 2017

Duas fotografias de Luís Neto

 Férias


Surfódromo



Algures no Brasil... Fotografias de Luís Neto para nos refrescarmos nestes dias de 38 graus e tal...





Podar contra a vontade do vento

A lâmina da roçadora facilitou a limpeza do pasto, de alguns carrascos e os chupões que rebentaram na base do tronco. O resto foi com a tesoura.
Há pequenos ramos, parasitas para o crescimento da árvore, que devem ser podados, desbastados. O ser humano também tem este tipo de extremidades, saliências, inúteis, pesadas e, muitas vezes, aceites como inevitáveis para o nosso porte. Eu estou carregado de ramos que há muito deveriam de ter sido podados e, em vez disso, vão caindo ao chão graças ao peso e à gravidade do mundo sensível.
Hoje, o facto de ter podado pela primeira vez (ainda por cima uma amendoeira com décadas de raízes e frutos) fez-me pensar nisso e na responsabilidade que é ter ferramentas de corte nas mãos. Fi-lo o melhor que pude, mas não pude deixar de sentir-me um agressor, um tirano da minha vontade contra a natureza aleatória. Os ramos têm a tendência à orientação norte-sul por imperativo eólico. Mas a vontade do vento, apesar de não portar tesouras, nem aparelhos de corte, como a minha, tem a força dum elemento...

"A poesia" por José Hierro (Trad. Luis Leal)

"A poesia tem palavras (significados) e tem sons; e se não te ensinam em criança a gostar do encanto da palavra, do ritmo da palavra, não há nada a fazer".

"La poesía tiene palabras (significados) y tiene sonidos; y si no te enseñan de niño a gustar del encanto de la palabra, del ritmo de la palabra, no tienes nada que hacer". 

José Hierro (Trad. Luis Leal)

quinta-feira, julho 27, 2017

"Enfrenta a obesidade e a diabetes" (uma tradução perdida de Luis Leal para a Junta de Extremadura)

Fui encontrar, no meio da papelada, uma das minhas primeiras traduções (não literárias) que fiz para um organismo oficial. Neste caso a "Junta de Extremadura", antes de ser "Gobierno de Extremadura" e voltar a ser "Junta de Extremadura". Politiquices que sempre dão jeito para mandar timbrar envelopes...
"Traducido por D. Luis Leal" tem a sua piada. Para um português (e republicano), o "Dom" remete-me para títulos nobiliárquicos com os quais não me identifico minimamente. Porém, sinto-o com o apreço espanhol e faz-me bem à saúde este exercício de arqueologia burocrática. Quando o encontrei, para além de me lembrar da minha colega Encinar, que me desafiou a traduzir o documento, fiquei feliz por sentir esta tradução como algo útil (não é que a literatura não o seja) para todo o tipo de almas, pois comer bem e fazer exercício é transversal a todas as sensibilidades...