segunda-feira, outubro 23, 2017

A rosa mística (Adélia Prado)



Luís, dá-te jeito este poema de Adélia Prado?


A ROSA MÍSTICA

A primeira vez
que tive a consciência de uma forma,
disse à minha mãe:
dona Armanda tem na cozinha dela uma cesta
onde põe os tomates e as cebolas;
começando a inquietar-me pelo medo
do que era bonito desmanchar-se,
até que um dia escrevi:
”neste quarto meu pai morreu,
aqui deu corda ao relógio
e apoiou os cotovelos
no que pensava ser uma janela
e eram os beirais da morte”.
Entendi que as palavras
daquele modo agrupadas
dispensavam as coisas sobre as quais versavam,
meu próprio pai voltava, indestrutível.
Como se alguém pintasse
a cesta de dona Armanda
me dizendo em seguida:
agora podes comer as frutas.
Havia uma ordem no mundo,
de onde vinha?
E por que contristava a alma
sendo ela própria alegria
e diversa da luz do dia,
banhava-se em outra luz?
Era forçoso garantir o mundo,
da corrosão do tempo, o próprio tempo burlar.
Então prossegui: “neste quarto meu pai morreu.
Podes fechar-te, ó noite,
teu negrume não vela esta lembrança”.
Foi o primeiro poema que escrevi.

Adélia Prado



"Ensinamento", outro poema, o primeiro dela que eu li. Que grande descoberta, Adélia Prado!



"Chegas tarde ao teu tempo" - Joan Margarit

Chegas tarde ao teu tempo. Palavras duras

que escuto agora como uma derrota.

Mas já não sei de nenhum combate,

nem que tempo era o meu. É uma pena

não se ser ninguém, ter errado

o comboio, ter ficado sem malas,

adormecido no banco, passar ao largo,

e achar-se agora sem roupa limpa,

cansado, num hotel reles de uma só

e má estrela, que deve ser a minha.

Prescindirei de tudo menos do poeta

que fica do desastre. Fingirei ver

que no final de contas errei o século:

isto será Paris e eu Verlaine.
(Tradutor: desconhecido)


domingo, outubro 22, 2017

"Évora" – Álvaro Valverde


Poderia ser quem sou sem ela? Todos os domingos mo denunciam que não. Este não foi exceção. O reconhecido e prestigiado poeta espanhol Álvaro Valverde, obsequiou o mestre Antonio Sáez, e este vosso amigo, com este poema dividido, em duas partes, intitulado “Évora”. Na verdade, dedicou-o à cidade branca, à cidade amuralhada que nunca ergueu fronteiras, dedicou-o todos aqueles que sentem Évora como sua cidade.

Gracias Álvaro.

1

                         Para Antonio Sáez

A três horas, dizes para ti, outro mundo.
Tão próximo, é verdade, porém tão longe
para o acaso uma fronteira justificar
a sua posição geográfica no mapa.
À medida que te aproximas, de repente uma miragem:
vês o mar confundido com o céu.
De oliveiras e de vinhas a paisagem.
E já ali, a lenta cidade branca,
presa e alheia a qualquer época.  
Idades sucessivas levantam-se
em forma de colunas e muralhas.
De praças, de conventos, de jardins
encerrados ao comum dos mortais.
E ali esse velho claustro
da universidade que foi colégio,
clausurada à força por ideias,
razão, quanto ao demais, da sua existência.
A luz aqui é tudo. Reverbera
contra os azulejos que decoram
corredores e aulas e paredes.
Rapaziada com as suas capas negras cruza
veloz as arcadas.
Por dentro cada um percorre serenos labirintos
que a pedra envelhece. Do silêncio,
estâncias amparadas pela história.
De todas é numa onde com o tempo
ficarias a viver: na biblioteca.
Se olhares para cima não parece
ser um sítio fechado. As janelas
aproximam o verde de algumas árvores.
Povoarão com os seus chilreios essas mesas
onde os estudantes leem ou escrevem
sobre madeiras nobres que suportam
o brilho artificial dos ecrãs.
Aqui ficarias, abrigado
entre muros incólumes à pressa.
Mas a realidade impõe-se. Sais,
voltas a percorrer esse caminho
que finaliza o teu périplo: grato, breve.
A três horas de carro de outro mundo.


2
                                   Para Luis Leal

Poderia outra cidade
servir de réplica
à mesma em que vives?

Que tivesse muralhas
e também aquedutos
e praças com pórticos
e restos arqueológicos
e ruas tão estreitas
como estas que transitas.

Uma cidade levítica
acompassada ao ritmo
de um tocar de sinos,
ao do que vagueia só
por caminhos labirínticos
que conduzem a um centro
que sabemos secreto.
  
Um lugar melancólico
onde a saudade fosse
uma expressão corrente.

Existe essa cidade,
ainda que sem rio,
e nela encontras hoje
a tua sublimada.
Mais serena e mais branca.
Misteriosa e, por isso,
invejável e distinta.

És ali esse homem
que sonha ser outro;
desconhecido para si,
mas o qual sentes
com tanta convicção
como a ti mesmo.
(Tradução de Luis Leal)

Nota: Este poema de Álvaro Valverde encontra-se publicado, na sua versão original, no número 51 da revista “Sibila”.


Álvaro Valverde (Plasencia, 1959) é autor de livros de poesia como "Las aguas detenidas", "Una oculta razón" (Prémio Loewe), "A debida distancia", "Ensayando círculos", "Mecánica terrestre", "Desde fuera" e "Más allá, Tánger" (estando os últimos quatro publicados na colecção “Nuevos Textos Sagrados” da prestigiada Tusquets Editores) ou "Plasencias" (editado pela De la Luna Libros). Os seus poemas encontram-se incluídos em várias antologias, sendo traduzidos a diferentes línguas. É também autor de dois romances, "Las murallas del mundo" e "Alguien que no existe", um livro de artigos, "El lector invisible", e outro de viagens "Lejos de aquí". A editora La Isla de Siltolá publicou, numa edição de Jordi Doce, "Un centro fugitivo", uma antologia que reúne poemas escritos entre os anos de 1985 e 2010. Como crítico literário, podemos encontrar as suas colaborações no prestigiado semanário “El Cultural”.

Compreender a poesia (Grant Snider - Mark Strand)



Fonte: Blogue O linguado. Dai retiro também este texto (inclui, aliás, os versos de Strand que inspiraram Snider):

"Esta pequena BD de Grant Snider (publicada no seu excelente blogue Incidental Comics - http://incidentalcomics.tumblr.com/) foi inspirada por The New Poetry Handbook, que o poeta Mark Strand (1934-2014), norte-americano nascido no Canadá, incluiu no seu livro Darker: Poems, de 1970."


E pela nossa parte, desde Senderos, acrescentamos este poema de Mark Strand:


THE HILL

I have come this far on my own legs,
missing the bus, missing taxis,
climbing always. One foot in front of the other,
that is the way I do it.

It does not bother me, the way the hill goes on.
Grass beside the road, a tree rattling
its black leaves. So what?
The longer I walk, the farther I am from everything.

One foot in front of the other. The hours pass.
One foot in front of the other. The years pass.
The colors of arrival fade.
That is the way I do it.





sábado, outubro 21, 2017

«Sim» - Clarice Lispector

Clarice Lispector publicou esta crónica há, exactamente, cinquenta anos, no dia 21 de Outubro de 1967.

Sim

Eu disse a uma amiga:
- A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
- Mas lembre-se que você também superexigiu da vida.
Sim.


quinta-feira, outubro 19, 2017

Um sítio onde pousar a cabeça

"Só quero um sítio onde pousar a cabeça” é um verso feito título dum livro de poesia do Manuel António Pina. Hoje fazem cinco anos da sua morte. Graças ao Pedro, não poderia esquecer esta data. 

Anoitece nas minhas cidades. Uma vejo-a anoitecer pela janela, a outra ouço-a ao telefone. Anoitece no meu dia. Escrevo para vaguear. Falar é difícil rotina a esta hora. Há trabalhos para deixar feitos, contas para pagar, mochilas para preparar, birras infantis por deitar. Sou eu e os meus passos sentados à frente do computador. Sou eu à procura do silêncio das teclas porque me parece que já nada me pertence, nem mesmo a mudez de todas as palavras duma criança sem entusiasmo com o presente de ser adulto.

Onde pouso a cabeça tem-se habituado às gotas de suor da minha frente e à luz frontal a pilhas da insónia contrariada em leitura. De vez em quando, a epígrafe surge-me como dádiva sublinhada de cabeceira, o resto bem poderia continuar de frontal, à mineiro, escavando por entre os baldios da minha condição.

Já anoiteceu. O Manuel António Pina morreu. “O que nos leva a escrever é o desejo de ser amados” dissera ele numa entrevista qualquer. Nunca o pensei assim, sempre foi mais o desejo de ser escutado, ouvido. Ou talvez não e esteja para aqui a confundir escrever com a forma como ganho o pão. O amor é mais importante do que a atenção.

Abandono o meu pescoço e pouso a minha cabeça no travesseiro suado de versos acarinhados, como um gato, pelo saudoso Manuel António, é a minha forma de ronronar desejo de amor, de atenção. Na verdade, numa qualquer reencarnação, não me importaria de ser um gatinho do Sr. Pina, para quem, com tanta dedicação ele escrevia.


Cinco anos sem o Manuel António Pina

«Igual ao deuses (com pouco me contento)
de livros e silêncio me alimento». 

19/X/2017 Cinco anos sem o Manuel António Pina.

Recordamos Manuel António Pina

Fotografia de Fábio Pinheiro


Recordamos Manuel António Pina não só porque morreu hoje há cinco anos, mas porque os versos dele são sempre um bom porto de abrigo, um porto onde em qualquer momento nos podemos refugiar.


OS OLHOS

O rosto que olha para trás,
o lado de fora do visível,
existe este rosto ou é apenas,
diante da infância, o olhar que se contempla?

Em ti, ó noite,
reclino a cabeça.
O que eu fui sonha,
e eu sou o sonho:

alguma coisa que pertence
a um desconhecido que morreu
que outro desconhecido (é este o meu rosto?)
fora da infância infinitamente pense.


Nenhum Sítio (1984)






terça-feira, outubro 17, 2017

Nota duma Ibéria a arder

Assim, em directo, me chegam notícias da Burinhosa, do distrito de Leiria, dos outros distritos, de um Portugal onde o fogo ceifa vidas constantemente como se fosse um fado inevitável... Não tenho espírito inquisidor de procurar culpados, porém vejo décadas de responsabilidade política neste flagelo. Irresponsabilidade de sucessivos governos, bem mais grave que uma parcela florestal desorganizada, esquecida, e por limpar de um idoso qualquer deste país que, às mãos dum centralismo egocêntrico, se vai tornando um deserto de terra queimada.

P.S. Ironicamente, queimam-se as duas regiões onde, a Elsa e eu, casámos. S. Pedro de Moel, na região Oeste de Portugal, e a Galiza. Todas as imagens e notícias que recebemos são retratos dolorosos dessa paisagem que amamos e nos une.

segunda-feira, outubro 16, 2017

Ferro sobre Ramón

(...)Hay un nombre que nos es muy querido, y que yo y otros camaradas hemos proclamado constantemente: el nombre combativo de Ramón Gómez de la Serna, milagrosa retina de la literatura contemporánea.
(...)
Fidelino de Figueiredo, con quién conversé sobre él algunas veces, ha confundido mi admiración fervorosa, cada vez mayor, con una subordinación intelectual, que sería honrosa para mi, pero que no he visto.
Fidelino de Figueiredo es uno de nuestros mejores críticos literarios, y estoy seguro que corregirá su error después de una lectura atenta (si juzga que ello valga la pena) entre mi obra y la grande de Ramón.
Mis afinidades con Ramón son aquellas de con un escritor de mi tiempo. Cuando conocí a Ramón ya mi espíritu estaba formado y ya estaba en marcha. Lo que existirá entre Ramón y yo siempre será una estrecha camaradería, porque mi lucha en Portugal se parece a la suya en España.».


in «La Gaceta Literaria», n°29, 1 de marzo de 1928

Desligar

Desligar o botão do pensamento,
estar em silêncio
em pleno consumo
de vazio,
ajuda
a
não
avariar.

Burinhosa

Não esperava publicá-lo hoje, mas as circunstâncias de ontem assim o ditaram. Está previsto conhecer papel no meu próximo projecto “pedal(e)ar”, no entanto aqui o dedico à capital das bicicletas clássicas e de todas as "pasteleiras" de Portugal, a nobre Burinhosa, que ontem conheceu o inferno. 
Com estima, à Burinhosa, a S. Pedro de Moel, ao Pinhal de Leiria. Com estima, à família Rodrigues.  

Burinhosa

(com estima, à família Rodrigues)

Há um local onde o património do homem são duas rodas.
Onde a utopia duma freguesia
resgatou das ruínas ou do palheiro deste país
a crónica de gerações a pedalar.

Invadida por inglesas, francesas, portuguesas
restauradas, remendadas ou todas enferrujadas,
são oleadas para, num dia especial de Julho,
sentirem a veloz brisa anti-inflamatória do Atlântico
na sua biografia de selim, guiador e travões de alavanca.

Ali o sangue velho dos avós
é estimado e agradecido,
correndo orgulhoso nas veias dos netos.
Há resineiros, há varinas, há amoladores,
pedaleiras vestidas a rigor
graças a uma terra trazida
ao peito duma família.

Na Burinhosa,
no coração de Portugal,
onde do chão se erguem santuários,
se desenham beira-mares,
se cantam flores do verde pino,
se vislumbra da serra as planícies cúmplices,
exala-se o fluido evocador
das histórias
das nossas
bicicletas.



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