domingo, setembro 21, 2014

Somos Cante

Somos sangue.
Somos terra.
Somos quente suor.
Somos um rosto de frente.

O sangue torna-se terra,
O suor absorve o lenço
A cara dá-se pelos avós
E a voz torna-se cante.

Eu que nasci no Alentejo
Serei chão
Quando a seca me chegar às veias.

A alma
Essa, pelas veredas,
Além, à sombra,
Caminhará de braço dado
E passo lento,
Sincopado pelo coração
Que nos late à capela.
Comunga-se com água a ferver
Coentros, poejos e alho


E esperamos que o paraíso tenha taberna.

"Pois é" - António Lobo Antunes

quinta-feira, setembro 11, 2014

PAÍS DE AZULEJOS PARTIDOS - Mário Dionísio

PAÍS DE AZULEJOS PARTIDOS - Mário Dionísio
País de azulejos partidos
de erva trepando entre paredes em ruína
País entregue à sua sina
sem olhos e sem ouvidos
País voraz ruminando o almoço
rindo ou chorando incapaz de sorrir
País de corpo aberto a quem está a seguir
País do rastejar entre a pele e o osso
Pulinhos para trás e para a frente
de polegar na cava do colete
foguetes procissões uns copos de palhete
país da pequenez de si mesma contente
País indiferente aos que dão por ele a vida
País herói se não há perigo em sê-lo
País de velhos do Restelo
dado à mão-baixa perto e consentida
País que tudo quer e nada quer tudo suporta
País do faz como vires fazer
País do quero lá saber
do quem vier depois que feche a porta
Mário Dionísio,"Terceira Idade",1982
(1916-1993)