segunda-feira, julho 31, 2017

Ladeira da Boa Morte

Tantas vezes a venceu a pedais, a deslizou com a pasteleira atirada, quando se sentiu velho, para a ribanceira, que a Ladeira da Boa Morte não lhe perdoou tal ousadia. O meu avô continua a morrer dia-a-dia impedido de ter uma boa morte.
Tantos anos a definhar não compensam nenhuma glória, nenhuma vitória sobre a morte...

Lugar-comum (Leiria, 31/VII/2017)

A minha vida é única porque está repleta de lugares-comuns. Nem sempre me sinto bem com isso, mas há tempo aceitei a banalidade do meu lugar no mundo.

domingo, julho 30, 2017

Figueira da Foz-Coimbra/Coimbra-Figueira da Foz

Estive fora de casa. A passear, pois viajar implica mais curiosidade e menos logística de carrinho de bebé e mochila cheia de fraldas. 
O passeio consistiu em dois bilhetes e meio (o Xavier com dois anos ainda não pagou) de ida e volta a Coimbra desde a Figueira da Foz. Por outras palavras, duas horas e meia do nosso dia a andar de comboio. 
Valeu a pena metermo-nos neste regional e parar em todos os apeadeiros que confundiam os meus filhos e promoviam um inquérito constante: «já chegámos?»; «é aqui?» ou «isto é Coimbra?».
Chegámos, estivemos lá e viram um bocadinho do centro de cidade. Enquanto cumpri com os meus deveres familiares, não pude deixar de pensar como gostaria de ter cumprimentado o Adolfo Rocha, de como o seu olhar de poeta se projectava desde a janela do seu consultório em direcção ao Mondego e a sua alma atingia uma dimensão peninsular por devoção literária a Cervantes e a Unamuno. Porém, a sua maior devoção sempre me pareceu ser à integridade do seu ser, essa herança telúrica de S. Martinho da Anta. Consolei-me com uma rápida visita à placa em forma de mão, na Praça da Portagem, e a uma referência rápida à sua pessoa, ao seu pseudónimo, e explicar ao meu filho mais velho, também ele um amante de «Bichos», que ali viveu uma das maiores referências que a literatura me deu. 
O turismo das massas traz um certo glamour, mas não oculta muita da degradação que se vai vendo a pedir esmola na cidade do Mondego. A última vez que a visitei, pensei o mesmo. Pena que este sentimento me acompanha em muitos dos centros históricos que vou visitando por esse Portugal fora. É curioso ver, desde uma rua comercial do centro da cidade, a imponência do centro comercial massivo apenas separados pelo rio. Os outroras centros comerciais no interior das urbes, têm sido deslocados para locais que emulam outras sociedades de consumo, como a norte-americana, e com possibilidade de estacionamento, já se assumem como nossas. Os centros históricos acabam entregues a turistas e à miséria à procura das migalhas dos negócios da China.
Regressámos da mesma maneira como fomos, de comboio. Vimos o maquinista, falámos com o revisor, usámos vocabulário do passado da nossa família, da via férrea, essa à qual penso que escapei.
Chegados à Figueira da Foz, terminámos o dia entre livros, numa Feira do Livro bastante bem programada e munida de exemplares. Por pouquíssimo tempo não assisti à apresentação do Francisco Moita Flores. Tive pena. Foi dos primeiros autores a quem prestei atenção em miúdo. Foi à Industrial e graças a ele prestei atenção a um lado oculto do Estado Novo e que o escritor não era propriamente um tipo académico como os dos livros de texto escolares.
Gastei pouco dinheiro. Primeiro, porque não posso malgastar (não é que investir em livros seja por mim considerado um mau investimento), ao viver em família temos de priorizar. Segundo, porque, apesar de ter o sonho de ter uma biblioteca organizada na courela, me custa saber que vou acumular, que pouco vão circular e que um livro numa estante é um bocado de egoísmo da minha partes. (No entanto, fico bastante chateado quando necessito consultar a página tal e não tenho o livro perto ou anda em mãos desrespeitadoras com a bibliografia alheia. Às vezes, fico mesmo fodido e perco a vontade de partilhar. Esse é o motivo porque não empresto livros a qualquer um.).
Bom, e para não me esquecer, escrevo-o como se fosse para dizê-lo em voz alta. No saco trago Manuel António Pina (para o Pedro -se leres esta entrada já sabes!-), Egito Gonçalves e a sua «Ferida Amável», e Xosé Lois (o apelido não me lembro), um galego lusofilo com um livro de poemas inspirado pelos azulejos da estação de caminho-de-ferro de Caminha. Onde abri os cordões à bolsa foi numa grande livraria em Coimbra. Voltei a encontrar-me com Paul Celan através da sua ensaística em «O Meridiano e outros textos», creio que reeditado, há menos de um mês. Pequeno, mas já bastante sublinhado, a aguardar algum tempo para poder esmiuçá-lo, pois, estes dias, os meus putos não mo permitem como gosto.
A nota diária já vai longa. O dia também o foi. Na feira do livro, vejo que há muita oferta, que quem lê não tem preconceitos, compra de acordo com o mercado, com o acesso da distribuição livreira. A crítica continua a funcionar com a relatividade que a actividade implica e a academia está mais preocupada com os livros do passado, com os livros de texto, e com artigos de pontos científicos, que com novos horizontes artísticos. 
Com uma feira do livro numa praia bastante movimentada e numa época em que nunca antes se leu tanto, porque é que saí de lá com conversa de cu fodido? (Isto é, a queixar-me.).
Disse à minha mulher, «O sublime está cada vez mais barato e ninguém lhe pega. Há poesia, narrativas e ensaios ao preço de um euro e pouca gente os compra. Há magotes de editoras falidas a venderem obras e autores a peso, pois é melhor facturar-se qualquer coisa que nada. E as novas colecções? Os catálogos rebuscados, sofisticados, de editoras tão selectivas que acabam por perder a oportunidade de possibilitar o seu grande objectivo, ler. Reconheço, contra mim mesmo, que o hermetismo de Celan não é para qualquer sensibilidade, contudo não posso deixar de acreditar que, com vontade, todos somos capazes de ter capital de evoluir ou retroceder nas nossas leituras. Não entro por binómios de qualidade/quantidade, sim por liberdade. O mercado editorial português (e, atrevo-me a dizer, europeu ou mesmo mundial) é refém dos grandes grupos económicos detentores da publicação, da distribuição e, até mesmo, dos espaços físicos em loja ou destas típicas feiras do livro de Verão. 
O autor, no fundo quem nos leva a ler, o motor do acto de criação, é o último elo da cadeia e, se quer publicar em formatos ditos «dignos» para o público, tem de fazer parte da corrente. Entendo a dinâmica, mas custar-me-ia fazer parte da engrenagem porque, como o poeta que desejava alguma vez ter cumprimentado, tenho ao meu lado uma pessoa, a minha mulher e isso faz-me estar fora do mercado convencional, esse mercado que promove títulos e temas tão interessantes como «o que fazer para ter sexo e os vossos filhos não ouvirem». Ainda não li porque é um assunto silencioso, íntimo, nada elegante, sobre o qual é preciso talento e mercado para se escrever.  Não duvido do talento destes autores com prefácios «fofinhos», fico contente com a informalidade e o humor que vai proliferando por campos literários. Rir é de deuses, mas, no acesso globalizado, fácil, a criação está cada vez mais próxima da medida humana que de Deus. 
Se calhar isso até é bom, se não jamais escreveria...


sábado, julho 29, 2017

«Fronteira» por Gloria Anzaldúa

«Penso na fronteira como o único ponto da terra que contém todos os outros lugares dentro de si». - Gloria Anzaldúa

A fertilidade da língua portuguesa e dos campos do Mondego (excerto de "Encontros Marcados" de Gonçalo Cadilhe)

Gonçalo Cadilhe explica melhor como sente a língua portuguesa e o rio que corre no fundo da sua rua, o Mondego:

“A ideia de Pessoa, o português como elemento definidor de pátria, que tantas vezes me iria emocionar na vida que eu levaria no futuro – em Goa, em Malaca, no Brasil, em África, até em resquícios de palavras nas Molucas -, tinha uma coluna vertebral: esse rio Mondego desde sempre habitado pela poesia e prosa que fixaram a língua, que a construíram. Era um monumento à ideia de nacionalidade que era não de mármore nem de granito, que não era civil nem religioso, não era gótico nem Estado Novo, não tinha conotações de qualquer tipo. Era um monumento líquido, claro e transparente, intemporal, vivo, cantante. O rio a que os romanos chamavam Munda, “puro”, o rio que corre no fundo da minha rua, oferece a Portugal o centro da língua portuguesa e, ao dividi-la e espalhá-la pelo mundo, define-a como um só território. O todo acontece porque existem as partes.”

Gonçalo Cadilhe, in “Encontros Marcados”, p.145



Uma viagem em cima de uma queimadura de primeiro grau... (28/VII/2017)

Atravesso Portugal desde a raia até ao litoral. Desde casa até ao Cabo Mondego. Deixo o calor da canícula e aproximo-me da brisa do mar para refrescar a mente e poder tirar o corpo da rotina.
Enquanto conduzo em direcção ao meu destino, o interior do país que vejo coincide com o meu íntimo. Devastado, terra queimada com vontade de aplicar a mesma política pirómana aos diversos e sucessivos governos, para quem a floresta é um jardim abandonado longe dos grandes interesses do e da capital. A esses senhores jamais lhe ardeu o mato do quintal, muito menos uma habitação.
Passo pelo IP2, com o incêndio de Nisa ainda a deflagrar. Tantos quilómetros feitos naquele itinerário principal durante tantos anos fazem-me sentir próximo daquela região. Ouço na rádio que 130 habitantes do conselho foram evacuados e que já poderão voltar a casa. Sem sabê-lo, tenho a certeza da maioria serem idosos. Indigno-me mais. Revolto-me mais.
Continuo e entro na A23. Nem imagino o que me espera. O incêndio de Mação fulminou a paisagem da terra do presunto português. A vista é apocalíptica. A flora não se caracteriza pelo verde clorofila, a fauna fugiu ou ficou a fazer parte da cinza e as pessoas, se já por ali viviam poucas, menos condições de vida têm reunidas.
Perco a conta aos quilómetros queimados, às árvores mortas de pé em frente ao fogo invasor, aos meios disponíveis no terreno, porém, ao cruzo-me com a minha UME («Unidad Militar de Emergencia»), de volta a casa depois duma ajuda fraterna ao irmão Portugal. Sinto um grande orgulho por estes profissionais e uma profunda tristeza de saber que o país onde nasci continua a arder ignorante dos seus direitos, do perigo de entregar nas mãos de outrem o seu destino, de contar com a caridade do irmão e não aprender com o seu bom exemplo...
Viajo em cima de uma enorme queimadura em primeiro grau. Até dá dó... Da revolta do roteiro queimado, estaciono junto ao Atlântico e sou mais um turista a veranear, ridículo na minha impotência...

sexta-feira, julho 28, 2017

Duas fotografias de Luís Neto

 Férias


Surfódromo



Algures no Brasil... Fotografias de Luís Neto para nos refrescarmos nestes dias de 38 graus e tal...





Podar contra a vontade do vento

A lâmina da roçadora facilitou a limpeza do pasto, de alguns carrascos e os chupões que rebentaram na base do tronco. O resto foi com a tesoura.
Há pequenos ramos, parasitas para o crescimento da árvore, que devem ser podados, desbastados. O ser humano também tem este tipo de extremidades, saliências, inúteis, pesadas e, muitas vezes, aceites como inevitáveis para o nosso porte. Eu estou carregado de ramos que há muito deveriam de ter sido podados e, em vez disso, vão caindo ao chão graças ao peso e à gravidade do mundo sensível.
Hoje, o facto de ter podado pela primeira vez (ainda por cima uma amendoeira com décadas de raízes e frutos) fez-me pensar nisso e na responsabilidade que é ter ferramentas de corte nas mãos. Fi-lo o melhor que pude, mas não pude deixar de sentir-me um agressor, um tirano da minha vontade contra a natureza aleatória. Os ramos têm a tendência à orientação norte-sul por imperativo eólico. Mas a vontade do vento, apesar de não portar tesouras, nem aparelhos de corte, como a minha, tem a força dum elemento...

"A poesia" por José Hierro (Trad. Luis Leal)

"A poesia tem palavras (significados) e tem sons; e se não te ensinam em criança a gostar do encanto da palavra, do ritmo da palavra, não há nada a fazer".

"La poesía tiene palabras (significados) y tiene sonidos; y si no te enseñan de niño a gustar del encanto de la palabra, del ritmo de la palabra, no tienes nada que hacer". 

José Hierro (Trad. Luis Leal)

quinta-feira, julho 27, 2017

"Enfrenta a obesidade e a diabetes" (uma tradução perdida de Luis Leal para a Junta de Extremadura)

Fui encontrar, no meio da papelada, uma das minhas primeiras traduções (não literárias) que fiz para um organismo oficial. Neste caso a "Junta de Extremadura", antes de ser "Gobierno de Extremadura" e voltar a ser "Junta de Extremadura". Politiquices que sempre dão jeito para mandar timbrar envelopes...
"Traducido por D. Luis Leal" tem a sua piada. Para um português (e republicano), o "Dom" remete-me para títulos nobiliárquicos com os quais não me identifico minimamente. Porém, sinto-o com o apreço espanhol e faz-me bem à saúde este exercício de arqueologia burocrática. Quando o encontrei, para além de me lembrar da minha colega Encinar, que me desafiou a traduzir o documento, fiquei feliz por sentir esta tradução como algo útil (não é que a literatura não o seja) para todo o tipo de almas, pois comer bem e fazer exercício é transversal a todas as sensibilidades...


Dali's Bike

terça-feira, julho 25, 2017

Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos? (Alexandre Dumas lembrado por António Lobo Antunes)

«Esta frase traz-me sempre à ideia a pergunta que Alexandre Dumas
(gosto de Alexandre Dumas)
faz no seu diário:
"Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?"
Fica a reflectir acerca disto durante uns parágrafos e acaba por concluir que só pode ser um problema de educação. (...)
Uma criatura sem humor é um ser horrível. Os judeus dizem: os homens falam. Deus ri. E, lendo o que as pessoas dizem, ri-se de certeza às gargalhadas. E daí não sei. Voltando à pergunta de Dumas
- Porque motivo há tantas crianças inteligentes e tantos adultos estúpidos?
não tenho a certeza de ser um problema de educação (...). A minha resposta a esta questão é outra. Há muitas crianças inteligentes e muitos adultos estúpidos porque matámos o máximo de crianças que perdemos quando elas começam a crescer. Por inveja, claro. Mas, sobretudo, por medo.

António Lobo Antunes, in "Visão" de 20/VII/2017

segunda-feira, julho 24, 2017

O meu pequeno...

Mi pequeño está aprendiendo que, no solo para montar en bicicleta, necesita un buen impulso con los pies bien asentados sobre la tierra. El equilibrio viene después.

O meu pequeno está a aprender que, não apenas para andar de bicicleta, necessita de um bom impulso com os pés bem assentes na terra. O equilíbrio vem depois.

domingo, julho 23, 2017

"O SER UNO"/"EL SER UNO" - Juan Ramón Jiménez (Trad. Luis Leal)

Que nada me invada de fora,
que só me ouça eu dentro.
Eu deus
do meu peito.

(Eu todo: poente e aurora;
amor, amizade, vida e sonho.
Eu só
universo).

Passem, não pensem na minha vida,
deixem-me sumido e esbelto.
Eu uno
no meu centro.
(Trad. Luis Leal)

"Que nada me invada de fuera,
que sólo me escuche yo dentro.
Yo dios
de mi pecho.

(Yo todo: poniente y aurora;
amor, amistad, vida y sueño.
Yo solo
universo).

Pasad, no penséis en mi vida,
dejadme sumido y esbelto.
Yo uno
en mi centro."

«Não tenhamos pressa mas não percamos tempo» - José Saramago

sábado, julho 22, 2017

“Todos os chouriços se enforcam” - Crónica de Luis Leal "in revista "Mais Alentejo" nº139, p.84)


“Todos os chouriços se enforcam” - Crónica de Luis Leal "in revista "Mais Alentejo" nº139, p.84)

Há dias estava a ouvir uma conversa sobre línguas mais importantes que outras. No mundo global impõe-se esta verdade devido ao imperialismo duma língua franca e de línguas úteis vinculadas à economia, porém no meu mundo, devoto da sustentabilidade, crer no absolutismo dessa conversação, ainda por cima, como era o caso, para denegrir um idioma, e os povos que o falam, é algo impossível.

Com os anos, tenho adquirido a tendência a não gastar o meu latim, não por submissão, sim por opção. Identifico facilmente com quem posso dar dois dedos de conversa sem querermos o braço um do outro. Podia ter quebrado o meu silêncio e tentar argumentar que todas as línguas, tal como as pessoas, são importantes, que falar de hierarquias nos fica mal como linguistas que presumimos ser. Podia até salientar o quão fascinantes são os provérbios e as expressões idiomáticas de cada língua, de como, entre morais e ausências delas, se misturam no dia-a-dia criando autênticas pérolas de sabedoria popular, mas preferi ir encher chouriços para outras bandas a tentar ensinar línguas a burros velhos cheios de certezas que me dão medo.

Chouriços em mãos nessa minha inutilidade intelectual, lembrei-me de como ambas as línguas, entre as quais vou vivendo, recorrem constantemente ao seu património de enchidos. O português “enche chouriços” ao não fazer nada útil ou com recompensa imediata (tem de esperar pelo efeito fumeiro) e o espanhol recorre ao “chorizo” para o corrupto, o ladrão do pão nosso de cada dia, geralmente um sem-vergonha de colarinho branco. Quem prestou atenção às manifestações anticorrupção em Espanha, lembrar-se-á duns cartazes com a frase proverbial “No hay pan para tanto chorizo”. Porém, lembrei-me duma “greguería” que enunciava “todos los chorizos se ahorcan”. Posso agora ter baralhado o amável leitor e não quero que ande para aí às aranhas. O que é então uma “greguería”?

Na tradição literária espanhola, uma “greguería” é um texto breve, semelhante a um aforismo, quase sempre uma única frase, redigida numa única linha, que expressa, com engenho e originalidade, reflexões filosóficas, humorísticas, pragmáticas, poéticas, ou de qualquer outra índole. Atribui-se a sua criação ao génio literário de Ramón Goméz de la Serna, ou simplesmente Ramón, como ficou conhecido em toda a Europa e América do Sul nos anos 20 e 30. Para que o meu caríssimo leitor tenha uma ideia do que se trata, tomei a liberdade de traduzir algumas do genial Ramón: “O relógio não existe nas horas felizes”; “O epitáfio é o último cartão de visita que faz o homem”; “Quando a mulher pede salada de fruta para dois, aperfeiçoa o pecado original”; “Nervosismo de cidade: não poder abrir o saquinho de açúcar para o café”; “O aparelho mais sábio do mundo é o autoclismo para a retrete, pois com a sua corrente à mão todos somos uns Moisés milagrosos” ou “Não ter morrido não é a única coisa que distingue os vivos dos mortos”.

Lili Caneças (bem viva e plastificada) roçou o género com o seu célebre “estar vivo é o contrário de estar morto”. Faltou-lhe a fórmula ramoniana de “metáfora+humor”, no entanto, esta apelidada “tia”, tem em comum com o autor a linha de Estoril-Cascais, onde este construiu uma moradia e passou largas temporadas até não voltar, para sempre, em 1928.

Ramón assumiu a descoberta que fora para si Portugal e incitou os seus compatriotas a visitá-lo urgentemente. Esse é o fascínio dum país, duma língua, duma cultura, esses génios escondidos em lâmpadas singelas cuja arrogância e chauvinismo não permite conhecer.  Génios como um tendeiro que conheci, de megafone, a fazer publicidade à sua banca: «Venham ver senhores e senhoras! Aqui falam-se línguas! É inglês, é francês, é espanhol, é português e até língua de porco!».

quarta-feira, julho 19, 2017

Sentimento do Tempo

“El reloj es una bomba de tiempo, de más o menos tiempo.”
Ramón Gómez de la Serna

O tempo afiança-se-me na respiração
consciente da corrente sanguínea estanque
de estar vivo.

O tempo substantivo depende do adjectivo.
Fotografa o bom, mau, cinzento, rápido, duro,
o agradável ou desagradável
ao mais íntimo dos meus sentidos.

O tempo de previsão em qualquer canal de televisão.
A noção do tempo na mecânica redundante do relógio de pulso
oculta a fé na eternidade dunar da ampulheta profeta
da religião didáctica nos tormentos pacientes de Job.
A resistência do tempo na matéria e o efeito ruína a renegar neologismos de
[resiliência.
A liberdade da criança e do louco adulto
sem ilusões de ponteiros, segundos, minutos,
horas apenas. Pés sujos da areia de dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos
e milénios de nadas.

“O tempo não existe”, assegura-me o físico ao calor do asfalto na encruzilhada
do passado, presente e futuro em direcção a uma firme e persistente ilusão.
“O tempo tem de existir, se não éramos tudo a acontecer de uma só vez”, sem perder tempo, diz-me o comum dos sensos.
“O que é o tempo?” pergunta-me, para sempre, o filósofo.

Na agenda do poeta, o tempo são versos brutos, longitudinais à sua latitude,
profanos de tanta devoção a um ignoto Cronos.
O almanaque do poeta é sazonal em qualquer leitura momentânea, em qualquer necessidade instantânea de poesia.

Já eu, que apenas o sinto, vejo o tempo ser tratado como uma substância
maleável, moldável, plástica, aos interesses dos meus semelhantes.
Até à data deste calendário, sou apenas mais um crente na intangibilidade explosiva
[deste elemento da Criação.

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Poços em constante prospecção

No geografia dum deserto
somos apenas pequenos poços.

Ainda podemos afundar-nos em mais profundidade. Mais metros de prospecção.

O nosso amor bebe do mesmo aquifero.
Em tempos de seca,
ausente a água,
resiste a vida na argila
húmida de terra.

Os lábios gretados nunca deixarão de ser beijados.
A secura da pele não impede a carícia
da verdade​ de quem ama.

Entre a cova e o poço
Temos a certeza de só um poço
ter por detrás um projecto de vida.
Mata a sede.
A cova enterra o corpo morto de sede.

Os nossos
suados
vivem de piguinhas de água
que queremos beber
que procuramos entre pedras
(e pedrinhas)...

Alguma gota não nos irá esquecer.

sexta-feira, julho 14, 2017

Quinta-feira de record histórico de temperatura

Quinta-feira, 13 de Junho. A Península está, em grande parte, consciente do extremo de temperatura a que estes meses chegaram. Córdoba chegou a uns módicos 46,8°C. O que é isso comparado com o deserto da Arábia Saudita? Pelo que vi na tv, é mais do que os desertos do petróleo atingiram esta Quinta-feira.
Badajoz esteve perto. 46°C.
É impossível não existir calor no que escrevo. Viver a estas temperaturas exige de ti um observar constante dos mais velhos, das construções do passado, do ritmo sábio de antanho, dum viver sem conhecer ares condicionados nem frigoríficos. Observavam-se os animais, as suas rotinas emuladas pelo ser humano. A memória do calor foi e continua forte nas minhas latitudes peninsulares. Em Évora era duro viver o Verão. Valiam-nos algumas tardes nas piscinas municipais (quando era possível) e as mangueiras dos quintais que nos refrescavam com água do poço. Os meus avós tinham um poço mesmo à porta de casa no pátio da minha infância. Os meus pais também. Um poço com 5 metros, herdado do tempo do meu avô Ventura, cuja água nunca sucumbiu a nenhuma seca. Segundo o meu pai, era um poço ladrão. Quando os demais das redondezas secavam, ele chupava e armazenava, na sua escassa profundidade, água alheia. Lembro-me de ver o meu pai lá dentro a limpá-lo. Senti pavor, pois a minha infância conhecia já a debilidade do suicídio alentejano pelo atirar-se para poço, para a linha do comboio e a facilidade com que se fazia um nó de forca. Recordo também o sabor salobro da sua água com a qual regávamos uma pequena horta e muitíssimos agriões, hoje enjoados após anos de salada rica em ferro.
As noites podem ser poços de escuridão, mananciais de vida a later fora de horas, furos secos impotentes de regar qualquer criatividade, qualquer sentir mais preocupado com estética do que com a autenticidade de se ter de viver.
Esta noite não é autêntica. Mente sobre mim. A mim também me mente com silhuetas confusas de desejo de eternidade num leito finito. Há arte neste poço escavado em solo febril? Seco?
Comi muito agrião regado com água salobra. Ferro não me falta. Esta é a minha vida. Esta é a minha forja. Não controlo as marteladas do meu molde pouco aguçado. Quis o destino de leal ser como uma navalha, «não julga, apenas acompanha», e tenho sido polido pelo cuidado de quem traz sempre uma naifa no bolso. Mestres e bandoleiros.

quinta-feira, julho 13, 2017

Joe Pickard | The Hoxton, Amsterdam

Uma manhã. Um verso. A vida de um homem (Ungaretti)

“Mattina” (Giuseppe Ungaretti)

M’illumino d’immenso

“Mañana”

Me ilumino de inmensidad

“Manhã”

Ilumino-me de imensidade

“Morning”


I iluminate myself with immensity