terça-feira, janeiro 31, 2017

Voltar a onde pensamos que pouco vamos voltar

É uma sensação estranha voltar a lugares que sentimos terminados nas nossas etapas vitais. Principalmente se esse local era parte do nosso dia-a-dia laboral, esse no qual não somos a totalidade do eu porque há a necessidade de ganhar o pão, mas somos grande parte o que somos.
Talvez nunca nada acabe. Talvez isto seja, à maneira oriental, um eterno retorno. Vivemos em frente, constantemente a avançar com o passado a aparecer-nos na estrada como sinalização a ter em conta, à qual devemos prestar atenção para respeitar ou ignorar.
Voltei à estrada por uns dias. Voltei à solidão do volante ao som da música dos meus pensamentos... sou eu sem ser quem fui.

V.A.

A memória é uma ficção - Manuel António Pina

«De qualquer modo, a memória é uma ficção e o passado uma espécie de sonho que nos sonha tanto quanto o sonhamos nós.» in "Os papéis de K.", p.75

domingo, janeiro 29, 2017

Rádios resintonizados com o prazer duma rotina

Sintonizar as manhãs de domingo com um velho rádio Philips é um hábito que me ajuda a suportar o peso do dia mais odioso da semana. Por isso, as manhãs ainda são leves, infantis, sem o trauma da tarde que me vai levar à escola de segunda-feira.
Por manter esta rotina, promovida desde a tenra infância com um rádio ligado à corrente mal acendíamos o interruptor da luz, na casa-de-banho dos meus pais, o génio electricista do Sr. Hipólito ainda me traz melodias, notícias ou tertulias em ondas hertzianas nos momentos de teórica privacidade, de asseio ou escatologia. Lembro-me do meu pai zangar-se frequentemente comigo por lhe resintonizar o rádio em estações como a local "Rádio Jovem", a "Cidade FM" ou a "Antena 3" e me dizer que no rádio da casa de banho (e do carro, há que referi-lo) mandava ele. 
A rádio, cuja vedeta da MTV não o matou mesmo depois de alguns assim o vaticinarem, continua a resistir, a alegrar as caras que se barbeiam pela manhã, a fazer de cicerone em estradas de vidas a deslocarem-se de casa ao trabalho, ou vice-versa, a deslocarem-se simplesmente porque é preciso, sintonizada no autorádio ou no smartphone de ouvidos absortos em headphones. A rádio não morre e é a rede social mais isenta e profissional que vou conhecendo.
Apesar de ter disponível tantas parafernálias tecnológicas disponíveis, e das quais sou usuário, volto sempre ao básico, resintonizo-me com o simples acender do botão do velho rádio do meu pai. 
(Esta foto é do nosso rádio a pilhas, moderno, pequeno e um capricho para mostrar aos meus filhos a beleza dos objetos também está na sua história...) 

266085917

Houve uma época em que sabíamos vários números de telefone de cor. Marcávamo-los muitas vezes, botão a botão (ou então com o dedo enfiado num determinado orifício a iniciar um movimento de rotação, com um som que não voltei a ouvir em mais nenhum aparelho).
A técnica evolui tanto, adquire tanta memória ram, que a nossa acaba por ser furtada nessa evolução. É um roubo de luva branca, elegante e consentido, do qual não me tinha apercebido até hoje me ter cruzado com o número que mais vezes marquei na vida e o qual ainda tive guardado nos meus primeiros telemóveis. Quando desapareceu a voz do outro lado da linha custou-me bastante apagá-lo da lista de contactos. Era apenas um número mas para mim esteve mais próximo duma amputação que dum "delete".
266085917 era o número fixo dos meus avós a quem telefonei durante 30 anos. Hoje já nem o dos meus pais sei de cor. A técnica roubou-me a memória? Podia dizer que sim, mas não sou gajo de culpar os outros pelos meus defeitos, sejam eles de memória ou não.

sábado, janeiro 28, 2017

sexta-feira, janeiro 27, 2017

De "Detergente" - Ruy Ventura

"Uma bebedeira não precisa de metáforas. Overdose e falta de equilíbrio sujam o ritmo, as palavras, o olhar. (...) Não bebo deste vinho. Não me encontro no lixo, embora tenha os pés enterrados no monturo." in "Detergente" de Ruy Ventura.
Caminhamos com os pés embarrados mas, com este "Detergente", há fé de que se converta em húmus...

Foto de Nuno Matos Duarte.

"laisse penser tes sens" ("deixa os teus sentidos pensarem") - Paul Fort

segunda-feira, janeiro 23, 2017

The Spur (W.B. Yeats)

W.B. Yeats (1865-1939)


THE SPUR

You think it horrible that lust and rage
Sould dance attention upon my old age;
They were not such a plague when I was young;
What else have I to spur me into song?

W. B. Yeats




sábado, janeiro 21, 2017

Tordesillas

Aqui dividimos o mundo em dois e pensámo-nos impérios. Assinámos na história a arrogância de nos vermos melhores do que os outros, de olharmos só para nosso umbigo.
Passei um bocado ao lado, mas senti-me um pouco culpado pelas atitudes irrefletidas da minha Península Ibérica. 
Uns quilómetros à frente, desculpei-me e pensei «são coisas de adolescentes». Ainda estamos a tempo de sermos adultos responsáveis.

Trabajo de estantería ("Dentro del Secreto", Casa del Libro de Valladolid)

sexta-feira, janeiro 20, 2017

Valladolid, 20/I/2017

Não é difícil identificar as fronteiras que tenho em mim. As minhas limitações. Falar sobre elas já começa a ser hábito que não controla o nervosismo. Oculto-o com técnica mas, passada a exposição, os músculos acusam o libertar de adrenalina e o estômago retoma a digestão.
Aqui em Valladolid, graças à confiança duma amiga que vê nas minhas limitações algo digno de ser partilhado,
falei de fronteira, de geografia de afetos, de barreiras de preconceito e usei a palavra para tentar combater o receio que este «dia d» me inspira. Se alguém me dissesse, há alguns anos atrás, que iria assistir a este dia, penso que rir-me-ia. Donald Trump foi investido presidente dos EUA. Investiu-se uma nova fronteira na história. Vai ser difícil cruzá-la. Chamar-se-á «Trumpismo»? «No idea». Porém tenho arrepios e não é graças ao frio desta cidade.
Vou descansar com um misto de profunda gratidão e profunda indignação por ver o que pensava que não seria algum dia possível ver...

terça-feira, janeiro 17, 2017

"Todos os bons e firmes são alegres" - Ernest Hemigway (trad. Monteiro Lobato)

"Todos os bons e firmes são alegres, reflectiu Jordan. É muito melhor ser alegre que é sinal de uma coisa: de uma imortalidade terrestre. Que coisa complicada! Já quase não há alegres. A maior parte dos lutadores joviais desapareceu. Restam pouquíssimos." 

in "Por Quem os Sinos Dobram", Ernest Hemigway (trad. Monteiro Lobato)

segunda-feira, janeiro 16, 2017

A bondade é o melhor detergente..

A bondade é o melhor detergente que encontro para a sujidade de alguns dos nossos dias. 
É um poderoso activo para as nódoas do presente e para os resíduos do passado.
Porém, já começa a custar esfregar, de joelhos, e manter um sorriso nos lábios...

domingo, janeiro 15, 2017

Castelo de viae - Ángel Campos Pámpano

1
Não fica longe
de casa a fronteira:
esse silêncio
da luz entre castanheiros
que te aproximam da infância.
2
Só procuras
o amparo inocente
e mineral
duma terra estendida
que não te reconhece.
3
Tarda em chegar
a palavra que diz
o equilíbrio
deste céu azul
como nenhum, fundo.
(in «La Vida de Otro Modo», 2008, trad. Luis Leal)

sexta-feira, janeiro 13, 2017

O frustrado e o poeta

O frustrado encontra na palavra que o define um silêncio que nunca será susurro, muito menos voz. Justifica-se com a queixa e chora a versos derramados a metro.
O frustrado vê-se vate aos olhos do lamento. As trevas da escrita ocultam-lhe, em noites brancas, o sol do dia. A melanina não conhece tez diferente que a da proteção do abrigo, do casaco, da rede de literato.
O frustrado é-o por condição de decisão pessoal. O poeta não. É-o porque teve de ser e nunca saberá totalmente reconhecer-se uma única palavra.

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Mais um pum!



Este vem do Brasil, nas palavras do Vinicius de Moraes, e canta o grupo Boca Livre.

O AR (O VENTO )

Estou vivo, mas não tenho corpo
Por isso é que eu não tenho forma
Peso eu também não tenho
Não tenho cor

Quando sou fraco
Me chamo brisa
E se assobio
Isso é comum

Quando sou forte
Me chamo vento
Quando sou cheiro
Me chamo pum!

Boca Livre



Manuel António Pina a propósito dum mundo de escritores...

«É um mundo de intrigas. Vive muito dessa coisa da posteridade. Valoriza coisas ridículas: se aquele tipo teve mais linhas de crítica do que eu. É muito triste, o mundo dos escritores. É igual ao dos músicos, ao dos professores, ao dos jornalistas.». in "Dito em voz alta - entrevistas sobre literatura, isto é, sobre tudo", p.210.

«A única viagem é a interior» - Rilke

terça-feira, janeiro 10, 2017

"Oh, João! Foste tu, porcalhão?" de David Roberts

Ventosidades e mais ventosidades! Cortesia da Fátima Cabrera, cheguei a este verdadeiro tratado sobre puns não só na primeira infância! 

Há tantos tipos de peidos! Há ensaios filosóficos sobre traques dignos da mais erudita literatura, mas isso para outro dia...

Fica a sugestão e a lembrança do meu filho mais velho, a brincar sozinho no quarto e a dar peiditos infantis que se partiam a rir...







O que é um bom publicitário?

O que é um bom publicitário? Um poeta que se passou para o lado negro da força da palavra.
Mas os poetas, como bem mo recorda outro poeta, apesar das suas almas viverem do ar, o corpo e a família necessitam de pão em cima da mesa.

George Orwell - 1984






segunda-feira, janeiro 09, 2017

Excerto de “Da Ibéria e do Iberismo” de Fernando Pessoa

“Para uma união ibérica de qualquer espécie, seja essa espécie qual for, três cousas são essenciais, e sem elas nada se poderá fazer, e antes de elas se fazerem é inútil pensar sem receio nosso em qualquer aproximação. Essas três cousas são:
1º a abolição da monarquia em Espanha;
2º a separação final da península nas suas três nacionalidades essenciais – a Catalunha, Castela e as províncias que conseguiu submergir na sua personalidade, e o estado galaico-português.
É absolutamente impensável a solução do problema ibérico sem ser por uma federação; é impensável a federação com a constituição desigual, anti-natural, viciosa e falsa, dos estados ibéricos actuais.

(…)

De há tempos para cá se vem fazendo, por um processo de combinação espontânea que vale muito mais, e significa muito mais, que qualquer táctica de política amistosa, uma aproximação mental entre Portugal e Espanha. Dir-se-ia que os dois países repararam por fim no facto aparentemente evidente que uma fronteira, se separa, também une; e que, se duas nações vizinhas são duas por serem duas, podem moralmente ser quasi uma por serem vizinhas. Esta aproximação mental não implica, de parte a parte, a abdicação de cousa alguma em que consista essencialmente a independência ou a personalidade de cada uma das nações; duas criaturas podem ser amigos sem ser sócios. Implica tão-somente um estabelecimento de entendimento e de amizade, natural no caso de Portugal e Espanha, que nenhum conflito de ambições hoje separa, que uma civilização tradicional comum aproxima, e que se encontram mais que nunca ante o problema, comum também, de defender, naquela larga extensão da América, que por ambos foi civilizada e aberta à continuidade do progresso, a tradição civilizacional ibérica contra a incursão disruptiva de conceitos civilizacionais estranhos”.


Fernando Pessoa, in “Da Ibéria e do Iberismo”.  

Capítulo VI - «El mundo íntimo de mi padre» (in «Barrio Lejano» de Jiro Taniguchi)

sábado, janeiro 07, 2017

Um homem assume-se até ao fim

Morreu o Mário Soares. O Presidente da República da minha infância e o político pelo qual nunca nutri grande simpatia. Quando comecei a interessar-me por história, abordei através do estudo e do testemunho a sua figura fundamental para a democracia em Portugal e para a cultura portuguesa do século XX. Atrevo-me a pensar que também para a Europa e para o seu sonho (talvez impossível) europeu...
O homem e político assumiu-se até ao fim. Um dos últimos políticos por vocação e consciência antes da leva assumida de tecnocratas. Mesmo sem simpatizar com uma pessoa deste tipo, a política actual necessita da convicção humana e ideológica de homens como Mário Soares.
Se existe um além, desejo-lhe a companhia de Álvaro Cunhal e do Sá Carneiro... todos eles melhores exemplos do homem político que os nossos representantes mais preocupados com a militância do que a constância ideológica.

O céu... (por Jiro Taniguchi) in «Barrio Lejano»

O céu é tão alto...
mas, ao olhar as nuvens, quase parece poder tocá-las com a mão...
O céu é tão misterioso...
Parece imutável, como se estivesse mais além do tempo.
Talvez a eternidade seja simplesmente isso, o céu...
(trad. Luis Leal)

Dia de Reis (06/I/2017)

Findou o dia de Reis. Passámo-lo em Évora com os meus pais. Não sei se já alguma vez o escrevi, mas só me apeteceu abraçar a cidade. Abraçar cada recanto, apertar contra o peito, envolver-me nos braços de quem me criou.
Em Évora só me apetece falar mesmo sem fazê-lo. Desabafar a minha insegurança, libertar tudo o que trago oprimido pelo tempo, agarrar-me a essa pequena medida de paz da minha meninice feliz num bairro cada vez mais longinquo.
Preciso desta cidade, deste toque humano, preciso de adormecer nela e ir lá a cima a pé e voltar ao bairro carregado de luz e histórias. Acordo nela, mas não sei se em mim...
Digo tantas vezes «filho, foi aqui que nasci». Chamam-lhe «cidade museu». Ele parece entender o que é nascer, viveu o nascimento do irmão, mas não entende o que é nascer ali. Não tem porque entender.
Voltámos a casa. Voltámos a ser em espanhol, a sentir o abraço da sua mamã, que nos esperava como rainha no meio dos seus principezinhos.
O meu corpo já não tem uma só morada, uma única cidade, porém a alma é de Évora...

Paco Ibáñez - El lobito bueno



Un poema de José Agustín Goytisolo que canta Paco Ibáñez. ¡Para las criaturas, Luis!


EL LOBITO BUENO

Érase una vez
un lobito bueno
al que maltrataban
todos los corderos.

Y había también
un príncipe malo,
una bruja hermosa
y un pirata honrado.

Todas estas cosas
había una vez.
Cuando yo soñaba
un mundo al revés.




sexta-feira, janeiro 06, 2017

Emmanuele

Reconheço a beleza da composição como também as horas adolescentes de contemplação. Hoje um amigo recordou-me o porquê do erotismo subliminar de nos sentarmos num cadeirão de verga. Sylvia Kristel está no além, bem sentada, neste trono de memória, de fronteira entre o eros e o materialismo sexual explícito...

quarta-feira, janeiro 04, 2017

Noite delinquente , 8/I/2017

O ambiente do local onde vivo é calmo, mas o ano novo trouxe violência e ameaças de morte a uns vizinhos da urbanização. Vizinhos esses que não me inspiram confiança e com os quais apenas intercambiamos os bons dias.
A cena foi representada para todos os vizinhos bem próximo da meia-noite. Meteu gritos, insultos, pontapés às portas, litronas partidas, polícia e gente assustada por delinquentes que me fizeram as suprarenais trabalhar mais do que é normal.
Tendo em conta de que falamos do terceiro dia do ano, o microcosmos do meu bairro não começou com o pé direito. O mundo também não.
Deitei-me preocupado com o crescimento das duas crianças, que não acordaram por um triz, deitadas no quarto ao lado. Não as consigo proteger do mundo real. Oiço-as com o sono perturbado, com laivos de pesadelos. Vou tentar dormir para amanhã poder acompanhá-las. É a única coisa que posso controlar, o querer estar com eles.
Ao contrário destes vizinhos com relacionamentos problemáticos, um pai que ama os filhos, mesmo carregado de inperfeições, não pode ser uma má companhia... não pode...

O ÚLTIMO OLHAR NO INSTANTE DE PERIGO - Jorge Riechmann (Trad. Luis Leal)

O ÚLTIMO OLHAR NO INSTANTE DE PERIGO


«Deverias seguir o exemplo de shunk tokecha (o lobo). Ainda que o surpreendas e corra para salvar a sua vida, parar-se-á para dirigir-te outro olhar antes de entrar no seu último refúgio. Assim deves também tu dirigir outro olhar a tudo quanto vês.»
Assim falava o tio ancião de Oyehesa, um índio dakota santi. O mais parecido a este conselho pavoroso é o que nos proporcionava Walter Benjamin na sexta das suas «Teses sobre filosofia da história»: «Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘tal e como verdadeiramente foi’. Significa apropriar-se de uma recordação tal e como reluz no instante dum perigo.»
Historiador, ativista, poeta: aprende a ver como o lobo nesse instante de libertação ou condenação, de proximidade da morte ou do milagre, do supremo perigo.

Jorge Riechmann (trad. Luis Leal)

in “fracasar mejor (fragmentos, interrogantes, notas, protopoemas y reflexiones)”, Olifante, Ediciones de Poesía, Zaragoza, 2013.

LA MIRADA ÚLTIMA EN EL INSTANTE DE PELIGRO

«Deberías seguir el ejemplo de shunk tokecha (el lobo). Aunque lo sorprendas y corra para salvar su vida, se parará para echarte otra mirada antes de entrar en su último refugio. Así debes también tú echar otra mirada a todo cuanto ves.»
Así hablaba el anciano tío de Oyihesa, un indio dakota santi. A lo que más se parece este consejo sobrecogedor es al que nos proporcionaba Walter Benjamin en la sexta de sus «Tesis sobre filosofía de la historia»: «Articular históricamente el pasado no significa conocerlo ‘tal y como verdaderamente ha sido’. Significa adueñarse de un recuerdo tal y como relumbra en el instante de un peligro.»
Historiador, activista, poeta: aprende a mirar como el lobo en ese instante de liberación o condena, de proximidad de la muerte o del milagro, de supremo peligro.

Jorge Riechmann



“fracasar mejor (fragmentos, interrogantes, notas, protopoemas y reflexiones)”, Olifante, Ediciones de Poesía, Zaragoza, 2013.

terça-feira, janeiro 03, 2017

O pastor (alemão)

So long, John!




ON YOUR ISLAND

On your island
does the night fall later?
Am i walking a little ahead of you
so that no snake will bite
your sandalled foot?

The balance is never made
This is why the stars are silent
offering no account.

How to measure
a season
against
the calender of your absence?

How to measure
the stream
of my tangled light
in the mountain
of what has been
and will be?

The balance is never made.

Yet in the night your eyes and mine
sounding one another
show no trace of vertigo.

John Berger


"Morreu John Berger, um artista (e um espectador) total" (Público)


John Berger na Wikipédia (português) e na Wikipedia (english)