terça-feira, fevereiro 26, 2013

O Jornal "Oikos Logos" do grupo ambientalista "Raiva Verde"


       Estávamos no ano da graça de 1997 e, com uma "Escola Viva" como a Gabriel Pereira  (melhor "Industrial"), dávamos os nossos primeiros passos em actividades de consciência cívica e ecológica. Assim nasceu o pseudogrupo "Raiva Verde" (de raivosos não tínhamos nada!) pela mão da turma A de Humanidades e do professor Manuel Piçarra.
Seguramente incongruentes (aqui escrevi os meus primeiros artigos em papel, note-se reciclado), inconscientes da imaturidade dos “teens”, atrevemo-nos a pensar e a levar as nossas inquietudes ao papel e à realidade. A consequência disso: crescemos e acredito que, a maioria dos envolvidos, valorizam a sua participação em projectos tão efémeros quanto possíveis.
       Esta é uma escola pública digna que formava (e forma) gente a pensar no presente e no futuro. Eu e os meus colegas tivemos esse direito e estes exemplos são uma forma de lutar para que os nossos filhos possam também atrever-se a pensar e, apesar de saberem que não somos todos iguais, todos deveremos de ter as mesmas oportunidades. 

Mundo Motorizado (há 40 anos!)


A revista "Mundo Motorizado" de 22 de janeiro de 1973 (um ano antes do 25 de abril), no final da ditadura já circulavam por aí estas grandes máquinas (cito: Fiat 127)! Pena que não disponho do original para dar uma vista de olhos… A capa, a circular na internet, é digna de figurar para a posterioridade!

domingo, fevereiro 24, 2013

Um sonho/Un sueño

Cortesía de mi buen amigo José Manuel. Verdad que es escatológico, pero muchas cosas placenteras de la vida también lo son...

sábado, fevereiro 23, 2013

Segundo dos poemas de infância (Manuel da Fonseca)

Fotografía de Bill Henson


Segundo dos poemas de infância

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebecem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.

E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira
que levou o chapéu do Senhor Administrador!
Em toda a vila,
se falou logo num caso de política;
o Senhor Administrador
mandou vir da cidade uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

Manuel da Fonseca
(1911 - 1993)


domingo, fevereiro 17, 2013

I observe the mountain.


“I observe the mountain.
The fog hides deliberately
All its divine magnitude”.

Enishi Yutui (1883-1943)













Unknown photo from http://jp-lugaresfantasticos.blogspot.com.es

Haikus que o tempo olvidou (Enishi Yutui)


“As águas sorriem
despem-me as chamas
e a solidão da estepe toca-me os cabelos."

"Fulgurosa solitária companhia
Noites brancas de tertúlias
Completam a vida de quem a vazia tem."

"A flor de cerejeira cai.
Na neve também perecem
Camélias, doces, poéticas damas."

"Observo a montanha.
O nevoeiro encobre propositadamente
toda a sua divina magnitude".
 


Haikus escritos e vividos por Enishi Yutui aquando da sua passagem pela estepe mongol, durante o conflito que opôs o Japão à Rússia no início do século XX.
O autor morreu no pacífico, a bordo do couraçado da marinha de guerra japonesa “Yamato”. Foi oficial e correspondente de um jornal em Tóquio. Conheceu Corto Maltese, Jack Tippit e Rasputin. Morreu com pena de não os reencontrar e sem nunca publicar nada.
A sua filha doou o seu espólio a um templo Shintoísta depois da guerra. O noviço Oburu gravou alguns dos seus poemas nas paredes do templo. Ainda hoje podem ser vistos por aqueles a quem não passarem despercebidos.


La pared. Nuestro horizonte.

En un día de horizonte limpio y soleado, en lo más alto mirador de la ciudad de Coria, me encuentro cuatro ancianas tomando el sol de espaldas para el paisaje turístico  A lo mejor, para ellas su tierra, su día a día no tiene nada de turístico ni de interesante para activar (o reactivar) su curiosidad. 
Poco hablaban. Tomaban el sol de espaldas, con la paja caliente de su sobrero de febrero sentado en una silla de playa.
Las saludé. Me contestaron el saludo en unisono educado. Fingí que fotografiaba el entorno, o no. Este era también mi entorno. Y desde el más alto del mirador me acerqué a ellas con el objetivo y me quedé también con su horizonte. 
La pared. 
En ese momento yo era el quinto anciano.
Solo se me había olvidado el sombrero de paja en casa...

La paloma que soñaba con unas gafas Ray-Ban...

La paloma que soñaba con unas gafas Ray-Ban...
No le vaya un mosquito fastidiar su vuelo a jacto...
(Muralla del Castillo de Coria, 2013)

Tejo's Mirror



































El puente de Alcántara, en un día frío de febrero de 2013. De camino hacia Coria, una parada obligatoria para estirar las piernas y la mirada.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

In river of trouble water


In river of trouble water
the stream took my clothes of.
Then, I’ll let you clean my soul,
while you heal my hounds.                                                  
Gently. In the water,
Where time doesn't knows what is
Past, present or future...

In the silent dark...


In the silent dark
Can you hear my blind voice?

UN HOME - Manuel Rivas


Aprendeu a escribir no servicio militar.
A raia da súa sinatura
risca como unlla que suca o xeo
no parabrisas dun tractor.
Pono nervioso o teléfono,
ese estraño que entra sen chamar á porta,
con zapatos de cidade,
e que o can non cheira.
Falar fala moi pouco.
A vida comeulle as palabras
ao tempo que agrandaba as mans
Esas mans cavaron pozos e sostiveron tellados.
Nesas circunstancias cómpre ter a boca ben pechada.
Pero nin sequera así é capaz de ver matar o porco,
a única carne que lle gusta, mellor se está torrada.
O viño ten que ser barato,
e entón, cando o bebe en longos grolos,
penso que lle axuda a tragar
unha historia que xamais contará.
Cando mira o lume das achas na cheminea,
vai nun tren que atravesa a neve.
Colleríao da man, porque é o meu pai,
pero abráiano tanto as mostras de agarimo
como o aire dun lobo.

terça-feira, fevereiro 12, 2013

FRONTEIRA - Manuel Rivas


Un dos mozos portugueses levaba baixo o brazo
os zapatos novos.
Foi ese o que morreu eo tiro.
O garda puxo o xeonllo en terra e disparou.
Cando a nai cruzou a fronteira,
só os nenos estabamos alí.
Estendeu o mandil e arrepañou aterra ensanguentada.
Não quero que fique nada aqui.

Las manos en un proyecto de futuro... (2010)


segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Os homens precisam de mimo

Sou um fã desta crónica semanal do João Miguel Tavares. E posso dizer-vos que, apesar de não ter 3 filhos, o sou por empatia e por mérito literário. Quantos homens modernos, melhor contemporâneos, não veem a sua biografia nestas crónicas tão reais quanto humorísticas?
Posso incluir-me nesse grupo. Para tentar escrever estas escassas linhas fui interrompido, no mínimo, 4 vezes pelo meu filhote que hoje ficou em casa a "trabalhar comigo":
1º Para me dizer que se ia pôr dentro da caixa amarela em forma de autocarro. Isto confirmado com os brinquedos espalhados pelo chão verde do tapete do autódromo do IKEA;
2º Quando me dei conta que estava outra vez sem pantufas e que, com o frio que faz, amanhã já está para aí a fungar ou a tossir como é costume;
3º A necessidade de mudar uma bomba de cocó Dodot, cujo efeito já se estava a fazer sentir junto à mesa onde trabalho. As toalhitas sempre ajudam no combate a esta "radiação", sem esquecer do velcro que isola a caca no interior da fralda. Há que usá-lo sempre!
4º "Papá qué água!". A hidratação relembrada com o copo na mão e um "qué mais!" que me leva à cozinha, mais uma vez e me faz perder essa linha lógica tão útil num texto ou em qualquer trabalho dos que costumo fazer...
Enfim, agora estou a olhar para ele e sei que já está descalço outra vez. Ponto. Pausa. Levanto-me da cadeira. Sento-o no meu joelho. Digo-lhe outra vez que não pode estar descalço. Beijo-o e aperto-o como se fosse uma espécie de peluche anti-stress. Ri-se com essa cara de dois anos que anda aos saltos tipo “xóxó”. Volto a sentar-me. Perdi o fio condutor outra vez.
Mas é nestas perdas de tempo, de sono (um gritante: “QUERO DORMIR ATÉ AO MEIO-DIA – qualquer dia-!), de paciência, etc. que encontramos outras coisas. E vale a pena. Mesmo que nos queixemos. É só para que nos recordemos do nosso lugar no mundo neste presente.   
JÁ ESTÁ OUTRA VEZ DESCALÇO!!!

domingo, fevereiro 10, 2013

Os segredos estão dentro de nós


Ontem, apesar de estar "enganchadísimo" a este livro há mais de um mês (em que os meus momentos de silêncio e escuridão iluminada pelo patrocínio, pago por mim, da "Petzl" -não se desperte o menino "Jacques"!-), folheei com atenção a última página do livro "Dentro do Segredo" do José Luís Peixoto.
Esta obra, de acordo com quem vende os livros, é a primeira incursão do José Luís (que é meu amigo sem o saber e não é preciso facebook, sinto isso). Sinceramente, não estou de acordo com isso. Sempre houve viagens nas palavras do meu amigo das Galveias. É redundante e rotulador dizer isso às palavras deste alentejano que decidiu ir até dentro do regime mais cerrado da actualidade. A Coreia do Norte.

Não foi a surfar tipo James Bond. Foi por curiosidade própria numa das poucas aberturas do regime dos "Kims" ao que mais se pode assemelhar ao conceito de turismo. Mesmo que seja de propaganda.
Dessa viagem retive um parágrafo abertamente hermético que sublinhei com a memória e que quero gravar com bytes e bites de copista neste pergaminho digital:
“Os segredos estão dentro de nós. Como tudo o que sabemos, também os segredos nos constituem. Também os segredos são aquilo que somos. Quando os seguramos, quando somos mais fortes e os contemos, alastram-se em nós. Desde dentro chegam à nossa pele. Depois avançam até sermos capazes de os distinguir à nossa volta. E, no silêncio, somos capazes de os reconhecer. Então, nesse momento, já não são apenas os segredos que estão dentro de nós, somos também nós que estamos dentro dos segredos.”
José Luís Peixoto, in “Dentro do Segredo”, p.136.
Fechei o livro. Apaguei o frontal sem acordar a Elsa. E disse para mim mesmo: “Caral… um dia hei de conhecer este meu conterrâneo! Quero ser amigo deste gajo!” 


sábado, fevereiro 09, 2013

Mais Drummond

 


Fotografia de Júlia Moraes, uma brasileira, para as palavras de outro brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, do seu livro O amor natural, publicado em 1992, cinco anos depois da morte do poeta.


MULHER ANDANDO NUA PELA CASA

Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d'água.

O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.

Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.




OH MINHA SENHORA Ó MINHA SENHORA

Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também de despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? sinto-me sem palavras sem fôlegos sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coeren- te na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu ó minha senh...esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád...tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...




quarta-feira, fevereiro 06, 2013

O Amor Bate na Aorta - Carlos Drumond de Andrade

Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme de Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruído.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...

terça-feira, fevereiro 05, 2013