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domingo, setembro 27, 2026

Vitorino - Lindo ramo verde escuro




LINDO RAMO VERDE ESCURO

Estavam dois passarinhos
Cantando ao desafio
Um no tronco empoleirado
O outro nas margens do rio

Lindo ramo verde escuro
Ó casa dos passarinhos
Onde cantam docemente
Poisados nesse raminho

Poisados nesse raminho
Cantam sempre ao ar puro
Ó casa dos passarinhos
Lindo ramo verde escuro

Alentejo dos trigais
Suas vermelhas papoilas
Arrancadas com amor
Por lindas e belas moçoilas




quarta-feira, janeiro 08, 2025

Vitorino - Vou-me embora, vou partir



VOU-ME EMBORA, VOU PARTIR

Vou-me embora, vou partir mas tenho esperança
De correr o mundo inteiro, quero ir
Quero ver e conhecer rosa branca
A vida do marinheiro sem dormir

A vida do marinheiro branca flor
Que anda lutando no mar com talento
Adeus, adeus minha mãe, meu amor
Eu hei-de ir, hei-de voltar com o tempo

Vitorino

Semear salsa ao reguinho (1975) 


Belíssima interpretação. E ouve-se também o José Afonso, e mais gente…




domingo, novembro 10, 2024

Gala XXII Mais Alentejo

10/XI/2024: Ontem foi a Gala XXII Mais Alentejo com os respectivos Prémios Alentejo e mais um ano pudemos rumar a este encontro para celebrar a nossa terra. Como já é uma tradição, a originalidade e teimosia do António Sancho fazem a "Mais Alentejo", contudo, como tantas vezes foi relembrado durante o serão, nada se faz sem o outro, sem o leitor, sem o público, sem a família, sem o estímulo e a consequente gratidão... O Alentejo, polifónico como o seu cante reconhecido pela UNESCO há 10 anos, gregário como a humanidade, tristemente a enveredar pela senda do individualismo e do autoritarismo, não é só pão de trigo, ervas aromáticas, bons vinhos ou azeite ainda melhor, isto é, sabores e tradições de uma região de Portugal onde os acessos são os que são: escassos e a tenderem ao esquecimento de uma falsa interioridade. Subscrevo totalmente as palavras do genial Jorge Serafim, o Alentejo não se resume a isto, a comes e bebes, a feiras e a petiscos. Há muita planície alentejana em almas de gente jovem, inovadora, culta, com saber feito experiência, gente que se viu obrigada a abandonar o seu local de nascimento porque este, de tão rico e especial, continuou fadado à redundância e à pobreza. Há quem resista, há quem prefira o coro da Primavera ao fado duma capital descaracterizada e cega para novos horizontes, há quem não esteja para marear a perdiz e renuncie a estatutos impostos. Ontem vi bastante dessa gente, cumprimentei-os e tive o privilégio de abraçar alguns, a maioria eram alentejanos mas não só. Senti-me reconfortado e, apesar de estar nos arredores de Lisboa, em casa.


10/XI/2024: Ayer tuvo lugar la Gala XXII Mais Alentejo con los respectivos Premios Alentejo, y un año más pudimos acudir a este encuentro para celebrar nuestra tierra. Como es tradición, la originalidad y tenacidad de António Sancho dan forma a la "Mais Alentejo", pero, como se recordó en varias ocasiones durante la velada, nada se hace sin el otro, sin el lector, sin el público, sin la familia, sin el estímulo y la consecuente gratitud... El Alentejo, polifónico como su cante, reconocido por la UNESCO hace 10 años, es gregario como la humanidad, aunque tristemente esté sucumbiendo al individualismo y al autoritarismo. Este no se limita solo al pan de trigo, las hierbas aromáticas, los buenos vinos o aún mejores aceites de oliva; es decir, sabores y tradiciones de una región de Portugal donde los accesos son los que son: escasos y tendentes al olvido de una falsa interioridad. Estoy completamente de acuerdo con las palabras del genial Jorge Serafim: el Alentejo no se reduce a esto, a comidas y bebidas, a ferias y aperitivos. Hay mucha llanura alentejana en almas de gente joven, innovadora, culta, con conocimientos hechos experiencia, personas que se vieron obligadas a abandonar su lugar de nacimiento porque, siendo tan rico y especial, seguía destinado a la redundancia y la pobreza. Hay quienes resisten, quienes prefieren el coro de la primavera al fado de una capital descaracterizada y ciega para nuevos horizontes, quienes no están para marear la perdiz y renuncian a estatus impuestos. Ayer vi a muchas de esas personas, las saludé y tuve el privilegio de abrazar a algunas; la mayoría eran alentejanos, pero no solo. Me sentí reconfortado y, a pesar de estar en los alrededores de Lisboa, en casa.





sexta-feira, novembro 01, 2024

“O Bairro do Poço Entre Vinhas” (2023)

1/XI/2024 No fim-de-semana passado, os meus pais deram-me este livro sobre o qual ainda não tinha podido escrever. Ao contrário deles, principalmente do meu pai, não sou da geração de “O Bairro do Poço Entre Vinhas” sou da geração da “Senhora da Saúde”, contudo reconheço-me na toponímia e no carinho com que o autor, Fernando Morgadinho Nunes, recopilou tanta informação sobre, em palavras do próprio, “um bairro, um povo, um querer”.

Olho para esta publicação, com o apoio da União de Freguesias correspondente, e encontro muito do que hoje se pode ver na minha maneira de pensar, reagir e comportar-me. Quando se é de um bairro como este, talvez a noção de rural e urbano tenda a esbater-se (admito inclusivamente a ideia de nação) porque se impõe a vizinhança, o colectivo, um sentido de classe social (apesar de hoje em dia já não quererem que se fale disso), isto é, gente humilde, trabalhadora e católica. 

O catolicismo que conheci neste bairro efervescia juventude, era solidário e não sectário, albergava dentro da sua capelinha tanto o progressismo, com ecos de teoria da libertação, como o conservadorismo de velhos costumes a desconfiar da aurora de Abril. Conforme ia crescendo, ficando adulto, passando as suas fronteiras, sabia que o bairro envelhecia. Não me deixo enganar pela passagem do tempo, nem pela erosão da memória, é maioritariamente neste bairro onde encontro as origens do que vou sendo e fazendo. Neste bairro foi-me dado um sentido de ser e estar, encontrei a poesia dos que menos tinham, identifiquei os perigos e a obscuridade que existe em cada um de nós, como também a alegria, a dignidade, a solidariedade e um sentido de comunidade que para alguns, actualmente, é como a rua da minha infância, pura saudade.

Os meus pais talvez pensassem que, com esta lembrança, me levassem de regresso ao nosso bairro. Agradeço-lhes, mas a realidade é que, e talvez alguns de vós me compreendais, a ele retorno com muita frequência, principalmente em sonhos. 

1/XI/2024 El fin de semana pasado, mis padres me dieron este libro sobre el cual aún no había podido escribir. A diferencia de ellos, principalmente de mi padre, no soy de la generación de “El Barrio del Pozo Entre Viñas”, soy de la generación de “La Señora de la Salud”, sin embargo, me reconozco en la toponimia y en el cariño con el que el autor, Fernando Morgadinho Nunes, recopiló tanta información sobre, en palabras del propio autor, “un barrio, un pueblo, un querer”.

Contemplo esta publicación, con el apoyo de la Unión de “Freguesias” correspondiente, y encuentro mucho de lo que hoy se puede ver en mi manera de pensar, reaccionar y comportarme. Cuando se es de un barrio como este, quizás la noción de rural y urbano tienda a difuminarse (admito incluso la idea de nación) porque se impone la vecindad, el colectivo, un sentido de clase social (a pesar de que hoy en día ya no quieran que se hable de eso), es decir, gente humilde, trabajadora y católica.

El catolicismo que conocí en este barrio efervescia juventud, era solidario y no sectario, albergaba dentro de su capillita tanto el progresismo, con ecos de la teoría de la liberación, como el conservadurismo de viejos costumbres que desconfiaban del amanecer de Abril. A medida que fui creciendo, haciéndome adulto, cruzando sus fronteras, sabía que el barrio envejecía. No me dejo engañar por el paso del tiempo, ni por la erosión de la memoria, es mayoritariamente en este barrio donde encuentro los orígenes de lo que voy siendo y haciendo. En este barrio se me dio un sentido de ser y estar, encontré la poesía de los que menos tenían, identifiqué los peligros y la oscuridad que existe en cada uno de nosotros, así como la alegría, la dignidad, la solidaridad y un sentido de comunidad que, para algunos, actualmente, es como la calle de mi infancia, pura “saudade”. 

Mis padres quizás pensasen que, con este recuerdo, me llevarían de regreso a nuestro barrio. Les agradezco, pero la realidad es que, y quizás algunos de vosotros me comprendáis, vuelvo a él con mucha frecuencia, principalmente en sueños.







terça-feira, março 19, 2024

"A Senhora Condescendência" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 165, p. 68


Ia a caminho de um almoço familiar e tinha acabado de passar a fronteira quando a rádio me deu a notícia do falecimento do Comendador Rui Nabeiro. À cabeça veio-me “hoje não vou ver a minha irmã e é bem possível que no céu já se possa tomar um bom café".

    Apesar da relação laboral privilegiada da minha irmã no trato diário com o Sr. Rui e da estima e da saudade que lhe deixou, nunca tive a oportunidade de o conhecer. Porém, sou ciente do seu legado na região, no país, na minha Espanha adoptiva e, para além da fortuna e do património, não abdicou de ser um homem bom, cuja essência não se viu corrompida pelo deus pecunio. A sua biografia é notável, quer seja vista através da comparativa de escalar um Everest empresarial com o alpinista João Garcia, através de grandes entrevistadores como a Anabela Mota Ribeiro ou o Luís Osório, através dum “Almoço de Domingo” ficcional do José Luís Peixoto, ou, simplesmente, através de quem com ele lidou durante os seus quase 92 anos a provarem que no capitalismo cabe o altruísmo. Em suma, como dizia alguém e subscrevo, “mais Srs. Rui e menos Musks!”. 

    Nove décadas de vida e não acredito que, na sua senectude, alguém no seu perfeito juízo se tenha dirigido ao “Sr. Rui” (como sempre fez questão de ser tratado) com qualquer tipo de condescendência como algumas pessoas se dirigirem a outros nonagenários. Tristemente, o dinheiro, o estatuto, traz algumas garantias de como a sociedade nos vai tratar se tivermos a ventura (ou desventura) de chegarmos a esta idade. Vejam-se as claras diferenças no uso lexical de “cota”, “idoso”, "ancião" e “velho” e o “peso da idade” (vulgo PDI) mais do que evidentes em sociedades sensíveis à moda da denúncia de todo o tipo de pretensas injustiças, contudo, a necessitarem prestar mais atenção ao “idadismo”.

    Confesso, caro leitor, há muito tempo que não pensava nisto. Cresci entre pessoas de idade no seio da minha família e no entorno laboral da minha mãe (que dedicou mais de duas décadas da sua vida a um Centro de Dia) e, de maneira quase intuitiva, aprendi a respeitar todo tipo de rugas e cabelos grisalhos. Creio que vi um pouco de tudo, desde o queixume do reumático, a viuvezes traumáticas e libertadoras, a demência progressiva, a solidão, o mau caráter (quanto mais velho pior!), a miséria de corpo e de espírito, até ao júbilo de um ser de ter vivido uma vida que mereceu ser vivida, à sabedoria, ao humor geriátrico, e à contemplação tantas vezes condenada à apatia da televisão.

    Como numa foto, voltei aos meus verdes anos rodeado de gente já amarelecida por ter em mãos uma tradução duma peça ambientada num Lar de Terceira Idade espanhol e, na hora de adaptar à realidade sociolinguística portuguesa, deparei-me com uma das formas de tratamento que mais abomino com qualquer ser humano, quero dizer, quando nos dirigimos a alguém infantilizando-o. Que fique claro que não outorgo más intenções ou desprezo a quem muitas vezes se dirige assim a um idoso, tratando-o como uma criança, usando um tom condescendente que nem sequer com as verdadeiras crianças me parece pertinente usar em excesso. Não é por uma pessoa ter caído nas garras do Alzheimer, do Parkinson, ou da passagem do tempo, que automaticamente as devemos tutear ou usar um registo infantilóide. O Sr. João lá por não se lembrar do nome dos netos e estar acamado não passa a ser o “Joãozinho”, mesmo que a sua calvície redondinha nos remeta para um bebé fofinho. É preciso ter cuidado, o “carinho”, a meu ver, não deriva por aí. Evoluímos, temos diversos meios e gente consciente que a terceira idade deve ser tratada de maneira diferente da primeira infância pelo simples facto de, por mais que o idoso pareça regredir à infância, há uma diferença significativa entre ambos: ser criança implica ainda não ter passado.

    Se chegar à idade do Sr. Rui, por mais infantil que seja a minha personalidade e fisionomia, não quero ser o “velho Luisinho”, nem que falem comigo como nem sequer falo ao meu filho de 2 anos. Não quero salamaleques, nem títulos. Sentir-me-ei bem se continuar a ser o Luis e, caso mereça ser chamado “Ti Luis”, será porque o Alentejo sempre me fez ver que a sombra dum carrasco jamais se pode comparar à sombra duma azinheira.

Sr. Rui Nabeiro



"A Senhora Condescendência" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 165, p. 68

Esta crónica já tem uns meses, tal como o Sr. Rui já faleceu há um ano, contudo creio que continua vigente e reitero o que se disse por aí: “Mais Srs. Rui e menos Musks!”. O falecimento deste homem ímpar e um trabalho de tradução literária que tive em mãos também me levaram a refletir se, em pleno século XXI, na era do “omniecrã”, tratamos com o devido respeito e prestamos a devida atenção aos nossos idosos. (in “Mais Alentejo”, nº165, p. 68)

Esta crónica tiene ya unos meses, al igual que el Sr. Rui falleció hace un año, sin embargo, creo que sigue siendo relevante y reitero lo que se ha dicho por ahí: “¡Más Sres. Rui y menos Musks!”. El fallecimiento de este hombre excepcional y un trabajo de traducción literaria que tuve entre manos también me llevaron a reflexionar si, en pleno siglo XXI, en la era de la “omnipantalla”, tratamos con el debido respeto y prestamos la debida atención a nuestros ancianos.






quinta-feira, dezembro 07, 2023

Escadas/Escaleras

O Joker tem umas escadas em Gotham (melhor dito no Bronx de Nova Iorque), o Rocky Balboa em Filadelfia, o John Wick caiu em todos os degraus do Sacré-Coeur de Paris, os Led Zeppelin têm umas directas para o céu... E eu sempre terei estas, menos turísticas, mas igual de emblemáticas na "mui nobre e sempre leal" cidade de Évora. 
Joker tiene una escalera en Gotham (mejor dicho en el Bronx de Nueva York), Rocky Balboa en Filadelfia, John Wick se cayó en todos los escalones del Sacré-Cœur de París, los Led Zeppelin tienen una directa al cielo... Y yo siempre tendré esta, menos turística pero igualmente emblemática, en la "muy noble y siempre leal" ciudad de Évora.

segunda-feira, outubro 23, 2023

Episodio 1 del podcast "Entre 2 T(i)erras" de Luis Leal - "El cronista se presenta" (texto adaptado y traducido de la revista "Mais Alentejo", nº128)

“El cronista se presenta” - Luis Leal (texto traducido y adaptado de la revista Mais Alentejo, n.º 128)

Se teoriza un big bang, una fusión de átomos, un pensamiento, una intervención divina, una incredulidad, una palabra, varias palabras que sirven como introducción, o lo que sea, hasta llegar a alguna conclusión. Si me pongo a intelectualizar) de dónde vengo, suena una guitarra sin fado, con cuerdas rítmicas e inocentes, acompañada por Jorge Drexler, la voz amiga de siempre que jamás conocí y que compuso esta canción especialmente para mí: "Yo no sé de dónde soy, / mi casa está en la frontera / y las fronteras se mueven, / como las banderas."

Tiendo a reflexionar sobre lo que vivo, quizás porque a menudo no sé qué lengua resuena dentro de mí, en qué tierra estoy, cuál es el huso horario de mi ritmo biológico, qué aire respiro y qué dióxido de carbono libero a mi alrededor. Sin embargo, he descubierto que los gestos cotidianos, ajenos al pensamiento, mudos en términos de idioma, sin nacionalidad, siempre nos llevan de vuelta a nuestras raíces.

Cada vez que meto la mano en el fondo de mi bolsillo, me aferro a la certeza de un objeto, al constante peligro de la hoja que puede cortar amarras, pero no el lastre de un ego que, al querer interpretarse, obviamente, pierde tiempo. Con la mano en el bolsillo, sé que soy alentejano. Sostengo mi pasado en forma de navaja, consciente del brillo de la hoja metálica que me sirve de espejo, del filo cortante de vivir el momento, junto con el óxido que revela la falsedad de la inmortalidad del metal.

Escribir y hacer este podcast incita al cronista a presentarse así, con las manos vacías, pero con un cuchillo en el bolsillo. Les pide encarecidamente a los oyentes que no lo confundan con un vulgar bandolero. La única arma que lleva capa grillos y el único banco que este cronista asalta alberga recuerdos y divagaciones cuya rutina le hipoteca el tiempo para escribirlas.

Nos materializamos en algún objeto, o en varios, desde la pura admiración hasta la esclavitud espuria. Mi abuelo quiso que fuera leal a esta verdad, a este objeto. Creo que me puso una navaja invisible en la cuna, dándome una tercera mano, tan indispensable como las otras dos. Cuidar una navaja no es diferente de afilar a nuestros hijos a través de la suavidad de la caricia en el duro deslizamiento de la piedra de amolar. En palabras de João Serra, cada cuchillo “se trataba con gran cuidado, evitando que el óxido lo afectara y cuidando el filo, que no podía tener fallas ni roturas. Ocupaba poco espacio en los bolsillos de los campesinos, donde entraba por la mañana, junto al pañuelo y la onza de tabaco para los fumadores. (…) Con él se cortaba el pan (…) se troceaban las aceitunas (…) se afilaban lápices en la escuela y se abrían cartas y, ocasionalmente, libros. Con él, un hombre podía enfrentar peligros reales o imaginarios. Con él, un hombre nunca se sentía solo.”

Con la navaja en el bolsillo, he cruzado algunas fronteras, a veces en la bodega del avión debido a la connotación terrorista que tiene en cualquier aeropuerto, hasta el punto de que, una vez aterrizado, necesito una pequeña navaja local, confiable en sus servicios, que rara vez me acompaña de regreso a casa.

Con la navaja en el bolsillo, crucé la frontera. Un alentejano no se siente diferente de un extremeño. En ese continuo de llanura marcado por la serranía y atravesado por el Guadiana, que decidió que al oeste se habla portugués y al este español, la navaja corta fronteras. Prueba de ello es MacGyver, ese embajador universal del potencial del hombre y de la navaja. Y fue con la navaja que sellé mi hermandad con el poeta Samuel Chamorro, quien, junto a la navaja heredada de mi abuelo, puso la necesidad del lápiz. Sus versos concluyen, con broche de oro, que la patria es la herencia de nuestros padres, algo que no confundo con el país: “Con tu navaja, padre, / afilo un lápiz, el mío, / que siempre, / siempre, / escribe romo.”

"Con tu navaja padre" - Foto de Luis Leal




quinta-feira, outubro 05, 2023

"Entre 2 t(i)erras" podcast de Luis Leal

Antes de "Trabalhos&Paixões", a revista "Mais Alentejo" albergou a minha rubrica "Entre Duas Terras" durante sete anos. Porém, aceitei o desafio de dois amigos (de fronteiras mais a Norte da nossa Península Ibérica) para a continuar a partilhar estas vivências através de um podcast homónimo. O mesmo já existe, estará disponível em SoundCloud, Spotify, Google Podcasts e, muito em breve, divulgarei os primeiros episódios e entrevistas.

 
Antes de "Trabajos&Pasiones", la revista "Mais Alentejo" albergó mis artículos de "Entre Dos Tierras" durante siete años. Sin embargo, acepté el desafío de dos amigos (de fronteras más al norte de nuestra Península Ibérica) para seguir compartiendo estas vivencias a través de un podcast homónimo. El mismo ya existe, estará disponible en SoundCloud, Spotify, Google Podcasts y muy pronto divulgaré los primeros episodios y entrevistas.


sábado, agosto 12, 2023

"("Biblioterapia") Leia, mas não deixe de consultar o seu médico" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 164, p.94

 “Leia, mas não deixe de consultar o seu médico” (“Mais Alentejo” nº164) é um texto muito pessoal que versa sobre memória (a que somos e a dos que devemos honrar), sobre literatura e sobre saúde mental, esta última algo que, a meu ver, não costuma ser apanágio de rede social e jamais poderá rimar com banal. Já pensou sobre isto? De certeza, e não vivêssemos na abundância de “hashtags”... 

“Lea, pero asegúrese de consultar a su médico” (“Mais Alentejo” nº164) es un texto muy personal que trata de la memoria (la que somos y la que debemos honrar), la literatura y la salud mental, esta última algo que, en mi punto de vista, no suele ser una prerrogativa de una red social y jamás puede rimar con banal. ¿Ha pensado usted sobre esto? Por supuesto, y no viviéramos nosotros en la abundancia de "hashtags"...

"("Biblioterapia") Leia, mas não deixe de consultar o seu médico" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 164, p.94

domingo, maio 14, 2023

2-EVR 00-65

14/V/2023 Lá diz o Clint (Eastwood) "your world is nothing more than all the tiny things you left behind"... numa vastidão a perder de vista uma matrícula dos tempos de Évora (2-EVR 00-65).
Así me lo dice Clint (Eastwood)  "your world is nothing more than all the tiny things you've left behind"... en una inmensidad perdiendo de vista una matrícula de la época de Évora (2-EVR 00-65). 

sábado, abril 01, 2023

Estremoz, "El Rastro"

Estremoz, 1/IV/2023: En el rastro el elemento más traicionero no es el regateo (o el gitano de turno), sino el peligroso óxido que tanto puede estropear una preciosa antigüedad como hacer de nosotros necios, al engañarnos, ocultando la verdadera edad de lo que, al final de cuentas, no es una antigüedad.

quarta-feira, março 22, 2023

Apresentação de "Criptopórtico" de Ruy Ventura (Portalegre, 24/III/2023, 17:30h)

Esta sexta-feira, dia 24 de março, acompanharei Ruy Ventura na apresentação do seu “Criptopórtico”, algo que, para este servidor, é uma dupla honra: acompanhar o poeta e estar em Portalegre, essa cidade que tanto significa no meu percurso vital... Será às 17:30h na antiga biblioteca da Escola Secundária de São Lourenço e todos são bem-vindos.
Este viernes, 24 de marzo, acompañaré a Ruy Ventura en la presentación de su "Criptopórtico", algo que, para este servidor, es un doble honor: acompañar al poeta y estar en Portalegre, esa ciudad que mucho significa en mi recorrido vital... Será a las 17:30h en la antigua biblioteca de la "Escola Secundária de São Lourenço" y sois bienvenidos.

sexta-feira, dezembro 17, 2021

Festas de Campo Maior são declaradas Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO (15/XII/2021)

Parabéns Campo Maior! Mais de um século de tradição reconhecido e inventariado pela UNESCO! “A Festa das Flores”: eis um património imaterial que não é só de Portugal, do Alentejo, mas também da rai(y)a! Amanhã falamos um pouco deste merecido reconhecimento na Cadena Ser, se vos apetecer ouvir.

¡Enhorabuena Campo Maior! ¡Más de un siglo de tradición reconocido e inventariado por la UNESCO! “La Fiesta de las Flores”: ¡aquí está un patrimonio intangible que no sólo de Portugal, del Alentejo, sino también de la ra(i)ya! Mañana hablamos un poco de este merecido reconocimiento en la Cadena Ser, por si os apetece oír.



sexta-feira, agosto 27, 2021

terça-feira, dezembro 29, 2020

Crónica: "Nota que não chegou a diário..." de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº154, p. 68)

      Nota que não chegou a diário...

    Li, algures, que “os diários são como os dedos, todos iguais, mas cada um tem a sua impressão digital”. É provável que a citação não seja exatamente assim, porém não anda longe e não me apetece ir confirmar
    Quando estive confinado, ao contrário de muitos, não me senti capaz de escrever. Quanto muito uma intenção de um verso, que não passará disso, ou umas notas soltas que não chegam a diário. Apontamentos de como vou observando a sociedade peninsular, nesta minha vida ibérica, que me tem permitido ver coisas que jamais imaginaria. 
    Boas principalmente. Gente, locais, o melhor do ser humano. A nossa capacidade evolutiva, dinâmica, pois as nossas personalidades não são estáticas, avançando dentro de alguma coerência para bem da nossa essência. 
    Mentir-vos-ia se dissesse que não vejo o contrário. Se omitisse a crispação ideológica crescente, os nacionalismos mais do que emergentes e se não vivesse a 200 metros duma vala comum da Guerra Civil. Por isso, assusta-me ouvir vociferar “facha”, “rojo” ou esse “equidistante” atirado a matar qualquer tolerância a pensar por si própria.
    Ia tentando alhear-me do facto de só poder esticar as pernas no supermercado, mesmo tendo em frente de casa um descampado de contacto físico e ter os olhos a arder de tanto ecrã. E ao sentir o vírus a contagiar-me pelas redes sociais, desinfectei-me do computador e do telemóvel, usados apenas para trabalhar e pouco mais. Optei pela distância de segurança digital, pelos outros e por mim.
    Casualmente, andava com umas leituras pendentes. Anos 20. Chaplin, Gómez de la Serna e António Ferro, tão fascinado por um sinistro lente de Coimbra como por Hollywood, essa capital de imagens que tão bem tem travestido individualismo por valores de superação pessoal, empreendedorismo, ajudando a amputar a solidariedade à escala global, mas deixando a esperança de uns quaisquer “Vingadores” nos salvarem. 
    Lembrava-me disso enquanto o meu mundo parava a aplaudir a precariedade dos profissionais de saúde face ao Covid-19, da varanda, que não tenho, ouvia o silêncio do aplauso para a senhora da limpeza, para o camionista, para a caixa e repositor do supermercado, para o agricultor, para o senhor idoso do quiosque (que me ia salvando das notícias falsas), para o jornalista de empresas de trabalho temporário, para todos os invisíveis que mantiveram heroicamente o essencial de sociedade, enquanto teletrabalhava e lia que Chaplin filmou “O Grande Ditador” a advertir-nos, rindo, dos perigos de Hitler, que Ramón se autoexilou “equidistante” e o ex-modernista Ferro se tornou o homem do leme da propaganda de um Estado Novo que morreu de velho, por mais que um gajo acredite em Abril.
    Mesmo confinado, o tempo passa e tornei-me quarentão em quarentena. A minha mulher deu-me outro livro, via Amazon, de Luis Sepúlveda, entretanto vítima do vírus. Li-o com a lealdade canina do protagonista, mas, apesar dos “enta”, disto do “Velho que Lia Romances de Amor”.
    É verdade, tenho visto mais do que imaginava. Não é arrogância de crer ter mais mundo do que outros. O meu é pequeno, mas dedico-lhe atenção. Geralmente, como os Monty Phyton, “always look at the bright side of life”, o que não me impede de pisar merda de vez em quando. Perdão pelo vernáculo, nada demais para a minha geração, que mandou a Troika fazer outras coisas, em alto e bom som, para depois começar a trabalhar com menos direitos do que os seus pais e sem casa para alugar, mas com milhares de séries disponíveis para ver em quatro ou cinco vidas.
    Lá fora, a vida é só uma e a natureza, a mais realista das séries, continuou sem grandes audiências de humanidade, provando que tem memória e, da janela, vislumbrei estações esquecidas sem poder apear-me devido ao correr da pandemia. 
    Pouco ou nada escrevi durante esses dias, li. Hoje recordo a lucidez desconfinada de Cioran, nos alforges da minha bicicleta, a dizer-me: “quem parar o mundo, mesmo por erro ou negligência, será o seu salvador”. Talvez tenha razão Emil, talvez...



terça-feira, dezembro 22, 2020

Crónica: "Rafeiro como Eu" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº153, p. 48)

        O que é que o Nero, o Pantufa, o Júnior, o Jacó e o Rocky têm em comum para além de terem sido os cães da minha família? A resposta é fácil: eram rafeiros. Isto é, segundo o dicionário, cães sem “raça definida, resultado do cruzamento de diversas raças” ou, se enveredarmos pelo uso coloquial e pejorativo, algo “que não presta, de má qualidade, com mau aspecto” ou, simplesmente, “vadio”.

A canzoada só não tinha raça definida, pois, cada um à sua maneira, especialmente o Júnior (o incondicional amigo que o Ti Luís, o pai da nossa Sara Rodi, me deu), eram animais dignos, nobres, belos e cheios de humor. Como o Jacó, um Joe Pesci coelheiro de orelhas pontiagudas, mafioso de quatro patas que, depois de um périplo de meses, retornou a casa só para nos esfregar no focinho que jamais lhe domaríamos a Camorra que levava no sangue.

Tive a sorte, desde puto, da amizade canina, porém, a vida afastou, quase duas décadas, a sua presença na minha casa. Senti a saudade do passeio pelo campo, da cabeça nas pernas a pedir festas, da alegria do rabo a abanar ao ver-me, dos sprints atrás da bola ou das divagações do faro à procura de gatos, lebres ou comida no lixo. Na memória, ficou o cheiro a cão, a baba nas calças e esse domingo de convívio do grupo de casais ao qual os meus pais pertenciam na nossa paróquia.

Passei a maior parte do tempo a brincar com um cachorrinho gordo, peludo, uma espécie peluche vivo, sempre atrás dos meus Nike de ir à missa. Lembro-me de perguntar ao dono, um jovem latifundiário, qual era a raça do bichano.

- É um rafeiro alentejano. Queres ver os pais dele?

Já sabia o que era um rafeiro, mas aquele cachorro era como eu, alentejano e sem quaisquer virtudes de berço, além da teimosia atrás dos atacadores e da franqueza da paisagem. O canil era enorme, apesar da corpulência daqueles dois animais, sóbrios e de expressão calma. O macho, maior do que a fêmea, pareceu-me mais cabeçudo. Vieram de imediato ter com o dono que lhes afagou o pêlo grosso e me pôs à vontade para os acariciar, eles não me fariam mal. Um rafeiro alentejano é dócil e cúmplice da criançada. Excelente cão de guarda, seguro e confiante, vigilante nas horas de escuridão, não hesita em usar corajosamente as suas presas robustas para defender os seus de qualquer tipo de intruso.  

- Andam soltos à noite pelo monte, à mínima dão logo sinal. Ele tem quatro anos e ela é pouco mais velha. O canito com que andas na brincadeira está à mama sozinho, é um belo bicho! Um amigo meu vem buscá-lo para a semana...

Creio que foi o meu olhar fascinado, ou talvez o lavrador tenha intuído a heráldica do meu apelido, mas as suas palavras tornaram-se um sonho que recordo com sorriso gaiato.

- Se quiseres, para a próxima ninhada, guardo-te um.

O meu pai, ali por perto, assentiu. 

Durante meses perguntei se havia notícias do simpático senhor do monte. Soube, anos depois, que lamentavelmente nos deixou antes de tempo.  E o meu rafeiro alentejano foi crescendo longe de mim. Acredito que os seus antepassados molossos o impelissem a buscar outros rebanhos por esta Península Ibérica fora. Eu fiz o mesmo.

Quem nasce rafeiro, e alentejano, não escapa ao seu carácter, à planura do seu espírito. E, há um ano, quando a minha alma se amedrontava perante um lobo negro, tão cobarde quanto a sua alcateia dissimulada, regressou ao meu território o rafeiro que me foi oferecido, retomando o seu lugar na família. 

O Donnie, o nosso rafeiro alentejano, esse cachorro abandonado aos sete meses, de pelagem lobeira, com o seu peito largo e profundo, pôs-se ao meu lado, recuperando a força da minha vasta planície, profunda em silêncio e teimosa como o sol a romper por entre farrapos de nuvens. 

Vive livre pela raia e escolheu ser leal aos meus. Territorial, zela pela tranquilidade do nosso monte. Este cão, que o bom terratenente me guardou, foi duma ninhada tardia. Tem o pedigree que verdadeiramente me importa. O da terra imensa, da tranquilidade, do pão. A herança de gente simples, tisnada de sol e de agruras, cuja genética amastinada me corre pelas veias e me protege o perímetro vital se algum lobo se aproxima.



Crónica: "Rafeiro como Eu" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº153, p. 48)

Já não está nas bancas, e até a podemos encontrar na "Mundo Rural TV" em espanhol, mas aproveito estes dias para partilhar a crónica "Rafeiro como Eu", publicada na "Mais Alentejo" nº153, em que falo um pouco sobre os cães da minha vida, sobre esta minha predileção pelo Rafeiro Alentejano e, para variar, me ponho a divagar. Se vos apetecer ler, aqui está (recomendo a versão do blog), no entanto, vamos ao mais importante: Boas Festas!

Ya no está en los quioscos, e incluso podemos encontrar en "Mundo Rural TV" su versión española, pero aprovecho estos días para compartir la crónica "Rafeiro como Eu", publicada en la “Mais Alentejo” nº153, en la que hablo un poco sobre los perros de mi vida, sobre esta predilección mía por el “Rafeiro Alentejano” (mastín del Alentejo) y, para variar un poco, me pongo a divagar. Se os apetece leer, aquí la tenéis (recomiendo la versión del blog), sin embargo, vamos a lo más importante: ¡Felices Fiestas!