segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Hoje só se repete de quatro em quatro anos

Pensar que um dia só se repete de quatro em quatro anos é coisa de calendário. Agendar a repetição de um dia também.
Se não fossem as redes sociais, eu que não repito dias, gasto dias, não me aperceberia. Seria mais um dia alheio ao conceito bisexto, mas atento ao sol que brilhou frio.
Lembro-me de um amigo que hoje celebra o seu aniversário neste limbo de calendário. Como o celebrará para o ano? Nunca lhe perguntei como é que ele lida com a síncope do dia 29 de fevereiro. É como se uma convenção bisexta lhe roubasse um feriado, um governo afim ao patronato lhe tirasse um descanso de direito.
Agora, a pensar nisso, reivindico a quem de direito que me devolva todos os anos o dia 29 de fevereiro!

domingo, fevereiro 28, 2016

Fronteira – Manuel Rivas

Um dos moços portugueses levava debaixo do braço
os sapatos novos.
Foi esse o que morreu com o tiro.
O guarda pôs o joelho na terra e disparou.
Quando a mãe cruzou a fronteira,
só os rapazes estávamos ali.
Estendeu o avental e arrepanhou a terra ensanguentada.
Não quero que fique nada aqui.
(Trad. Luis Leal)
Do seu livro “Ningún cisne” (1989) em “o pobo da noite” (Manuel Rivas) “Antoloxía poética”. Edições Xerais, 2º edição, 1997  

Rota, Cádiz


Rota, Cádiz, 26/II/2016

A Andaluzia continua a ser para mim um enorme latifúndio desconhecido. O pouco que posso ver em movimento da janela do carro não me conta histórias seculares duma região sofrida como os touros da “afición” e os estereótipos de Osborne não ma resumem. 
Esta região, seca e gretada por rios que apontam a Península para sul, recorda-me imensas paisagens familiares. Geograficamente sei, do meu lado direito, encontrar o Algarve duma cartografia infanto-juvenil e, do meu lado esquerdo, um porto de invencíveis armadas e de piratas à Francis Drake.
Está frio e quase a chover nestes apontamentos. Vou guardar o lápis e o bloco com os bolsos cheios de pedras preciosas avaliadas por um olhar perito de cinco anos numa praia semi-deserta. Vamos procurar abrigo na Biblioteca Rafael Alberti. Tenho alguma esperança de o encontrar e de o apresentar aos meus filhos. Se tal não for possível, deixamos-lhe um abraço.

sábado, fevereiro 27, 2016

O ladrão de cerejas (Bertolt Brecht)

Fassadenbild in Weissensee von Skip Pahler, 1986


O LADRÃO DE CEREJAS

Numa manhã, cedo ainda, muito antes do galo cantar,
Fui despertado por um assobio e fui à janela.
Sobre uma cerejeira - o crepúsculo inundava o jardim -
Estava sentado um jovem com umas calças remendadas
E colhia alegre as minhas cerejas. Vendo-me,
Ele acenou-me e com ambas as mãos
Ele tirava as cerejas dos ramos para os seus bolsos.
Ainda durante algum tempo, quando de novo estava na cama
Ouvi-o a sua pequena canção assobiar.

Bertolt Brecht



(Este e mais poemas de Brecht em RTP)




sexta-feira, fevereiro 26, 2016

Quando se tem avós de verdade é tudo mais fácil. O peso do exemplo não é exclusivo dos ombros dos pais.

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

"Petaloso"

"Petaloso" eis uma palavra nova no dicionário da língua italiana. A sua origem está num erro ortográfico de um menino de 7 ou 8 anos chamado Matteo. 
Não existem adjetivos mais perfeitos do que os que têm por base a pureza de uma descrição ou intenção. E era isso mesmo que Matteo queria fazer nessa redação que ficará para a posteridade como um exemplo de que do erro também se extrai beleza.
Na minha profissão, corrigir é das tarefas mais ingratas. Tens de fazê-lo por curriculum e por convenção. Como gostaria de encontrar um erro deste tipo e marcar a vermelho, "aqui temos um belo erro". Acho que vou voltar a corrigir a verde. Só para manter a esperança...

terça-feira, fevereiro 23, 2016

"Você, tu, eu, primeiro a pessoa" - por Luis Leal (in revista "Mais Alentejo" nº 131)


Diário 23/II/2016

Somos parte do mundo porque temos um corpo que nos põe em contacto com a realidade física, com uma pele de existir. Somos Psique e Eros inevitáveis desde que as nossas mães nos expulsam dos seus ventres.
No caso do sexo masculino, o que melhor conheço e vivo ao ser pai de dois meninos, é marcante o momento em que o bebé descobre a sua pilinha. Não precisas de educá-lo para isso, a natureza encarrega-se de lhe mostrar, no meio das pernas, uma espécie de brinquedo, companheiro íntimo que tem de carregar consigo para sempre. Aprende empiricamente a manuseá-lo com cuidado e, desde tenra idade, lida com esse efeito de contração ou descontração.
Hoje, com dez meses, o meu filho mais novo descobriu o pequeno prazer de estar sem fazer nada e a mexer na pilinha. O irmão, com cinco anos, já gosta de estar no sofá a coçar os tomates. Parece mal, não o devia mencionar ao caríssimo leitor, mas sabe tão bem, que, em vez de estar para aqui a escrever, era o que deveria de estar a fazer…

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Você, tu, eu. Primeiro a pessoa. (Crónica "Entre Duas Terras" in "Mais Alentejo" nº131)

Estou para aqui a pensar como é que me devo dirigir aos meus caríssimos leitores. Por você ou por tu? Tive uma educação que me fez herdar o respeito formal por quem não conheço em pessoa. Talvez por você? Mas ao estar para aqui cronicando em quase confidências íntimas, em divagações só permitidas a amigos, talvez o uso do tu não fosse despropositado...

A sociedade espanhola, na qual me insiro e educo os meus filhos, tem vindo a derrubar o muro que existe entre o uso da terceira pessoa e da segunda do singular. O “tuteo”, resume-se assim o tratar por tu, impera nas relações sociais do país vizinho. Não é que o lado mais formal não exista, o seu uso é apanágio de certas idades e tipos de educação, mas, ainda assim, reafirmo o uso massivo do tu no quotidiano de Espanha. Só há que ver os recentes debates entre os candidatos ao governo espanhol, Mariano Rajoy (melhor, Soraya de Sáenz Santamaría!), Pedro Sánchez, Pablo Iglesias e Albert Rivera que se “tutearon” para a posteridade, algo até então nunca visto em debates do género.

Há quem chame a estes detalhes, mundanos e enormemente significativos para um colectivo feito nação, de “código cultural”. Isto é, existe uma codificação sociocultural oculta no uso contextualizado duma língua.

Com frequência, lembro-me do “vossemecê”, herança do latifúndio, que a minha avó usava. Só mais tarde me apercebi que Abril não libertara totalmente o meu Alentejo e os seus santos inocentes dessa estrutura feudal, de boina servil apertada contra o peito, continuando à mercê terratenente.

Cedo me inculcaram a diferença entre um “tu” e um “você”. Até mesmo o subgénero do “você”, nasalado, super-loiro e tio, propagado da linha de Cascais até aos confins do país, cumprimentando só com o som de uma bochecha, algo tão diferente do “você” omitido ou substituído por “senhor” ou “senhora” que me fora respeitosamente ensinado a usar.

Como Antonio Machado, a vida deu-me uma infância num pátio de um bairro. Ainda hoje em Évora se conhece por bairro do “moinho do cu torto”. Há humor no nome e houve felicidade nos meus verdes anos. A par do bairro da Srª. da Saúde, no “moinho do cu torto”, em presença dos meus avós e vizinhos, fui menino e moço.

Escusado será dizer que um gaiato no Alentejo, para que tenha uma infância como Deus manda, será sempre tratado por tu! Eu não fui excepção. Curioso foi terminar os meus estudos, cujo diploma resume em licenciatura, e ver, de um dia para o outro, gente que andou comigo ao colo, que me viu de joelhos esfolados, calções sujos e nariz ranhoso, começar a tratar-me por doutor ou usar um reverente pronome de terceira pessoa.

Jamais permitirei a alguém que me viu crescer e é do meu bairro (do meu pátio!) tratar-me de semelhante forma! Sou o Luís. Se alguém tem de manter esse código cultural que a idade impôs sou eu! Desde quando é que o carrasco faz sombra à azinheira centenária?

Sou consciente do respeito que me impõe a tradição dum montado assim, mas, também, desse lado da fronteira, onde falo e sou português, sem o mais mínimo tipo de cumplicidade, relação etária ou confiança, várias vezes me trataram por esse “tu” estranho, nada simpático e amistoso, que nos relega, numa forma de tratamento, para algo de insignificância e desprezo… Já eu, recorro à defesa pessoal, um judo linguístico, e agarro nesse “tu” à má fila e replico-o com igual assertividade. Geralmente converte-se num “você” de olhos nos olhos, horizontal, como devem de ser as relações humanas.

Como com o exemplo se predica melhor, e com o exemplo que aprendi dos meus pais, respondo à questão com que iniciei esta crónica fazendo ao meu estimado leitor outra questão. Como já nos vamos conhecendo, não se importa que nos tratemos por tu?

sábado, fevereiro 20, 2016

20/II/2016

Não sei se continuarei a tentar mostrar o que me converte, aos olhos de alguns, em artista. Acho que sim, pela necessidade constante de tentar criar. Porém, há no acto de divulgar o que faço e escrevo um enorme desgaste emocional, talvez por não ser um "artista profissional". Ao contrário da minha profissão, neste âmbito a distância do eu não existe.
Esta incerteza não se deve à crítica e ao medo que se tem dela, se assim fosse nem sequer me atrevia a publicar. Sou incapaz de não me comprometer totalmente com o que faço de maneira honesta. E parece-me que, também, seja mais tímido do que aparento aos olhos de outros tantos.
Se a idade me deveria trazer sabedoria? Não sei. Hoje um bom amigo relembrou-me o menino que ainda sou e talvez por isso o que vai cá dentro continua em brasa, sai lento e queima como lava.

Hoy/Hoje [33]

Hoy, en la Biblioteca Pública de Badajoz, los vértices de este [33] se unieron. A todos los que me acompañáis en esta geografía de afectos… Gracias.


Hoje, na Biblioteca Pública de Badajoz, os vértices deste [33] uniram-se. A todos os que me acompanham nesta geografia de afectos… Obrigado.  







sexta-feira, fevereiro 19, 2016

A literatura portuguesa não tem muita tradição diarística. É um acto de demasiada coragem pouco típico dos escribas da língua de Camões. Aqui está um acto de coragem de Virgílio Ferreira:

1 de Agosto de 1980. “Vi as provas do primeiro volume deste Conta-Corrente. Meu Deus, o que eu corei. E quanto creme refrescante eu pus no meu corar, ou seja, quanto emendei para atenuar a vergonha. Mas a melhor forma de atenuar a vergonha é assumi-la. E é isso já tão sabido que, quando anotamos a alguém as suas asneiras, a forma mais corrente de nos responder é que foi assim mesmo que quis fazer. ficai pois sabendo, ó críticos soezes [ignorantes]: foi assim mesmo que eu quis fazer. E ide chatear a vossa avó.” (Virgílio Ferreira in "Conta-Corrente")

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

RESERVA-SE O DIREITO DE ADMISSÃO (A ADULTOS) por Luís Leal (Crónica resgatada da anterior plataforma da "Maria Capaz")

RESERVA-SE O DIREITO DE ADMISSÃO (A ADULTOS) por Luís Leal
Apercebo-me nas redes sociais que, finalmente, em Portugal, o critério para a adopção de crianças, na lei, é o amor e não a tradição heterossexual duma união entre duas pessoas. Há que evoluir. Até eu já pensei e opinei sobre este assunto de uma outra forma e hoje, que sou pai de duas criaturas, acredito que o sumo interesse da criança pode resumir-se ao afecto e ao respeito pela sua condição.

É este respeito pela sua condição que me põe à frente do teclado a pensar nestes parágrafos, que talvez se transformem em crónica, e incluir, nessa condição infantil, o peso do futuro. Sim, eles são o futuro apesar de, infelizmente, nesta batalha pela igualdade de direitos e oportunidades, também sejam vítimas de uns quantos danos colaterais.

O meu filho mais velho vai festejar mais um aniversário e uma das formas que a nossa família encontrou para que este dia não caia no fado inevitável do consumismo, naquelas festas da moda em que aniversariante e convidados têm de se obsequiar mutuamente (com tudo aquilo que é bom vender), é tentar celebrar esse dia especial que marca a sua chegada às nossas vidas de uma outra forma. Sei que não escaparei a esse karma mas, enquanto eles ainda são relativamente pequenos e fáceis de enganar sem que os excluam do seu grupo escolar de amiguitos, vale a pena remar contra estes hábitos que nos vão instituindo e que, a maioria, cegamente vai seguindo.

Mas, mesmo assim, quando ele começou a sentir que o dia de aniversário estava a chegar, querendo fazer convites personalizados para pôr na mochila dos colegas da escola, reunimo-nos na melhor sala de reuniões lá de casa, a casa de banho, e chegámos à conclusão alternativa de que gostaria de fazer um boneco de neve e colocar-lhe um nariz de cenoura. Na sua tenra idade nunca viu neve (eu também só vi, com exceção de um dia surreal da minha infância em que nevou na planície alentejana, já era um jovem adulto). Por esse motivo decidimos organizar um passeio à neve.

A minha mulher é um génio da logística excursionista, de sandocha na mochila e alojamentos excêntricos e baratos. Domina a economia doméstica, dentro e fora de casa, e eu assumo-me humildemente como um amador a seu lado. Agarrada ao computador, a surfar por essa net fora, encontrou uma residencial, ou turismo rural, não me recordo bem (porque não quero recordar-me), que parecia bastante em conta. Chamou-me e clicámos em voz alta nos comentários e critérios dessa unidade hoteleira. O nosso interesse caiu a pique (no meu caso foi mesmo directo para o caixote onde ponho as coisas que considero descartáveis) quando lemos: “Não se admitem crianças”.

Não tenho nada contra o direito de admissão nem sou contra a propriedade privada, notem bem! No entanto, não consigo evitar que me venham à cabeça cafés e outros negócios que utilizam imagens de sapos vigilantes para evitar a entrada de clientes de certas etnias ou, pegando noutro exemplo, vem-me à cabeça a imagem de Rosa Parks, que se insurgiu contra a separação dos passageiros negros dos brancos dentro dos autocarros da cidade onde vivia, Montgomery, insistindo em sentar-se num lugar que a levaria mais tarde a ficar na história dos direitos humanos.

Desculpem, já estou a viajar demasiado nos meus pensamentos. Dos batráquios do café ao autocarro do Alabama sigo agora para um avião da TAP que o ano passado me levou a Munique. Nessa viagem, uma mãe hercúlea trazia, de escala em escala, os seus três filhos consigo, o mais pequeno deles de colo e evidentemente saturado. Olhámos para aquela mãe com a empatia de saber o que é voar com um bebé a quem já não bastavam as necessárias dores de dentes a crescer, tendo ainda de aguentar a pressão de várias horas de voo.

Sei bem o que são crianças desregradas no caos educativo paternal e garanto-vos que esse não era o caso. As pobres crianças apenas se queriam libertar com sorrisos e abraços da mãe e uns quantos olhares metediços para trás dos mexidos assentos. Troquei uns quantos olhares e sorrisos com um deles, um menino de dois ou três anos, que roía e me oferecia a sua chucha.

O ser humano tem tanta informação virtual à sua disposição que está a perder a capacidade de compreensão da realidade empírica. Não deve ser possível “googlar” estas coisas para entender a dureza que é viajar horas a fio nestas circunstâncias.

Curiosamente, foi uma Senhora de idade madura e experiente, com uma vistosa permanente no cabelo, quem viria a queixar-se insistentemente à simpática hospedeira do desassossego que lhe provocavam as crianças e os seus brinquedos, a ponto da mãe das mesmas abdicar do seu lugar para evitar uma discussão.

Obviamente que todos temos direito ao descanso, temos direito a não sermos incomodados, quer por miúdos, quer por graúdos (se é que uma criança a brincar para se manter entretida pode considerar-se um incómodo!). Enfim, a Senhora da permanente, indiferente àquelas crianças, estava no seu pleno direito. Mas apenas isso, no seu direito.

Felizmente, a maioria dos passageiros ficou ao lado daquela mãe e ajustámo-nos sem qualquer problema, com alguns “gugu-dadás” pelo meio, às suas circunstâncias e à nova ordem dos assentos dentro da aeronave.

No entanto eu, se já era um convicto defensor dos direitos das pessoas (tento ser de todos os seres vivos), reservo-me o direito de não gostar de pessoas que não gostam de crianças, tal como acredito que quem não gosta de crianças tem direito a não gostar desses enfants terribles.

Não sei se o meu filho colocará ou não um narizito de cenoura a um boneco de neve este ano, nem sei tão pouco se verá neve este ano. Mas sei que não iremos a locais que não admitem crianças porque não nos deixam lá entrar! Não iremos a esses locais, no limbo conveniente da legalidade, que confundem o direito de admissão com a conduta adulta, esse reflexo evidente no elo mais fraco que são os seus filhos ou naqueles cujo futuro depende do seu exemplo de adultos.

Usando terminologia económica que se tende a usar para justificar tudo no nosso mundo, há “nichos de mercado” para estes direitos de admissão. Tenho um amigo que argumenta que, se queremos um ambiente que proporcione um aumento da demografia, num restaurante ou num hotel, não admitir crianças ajuda a criar esse mood. Tem razão, a minha libido prefere o glamour de um restaurante francês mas nos entretantos vai-se contentando com uma pizzaria com vista para uma piscina de bolas coloridas…

É possível que estes nichos sejam frequentados pelas sensibilidades que merecem. Talvez as crianças que lá não foram admitidas no presente, possam num futuro próximo passar à porta e ver um cartaz onde está escrita a palavra: “trespassa-se”.

terça-feira, fevereiro 16, 2016

domingo, fevereiro 14, 2016

El Rencor - José Manuel Díez

Presentación de [33] de Luis Leal en la Biblioteca Pública Bartolomé J. Gallardo de Badajoz

Este [33] tiene por detrás un triángulo de afectos. Évora, Valencia de Alcántara y Badajoz. 
El próximo 20 de febrero será un honor poder presentarlo en Badajoz, en uno de mis sitios favoritos, la Biblioteca Pública Bartolomé J. Gallardo, al lado de mi amigo y maestro Antonio Sáez y subversivamente acompañados por Jorge Carnerero y Jaime Muro. ¡Estáis todos invitadísimos! 

quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Ser Homem com M maiúsculo



Ser Homem com M maiúsculo (dedicado ao meu "Duende Quinito"! Parabéns, sempre serás um exemplo para mim!

Se as conversas que tenho com os meus amigos consertassem o mundo, de certeza que, no meio de tanto paleio, já estávamos numa “Era de Aquarius”, com patrocínio de bebida isotónica, bem hidratada de justiça e igualdade.

Para bem parecer, podia enganar-vos e omitir uma tagarelice cheia de testosterona. Não oculto que tanto pode versar sobre barba feita, aparada ou por fazer, saudosismo de ver o Bruce Lee a depilar com kung-fu o Chuck Norris, dos exames à próstata do Stallone, da lealdade do Lobo Antunes ao Cardoso Pires, da filosofia de contratações do Benfica, porque é que uns estão cada vez mais conservadores (e carecas) enquanto outros cada vez mais tatuados ou continuam hippies utópicos. Escusado será dizer como a silhueta feminina nos exige o rigor e métrica do melhor soneto.

A métrica das nossas virilidades também vem à baila, tal como a sorte dum dia de festa, a inutilidade do paracetamol para a enxaqueca feminina, ou, em última instância, o passado namorado de leão num presente amansado por um Simba a saltar-nos para a cama ao mais mínimo movimento nocturno na savana. E rimo-nos. À bruta. Verbalizamos a nossa natureza orgulhosa de saber usar motoserra, estacionar à primeira, saber mudar um pneu ou de entrar em êxtase com o último grito desnecessário de bricolage do catálogo do Lidl.

Vibramos com o UFC, com o Conor McGregor, mas também com a Ronda Rousey e a Gina Carano (era giro vê-las a discutir com alguns tipos, no “octagon”, a fronteira entre o galanteio e o assédio!). Vemos telenovelas e filmes baseados em livros do Nicolas Sparks, mas só choramos quando o Rocky, com a cara feita num oito e a boca ao lado, grita: “Yo Adrien, We did it!!!”.

E dizemos palavrões como ventosidades a libertar a alma da poluição do dia-a-dia.

Negar a nossa gramática masculina, de sintaxe menos delicada, violenta mesmo, pouco rancorosa, com tantos complementos circunstanciais como o de estupidez, é negar a honradez de tantas das suas páginas. Entre o cavernícola honesto e o hipócrita progressista, não hesito em ficar com o primeiro.

Alguns dos meus amigos, quando souberam que iam ser pais de meninas, compraram uma caçadeira e legislaram o namoro só até aos seis anos! E ensinam às suas princesas que uma boa forma de manter a integridade territorial, em situação de invasão do seu reino, é um pontapé certeiro no meio das pernas do invasor (como pai de dois príncipes reforço a esperança da minha prol nunca ser merecedora de tal retaliação).

Outros amigos são também maridos e filhos de desempregadas. Há ainda alguns de nós, eu incluído, que vimos as nossas caras-metade despedidas em plena gravidez ou no “direito” da licença de maternidade...

Tenho orgulho nos meus amigos. Somos honestamente imperfeitos. Não os trocava pelas minhas colegas que acham que levar um bebé simbólico à assembleia do deputados em Espanha é falsidade privilegiada de mãe deputada e não a denuncia de um problema latente nas nossas sociedades. Não os trocava pelas minhas conhecidas que levam os filhos e filhas a colégios de ensino separado por sexo. Simplesmente não os trocava por muitas mulheres que me parecem ainda mais cavernícolas e menos sensíveis do que nós.

Lembro-me sempre de uma grande amiga que se batia um “feminismo” muito seu. Anos a fio, afirmou que todos os homens éramos uns trastes, recorrendo ao trivial dicionário do machismo disponível há séculos. Até citava Tirésias, com a sua verdade de que a mulher é mais sincera no amor. Sou alérgico a verdades absolutas e, tolerante, dizia-lhe: “olha que não somos todos assim...”. O tempo deu-me alguma razão. Uma relação menos feliz, ressabiada, encontrou conforto num homem tão estereotipado, quanto bom.

Assumirmo-nos felizes na condição rotulada de “gajos” não invalida a nossa luta pelos direitos daquelas que sempre são mais importantes do que os nossos amigos. As nossas companheiras, mães e filhas. A bondade, amigos, extrapola o género e é irmã do respeito.

Esta crónica nasceu por todos aqueles a quem não se lhes reconhecem as virtudes na redundância do estereótipo. Em especial, por um dos meus melhores amigos, com quem partilho tantas destas conversas e gargalhadas mundanas da nossa condição. Este meu amigo, bom marido, pai responsável e filho extremoso, é um ser humano que todos os dias deixa este mundo melhor. Sei-o bem, porque só um grande homem, com M maiúsculo, como o meu Rui, se levanta todos os dias para trabalhar, vai ao armário e pergunta à mulher:

- Será que hoje me visto de Minnie ou de bailarina?

E a sua Andreza responde-lhe:

- Está um bocado frio, é melhor ires de Duende Quinito!


quarta-feira, fevereiro 10, 2016

"O gato só revela a sua natureza na interacção.
O contemplar felino não renega a natureza do olhar.

Mas, ao contrário do meu, nunca denuncia a sua verdadeira intenção."  

terça-feira, fevereiro 09, 2016

"Bati com o pé no deserto" - José Gomes Ferreira



«Bati com o pé no deserto
e não nasceu uma fonte…
Toquei numa rocha
e não se cobriu de açucenas…
Beijei uma árvore
e o enforcado não ressuscitou…
Amaldiçoei a paisagem
e não secaram as raízes…
Digam-me lá para que diabo serve ser poeta?
(Os santos são mais felizes.)»

José Gomes Ferreira (Porto, 9/6/1900- Lisboa, 8/2/1985)


segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Sondar o Portugal do Passado...

Há 11 anos atrás, escrevi esta crónica (reencontrada há pouco tempo pela minha mãe) sobre as mudanças políticas de então. Uma coisa tenho como certeza: não fui talhado para escrever sobre política. Deixo isso para o actual presidente da república de Portugal. Também se notam bem 11 anos na minha existência. Sou menos conservador com 35 anos do que era com 24. Vá-se lá saber...
Já o Sócrates, por esta época, não imaginava a bela temporada que iria passar à Cidade Museu...

domingo, fevereiro 07, 2016

"Desejar aplausos em arte é mais uma necessidade do que uma vaidade" - Miguel Torga

“Desejar aplausos em arte é mais uma necessidade do que uma vaidade. É sentir que se é necessário, que nos querem. (…) Escrever para a posteridade não consola nem estimula ninguém. A legítima oração de todo o artista, quer queiram, quer não, tem de ser esta: dai-nos, Senhor, um pouco de glória em vida”.

Miguel Torga, in “Diário IV” (Coimbra, 18 de Novembro de 1947)

Não desejo os aplausos, o afecto de alguns talvez, mas desejo o escrever aqui e agora. Deixar algo mais que o meio ambiente limpo e cuidado. Há um absoluto qualquer que não entendo a impelir-me a tentar deixar outra qualquer coisa que não entendo...

sábado, fevereiro 06, 2016

Olho para as linhas das minhas mãos e sei que todas nascem em Évora (Apresentação do [33] na Câmara Municipal de Évora - 05/II/2016)

Olho para as linhas das minhas mãos e sei que todas nascem em Évora. Talvez, no silêncio daquilo que não sei, espere que terminem em Évora… Obrigado Évora. Obrigado Bairro. Obrigado Casa.

Miro las lineas de mis manos y sé que todas nacen en Évora. Tal vez, en el silencio de aquello que no sé, espere que terminen en Évora… Gracias Évora, Gracias Barrio, Gracias Casa.




Se se volta ao chão de onde nos levantámos, volta-se por se ser terra e não para predicar.


Ontem, onde o acaso converteu a minha vida em mais que biologia, na terra que levo debaixo das unhas e que me deu voz para poder ser quem sou, a felicidade e a emoção de ver que a pouca, mas honesta, arte que vou fazendo tem o reconhecimento dos que podaram e ajudaram esta cepa a crescer.
  
Ninguém é profeta na sua própria terra, dizem. Cabe ao profeta não querer ser profeta, disso sim está o mundo cheio. Se se volta ao chão de onde nos levantámos, volta-se por se ser terra e não para predicar. Na ausência de tantos sentidos, a gratidão de quem volta é a única profecia. 

O meu peito não dormiu com a verdade do afecto que recebi daqueles que nunca esqueci. Se sou poeta é porque não consigo controlar a vontade do meu peito, porque ardo como uma vela que se acendeu com fé a lutar para se manter acesa até a promessa se cumprir. Até que isso aconteça escorre cera em lágrimas e vai iluminando o pouco que pode...

quarta-feira, fevereiro 03, 2016

"E tudo mudou" - Poema de Luís Fernando Veríssimo


E tudo mudou...

O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss

O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib
Que virou silicone

A peruca virou aplique, interlace, megahair, alongamento
A escova virou chapinha
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MM

A crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse

Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal

Ninguém mais vê...

Ping-Pong virou Babaloo
O a-la-carte virou self-service

A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão

O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD

A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email

O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street

O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também

O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou counter strike

Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato

Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...

A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!

A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz

E a sociedade ficou incapaz...
... De tudo.

Inclusive de notar essas diferenças.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

"Exortação" - Miguel Torga

Em nome do teu nome, 
Que é viril,
E leal,
E limpo, na concisa brevidade 
— Homem, lembra-te bem! — 
Sê viril,
E leal,
E limpo, na concisa condição.
Traz à compreensão
Todos os sentimentos recalcados
De que te sentes dono envergonhado;

Leva, dourado,
O sol da consciência
Às íntimas funduras do teu ser,
Onde moram
Esses monstros que temes enfrentar.
Os leões da caverna só devoram
Quem os ouve rugir e se recusa a entrar...”
-
Chaves, 27 de Setembro de 1960.
in Diário IX