quinta-feira, abril 30, 2015

Rascunho constante...

Observo as mulheres e sinto que a natureza do instinto maternal eterniza, in ou ex útero, a mais íntima e perfeita comunhão entre dois seres humanos.
Já a paternidade, que nunca senti instintiva, é um rascunho constante, cheio de rasurados, de palavras apagadas, correcções automáticas, frases reescritas, várias edições revistas, por vezes aumentadas, apoiadas em erratas, mas com alguns parágrafos perfeitos. Bem pontuados e cheios de esperança que o porvir se escreva com uma boa sintaxe de afectos.
Talvez ao ser-se mãe já se tenha uma história, a um pai caberá escrevê-la…

Observo a las mujeres y siento que la naturaleza del instinto maternal eterniza, in o ex útero, la más íntima y perfecta comunión entre dos seres humanos.
La paternidad, que nunca sentí instintiva, es un contante borrador, lleno de tachaduras, de palabras borradas, correcciones automáticas, frases reescritas, varias ediciones revisadas, por veces aumentadas, apoyadas en erratas, pero con algunos párrafos perfectos. Bien puntuados y llenos de ilusión de que el porvenir se escriba con una buena sintaxis de afectos.
Tal vez el hecho de ser madre ya traiga una historia, a un padre le toca escribirla…

John Coltrane - Blue Train



Por el Día Internacional del Jazz !!!





"He ponderado las enseñanzas de Buda..." (Zoso Royo)




He ponderado las enseñanzas de Buda
Durante 84 largos años.
Ahora las puertas se me cierran.
Nadie ha estado nunca aquí.
¿Quién es, pues, el que va a morir?
¿Y por qué lamentarse de nada?
¡Adiós!
La noche es clara,
La luna brilla, sosegada,
El viento entre los pinos
Suena como una lira.
Sin yo y sin otro,
¿Quién oye su son?

Zoso Royo


Poemas japoneses a la muerte Escritos por monjes zen y poetas de haiku en el umbral de la muerte. Antologados, prologados y comentados por Yoel Hoffmann. DVD Poesía, 2000


terça-feira, abril 28, 2015

800

a única coisa que flutua é apatia
nunca se poderá diluir em política
nem filtrar em hipocrisia

mergulham vidas a pique
como uma pedra num lago infantil
assobiando como uma bomba numa guerra civil

fazem-se ao mare clausum com a esperança
de um mare liberum de futuro

morrem sem caixão nem lençol
morre-se de balsa, ataúdes sem velas
sem velas

800
número redondo
pesado
obesidade mórbida numérica
afogada em aritmética de indiferença

800
número asfixiado
ao ar
mas aberto a qualquer
somatório a este êxodo fúnebre

afunde-se a vergonha
na apneia deste número
não respiremos também
enquanto continuemos submersos
enquanto não voltemos à superfície
à tona
da nossa humanidade




sábado, abril 25, 2015

De cravo vermelho na mão




Lisboa. Quarta-feira, 2012, marcha em comemoração ao 38º aniversário do 25 de Abril.





"Liberdade querida, e suspirada" (Bocage)




Liberdade querida, e suspirada, 

Que o despotismo acérrimo condena; 

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada:

Atende à minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena; 

Liberdade gentil, desterra a pena 

Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem, oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais do que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão de adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha, 

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

Bocage
(1765-1805)



No Estúdio Raposa podemos ouvir Luís Gaspar recitar este soneto




sexta-feira, abril 24, 2015

El Pájaro de mí (fragmento) – Joaquim Pessoa

El Pájaro de mí (fragmento) – Joaquim Pessoa
*
El más antiguo toro cruzó el día e impresionó a Neruda, que
lo siguió hasta donde vive el mar. Ahora, dentro de mí, todo es
simplemente humano. Ni druida, ni mago, ni adivino.
Leo solamente en las entrañas del amor.

Cada vez más silenciosamente, cada vez más infinitamente,
de tanto amar, de tanto amor, solo no quiero lo que dejaré de
ser. De la secreta verdad, quiero la verdad únicamente. De las cosas
luminosas y azules, me van a bastar las cosas.

En el centro de mí hay una quietud donde no podrá caber ningún
orgullo. Y si una estrella se enfría, no será ya en mi sonrisa,
no será ya en mi mano.

En ella, cabrá únicamente la tuya, esa mano verdadera, real y fría,
que mi amor se esforzará por calentar.
*
in
“O POETA ENAMORADO (Os Poemas de Amor)” – [trad. Luis Leal]



quinta-feira, abril 23, 2015

"Ardiendo de amor, las cigarras cantan" - Herberto Helder

"Ardiendo de amor, las cigarras cantan; más bellas sin embargo son las luciérnagas, cuyo mudo amor les quema el cuerpo"
Herberto Helder

quarta-feira, abril 22, 2015

Mendiga no Átrio Românico (Compostela) - Vicente Aleixandre

UMA velha
chama e pede:
roga.


Ninguém ouve.
Só a água
soa.


Água impura
que escorre
cega.


Água muda
ou água rouca.
Beija


o que dorme
ou o que segue:
terra.


Uma sombra,
uma pisada.
Pedra.


Pedra ou séculos,
séculos lentos.
Eia!

[Trad. Luis Leal]

segunda-feira, abril 20, 2015

Paul Auster declaró...

The beatle

Anacronismos? "O Que Verdadeiramente Mata Portugal" - Eça de Queirós

«O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.
Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.
O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.
Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.
O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: «A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos.»
Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'

domingo, abril 19, 2015

Una vez lo despertó con un suave roce - Siegfried Sassoon

Una vez lo despertó con un suave roce.
En su hogar, con susurros sobre campos sin sembrar.
Siempre lo despertó, incluso en Francia.
Hasta esta mañana.
Y esta nieve.

sábado, abril 18, 2015

Para sempre (excerto de José Fanha)

«Para sempre
Eu gostava de acordar em cada dia e
ter a minha mãe ao meu lado.
E o meu pai. E a minha avó.
E todas as pessoas de quem gosto.
Mas alguns já se foram embora. Para sempre. E isso deixa-me confuso. Porque para sempre é mesmo muito tempo.
Eu consigo perceber o que é uma hora. Percebo dez minutos. Percebo dez segundos que é uma medida de tempo que uma pessoa começa a dizer e já passou. E percebo um dia ou uma semana. Mas para sempre é tão difícil perceber...
Um dia, o meu pai foi-se embora para sempre. E eu esqueci-me de lhe dizer uma coisa. Nem sei bem que coisa era. Só sei que esta coisa que eu queria dizer ficou-me entalada na garganta. Para sempre.»
José Fanha - "Diário inventado de um menino já crescido" - pág.61

estoy solo con los ojos abiertos hacia la oscuridad - José Luís Peixoto


Ma (Rare Earth)









domingo, abril 12, 2015

"Bicicleta" de Herberto Helder



Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece
uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.

O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
O poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.


Herberto Hélder 


quinta-feira, abril 09, 2015

Ser português...

O ser português não está na saudade, nem num pesado fado assumido síntese de fatalismo e destino. O ser português encontra-se num grupo sanguíneo escasso, lírico e verdadeiramente navegável.

quarta-feira, abril 08, 2015

terça-feira, abril 07, 2015

Hoje Billie Holiday completaria 100 anos...



Hoje, dia 7 de Abril, Billie Holiday completaria 100 anos. Por isso, merecidamente, este blog homenageia-a com “All of Me”, pela voz da própria Billie Holiday.
 






quinta-feira, abril 02, 2015

The Captain's kite

"Después del almuerzo..." (Po-Chü I)




Después del almuerzo — un breve sueñecito:
Al despertarme – dos tazas de té.
Levanto la cabeza y veo la luz del sol
Que una vez más desciende hacia el suroeste.
Los que son felices se lamentan de lo corto que es el día;
Los que están tristes se cansan de la lentitud del año.
Pero aquellos cuyos corazones no albergan alegría ni tristeza
Se limitan a seguir viviendo, sin preocuparse de «lo corto» ni de «lo largo».

Po-Chü I (o Bai Juyi, conforme las transcripciones), poeta de la dinastia Tang




(Fotografía:  In Sappho We Trust)