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quinta-feira, abril 02, 2020

"Divagações duma alma analógica confinada ao mundo digital" - Luis Leal


Espera-me, daqui a pouco, mais uma jornada em frente ao computador. On-line para saber quais são as tarefas escolares diárias dos meus filhos e on-line para exercer a minha profissão, também docente, agora, totalmente digitalizada.

Tem graça que há dias, gozava com a inutilidade dos youtubers e dos influencers (esses elementos virais prévios ao “Corona”) frente à pandemia que vivemos e, neste preciso momento, tenho a sensação que, quando tudo isto passar, serei mais uma dessas personagens protagonistas quer de tantíssima futilidade como de vários momentos sublimes.

Desconfio que a volta à escola será uma coisa entre o intangível e o imaterial. Duvido que possa dar a típica palmadinha nas costas de «bom trabalho» sem luvas e a minha sala de aulas dependerá cada vez mais da aplicação Classroom (e da Google, sabe-se lá porquê, mas não tenho mais dados pessoais para poder averiguar).

O quadro e o giz dividir-se-ão entre a fantasia das mentes juvenis mais manipulativas e o estorvo para os alérgicos. Mas mesmo os espirros, como sabemos, inconvenientes e transmissores da maleita, não jubilarão a velhinha piçarra da sala de aula. Talvez porque é um objeto emblemático e porque a escola à qual me refiro é pública e algo me diz que, mesmo passada esta emergência de saúde, com a globalização a atacar descaradamente os nossos glóbulos brancos, o que é público continuará a ser uma carga para um certo tipo economia inconsciente de, sem pessoas, não passar de mais uma palavra vazia, sem qualquer tipo de riqueza.

Está-se mesmo a ver o homo incongruentus que sou. Um tipo a escrever no blogger porque sabe que aí o seu bloco de notas terá poucos mais leitores do que dentro da gaveta da secretária, porém, a queixar-se que não quer ser mais digital do que já é! Não precisam de me criticar porque eu já me atirei a minha incoerência à cara e, há bocado, zanguei-me comigo próprio.

Mas pergunto-me, será que o regresso do mundo ao mundo “normal”, após este resguardo caseiro forçado, ainda mais digitalizado e asséptico, nos trará mais benefícios para além dos que já temos? Isto é, quando a tecnologia melhora a qualidade de vida, respeita e salva o ambiente, quando não substitui a essência humana, quando se soma e não exclui, denigra ou mata a humanidade?

O vírus anda lá fora a liquidar, principalmente, aqueles que conheceram esta vida antes destes avanços tecnológicos vertiginosos, antes da pós-modernidade se liquidificar (o que diria Zygmunt Bauman se vivesse este momento?). É perverso o grande cabrão. Parece mesmo ter sido criado para nos obrigar a atualizar o sistema operativo civilizacional, o MS-DOS planetário. (Podia ter escrito Windows, mas não me apeteceu, fi-lo em honra aos apontamentos de informática e ao C:/>.)

Saberá este Coronavirus que os mais velhos são potencialmente perigosos? Quiçá saiba que muitos ainda se lembram do que viveram durante a 2ª Guerra Mundial, durante várias ditaduras do século XX (e das nossas ibéricas, em particular), recordam-se da União Soviética, da Guerra Fria, da Guerra Colonial, como também das esperanças de Maio, das revoluções de Abril e dos fiascos de Praga. A malta com mais Primaveras lembra-se bem como era cantar numa praça e por isso não se calou em protestos pela dignidade dos seus filhos e dos netos, como nesse, já tão longínquo, ano de 2008. Também é verdade que alguns compraram o que necessitavam e não necessitavam e até se ajoelharam perante muitos deuses, ideologias, perseguiram quimeras, mas a maioria dos que conheço sempre desconfiou da deificação dos Mercados.

Onde fui criado havia muita criançada, mas contávamos com a presença de muitos olhares enrugados pelas dores e pelas alegrias das suas biografias. Tive sorte e acho que mais alguns que foram putos como eu se lembram, sem saudosismo, apenas com afecto, dos nossos «egrégios avós» que não nos guiaram a nenhuma vitória, para além da bondade, da generosidade, da presença, do exemplo...

Não consigo conceber um mundo a priorizar faixas etárias fora das filas do supermercado. Crianças, jovens, adultos e idosos são parte dum todo que aprendi a chamar comunidade e, se expandirmos a coisa à escala planetária, humanidade.

O raio deste vírus transmite-se facilmente, é invisível, não conhece fronteiras (porém, fecha fronteiras) nem contas bancárias, e, ainda por cima, dá-se ao luxo de vir carregado de simbologia. Filho da p... E toda esta divagação para assumir que tenho mais medo de me infectar totalmente com o vírus da digitalização do que padecer de COVID19. Tenho a certeza que a minha alma analógica persistiria ao segundo. Já ao primeiro, é que não sei...

Divagações duma alma analógica confinada ao mundo digital

sábado, janeiro 25, 2020

"Um Diário Perdido de Miguel Torga" (Crónica de Luis Leal in "Rayanos Magazine")


Um Diário Perdido de Miguel Torga



Advertência ao leitor:
Durante o Verão de 1950, entre Agosto e Outubro, Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, um dos maiores vultos da cultura portuguesa do século XX, percorreu alguns países europeus como França, Itália, o Principado do Mónaco, Suíça e Espanha. O périplo espanhol, do ano em questão, levou-o à Salamanca do seu admirado Unamuno, à capital Madrid, ao Escorial de Filipe II, a Toledo e à cidade condal de Barcelona, com passagens por Maiorca e por Ávila. 
Foi nesta última cidade, mais precisamente numa pensão do centro histórico, onde se encontrou uma primeira edição do livro La sombra del ciprés es alargada de Miguel Delibes com uma quartilha escrita em língua portuguesa dentro. O exemplar foi encontrado em 2013 por um turista português que se alojou no estabelecimento familiar e que a transcreveu para o seu blog pessoal.
Infelizmente, só tenho constância desta transcrição que me foi facilitada pelo próprio viajante, cuja sorte de ter consultado o original, na biblioteca pessoal do pai do actual dono da pensão de Ávila, me foi narrada com encanto de leitor e de bibliófilo. Eu apenas o auxiliei a contextualizar nos Diários esta entrada que nos parece estar extraviada da obra diarística de Torga.
Ao contrário do português, Miguel Delibes nunca assumiu a sua humanidade “com as dimensões da Península, com todas as contradições que a dilaceram harmonizadas”, contudo, o seu humanismo, sincero em amor a Castela e, desse território, ao mundo, sempre me pareceu estar destinado a encontrar-se com o de Torga. Não se encontraram ao abrigo dum negrilho, sim à sombra de um cipreste. Já este meu casual encontro foi com alguém que, se não existisse, merecia a pena ser imaginado.

«Ávila, 29 de Agosto de 1950 – A pedra destas muralhas está que parece que saiu hoje da pedreira. Compenetrada da sua função de não deixar fugir a mais pequena parcela do fanatismo que sitia, não deu sequer pela erosão que passou ao seu lado. Granito temporal a cercar granito intemporal!
Chama-me à atenção um livro num escaparate duma livraria, La sombra del ciprés es alargada, de um jovem chamado Miguel Delibes. Em português, A Sombra do Cipreste é Longa.
Entro e após uma conversa com a senhora da livraria que me atendeu, Teresa de nome, como a santa aqui da terra e da nossa Ibéria, liberto as pesetas da algibeira e trago comigo a novela deste meu tocaio. A minha intuição foi laureada com o Prémio Nadal de 1947, vejo, sem me despertar mais interesse do que aquele que já tenho graças à sombra dessa árvore tão ascética como profunda em raízes espalhadas por terra onde abundam corpos à espera da eternidade do húmus.
Está ambientada aqui no burgo abulense, mas este jovem tem território bem demarcado. É de Valladolid, essa cidade rainha de Castela, onde Cervantes acabou de escrever as andaduras do cavaleiro da triste figura. Quevedo também por lá andou e eu espero por lá andar, quem sabe em breve[1].    
Não sei se foi uma obra de sinceridade, esta obra de principiante. Porém, é uma obra honesta, fiel a qualquer coisa que levou este Miguel Delibes a escrever o seu Pedro na primeira pessoa. O protagonista é como esta pedra de Ávila, uma pedra que não foi protegida ao sair da canteira e acabou por ficar encerrada por todas as outras a conformarem estas muralhas frias até mesmo para este mês de Agosto.   
Ainda não pude terminar com a sombra desta árvore. A pouca luz desta pensão não me permite serões de leitura, mas antevejo mar nas páginas que pude ler. Quando há pessimismo o mar ajuda a aliviar a carga do fim e balança-nos em memórias amnióticas do ventre materno. Portugal aventurou-se ao mar por isso, sabemo-lo bem, e não fosse ele órfão de pai e desavindo em carinho com a mãe.
Há futuro para este Pedro, para esta personagem de Ávila. Cresce na narrativa equilibrado com a vida e não sei como acabará. Talvez amanhã, ou depois, descubra se escapou ao pessimismo da vida ou se sucumbiu a ele, inevitavelmente.
E há futuro para este Miguel Delibes. Este jovem escritor de Castela procura o seu estilo pessoal para além do seu território, da sua cidade e da ruralidade do seu entorno. Fá-lo sem se impor, sem afã de conquista e de submissão. Caminha, página a página, pelos montes de pobreza oculta destas terras, cegas pelo orgulho castelhano, porém iluminadas pelo sol peninsular.
Se for caçador, parece-me que será uma boa espingarda. Sabe ao que aponta e não aponta por apontar. Seria um bom companheiro para ir às perdizes. É inteligente e a sua prosa parece-me sincera, sem qualquer necessidade de se comprometer com destinos de poeta. Prefiro assim. Gosto de admirar. E só o espírito me deslumbra o espírito. Delibes começou bem e estas pedras intemporais de Ávila dizem-me que vai acabar melhor.».





[1] Miguel Torga esteve em Valladolid no ano seguinte, em 1951, mais precisamente no dia 10 de Setembro, como é possível confirmar nas páginas do seu Diário XI.

domingo, dezembro 15, 2019

"La feria de la ladra" de Ramón (Crónica de Luis Leal in "Rayanos Magazine")


La feria de la ladra de Ramón

“Para hablar de Portugal hay que emplear palabras tenues, suaves, apuntadas sólo”. Por el origen de mi cuna, mi estimado lector podría sospechar que esta frase había salido de mi pluma, pero no; ya me gustaría. El autor de este apunte es el madrileño más portugués que el siglo XX conoció: Ramón Gómez de la Serna.
 
Ramón en el rastro de Madrid
La verdad es que, para el gran público, Ramón Gómez de la Serna (Ramón por antonomasia) es inseparable de las greguerías, esas frases que rozan el aforismo, que son primas hermanas del haiku, y cuyo carácter fragmentario, chispeante, tanto las pueden acercar al humorismo como al surrealismo.

En tiempos de instagramers y tuiteros, la brevedad de estos destellos de genio de Ramón, quizás lo situasen como influencer en la vanguardia de este mundo digital que prolifera por Internet. Pero su vanguardismo es el del siglo pasado y, junto con Miguel de Unamuno, Eugenio d’Ors, e incluso Adriano del Valle (el único escritor que trató con ese desconocido portugués llamado Fernando Pessoa), Ramón es uno de los autores españoles que más interés manifestó por el país vecino, por donde viajó en las primeras décadas del siglo XX, llegando incluso a construir “El Ventanal”, su “hotelito” de ensueño compartido con Carmen de Burgos, en Estoril.

Desde 1922 a 1925, Ramón vivió el sueño de “El Ventanal” gracias a una herencia paterna y a la suerte de que le tocara la lotería, pero el genio literario no gestionaba bien sus finanzas y la propiedad inmobiliaria ramoniana terminó en otras manos, transformándose en los años cuarenta en un espacio comercial para productos agrícolas. Se desconoce si el autor de las greguerías se enteró de este hecho, sin embargo, no deja de ser irónico que el refugio de creación del artista se convirtiera en un espacio de semillas y utensilios para cultivar la tierra e imagino cómo interpretaría Ramón esta casualidad. Con humor seguramente, pero, quizás, ocultando algo de esa “saudade” que supo sentir como pocos.

En pleno estallido de las vanguardias, Ramón era un escritor preocupado por los entresijos de la realidad cotidiana, sin miedo de adentrarse en lo marginal y en lo excéntrico, como podemos comprobar por su biografía y su obra. El Rastro (1914), sin duda, es una obra pionera de esa visión que se convirtió en ismo, el suyo, el ramonismo.
El Rastro (1914) de Ramón Gómez de la Serna

La verdad es que el madrileño me fascina y, hasta hoy, ha sido el único español que conozco que se puso a divagar sobre los rastros portugueses. Lo hizo en 1915 cuando visitó por primera vez Portugal, escribiendo sus impresiones en su libro Pombo (1918) y aclarando al lector español que al rastro portugués “se llama La feria de la ladra”.

Para gente como Ramón y yo (que me considero un arqueólogo de cosas inútiles), la filosofía de estas ferias es mucho más que la economía circular tan de moda para el capitalismo ecológico. Es contemplación. Es mi decadentismo en objetos tendidos por el suelo que ya no saben si son obras maestras o baratijas de mala calidad.
Ramón Gómez de la Serna

Gómez de la Serna decía que “no hay nada que aventaje al Rastro” pero la “feria de Ladra”, de Lisboa, “está muy bien”. Confieso que conozco los rastros de ambas capitales y no estoy tan convencido como Ramón. Portugal, quizás por su pequeñez, por su historial de escasez, siempre cuidó mejor sus objetos y, en la actualidad, lo convierte en un país con un mercado de antigüedades de mejor calidad que España. No soy yo quien lo dice, son varios expertos españoles en un programa de la Cadena Ser, pero no puedo dejar de pensar que el hecho de que el país vecino no hubiese sido escenario de una guerra civil también ayudase a la preservación patrimonial de todo tipo.

Alguien me dijo, hace un par de semanas, que en Lisboa quieren cambiar de sitio la “Feira da Ladra”. El turismo de masas tiene de estas cosas: reubica la historia. No sé si es verdad, sin embargo, no imagino la capital sin su feria de los martes y sábados en el Campo de Santa Clara, donde podemos encontrar el ocaso de los objetos en toda la clase de vendedores que Ramón tan bien identificó en el principio del siglo pasado, como “el burócrata venido a menos”, “el militar retirado”, “los mestizos de alma ruin”, a los que añado el ladrón de poca monta, la jubilada que no llega a fin de mes, el estudiante ecologista, el drogata con la manía que es fadista o la pija de Cascais que vende falsificaciones.
"Feira da Ladra" (autor desconhecido)

Quizás el escenario no sea el mejor para el visitante en busca de franquicias o de unos paisajes humanos asépticos. Yo veo armonía, pero Ramón veía el verdadero conocimiento de la ciudad:

“El conocimiento de Lisboa se posa y se hace más serio viendo su feria de Ladra, sus relojes con una confidencia más reveladora de la historia que la que halla en las páginas de los libros de historia, con su «expresión de otro tiempo diferente, de otra calidad, de otra nacionalidad, de otras minucias.»”.

Si hablamos de minucias, de nuevo, el autor de El Rastro, nos revela que “feria de Ladra, «la feria de la ladrona», que es lo que quiere decir”, está hecha de pequeños robos, “mezquinos y pobres”, justo al lado del Panteón Nacional portugués, “coincidencia que hace que se tenga en la feria de Ladra una asociación de ideas muy particular”.

Hay “Feiras da Ladra” por todo Portugal. Hoy eufemísticamente apodadas como “Feiras de Antiguidades e Velharias”, como la de Estremoz, todos los sábados, que ya es, por excelencia, una feria rayana, tan alentejana como extremeña. La feria de Estremoz tiene alma y merece una visita al menos, pero no tiene esta particularidad tan portuguesa que Ramón sintió en Lisboa.
"Panteão Nacional e Feira da Ladra" (autor desconhecido)

“La Feria de Ladra” de Ramón compartía espacio con un panteón exclusivo de reyes por aquel entonces (a pesar de que Portugal viviese sus primeros años de República) y como su “El Ventanal” convertido en casa agrícola, seguro que tendría nuevas asociaciones, nuevas greguerías, si imaginase su rastro lisboeta solemnemente tendido al lado de los restos mortales de escritores y poetas, como Almeida Garret, Guerra Junqueiro o Sophia de Mello Breyner, políticos como el primer presidente Manuel de Arriaga o el protofascista Sidónio Pais, o, incluso, fadistas como Amália y balones de oro como Eusébio.

Yo solo pienso que, si hay que cambiar de sitio la feria de Ladra, que sea para dentro del Panteón Nacional de Portugal. Allí, en el mismo lugar, tendríamos el pasado de un país tendido y un futuro que cualquiera puede regatear.  

Fuentes consultadas:
Ramón GÓMEZ DE LA SERNA, Pombo, Madrid, Imprenta Mesón de Paños, 1918.
Ramón GÓMEZ DE LA SERNA, Automoribundia, vol. II, Madrid, Guadarrama, 1974, 444.
Ramón GÓMEZ DE LA SERNA, El Rastro, Madrid, Galaxia Gutemberg, 2001.