quinta-feira, janeiro 28, 2010

O Alquimista


Conheci, em tempos, um fotógrafo de natureza que dizia que não necessitava de viajar para fotografar novos temas, pois, por entre a sua casa e o seu quintal, ele tinha um mundo sem fim de temas que a sua objectiva nunca obturara.
Não sou tão determinado como este fotógrafo, mas não posso deixar de reconhecer que tem alguma razão. Nunca me dediquei muito a fotografar o que tenho por casa, mas, hoje, com um pouco de sorte, captei um caminhar peculiar no meu jardim zen...
Não sou o maior fã do Paulo Coelho, mas esta composição remeteu-me para o seu pastor Santiago, no livro que mais gostei da sua autoria, "O Alquimista". Ouvi por aí dizer que ia ser adaptado ao cinema... não sei se será verdade... mas gostava de ver, já não me lembro da história muito bem, apenas sei que o livro me foi oferecido quando cumpri os 18 anos de existência... e, como imaginam, era muito "New Age"...
Boa noite.

O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes...

Reimaginar o passado...

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Há 65 anos que Aushwitz foi libertado...

Há poucos meses foi roubada a entrada deste campo de concentração "Arbeit Macht Frei"... felizmente foi recuperada para que não tenhamos que voltar a viver esses tempos...

Onde estará o meu Seat Marbella?


Essa seria uma das minhas maiores alegrias, voltar a encontrar o meu primeiro carro, o meu "Sexy Devil", onde aprendi a conduzir e a cruzar estas fronteiras... Era um prazer voltar a encontrá-lo, a poder restaurá-lo e a dar-lhe o carinho que ele merece... E dirá que leia este post:
- Este gajo é mesmo materialista!
Não posso negá-lo, mas era o meu Seat Marbella... que os meus avós me ofereceram e que os meus pais arranjaram...

Dois poemas de Assis Pacheco


Assis Pacheco a fazer um manguito "ao luxo e à soberba"

Fernando Assis Pacheco já cá esteve com o começo de um romance, Trabalhos e Paixões de Benito Prada, (ai, esse "Assar-lhe até a memória."!) e eu ia pôr um poema dele, "Sem que soubesses", que me pediu o amigo Luís (sem me esquecer da fotografia, é claro!), mas não posso evitar acrescentar mais um de que gosto especialmente, o "Soneto aos filhos", publicado há pouco no blogue Cómo cantaba mayo... Se alguém quiser ler mais versos de Assis Pacheco, é só comprar ou tirar da biblioteca A Musa Irregular, da Assírio & Alvim, 2006.


SONETO AOS FILHOS

Toda a epopeia da família cabe aqui
um avô galego chegado a Portugal rapazinho
outro de ao pé de Aveiro que se meteu
num barco para S. Tomé a fazer cacau

de filhos seus nasci
com este pouco de inútil fantasia
nutrida em solidões nas que me vejo
nu como um bacorinho na pocilga

e como ele indefeso e porém quis
mesmo assim ser mais que o animal
no tutano dos ossos pressentido

não peço nada usai o meu nome
se vos praz lembrai-me
o que for costume

mas livrai-vos do luxo e da soberba



SEM QUE SOUBESSES

Falei de ti com as palavras mais limpas,
viajei, sem que soubesses, no teu interior
fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.



terça-feira, janeiro 26, 2010

"Wax in, wax out"


Quem nasceu nos 80's lembra-se, de certeza, da febre do "Karate Kid" e das suas famosas técnicas do "grou" (I), do "tambor" (II) ou da aplicação da kata "seyunchin"(III). Era raro o puto que não via o filme e que não se tornava, de imediato, cinturão negro sob a orientação do Sensei Miyagi...
Podia ser uma foleirada, não discuto isso, nem sequer o tipo de karate do "Daniel-San" (era tão mau!!!), mas que transmitia algo mais que a porrada dos filmes de série B do Chuck Norris, do Van Damme, do Michael Dudikoff (o "Ninja Americano"), entre outros.
Nunca poderei esquecer que foi com os filmes do "Karate Kid" que conheci os bonsais, a ilha de Okinawa, a escala pentatónica e o famoso "wax in, wax out"... e os carros clássicos!!!
Hoje recordei-me disto e da banda sonora que tantas vezes serviu de introdução a outras no velho programa "Oceano Pacífico" da RR...
Para quem não sabe o Mr. Miyagi (o Pat Morita) já faleceu, mas ficará para sempre na memória dos foleiros como eu.
Boa noite.

sábado, janeiro 23, 2010

Trata bem os animais

Se actualmente são tidos quase exclusivamente como companhia, tempos houve em que familias dependiam da sua resistência, para chegar onde o sustento da familia estava semeado, para alcançar a aldeia onde o médico mais próximo residia...

Fotografia tirada no Portugal dos Pequenitos em Coimbra

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Agfamatic 55C

Um comentário do meu amigo Miguel Rabino fez-me voltar atrás no tempo, aos meus 8 ou 9 anos com a minha Agfamatic 55C (que a minha querida mãe fez questão de pôr no lixo, sabe Deus porquê!?) a fotografar a Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas.
Esta foi a minha primeira máquina a sério, pois até então quando obturava qualquer coisa ou saía uma lagarta sorridente ou via uma imagem qualquer do santuário de Fátima...
Felizmente encontrei uma Agfamatic 55C em perfeito estado, numa loja de artigos em 2ªmão, por 3'50€ que a minha mãe ainda me está a dever! :-)

"Espinhos" à janela

Portalegre que amanhece...

little sylvester the adult molester


Genial!!! Como é pura a "malícia" infantil! Este é um dos casos, mesmo que seja a fingir para a objectiva...

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Apostas


Desde a semana passada que a região vizinha da Extremadura espanhola conta com o primeiro centro de negócios de uma comunidade autónoma em território português, em Lisboa. A iniciativa é pioneira e, sem dúvida, uma mais-valia para a inserção das empresas extremenhas no mercado luso. Seguramente que mais comunidades autónomas espanholas (com pertinência para a Galiza, Castela e Leão e Andaluzia) lhe seguirão o exemplo e terão um “Plan Portugal” como a Extremadura tem promovido nos últimos anos.

Para algumas pessoas, certamente estamos perante mais uma ameaça à soberania do bacalhau à Gomes Sá, do vinho do Porto e do cozido à portuguesa. Como também gosto de “paella” e de “jamón”, penso que podemos aproveitar esta “invasão” e criar novos vínculos afectivos (já que o Alentejo têm mais em comum com a planura da Extremadura do que propriamente com o Alto Douro) e aproveitar para crescermos juntos no mercado ibero-americano.

O âmbito do turismo também não foi esquecido, continuando a Extremadura a “semear em Portugal”, expressão utilizada frequentemente pelo presidente da comunidade, Guillermo Fernandez Vara, ao assinar um convénio com a Associação Industrial Portuguesa no qual se compromete a participar em vários certames organizados pela mesma, nomeadamente na BTL de 2010, com um stand da marca Extremadura.

A economia extremenha não é propriamente um exemplo de economia autonómica pujante, apresentando apenas 2,5% do total das exportações espanholas para Portugal. Curiosamente, esta comunidade representa 4,1% do total das importações do país vizinho desde Portugal.

A estratégia é clara e ajudará as empresas extremenhas a ascenderem a um estatuto internacional, apesar dos seus problemas económicos e da sua pequena dimensão. Algo que também pode ser análogo às inúmeras empresas portuguesas, em especial do centro e do norte Alentejo, que se encontram com dificuldades semelhantes mas que poderão ter mais vantagens que desvantagens. Aí a língua portuguesa, com todas as suas características fonéticas e morfológicas, pode ser um argumento de peso. Como é fácil para um português comunicar e fazer-se entender. O mesmo não acontece com os “nuestros hermanos”, mas já se deram conta dessa sua lacuna e têm investido bastante em idiomas, em especial o nosso. Não me parece que nos tenham na primeira linha, nem que o TGV seja determinante para o “controlo” da economia ibérica. Tal como no século XVI, as oportunidades reluzem nas águas do Atlântico e nos 47% do território da América do Sul que fala a língua de Camões. Sabem bem a que território me refiro?

E nós? E os restantes 53% (sem nos esquecermos da América do Norte já com “células” de emigração lusa) em que se fala o idioma de Cervantes?

É muito fácil culparmos os outros de intromissão e de aproveitamento de recursos que cremos ser nossos. É fácil, efectivamente. Mas também é cómodo, sem esquecer (sem reconhecer) que o que mais oculta é a nossa inércia colectiva.

Pensamento do Momento


Em democracia quem pára pensar, perde tempo, é um inútil aos olhos do colectivo. No entanto, em tempos de totalitarismos os ditos inúteis são uns inconvenientes a eliminar a bem do regime.

terça-feira, janeiro 19, 2010

A propósito da BRISA


A propósito de uma reclamação feita devido a sinalização inadequada e falta de esclarecimento nos altifalantes das portagens.

Exmo. Senhor,
LUIS MIGUEL LEAL PINTO

Nossa referência: 6200914101
Sua referência:
Data: 19.01.2010

Assunto: Portagens

Exmo. Senhor, LUIS MIGUEL LEAL PINTO

Agradecemos desde já o seu contacto.
Temos presente a exposição apresentada por V. Exa. com data de 18.07.2009, cujo conteúdo mereceu a nossa melhor atenção.
Relativamente à mesma informamos que existe sinalização no trajecto que efectuou que permitia conduzi-lo sem erro à Loja Via Verde. Assim de acordo com o exposto e embora lamentando o sucedido informamos que a taxa cobrada está correcta.
Sem outro assunto de momento, subscrevemo-nos com os melhores cumprimentos.

O DEPARTAMENTO DE CLIENTES
FRANCISCO REBELO

Isto mereceu a seguinte resposta:

Exmo. Senhor,
Francisco Rebelo

Com certeza, agradeço a sua resposta. Não esperava outra coisa, no entanto devo salientar que o senhor utiliza o presente do indicativo e o pretérito imperfeito ("existe sinalização no trajecto que efectuou que permitia conduzi-lo sem erro à Loja Via Verde"), mas dado que a minha reclamação foi feita há uns meses, devo salientar que a sinalização era dúbia e insuficiente e que me foi aberto uma porta de uso das forças de segurança quando eu apenas queria uma informação. Passado tanto tempo é difícil precisar, pela vossa parte, se a sinalização é adequada (ou não), mas parece-me que entraríamos pelo "campo" dos pontos de vista e iríamos filosofar sobre o que é (ou não) sinalização adequada.
Enfim, o senhor retirará as ilações que entender. Mas mesmo assim obrigado pela resposta atempada e espero que a BRISA conduza "sem erro" as portagens dos utentes para um serviço de esmerada qualidade.
Os melhores cumprimentos,

Luis Miguel Leal Pinto


E ainda dizem que o utente tem sempre razão... não passa de uma mera expressão idiomática

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Então, boa tarde e obrigado


A segurança é um tema que tem sido amplamente debatido em todas as suas formas, áreas e pessoas a quem toca.
Neste caso especifico, refiro-me à segurança rodoviária, particularmente ao transporte de crianças.
Uma vez que sou docente (palavra bonita para pessoa enxovalhada que tenta ensinar/ educar crianças e jovens) e que tenho que sair da escola por diversos motivos com os alunos, preocupo-me em seguir a legislação em vigor, cumprir com as minhas obrigações e não atentar involuntariamente contra a segurança das crianças.
Como tal, resolvi ler a legislação em vigor, tirar algumas dúvidas com alguns amigos e seguir tudo (tim-tim por ti..) à risca. Contudo, pareceu-me um pouco confusa, com algumas nuances difíceis de perceber a quem se dirigiam, e resolvi fazer o que me pareceu mais sensato: dirigi-me às autoridades competentes para ver as minhas dúvidas esclarecidas.


Na GNR esclareceram-me as dúvidas, explicando-me que as coisas são simples e não tão “rebuscadas” como aparece em Decreto-Lei.
Pensei, em princípio já não sou entalado pela UNT (antiga BT), mas, e a PSP???
Dirigi-me à esquadra ou secção (não sei a designação oficial) de trânsito, onde encetei o seguinte diálogo, o cerne da questão que me leva a partilha-lo com todos os que se dignem a ler este bonito post :


GM (eu) – Bom dia, gostaria, se possível que me esclareça algumas dúvidas sobre o transporte de crianças.
Sr. PSP – Sim… diga.
GM – Bem, eu gostaria que me explicasse os requisitos para o transporte de crianças em carrinhas de 9 lugares.
Sr. PSP – Epá, você tem que ver a legislação! Se for eu a dizer-lhe tenho que a consultar, e tenho outras coisas a fazer!
Lá expliquei que era professor, que tinha que transportar crianças, que a legislação era um pouco ambígua em certas coisas…
Sr. PSP – Bem, você devia ir ao IMTT, antiga DGV, porque eles lá é que sabem disso, é de lá é que agente sabe as normas, aqui não temos essa informação bem sabida para lhe explicar.
(Esquadra de Trânsito!!!!!!!!)
Sr. Psp – ou então se não lhe der jeito, passe cá à tarde que está cá o chefe (qualquer coisa) que ele é que gosta dessas coisas de legislação e tem aí um granda calhamaço com isso tudo, ele é que é capaz de o esclarecer.


Fico a pensar, ainda bem que pagamos impostos, que se dá formação às forças de segurança, que se previne antes de autuar, que se pensa na segurança de quem se transporta, que se esclarecem os cidadãos que querem ser cumpridores e que temos profissionais de polícia competentes!
E perante tal, apenas consegui responder:


GM - Então, boa tarde e obrigado!

quinta-feira, janeiro 14, 2010

O sentimento de ser... Corto Maltese

Só na minha imaginação e na minha sombra... posso "pretender" (no sentido do inglês) ser o Corto. Tenho pouco de marinheiro apátrida e a minha mãe não é cigana nem nunca predisse o futuro, mas a minha sombra, naquele dia ventoso, fez com que eu me sentisse um pouco como a personagem de Pratt. Pude caminhar e deixar as minhas pisadas pouco filosóficas como o Corto deixou na banda desenhada...
Qualquer dia encontro o Rasputine aqui no Samarcanda...
mas quem gostava de encontrar num desses dias, em que a minha sombra se assemelha a quem eu quiser, era o meu amigo Jack London.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

A minha alma...

O Sá-Carneiro poeta dizia que quando morresse queria que "batessem em latas, rompessem ao berros e aos pinotes, fizessem estalar no ar chicotes" e por fim, mesmo no fim, lá queria ele ir de burro, porque a um morto nada se recusa e ele à força queria ir de Burro... este animal, se o levou, é digno de letra grande.
Já o Sá-Carneiro político foi de avião para o "outro bairro", fazendo escala em Camarate.
Já eu, que sei que não vou ficar aqui para sempre, apenas sei que não quero ser mais um peso para a saúde pública num ataúde de madeira que nem para fazer tijolo serve... também não quero pagar hipoteca para ter uma campa (há quem diga que é bom, sempre a podemos deixar também na herança aos nossos descendentes...), mas acho que já chega o compromisso com a banca que tenho.
Perto da capela que o Afonso Lopes Vieira doou a S. Pedro de Moel, lá está este azulejo, despercebido num cantinho que diz "pstt" a quem quer chamar. Já me chamou várias vezes e perguntou-me:
- De quem é a tua alma e o teu corpo?
Deixei-o falar e não lhe respondi. Apenas fitei o atlântico e fui snifar água do mar. Já não podia com tanto ranho.

Português

Pequeños Placeres

sexta-feira, janeiro 08, 2010

A mercearia do bairro


A mercearia do bairro nunca está vazia. Ouvi dizer que não há nenhuma mercearia que nunca tenha fiado, nem que seja um pouco de conversa. E é bem bom, juntamente com o pão fatiado, a azeitoninha retalhada temperarinha à moda do vendedor, o chouriço e uma alface qualquer, com duas ou três folhas murchas. As mercearias de bairro ainda são o que têm de ser, um porto de abrigo do furação Belmiro, nascido na frente tropical da globalização.

Quero lá saber do comércio tradicional, eu quero é poder comprar o meu fiambre às fatias a um ser humano que não esteja assepticamente e corporativamente vedado ao contacto humano com aqueles que lhe entram porta adentro

- Ponha mais 100 gramas, se faz favor. Então o que é que me diz do Benfica de Jesus?

de touca mal-humorada e mal-paga, que nenhuma bata de auto-motivação, nem “personal motivators”, sintetizarão obrigação, necessidade e brio profissional.

- Já agora, dê-me mais um garrafão de água. Sabe que ontem, disseram-me, que houve porrada no Lidl por causa da falta de água? Estes gajos da câmara outra vez com a história do alumínio…

Conversa de circunstância? Falar do tempo? Desde quando é que isso é algo menor? O que é a vida senão uma cordilheira de circuntâncias?

- Ai, que já não sou nenhum intelectual digno da sociedade de doutores da mula ruça… Tempo, só mesmo o perdido com Proust… Pó c…

Existe mais filosofia no prosaísmo das gentes da minha rua do que nas estantes da antiga biblioteca de Alexandria. Existe mais emoção no

- Eu já andava maluco, qualquer dia matava o gajo… pior vizinho que aquilo não há de certeza!

que em vários romances, novelas, ou best-sellers que vão directos para o Bookcrossing, para a estante ou para a feira da ladra.

Há mais auto-ajuda em ser um mais na profunda cumplicidade do uso respeitoso da 3ª pessoa (sim sou espanhol de coração, mas adoro o som de um “você” sincero, insubmisso, gregário) que nos tête-à-tête do Deepak “Chupa”, ou o raio que os ajude. No respeito comum do dia-a-dia autêntico do macrocosmos da mercearia de bairro.

Hoje fui ao supermercado, enchi a cesta como num filme de série B, consumista, como nos têm obrigado a ser. Hoje fui à mercearia do bairro, não comprei nada. Do outro lado

- Então Luís, que tal vai isso?

(Porque é que quando era criança o meu nome não soava da mesma maneira que hoje?)

Senti-me humano e levei a cesta cheia de outras coisas.

Foto:Miguel Tnent

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Como é que morre a nossa infância?

Há momentos morreu a avó do Carlos. O meu amigalhaço dos bombeiros, das tardes infinitas no Bairro da Senhora da Saúde após as manhãs na nº7 do Bairro da Caixa.
A nossa infância morre ou fragmenta-se, tal qual os buracos onde jogávamos ao berlinde junto aos carris ferrugentos? Sei lá. Onde é que estacionámos a carrinha dos Soldados da Fortuna? Lembras-te? Mais ferrugem… e do tractor que me ensinaste a conduzir com o cu sentado na chapa quente do Verão, já não me lembro se era um John Deer. E as pupias amigo? De certeza que vais te lembrar das pupias. Eu nem sequer sabia que existia um biscoito assim chamado, como também não voltaremos a escrever uma carta de amor em conjunto sem saber ainda escrever. O perfume Denim do teu avô na carta… como é que poderíamos engatar a Ana Margarida Albano? Só aqueles dois azelhas…
Mas se há coisas que não esquecerei será um sotaque das beiras a mandar-nos fazer os TPC ou a pensar que o Fernando estava a estudar quando, no meio do livro de ciências, estava uma bd de super-heróis.
Hoje estou triste. Triste por ti amigalhaço dos bombeiros, pela nossa infância que enferruja com a velha linha da CP, pela pessoa que perdeste.
Como é que morre a nossa infância? Será aos pedacinhos, como o papel? Oxidada como os carris? Afundada como a bicicleta do Pica no Xarrama? Foda-se, não sei. Apenas sinto um “Montinho de Ferro” de recordações que estão à flor da pele…
Amigo, que a tua avó descanse em paz. E obrigado por ter feito parte desta nossa infância que, morrendo ou não, ainda me vai servindo de consolo…

quarta-feira, janeiro 06, 2010

O “Camiño” esquecido e que podemos revisitar.


Para além das polémicas típicas de se estamos, ou não, no início ou no final de uma década, no ano que agora começa, todos os caminhos vão dar ao noroeste da península ibérica, a Santiago de Compostela, nessa região tão peculiar e familiar a Portugal, a Galiza.

Trata-se da comemoração do segundo “ano santo” do século XXI, denominado “Xacobeo”. Celebrado desde a época medieval, coincidindo o dia 25 de Julho (dia dedicado ao apóstolo S. Tiago) com um domingo, esta efeméride religiosa ibérica começou no passado dia 31 de Dezembro de 2009 e terminará exactamente um ano depois, no último dia de 2010.

Até aqui nada de novo, nada que não seja do conhecimento geral dos portugueses que gostam de estar atentos ao que os rodeia, principalmente o que está, já ali, do outro lado da fronteira.

É evidente que o governo autonómico da “Xunta de Galicia” aproveita o “Xacobeo” para potenciar um projecto que vai muito além do domínio religioso, divulgando a Galiza mundialmente, aproveitando o seu passado histórico e cultural, tornando-o contemporâneo, pertinente e identitário na actualidade. Como é que isso é possível? A explicação é simples e não é exclusiva desta região a norte do rio Minho.

Com o declínio da indústria pesqueira, a partir dos anos 60 do século passado, tornou-se evidente que um povo, uma região, pode encontrar algumas respostas para o presente no seu passado, no seu património, daí que, desde então, tenhamos assistido a uma revitalização do caminho de Santiago em todas as suas componentes naturais, paisagísticas e culturais.

Inerente ao “camiño” encontramos inúmeros aspectos de índole religiosa e culturais que o tornaram Património Intangível da Humanidade reconhecido pela UNESCO, tal como uma rede de caminhos de peregrinação única que une a Europa ao túmulo do apóstolo Santiago desde a sua pretensa descoberta no século IX por Pelayo. Em 2004, esta importantíssima rota de difusão cultural, artística, religiosa e de vivências, recebe o Prémio da Concórdia – Príncipe das Astúrias.

Os três primeiros séculos do segundo milénio, tal como os monarcas Alfonso VI e Sancho Ramírez de Castela e Leão e Aragão e Navarra respectivamente, foram marcantes na cultura Xacobea, trilhando caminhos por onde não existiam, erguendo pontes sobre rios, construindo locais de culto, reduzindo impostos ou criando “hospitais”, não como hoje os concebemos, mas no sentido do albergue que apoia os peregrinos. O “camiño” ajudou a consolidar regiões, a potenciar estruturas sociais e económicas e a promover o fluxo de gente de inúmeros pontos da Europa cristã, ainda assente numa sociedade feudal e medieval que culminaria com o grande cisma do ocidente e, mais tarde, com a reforma protestante.

Actualmente são reconhecidos oito rotas que culminam na Praça do Obradoiro em Santiago. O Caminho Francês (sem dúvida o mais popular, celebrizado na cultura popular por Paulo Coelho no seu “Diário de um Mago”), o Caminho Primitivo, o Caminho do Norte, o Caminho Aragonês, o Caminho Basco, o Caminho Sanabrês, o Caminho da Rota da Prata, sendo este último paralelo ao nosso Caminho Português, que a sul do Douro é praticamente desconhecido, subvalorizado e subexplorado.

As peregrinações portuguesas sempre foram fundamentais na tradição Xacobea, existindo um fluxo considerável de peregrinos desde o início deste fenómeno, no entanto foi a partir do século XXII que as mesmas se intensificaram. Não é de estranhar que São Tiago tenha sido padroeiro do “recém-nascido” Portugal, tendo sido apenas mudado por influência inglesa (para São Jorge) porque não convinha a portugueses e castelhanos em plena peleja invocarem um santo padroeiro comum.

O caminho está “tatuado” na Península, sendo um legado que une os povos de uma Ibéria submersa em nacionalismos e diversidade linguística que lhes confere a autenticidade e do qual Portugal não se deve excluir.

Tendo em conta esta tradição secular inegável, repleta de imaginários de vários tipos que não se esgotam no domínio religioso, um grupo de amigos do “Camiño de Santiago”, oriundos da cidade de Évora, decidiu empreender a tarefa de marcar condignamente, na paisagem eborense, a passagem oficial do “camiño”. Esta iniciativa segue o exemplo de alguns cidadãos da vizinha Extremadura, nomeadamente, e também património da UNESCO, Cáceres, que, reconhecendo a importância da “ruta de la plata” no seu dinamismo turístico e cultural, colocou estrategicamente várias “vieiras” (as típicas conchas de Santiago, diria mesmo, uma “marca registada” da história do peregrinar ocidental) pelas ruas da cidade que indicam o caminho até Santiago.

Este grupo eborense, apoiado por diversas instituições e entidades, como a Caixa de Badajoz e a Associação Juvenil 4ª Dimensão, reconhece esta lacuna em Évora, um eixo fundamental a sul na rota do caminho português, e está a tentar, com os meios ao seu alcance, tornar evidente a qualquer um que visite esta cidade alentejana que o “Camiño” passa por aqui, que a cidade faz parte da sua história e o vê como uma mais-valia para a sua identidade como espaço de cultura, história e tradição.

Esta plataforma informal de eborenses espera sensibilizar mais instituições e cidadãos para que, sem nenhum tipo de preconceitos, se possa revitalizar um pouco da história comum à península e porque não trilhar novos caminhos em caminhos já esquecidos?

Curioso é o facto de Alpalhão, freguesia do concelho de Nisa com cerca de 1200 habitantes, que também faz parte deste caminho já ter dado conta que fazer parte deste património intangível a ajuda a manter-se no mapa e não é de estranhar encontrar sinalização que nos recorda essa facto. O que é que Évora tem a perder? Nada. Mas como diz António Machado, “Caminante no hay camino, se hace el camino al andar”, e espero que Évora caminhe por vários caminhos, se abra ao exterior e que não se resuma à ecopista…