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domingo, fevereiro 22, 2026

Amadeo e Lucie de Sousa Cardoso

 



Amadeo e Lucie no Tibidabo (Barcelona, Espanha). Data de produção das fotografias: 1914.



Fotografia elaborada na Casa Alvão a partir de uma fotografia de grupo de 1910.
Fotógrafo: Casa Alvão (Porto, Portugal)
Data de produção da fotografia: 1912.

Biblioteca de Arte. Fundação Calouste Gulbenkian




sexta-feira, janeiro 16, 2026

Presentación/Apresentação revista "1Reino Maravil(h)oso", 22 de enero/janeiro, 20:00h

Tuve la suerte de llegar a este Reino Maravilloso, que es el IES Reino Aftasí, y de poder integrarme activamente en un proyecto educativo cuyo patrimonio inmaterial se concreta en múltiples formas y gestos. Uno de ellos es esta revista educativa, 1Reino Maravil(h)oso, que honra las "sendas" que hicieron posible su existencia y que aspira a ser un verdadero lugar en el mundo: un espacio de encuentro entre España y Portugal (y la lusofonia), entre las artes, la educación y todo aquello que nos hace humanos y, por ello mismo, digno de una enseñanza pública de todos y para todos.

Os invitamos a asistir a la presentación de la revista, el 22 de enero, a las 20:00 horas, en El Hospital – Centro Vivo de Badajoz.

Tive a sorte de chegar a este Reino Maravilloso, que é o IES Reino Aftasí, e de poder integrar activamente num projeto educativo cujo património imaterial se concretiza em múltiplas formas e gestos. Um deles é esta revista educativa, 1Reino Maravil(h)oso, que honra as "sendas" que tornaram possível a sua existência e que aspira a ser um verdadeiro lugar no mundo: um espaço de encontro entre Espanha e Portugal (e a lusofonia), entre as artes, a educação e tudo aquilo que nos torna humanos e, por isso mesmo, digno de um ensino público de todos e para todos.

Convidamo-vos a assistir ao lançamento da revista, no dia 22 de janeiro, às 20h, no El Hospital – Centro Vivo de Badajoz.


terça-feira, novembro 04, 2025

Amadeo de Souza-Cardoso e Ramón Casas

 

Amadeo de Souza-Cardoso (1887 - 1918) - Amadeo e Manuel Laranjeiro, 1906


Ramón Casas (1866 - 1932) - Ramon Casas i Pere Romeu en un tàndem, 1897




sábado, abril 12, 2025

"Apanhar Fresco" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 167, p. 82

Já tem um par de meses, mas esta crónica “Apanhar Fresco” continua essencialmente actual. Não louva um presente que, convenhamos, deixa muito a desejar, mas não o troca por esses “jardins do éden do antigamente”, esses do “no meu tempo é que era”... Bom fim-de-semana e boa páscoa!

Ya tiene un par de meses, pero esta crónica “Tomar el fresco” sigue siendo esencialmente actual. No alaba un presente que, hay que reconocer, deja mucho que desear, pero tampoco lo cambia por esos "jardines del Edén de antaño", esos del "en mis tiempos sí que era"... ¡Buen fin de semana y feliz Pascua!"

"Apanhar Fresco" - Crónica de Luis Leal in “Mais Alentejo”, nº 167, p. 82

"Apanhar Fresco" - Crónica de Luis Leal en "Trabalhos&Paixões" (Mais Alentejo)

    Fruto de constantemente pensar em opções baratas de ócio numa latitude que teima em ser escaldante boa parte do ano, deparo-me com a necessidade de arrefecer a minha existência de diversas maneiras. Até me vou safando com uma piscina “made in China” à sombra duma azinheira (um privilégio, verdade, porém distante do glamour do “resort”), com o AC dia e noite quando as janelas abertas não refrescam canículas, à mangueirada num ângulo sem desperdício para regar, e recorrendo ao passeio dos tristes, isto é, com o tédio a superar os 40º, a levar-me ao centro comercial em estado de ebulição para passear e consumir o que quase nunca me faz falta. Foi aí, acompanhado por centenas como eu, ávidos de temperaturas aptas à qualidade de vida, constatadas em tempo real no “smartphone”, que me lembrei como se apanhava fresco quando era gaiato. 
    Apesar do calor eborense apertar, a minha infância não conheceu urgências climáticas, nem catedrais comerciais com o ar condicionado de hoje em dia. A gente desenrascava-se, depois de jantar, com um passeio pelo bairro em vestido e em camisolas de alças viris, que me ficaram na memória “à Jake LaMotta”, e, se havia oportunidade, ou qualquer coisa interessasse, até se podia ir lá “acima”, à cidade, com uma indumentária menos informal, mas igual de ligeira. Esta era a parte activa, da qual me considero fiel depositário, contudo a que mais me marcou foi a passividade do “apanhar fresco” alentejano, herdado mundo animal, em que da pedra ao ar livre se evoluiu para a cadeira de praia ou de campismo. Atesouro duas formas de apanhar fresco, a primeira à maneira dos meus avós, em comunidade, à entrada do pátio, onde os moradores desfrutavam da redução nocturna da temperatura a falarem do trabalho, do futebol, narravam histórias, o que quer que fosse, até mesmo as bisbilhotices claramente mais humanas cara a cara do que num ecrã (em Espanha, “tomar la fresca”, era muito semelhante, com a diferença de até levarem para a rua mesas e se jantar debaixo das estrelas). A outra forma, mais solitária e silenciosa, associo-a ao meu tio Manuel Leal, depois da dureza do labor do campo, estendido no granito anti-inflamatório a relaxar o corpo cansado cuja genética aprecio ao olhar-me ao espelho. Nunca lhe perguntei, mas imagino que essas noites lhe tenham permitido ver inúmeras estrelas fugazes…
    Permita-se-me o lugar comum de, desde a magnitude do cosmos, recordar as nossas vidas como efémeros clarões no tempo. Talvez devido a esse brilho, mais ou menos intenso, e a essa noção de fugacidade, o ser humano tenha desenvolvido sentimentos provocados pela lembrança de alegrias passadas tão difíceis de definir no presente. Se existe nesta crónica alguma nostalgia (ou saudade para honrar a língua portuguesa) encontra-se apenas na ausência de algumas pessoas, numa certa lentidão da época, necessária à contemplação e à contemporaneidade, e num resto de temperança climática que me permitiu conhecer as quatro estações. Nada mais. Por actual que pareça, a ideia do passado haver sido genericamente melhor do que o presente é algo que sempre nos acompanhou. A meu ver, até me parece natural, ao pôr em paralelo o nosso declínio com o transcorrer da história. O que me parece artificial é tudo o que descontextualiza o tempo e acontecimentos anteriores, revisionismos de qualquer tipo que são o porquê de ter tanta dificuldade em retocar o que fui há anos atrás, sobrepondo-se o medo de trair o meu alter-ego mais novo e negar-lhe a fé (ou a decepção) de ter (ou não) evoluído. 
    Claro, o meu caríssimo leitor já anteviu que não louvo um presente que, convenhamos, deixa muito a desejar, apenas constato o discurso de “no tempo da outra senhora”, ou “no meu tempo é que era”, ter uma carga emotiva afastada da realidade empírica que, como diz o amigo Sérgio, com a fragilidade da paz, do pão, da habitação, da saúde e da educação, é preferível a esses jardins do éden do antigamente, no qual o oportunismo do homem subjuga a mulher, ao ponto de a culpar de um pecado mais ridículo do que original. Por mais aprazível que tenha sido apanhar o fresco, e o actual estar bastante saturado, tenho a certeza de o ar de então não ser o de um paraíso perdido… Refresquemo-nos, principalmente, as ideias. 

Paco Roca, viñetas de "Tomar la fresca", in "Regreso al Edén", Astiberri, Bilbao, 2021, p. 42.




quarta-feira, dezembro 18, 2024

Entrevista ao autor Luis Leal no "PaskimPod" da ESGP

Isto não foi uma entrevista, mas sim um agradável diálogo com o Manuel Correia Dias, professor de literatura e responsável do jornal educativo "Paskim" e do respectivo podcast "PaskimPod" da ESGP. Um enorme prazer que aqui partilho com quem o quiser ver/ouvir. Aquele abraço!

Esto no fue una entrevista, sino un agradable diálogo con Manuel Correia Dias, profesor de literatura y responsable del periódico educativo "Paskim" y del respectivo podcast "PaskimPod" de la ESGP. Un enorme placer que comparto aquí con quien quiera verlo/escucharlo. "Aquele abraço!"



Luis Leal na ESGP de Évora, 16/XII/2024


domingo, fevereiro 18, 2024

“O Nosso Capitão” - Luis Leal (versão em português do original “Nuestro Capitán”, publicado em Rayanos Magazine)

“O Nosso Capitão” - Luis Leal (versão em português do original “Nuestro Capitán”, publicado em Rayanos Magazine)

    A madrugada recordava Abril, mas foi no primeiro dia de Julho de 1944, quando a cidade raiana de Castelo de Vide viu nascer o nosso Capitão. Filho de um trabalhador ferroviário, desde sempre soube que a vida dura e difícil percorria, como os comboios, Portugal de norte a sul.
    Conheceu a tristeza demasiado cedo e, apesar dos seus olhos limpos e claros, nunca foi capaz de a esconder totalmente do seu olhar. Talvez tenha sido o destino que o levou a Lisboa para os dois momentos fundamentais da sua vida, sendo o primeiro a morte da sua mãe, atropelada por um autocarro. A partir desse momento, não quis regressar à capital. O sonho de qualquer criança de quatro anos de visitar o Jardim Zoológico tornou-se uma lembrança de lágrimas.
    Cresceu forte e sem gostar de futebol. Gostava de ler e falar sobre coisas de história e guerra, que, num futuro próximo, já como militar, conheceria em primeira mão. Ao contrário das outras crianças, ele, numa idade tão precoce, já sabia o que queria ser quando crescesse e isso refletia-se na forma como usava o cabelo bastante curto, “à escovinha”. De espírito nobre, odiava os rufiões e, com a medalha de ouro do retrato da sua mãe, que nunca tirou do peito, desenvolveu uma coragem admirada pelos outros rapazes, tornando-se um homem de ideias firmes e claras.
    Acreditando na justiça, e numa ideia de pátria aprendida na escola primária, ingressou na academia militar. Nunca esqueceu as suas origens, a ferrovia do seu pai e as serranias da sua terra. Portugal estava em guerra na época. Lutava para manter as riquezas das suas colónias, mas na metrópole havia pobreza disfarçada de honesta escassez.
    O nosso Capitão aprendeu a fazer guerra, porém o seu coração só desejava a paz. Da guerra sabia tudo, ou quase tudo. Certamente, em tempos passados, teria sido um cavaleiro, com o seu corcel. Mas a cavalaria moderna não usa cavalos de carne e osso, usa cavalos de metal, enormes tanques que cospem fogo, arrasando muralhas e castelos. Partiu para África para defender os interesses do seu país na chamada Guerra Colonial Portuguesa. Primeiro em Moçambique e depois na Guiné-Bissau. Cumpriu o seu dever, mas a sua consciência repreendia-o, incitando-o a desobedecer às suas ordens. Não via qualquer justiça em lutar nessa guerra, onde o facto de os seus camaradas matarem ou morrerem não importava aos políticos e generais a viverem numa opulência nada honrosa quando comparada com a escassez no resto do país. O militar, que outrora acreditara na grandeza histórica do seu país, regressou a casa certo de duas coisas: que o mandariam novamente para matar ou morrer nessa guerra sem sentido e que há momentos em que a única solução é desobedecer.
    Encontrou o amor nos braços de Natércia e mudou-se para Santarém, para a Escola Prática de Cavalaria, onde instruiu os seus homens com a firmeza de carácter que herdara do pai. Um filho da ferrovia sabe que não se pode chegar atrasado quando o dever chama, e o nosso Capitão sabia que o seu destino o levaria novamente a Lisboa, para enfrentar o seu passado e lutar pela alegria dos seus olhos e do seu país.
    Na parada do quartel, reuniu os seus soldados, futura carne para canhão que conheceria o horror de África se ele e outros capitães como ele não lhes tivessem falado com a verdade que deve reger o bom militar, aquele que sabe que as ideias mais nobres sempre foram protegidas pelos guerreiros. Com o seu uniforme de manobras e o lenço do seu amor no bolso, o nosso Capitão dirigiu-se aos seus soldados com a segurança de um líder que prescinde do protagonismo pelo bem comum.
    “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!”.
    E uma multidão de jovens, filhos do povo humilde e trabalhador, para quem a vida militar era bastante mais suave do que a fome do campo ou o calor da fábrica, formou uma coluna militar em direção à capital de um país que, há anos, não ouvia a voz da imensa maioria dos seus filhos. Só foram detidos por um semáforo vermelho, um sinal de que a segurança da vida humana é fundamental para que exista liberdade.
    O nosso Capitão foi treinado para obedecer, para ser leal e disciplinado, mas naquela madrugada de 25 de abril de 1974, o seu compromisso foi com a mudança, com o respeito pela vida dos seus pais, o futuro da sua esposa e filhos num Portugal livre para ser e sonhar.
    A ação militar, iniciada na Rádio Renascença com a canção de José Afonso, “Grândola Vila-Morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade", foi decidida no Terreiro do Paço, onde estavam as forças leais ao regime, e no Largo do Carmo, onde o presidente do governo, Marcello Caetano, estava refugiado. Em ambas as situações, o nosso Capitão foi firme e cauteloso. Conhecia demasiado bem a guerra e queria evitar, a todo custo, o confronto militar. Por conhecer o pensamento e a ação dos seus pares, levava uma granada escondida no bolso. Se fosse necessário, teria a coragem de entregar a sua vida para que não houvesse mais guerra e o futuro o conhecesse como mártir da revolução.
    No entanto, a Primavera já tinha chegado ao Abril mais precioso da história da humanidade. Lisboa, e simultaneamente todo o país, quis apoiar a iniciativa desses militares, soldados, cabos, sargentos, tenentes, que desafiaram o poder, enfrentando a ditadura, dizendo: “Somos todos nós. Todos somos capitães”.
    Portugal floresceu com as cores dos cravos, e o Capitão não chorou de tristeza como quando era uma criança de quatro anos. Oordeu os lábios, quase sentindo o sabor do próprio sangue, e o seu olhar claro, ligeiramente húmido, testemunhou como a rua gritava liberdade após mais de quarenta anos silenciada.
Cumpriu a obrigação de escoltar Marcello Caetano até o aeroporto, até ao interior de um avião que levaria o ex-presidente do governo para o exílio. Este despediu-se do nosso Capitão agradecendo a dignidade e o respeito com os quais o militar o tratara durante o golpe de Estado.
    Enquanto Portugal abria as prisões políticas e se abria ao mundo em liberdade, o nosso Capitão só queria voltar para casa, para junto da sua esposa e da sua terra, na raia, onde o seu pai se encontrava bastante preocupado por não ter notícias suas. Voltou.
    Por sua vontade, não quis distinções nem cargos nesse novo Portugal. Também não eram necessárias celebrações ou ovações. A sua consciência tinha recuperado a paz, e para ele isso não era sinónimo de heroicidade, era apenas o seu dever.
    Abril continuou a ser celebrado, e o nosso Capitão continuou a lutar como todos aqueles que foram protagonistas anónimos da Revolução dos Cravos. Atos de coragem como o dele jamais são perdoados pelos medíocres, essa é a realidade. O seu olhar deixou para trás a tristeza da criança que perdera a mãe ou a emoção do militar que daria a vida pelo que acreditava ser o correto. O seu olhar não apenas se tornou símbolo da pureza de um ideal, mas também de toda a história de Portugal.
    Nem os poetas são fiéis à palavra como o nosso Capitão foi à sua conduta. Trouxe-nos Abril e Abril levou-o. Foi a 3 de abril de 1992 que regressou à terra onde nasceu, Castelo de Vide. Ali, os seus despediram-se de Fernando e honraram o seu desejo de ser sepultado numa campa rasa ao som de “Grândola Vila Morena”. Não é apenas para nós, raianos, que é o conquistador do sonho inconquistado. O Nosso Capitão Salgueiro Maia, esse herói que não quis integrar-se, é como a raia que o viu nascer, incómodo para todo o tipo de poder, invisível até, porém é património da Liberdade... e da Humanidade.

Fontes:
MAIA, Salgueiro, Capitão de Abril, Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Editorial Notícias, Lisboa, 1994.
DUARTE, António de Sousa, Salgueiro Maia, Um Homem da Liberdade, Âncora Editora, Lisboa, 1999.
LETRIA, José Jorge, Salgueiro Maia, O Homem do Tanque da Liberdade, Terramar, Lisboa, 2004.




terça-feira, fevereiro 06, 2024

X Premio Hispano-Portugués de Poesía Joven Ángel Campos Pámpano, “libre y habitando la sustancia del tiempo”

Han pasado varios años, sin embargo, la verdad es que un bastión de inspiración peninsular, mucho más allá de la raíz rayana, sigue “deletreando su nombre”, pero, lamentablemente, “sin verlo”. Cinco letras. Ángel, como lo nombran aquellos que disfrutaron de su presencia, y al cual siempre asocio con los apellidos Campos Pámpano.

Quienes están familiarizados con parte del trabajo que he desarrollado a lo largo de los años saben que Ángel Campos Pámpano es para mí un referente, puesto que este profesor, poeta y traductor sanvicenteño, con tanta dedicación enseñó y difundió la poesía portuguesa y española en ambos lados de la frontera. Admiro la obra y el legado de este hombre, y “deletrear su nombre” es una forma de aliento que trasciende horizontes líricos y me incita a querer, dentro de lo que soy y vivo, recorrer caminos análogos tanto en el ámbito del arte como en el de la ciudadanía.

Por lo tanto, me enorgullece ver el “Premio Hispano-Portugués de Poesía Joven Ángel Campos Pámpano” celebrar su décimo aniversario y, siguiendo la herencia de Ángel, seguir uniendo a Portugal y España a través de lo mejor que ambas naciones tienen, su juventud. Casualmente, en el año en que se celebra el quincuagésimo aniversario de esa madrugada esperada, de ese “Día inicial entero y limpio / Donde emergimos de la noche y del silencio / Y libres habitamos la sustancia del tiempo”, que fue la Revolución de los Claveles y que Ángel Campos vertió al español a través de la esencia de Sophia de Mello Breyner, cuya obra tradujo junto a otros rostros de la literatura portuguesa como Fernando Pessoa, António Ramos Rosa, Al Berto, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade o José Saramago.

Iniciativas como estas seguirán “emergiendo de la noche y del silencio” en épocas complejas y, gracias a algunos que se atreven a resistir (especialmente la Asociación Cultural “Vicente Rollano” de San Vicente de Alcántara), cualquier tradición poética no se desvirtuará en la vorágine, en la deshumanización de la técnica o en el conveniente olvido. “Siempre hay un refugio”. Los verdaderos poetas lo saben. Ángel lo sabía.

Nosotros, los que estamos aquí, a uno y otro lado de la frontera, tal vez podamos ser coadyuvantes, estimulando a jóvenes de entre 14 y 18 años que estén estudiando en la Educación Secundaria en escuelas de la Comunidad Autónoma de Extremadura, del Alentejo y Centro de Portugal, a presentar un poema o conjunto de poemas, en español o portugués, de forma y temática libres, hasta el 7 de abril de 2024. Los premios, detallados en las bases del concurso, podrían ser un estímulo para la juventud, un refuerzo para creer en la importancia de la palabra, en su fuerza. La poesía no tiene por qué ser una debilidad o un arma, es, como muchas otras manifestaciones de nuestra condición humana, una manera de no desesperar, de no caer en el odio, en la exaltación, pero, sobre todo, de no caer en la resignación.


Ángel Campos Pámpano







domingo, novembro 12, 2023

José Antonio Santiago en el podcast "Entre 2 T(i)erras" de Luis Leal

Desde ayer tenéis disponible la entrevista al filósofo y escritor José Antonio Santiago en el podcast "Entre 2 T(i)erras". La complicidad entre ambos es innegable, tal como mi intención de compartirla con quien la quiera escuchar. 

Desde ontem que têm disponível a entrevista ao filósofo e escritor José Antonio Santiago no podcast "Entre 2 T(i)erras". A cumplicidade entre ambos é inegável, tal como a minha intenção de a partilhar com quem a quiser ouvir.

(Disponible en Google Podcast, SoundCloud y Spotify)


https://podcasters.spotify.com/pod/show/luis-leal75/episodes/Entrevista-Jos-Antonio-Santiago-e2bi9ph

domingo, outubro 22, 2023

"O Cronista apresenta-se" (Episódio 1 do podcast "Entre 2 T (i)erras" de Luis Leal, em português)

Depois da primeira entrevista do Podcast "Entre 2 T(i)erras", eis o episódio 1 "O Cronista (ou Podcaster) apresenta-se" em língua portuguesa. Em breve, voltarei em espanhol. Ouça e ajude-me a manter vivo este espaço onde através da voz vamos partilhando a palavra... 
Después de la primera entrevista del podcast "Entre 2 T(i)erras", aquí está el episodio 1 "El Cronista (o Podcaster) se presenta" en lengua portuguesa. Pronto regresaré en español. Escuche y ayúdeme a mantener vivo este espacio donde a través de la voz compartimos la palabra...


https://podcasters.spotify.com/pod/show/luis-leal75

sexta-feira, agosto 25, 2023

“VI Prémio Internacional de Fotografia 2022 (Alentejo/Centro/Extremadura)” - Centro Unesco de Extremadura

D. José Luis Bernal selecionou “Y al oeste” de José Miguel Santiago Castelo, para encerrar o catálogo do “VI Prémio Internacional de Fotografia 2022 (Alentejo/Centro/Extremadura)” promovido pelo Centro Unesco de Extremadura e confiou-me a sua tradução. Como sempre, um prazer e uma honra poder colaborar nestas iniciativas artísticas (e transfronteiriças). 

D. José Luis Bernal seleccionó “Y al oeste” de José Miguel Santiago Castelo, para cerrar el catálogo del “VI Premio Internacional de Fotografía 2022 (Alentejo/Centro/Extremadura)” promovido por el Centro Unesco de Extremadura, confiándome su traducción. Como siempre, un placer y un honor poder colaborar en estas iniciativas artísticas (y transfronterizas).





sexta-feira, maio 27, 2022

"Recobrada Memoria – a Ángel Campos Pámpano" (idea y publicación coordinada por Carlos Medrano)

Recuerdo que, hace tiempo en San Vicente de Alcántara, D. Luis Arroyo me dijo: “Luis, a Ángel le hubiera gustado conocerte…”. Para mí fue un halago, puesto que se refería a un Luis adulto y no al chaval, casi imberbe, que se cruzó con Ángel en Badajoz años antes de que falleciera. En Recobrada Memoria – a Ángel Campos Pámpano (idea y publicación coordinada por Carlos Medrano – que estoy deseando conocer en persona –) me enorgullece honrar el legado del poeta. Casualmente, soy la única voz que se expresa en portugués. Quizás le hubiera gustado el dístico que le dediqué: Sobrevivente a semente na neve/persiste a memoria, sobrevive o homem.  

Lembro-me, há tempo em San Vicente de Alcántara, de D. Luis Arroyo ter-me dito: “Luis, o Ángel teria tido gosto em conhecer-te…”. Para mim foi um elogio, uma vez que se referia a um Luis adulto e não ao gaiato, quase imberbe, que se cruzou com o Ángel em Badajoz anos antes de falecer. Em Recobrada Memoria – a Ángel Campos Pámpano (ideia e publicação coordenada por Carlos Medrano – que estou desejando conhecer em pessoa –) tenho o orgulho de honrar o legado do poeta. Casualmente, sou a única voz a expressar-se em português. Quiçá tivesse gostado do dístico que lhe dediquei: Sobrevivente a semente na neve/persiste a memoria, sobrevive o homem 

Recobrada Memoria – a Ángel Campos Pámpano (ideia e publicação coordenada por Carlos Medrano, 2022)
Luis Leal, in Recobrada Memoria – a Ángel Campos Pámpano (2022), p.82. 

sexta-feira, maio 20, 2022

Entrevista a Luis Leal sobre "António Ferro - Ficção" (E-Primatur), 01/XII/2021

Há uns meses, ainda o meu filho era recém-nascido, fui contactado por um meio de comunicação português para responder a uma entrevista sobre a publicação de "António Ferro, Ficção" (para a qual tive a honra de elaborar a introdução). Apesar de andar com os sonos trocados, e estarmos cansadíssimos em casa devido ao novo descendente, sem hesitar respondi sim, pois os implicados na publicação da E-Primatur merecem o meu esforço e grato por se terem lembrado de mim para refletir sobre esta faceta de Ferro. Portanto, com a melhor vontade e da melhor maneira possível, cumpri com a minha palavra e respondi às perguntas colocadas, que, teoricamente, seriam publicadas nesse meio de comunicação que me contactou.
Admito que as respostas não tenham interesse editorial, admito também que outras vozes sejam mais interessantes do que a minha para falar sobre este assunto, porém, não admito é que me façam perder tempo. Digo isto após ter respondido ao solicitado sem sequer haver a decência de uma breve nota ou explicação do tipo "já não nos interessa a sua entrevista, não está dentro da nossa linha editorial". Nem menciono a consideração de um possível e-mail com um "obrigado e desculpe tê-lo feito perder o seu tempo", após as minhas infrutíferas tentativas de comunicação.
Locais, regionais, nacionais ou internacionais, todos os media (e profissionais sérios) merecem o meu respeito. Neste caso, merece um respeito proporcional à consideração que tiveram com o meu tempo e a descortesia de nem dar uma lacónica explicação.
No entanto, a entrevista está feita e publico-a aqui, no meu blog pessoal, para ficar ao escrutínio de quem tiver interesse em conhecer a obra ficcional desse intelectual, tão polémico como interessante, que foi António Ferro. Se se sentirem a perder tempo com as minhas respostas, avanço desde já as minhas desculpas, longe de mim querer ser mal-educado e roubar-vos um bem tão precioso. 

Entrevista a Luis Leal sobre "António Ferro - Ficção" (E-Primatur)
(01/XII/2021)

1. José Augusto França disse que a obra de António Ferro acrescentou ao modernismo português “uma dimensão em certa medida mundana, algo superficial e banalizadora”. José Barreto, em “Fernando Pessoa e António Ferro”, descreveu-o como um modernista menor. Na introdução às ficções, procura colocá-lo num lugar de maior destaque, dizendo que o trio Pessoa, Sá-Carneiro e Almada “sempre encontrará um denominador comum António Ferro”. Afinal, qual foi o papel de Ferro no modernismo em Portugal? E em termos literários? Tinha a qualidade do trio referido ou era de facto mediano?

Quando me refiro a António Ferro como um denominador comum a este trio de peso do Primeiro Modernismo português faço-o sem uma perspectiva de crítica literária, isto é, sem querer reivindicar comparações qualitativas entre a obra destes autores. Faço-o sim com a intenção clara de recuperar a figura de António Ferro para o conjunto de literatos vanguardistas deste período, principalmente pelo papel activo que desempenhou na promoção destes três autores, tanto dentro como fora de Portugal. Como é bem sabido, e de forma resumida, António Ferro foi “recrutado” para editor da Orpheu, por Mário de Sá-Carneiro (com o beneplácito de Pessoa), dado que ainda era menor e, portanto, inimputável. Parece-me injusto não reconhecer o interesse pessoal dos directores da revista, tal como não referir que, sem negar panegíricos, polémicas e interesses pessoais de ambas partes, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e, principalmente, Almada Negreiros beneficiaram da sua relação pessoal com António Ferro. Recorde-se, sucintamente, a publicação de Mensagem de Fernando Pessoa pelo SPN capitaneado por Ferro, que, sendo ou não do agrado do poeta dos heterónimos, é um facto, tal como menções constantes à obra de Mário de Sá-Carneiro (colega do Liceu Camões a quem António Ferro dedicou A Amadora dos Fenómenos, reeditada neste volume) podem ser encontradas em vários momentos da biografia de Ferro, e a peculiar relação com Almada Negreiros, quem mais veementemente excluiu António Ferro do movimento de Orpheu, principalmente depois da visita do “académico Marinetti” a Portugal, em 1932. É curioso comprovar como, escassos anos antes, em 1930, a relação entre Almada e Ferro apresentava contornos diferentes, sendo António Ferro visto por Almada como uma companhia que desafiava “as leis do espaço e do tempo”, algo bem grafado pelo punho e letra do polémico anti-Dantas numa carta dirigida a Ferro desde Madrid, a propósito de uma possível visita dos espanhóis Antoniorobles e José López Rubio, dois nomes bastante conotados com o legado da célebre tertúlia do Café Pombo na capital espanhola. Poder-se-ia reforçar este argumento com os trabalhos artísticos que Almada Negreiros fez para António Ferro, como a capa de A Idade do Jazzband (1923), porém, em épocas posteriores, já na génese do órgão da propaganda salazarista, basta remeter para o cartaz de propaganda à Constituição de 1933 e o selo que ilustrou o slogan do Estado Novo “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”. Há algumas perspectivas que parecem remeter unicamente para um António Ferro oportunista, carreirista, com intenções ocultas em busca de protagonismo. Não o nego, mas ao mergulharmos na história (epistolografia principalmente) constatamos que o futuro homem forte da Política do Espírito do Salazarismo não foi o único, o que é perfeitamente normal à luz das circunstâncias da época. 
Explicado este denominador comum, apesar de polemista, creio que o papel de António Ferro no Modernismo em Portugal foi sobretudo de divulgação. Na sua autopromoção, principalmente no Brasil e na vizinha Espanha, António Ferro também divulgou nomes maiores (e menores, para recorrer aos adjetivos que usou na sua pergunta) inerentes ao Modernismo português. Merece a pena estudar o périplo de Ferro pelo Brasil em 1922 e as colaborações em 1928 em La Gaceta Literaria, de Giménez Caballero, publicação madrilena na qual o português foi codirector, com Ferreira de Castro, do suplemento La Gaceta Portuguesa.  Aproveito para responder à última questão da qualidade da seguinte forma: não me parece sequer pertinente confrontar a obra literária de António Ferro a um colossal Fernando Pessoa. Quanto a Sá-Carneiro e a Almada também não me parecem adequadas comparações. Porém, não considero o percurso literário de António Ferro menor, muito menos tendo em conta como a sua figura vincula a literatura portuguesa da época ao Modernismo brasileiro ou ao “Ultraísmo” espanhol.  A título pessoal, parecem-me redundantes rótulos de maior ou menor, quer no âmbito artístico, quer no âmbito da investigação. Prefiro conceber autores centrais e periféricos e, efectivamente, António Ferro tem andado na periferia dos estudos literários. Trazê-lo para o centro do meu estudo tem sido sumamente interessante e devo dizer que tenho bastante curiosidade em aprofundar a poesia de António Ferro editada postumamente em Saudades de Mim (1957), que, segundo alguma crítica, não suscitou qualquer interesse.

2. Pessoa, Sá-Carneiro e Almada, que conheceram Ferro e com ele privaram, puseram em causa a sua adesão ao movimento modernista, que de facto nunca chegou a ser total, como mostra a sua curta associação ao “Orpheu”, do qual se afastou definitivamente após a infame carta de Álvaro de Campos à Capital. O próprio Ferro fez questão de se desvincular do modernismo e foram vários os críticos, alguns deles citados na questão anterior, que defenderam que a sua obra ficcional e poética não era suficientemente importante no contexto do movimento em Portugal. Tendo em conta tudo isto, é justo classificar Ferro como modernista e estabelecer uma ligação entre ele e o chamado primeiro modernismo português?

Creio que a resposta anterior já aborda a questão que agora me é feita. Não me parece que António Ferro se tenha querido desvincular do Modernismo com a questão do “editor irresponsável” dos dois primeiros números da Orpheu. Alfredo Guisado, o “poeta galego” como era conhecido, assumiu uma postura afim à de Ferro e tal não se deveu a unicamente pressupostos estéticos, mas também políticos. O Modernismo português não se esgota no movimento de Orpheu, nem no âmbito da literatura, e, no caso de António Ferro, podemos encontrá-lo vinculado à “Questão dos Novos” da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1921, ou à revista Contemporânea de José Pacheko, a título de exemplo. A cisão foi com os “orpheístas”, não com o Modernismo, ou Vanguardismo, como o próprio preferia denominar o movimento estético. Outra prova do que afirmo é o panfleto-manifesto Nós (1920), publicado posteriormente no nº3 da revista Klaxon (revista veicular emblemática do Modernismo brasileiro), que, apesar de haver sido renegado por um Ferro reconvertido em homem do regime, vinculam o seu percurso literário com as vanguardas literárias da época. A meu ver, negligenciar ou omitir o nome de António Ferro deste período é empobrecer a história da literatura portuguesa.

3. Ferro tem sido sucessivamente ligado ao modernista espanhol Ramon Gómez de la Serna, não só pela amizade que os unia, mas também por uma alegada influência literária. A obra “Teoria da Indiferença” tem sido descrita como pertencente ao género greguerístico, inventado por Gómez de la Serna. Na introdução, afirma que “o estudo da morfologia da greguería, a par do estudo da obra vanguardista de Ferro, permite afirmar que o autor não praticou o género”. Porquê?

Para lhe responder como gostaria, necessitaríamos abordar em profundidade o género de Gómez de la Serna, que no cânone literário espanhol assume mesmo estatuto de ismo, o “Ramonismo”, e, por antonomásia, ficou para a história da literatura universal conhecido como Ramón. Contudo, de forma resumidíssima, o género da greguería tende a esbater o ego de quem as enuncia e, normalmente, prima pela ausência de um olhar lírico expresso na primeira pessoa do singular, acabando mesmo por não necessitar sequer de sujeito de enunciação para expressar todo o seu fulgor e, da mesma maneira, possibilitar identificações alheias, por exemplo (recorrendo a uma tradução da minha autoria): “Pedais da bicicleta: máquinas de cortar o cabelo às distâncias”. É interessante constatar que, anulando o humorismo greguerístico, encontramos características semelhantes no haiku. Note-se que a própria greguería pode ser tida como um exemplo paradigmático de toda a obra de Gómez de la Serna, caracterizada por uma mundivisão humorística, mas ingénua, virgem, repleta desse pensamento mágico que associamos à primeira infância, porém, atenta à casualidade, eis o porquê de ser tão próxima do género japonês. 
Por sua vez, em António Ferro encontramos uma aparente indiferença, e um humor petulante, a isolar-se em si mesmo (em palavras do próprio “A minha indiferença isola-me. Só me conheço a mim... por isso, só me admiro a mim...”). Mediante o seu indigitamento como jovem literato português (e futuro cultor duma Política do Espírito), não se encontra propensão ao acaso fora do âmbito do culto da sua personalidade e da sua própria autoestima. Daí não poder subscrever possíveis teses de António Ferro ter praticado o género da greguería, o que não invalida ter sido um leitor (e interlocutor) privilegiado, permeável à influência estética do espanhol. A Ramón associa-se uma estética afável, comparada a “um sorvo de água fresca, vinda do poço de um homem bondoso, ingénuo e roussoniano”. Em António Ferro encontramos uma intenção de manifesto, de afirmação pessoal e artística, não encobrindo um egocentrismo quase inexistente no seu congénere espanhol. 
Portanto admito que, à simples vista, a obra de cariz aforístico de Ferro possa remeter o leitor para essa dimensão mundana, algo superficial e banalizadora que antes referiu, contudo, quando me adentrei no estudo biobibliográfico de António Ferro, tendo acesso a um espólio epistolar riquíssimo com grandes vultos da cultura do século XX, patente na Fundação António Quadros – Cultura e Pensamento, afastei-me dessa ideia que muitas vezes me parece preconcebida, tanto pelas conotações de António Ferro com o Salazarismo, como por desconhecimento.

Rámon Gomez de la Serna numa foto no seu El Ventanal, Estoril, à conversa com António Ferro. (Diário de Notícias, 1924)

4. Diz que o facto de Ferro não ter praticado a greguería “não invalida” que tenha sido “permeável à influência estética de Gómez de la Serna”. Em que é que se traduziu essa influência?

António Ferro começou a moldar o seu perfil de literato no início dos anos 20, quase em simultâneo com a sua carreira como repórter, e na sua escassa obra demonstrou ser proclive à estética do átomo, do fracionamento, que convida a reconfigurar, pelos espaços que gera e nexos implícitos a um tema subjacente, uma unidade encoberta, abrangente, polimorfa, como a que se associa ao género da greguería. O prefácio de António Ferro para a tradução de La Roja (1923) de Ramón é uma prova evidente (fortemente amparada por um epistolário de três dezenas de cartas enviadas pelo espanhol ao seu amigo português) que este foi um conhecedor privilegiado da obra de Gómez de la Serna, desde a mais minúscula greguería até às grandes monografias e novelas, nas quais o madrileno (que chegou a ser um ilustre residente do Estoril) se dedicou a desconstruir, a decompor, para depois voltar a reunir, a associar o desarticulado numa vasta collage. A greguería – género novo, estrutura quase única e paradigmática da obra ramoniana – apresentou-se a António Ferro como uma estrutura emergente e dinâmica, uma estrutura “a libertar-se”, passível de concentrar-se ou expandir-se para, de seguida, transformar-se e libertar os restantes géneros que toca. Posto tudo isto, parece-me improvável que um intelectual, com o perfil de António Ferro, ficasse indiferente a um contacto tão privilegiado com o génio de Ramón Gómez de la Serna.

5. A par de Gómez de la Serna, as influências de Ferro parecem ter sido sobretudo estrangeiras. Podemos dizer que os referentes do escritor estavam fora de Portugal e que os modernistas portugueses, a quem esteve brevemente associado e que depois criticou, não exerceram qualquer influência sobre a sua obra escrita?

Apesar de ter sido apelidado como “o Gómez de la Serna português”, tenha-se em conta que António Ferro negou publicamente, em 1928, nas páginas de La Gaceta Literaria, o magistério de Ramón, rematando o assunto de qualquer afinidade estética para a leitura atenta da obra de ambos. Segundo Ferro, quando este conheceu a obra do pai das greguerías o seu espírito já estava em marcha, já estava formado, partilhando com o espanhol apenas a época, o tempo e uma estreita camaradagem. Aproveita para recordar que Valéry Larbaud, conhecedor de ambas obras, o coloca na mesma família literária de Gómez de la Serna, mas em modalidades diferentes e, caso se assemelhasse a alguém, seria ao francês Joseph Delteil. Esta afirmação de Ferro afasta-me um pouco da perspectiva de António Rodrigues que conflui a obra de António Ferro para a estética futurista de Marinetti ou, até mesmo, para o Dadaísmo. A alusão de Joseph Delteil por parte do próprio António Ferro, a par de um confesso fascínio pelo ambiente parisino, não o perfila no ambiente Dada de Zurique. No entanto, dados os pontos de convergência entre Dadaísmo e Surrealismo no seio das vanguardas literárias, considero que António Ferro foi bastante permeável a ambos, mais do que aos seus contemporâneos modernistas em Portugal. 

6. A ficção de Ferro decorre sobretudo na cidade de Lisboa, num ambiente cosmopolita e moderno. Como é que se explica a centralidade da capital portuguesa na sua obra e a escolha de ambiente?

Perdoe-se-me a analogia, mas na obra literária de António Ferro “Lisboa é Portugal e o resto é paisagem (ou reportagem)”. Por favor, não confundamos esta faceta de António Ferro com o seu papel como Teseu da propaganda salazarista. O cosmopolitismo do jornalista com estatuto de repórter estrela do Diário de Notícias, esse “enviado-especial” da imprensa portuguesa da época, não era propício ao ambiente natural e aos elementos bucólicos. Nada melhor do que as palavras do próprio nas páginas da Ilustração Portuguesa, revista de O Século da qual foi director no início dos anos 20: “Lisboeta do Chiado, da Serra do Chiado, custou-me a habituar à serra do Gerês, custou-me a receber a intimação dos montes... Ontem, porém, lá fui, lá investi com a montanha, contrafeito, esquivo, como quem vai fazer a reportagem dum crime, como quem vai para uma repartição pública, a repartição pública da Natureza...”. Sem dúvida, a “natureza do Chiado” é a que predomina na literatura de António Ferro. 

7. Sugere que Ferro abandonou a escrita por simples desencanto e não pela sua entrada na vida política ativa. O que é que o leva a afirmar isso?

Apesar de estar ciente do perfil político e de autopromoção de António Ferro, inquestionavelmente conotado com o regime ditatorial mais longevo da história da Europa, sou capaz de admitir tal desencanto. Como também admito que me entristece ver neste presente que tal admissão possa ser vista como um atrevimento, uma ousadia de pensamento. A leitura da última novela, relativamente desconhecida e agora recuperada nesta edição, intitulada “Suicídio” (1929) publicada na revista Civilização de Ferreira de Castro (como quem codirigiu La Gaceta Portuguesa e, ao parecer, também cortou relações depois de 1933) ampara esta minha sugestão. Por mais ambição que se lhe possa associar, por mais poder (real ou simbólico) que possa ter tido, António Ferro era humano, no sentido em que se algo caracteriza o carácter humano é que não é estático, oscila entre estados de espírito, estímulos, sucessos e reveses. À luz da psicologia contemporânea, há autores que encontraram em António Ferro síndrome de “um verdadeiro workaholic”, misturado num turbilhão de cultura e criatividade, da qual se beneficiou o Estado Novo de Salazar, daí que admitir cansaço e desencanto acaba por apenas humanizar uma figura controversa que adquiriu a rigidez da história e a falta de flexibilidade de algumas mentes dogmáticas.

8. José Barreto, num texto incluído no livro “Portuguese Modernisms: Multiple Perspectives on Literature and the Visual Arts” (2011), contemplou uma outra possibilidade, a de o fim da carreira literária de Ferro se ter devido à implementação da censura, que o próprio aceitou e apoiou. Parece-lhe uma hipótese plausível? 

Muito plausível e um amplo conhecimento das várias facetas da sua vida permite equacionar e até justificar tal cenário, contudo, esse mesmo conhecimento, a par de uma análise textual da obra de António Ferro, igualmente permite contemplar a perspectiva que antes mencionei, sem cair em qualquer tipo de preconceito, seja ele de carácter estético ou ideológico.

9. A obra literária de António Ferro tem recebido pouca atenção. Considera que isso se deve exclusivamente ao papel que desempenhou no regime salazarista e à dificuldade de tratar a sua obra literária ignorando esse mesmo papel? Ou será que a pouca atenção que tem recebido tem a ver com o papel secundário que muitos consideram ter desempenhado e com a qualidade mediana dos seus textos? 

Ainda que escassa, estamos perante a obra literária do verdadeiro engenheiro do espírito de um regime ditatorial constitucionalmente instaurado, vigente desde 1933 até ao 25 de Abril de 1974, e que permite asseverar que Ferrismo é o ismo epistémico do Salazarismo. O papel que António Ferro desempenhou à frente da propaganda do Estado Novo tem uma importância superior ao seu legado como escritor e isso é evidente, contudo, estudos recentes que vinculam a sua figura a grandes nomes da literatura mundial (Ramón Gómez de la Serna é disto um exemplo paradigmático), faz com que devamos prestar mais atenção ao António Ferro literato. Se não tivesse ocorrido um incêndio na Calçada dos Caetanos nos anos 60, onde António Ferro residiu com a sua esposa Fernanda de Castro e a sua família, possivelmente, o já fecundo espólio da Fundação António Quadros – Cultura e Pensamento seria visto como outros mais mediáticos, porém com um valor documental menos relevante. Quero dizer, de volta e meia, encontrar-se-ia – como frequentemente acontece – mais um interessante documento (carta, texto, simples recorte de imprensa ou livro dedicado, etc.) e tal achado teria uma atenção pública merecida, principalmente porque o espólio da família Ferro/Castro/Quadros em Rio Maior não se cinge à literatura. Como investigador, centrado nos estudos literários ibéricos, creio que António Ferro um dos protagonistas culturais do século XX e muito ainda está por se discernir nos seus textos alheios à Política do Espírito do Estado Novo. 
António Ferro - Ficção (introdução Luis Leal), 2021, E-Primatur






segunda-feira, abril 25, 2022

Mayo de 1975: um ano depois, ainda Franco era vivo (Que inveja dos Portugueses!)




“Mayo de 1975. Agonizante dictadura española. Franco estaba vivo todavía, muerto en vida prácticamente, hasta que llegó el día 20 de noviembre de ese mismo año."


sábado, abril 02, 2022

Crónica: "Homem de Lealdades" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº159, p. 96)

"Homem de Lealdades" - Luis Leal

Ignoro se o escritor Miguel Delibes alguma vez esteve no Alentejo. Admito que sim, dado o seu amplo percurso de vida, com obra editada em português, porém, a sua biografia não o vincula a Portugal, nem sequer a outras regiões espanholas para além do seu espaço vital, o que faz deste referente das letras espanholas ser considerado um escritor com território, o de “Castilla”. Aceita-se, no entanto, a ligeira incursão na Extremadura com “Os Santos Inocentes”, adaptada à sétima arte por Mario Camus, sendo considerada um ícone cultural espanhol da segunda metade do século passado, cuja temática de desigualdade social e ambiente de latifúndio senhorial seria perfeitamente verossímil no nosso Alentejo de então (e, infelizmente, com resquícios no presente).
O apego territorial por parte de Delibes não o circunscreve aos domínios físicos, evolui pela ética e poucos podem ser tão representativos de uma “ética da fidelidade” como D. Miguel. Esta deontologia, basilar na moral do escritor, foi justificada pelo próprio ao enunciar que era “um homem de fidelidades: a uma mulher, a um jornal, a um editor, a uma cidade...”. No caso de Eugenio D’Ors, ético é evoluir e páro a refletir sobre mim mesmo, em pleno século XXI, a viver entre territórios, e o certo é que (para fugir ao intertexto delibeano e fazer jus ao meu apelido) sou um “homem de lealdades”: a uma mulher, a algumas publicações, ao nosso editor, a duas cidades...”. Quem me conhece, apesar dos artifícios de quem escreve, sabe que sou sincero e tento não perder a minha “autenticidade” quando me entrego a este ofício de verter em palavras as minhas percepções, mas, pelos vistos, as minhas “lealdades” relegam-me para o território do conservadorismo, isto é, para um armário de mofo e naftalina, onde as pressões sociais e o progressismo da moda me exiliam na gaveta da anormalidade. Afirmo isto, tendo em mente um artigo de opinião num meio de referência, intitulado “Sou conservador. Sou menos bom por isso?”, em que a autora pergunta “se serão as ideias conservadoras totalmente erradas?”, avançando uma linha argumental interessante, contudo, questionando a sociedade através da premissa única de uma acção ser de cariz conservador pelo simples facto de haver sido algo tradicional em gerações anteriores.
Eu prefiro perguntar: Sou conservador por ser fiel a uma mulher ou um homem? Sou conservador por não ter curiosidade com o “poliamor”? Sou conservador por estar casado e supor que as relações exigem perseverança mútua? Sou conservador por ter filhos e isso faz de mim membro de alguma seita? Sou conservador devido à minha matriz católica e devido à minha fé insegura e discreta? Sou conservador por estar no mesmo ramo de trabalho há quase 20 anos? Sou conservador por gostar de rotinas? Sou conservador por ver virtude na simplicidade, na frugalidade? Sou conservador por acreditar numa certa disciplina – a simples diferença entre sim e não – e querer evitar nos meus filhos maus hábitos pois, mais cedo ou mais tarde, os mesmos acabam por se tornar carácter? Sou conservador por aceitar como natural, se necessário, plantar ou tirar a vida a animais com as próprias mãos para alimento? E podia continuar a indagar, mas receio subir de categoria e passar de conservador a inquisidor. Lembro-me sim de Delibes, dessa forma exemplar, desse difícil equilíbrio entre os planos da estética e da moral. Era caçador (sem troféus como o seu tocaio Torga), daqueles que suam atrás da sua presa. E era um verdadeiro ecologista, dos primeiros “verdes” a denunciar um mundo a agonizar, porém, algo inconcebível para o purista, incapaz de admitir sensatez na atividade cinegética regulada. 
Nunca cheguei a ser um verdadeiro caçador, apesar da linhagem e das licenças. Talvez tenha progredido quando abdiquei, com pesar e alívio, da arma herdada de um passado de leais caçadores, calcorreadores de ladeiras, que nunca permitiram crueldade de gatilho. Mas, segundo os critérios da inteligência “woke”, este meu perfil nem é de menos bom (estilo Neandertal comparado com Homo Sapiens), é de Australopiteco! 
        Até me podia sentir ofendido, mas também sou racionalista e os sentimentos não são argumentos, portanto, aceito as minhas lealdades retrógradas. Contudo, professo-me um conservador-herético, dado que as heresias são contrárias aos dogmas e este progressismo em voga assume-se irrefutável, ou seja, insurjo-me perante este ismo tão pouco credível e disparatado como o meu.   

Miguel Delibes, un "hombre de fidelidades".

Crónica: "Homem de Lealdades" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº159, p. 96)

Se o facto de ser um "homem de lealdades" faz de mim um gajo conservador, então serei conservador. Se lhe juntarmos a heresia de pensar com os meus próprios neurónios, então só poderei ser um conservador herético! Enfim, se estiverem com paciência para perspectivas “canceladas” pela sensibilidade "woke", leiam-me na "Mais Alentejo" nº159, se não podem ir às bancas e encontrar já o seguinte número, com novo design e elegância reafirmada, onde podem encontrar mais uma crónica não censurada do vosso leal e, pelos vistos, conservador amigo...

Si el hecho de ser un "hombre de lealtades" me convierte en un tío conservador, entonces seré conservador. Si le añadimos la herejía de pensar con mis propias neuronas, ¡entonces sólo podré ser un conservador herético! En fin, si estáis con paciencia para perspectivas "canceladas" por la sensibilidad "woke", leedme en "Mais Alentejo" nº159, si no podéis ir a los kioscos y encontrar ya al siguiente número, con nuevo design y elegancia reafirmada, donde encontrareis una crónica más no censurada de vuestro leal y, por lo visto, conservador amigo…

Crónica: "Homem de Lealdades" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº159, p. 96)



sábado, março 26, 2022

“Fotografía en Blanco y Negro” de José Miguel Santiago Castelo

Depois da seleção criteriosa por parte de D. José Luis Bernal de “Fotografia en Blanco y Negro” da autoria de José Miguel Santiago Castelo, o patrono deste “V Prémio Internacional de Fotografia 2021 (Alentejo/Centro/Extremadura)” promovido pelo Centro Unesco de Extremadura, coube-me a tarefa de verter o mesmo para português e assim encerrar este belo catálogo. 

Después de la selección criteriosa por parte de D. José Luis Bernal de “Fotografía en Blanco y Negro” de la autoría de José Miguel Santiago Castelo, el patrono de este “V Premio Internacional de Fotografía 2021 (Alentejo/Centro/Extremadura)” promovido por el Centro Unesco de Extremadura, me tocó la tarea de verter el mismo al portugués y de esta manera encerrar este bello catálogo. 






sexta-feira, dezembro 17, 2021

Festas de Campo Maior são declaradas Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO (15/XII/2021)

Parabéns Campo Maior! Mais de um século de tradição reconhecido e inventariado pela UNESCO! “A Festa das Flores”: eis um património imaterial que não é só de Portugal, do Alentejo, mas também da rai(y)a! Amanhã falamos um pouco deste merecido reconhecimento na Cadena Ser, se vos apetecer ouvir.

¡Enhorabuena Campo Maior! ¡Más de un siglo de tradición reconocido e inventariado por la UNESCO! “La Fiesta de las Flores”: ¡aquí está un patrimonio intangible que no sólo de Portugal, del Alentejo, sino también de la ra(i)ya! Mañana hablamos un poco de este merecido reconocimiento en la Cadena Ser, por si os apetece oír.



sexta-feira, setembro 10, 2021

Crónica: "Café solo" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº157, p. 74)

Mais ainda que o sotaque (muitas vezes confundido com galego ou argentino), uma das coisas que vai delatando as minhas origens é tomar café num ritual que, em abono da verdade, conquistei já bem adulto. Uso este verbo pois acredito que os verdadeiros deleites têm de ser conquistados, necessitam uma formação prévia que, em períodos de imaturidade, é apenas desperdício. Poderia fazer uma lista de rotinas que necessitam ter o nosso espírito mais polido para poderem ascender a sublimes. Lembro-me da música clássica, do jazz, do vinho, da ensaística, do sexo, do whisky, da poesia, entre tantas, antes de me centrar nessa bebida produzida a partir dos grãos torrados do fruto do cafeeiro. 

Aos 27 anos, conquistei o carácter do café. Como T.S. Eliot também tenho medido a minha vida em colherzinhas de café, essas que, em círculos, agita possíveis borras no fundo antes de descansar no pires, depois de batida na margem da xícara, num ritual sem nada que invejar à cerimónia do chá japonês, pois, entre a amargura e o dulçor, o café igualmente nos permite contemplar a natureza da existência.  

Quando os meus amigos já o bebiam, ainda na adolescência, para favorecerem a digestão, alegrar o espírito, afastarem o sono e terem estilo (e alguns para libertarem o ventre na companhia de um cigarro), só o aroma é que me despertava os demais sentidos. As bicas, tiradas nos verões em que trabalhava para o meu tio num bar de uma piscina algarvia cheia de inglesas em biquíni, a cafeteira na lareira, muitas vezes só com cevada ou chicória a substituírem o verdadeiro café na falta de outras possibilidades, eram aromas agradáveis, porém, quando me chegavam ao paladar não eram capazes de invadir esse território pueril habituado ao “ColaCao”. 

Possivelmente só se pode valorizar a miudeza quando aprendemos a saborear o travo de termos de crescer. A doçura em excesso provoca diabetes e tende a ocultar epifanias como as que, no meu prosaísmo, costumo ter enquanto tomo, em leves sorvos, uma bica. Um olhar a perder-se pela janela, uma conversa a solucionar os dilemas do mundo, o voyeurismo do cimbalino alheio, o silêncio estimulante, o pacotinho de açúcar que levas para casa e te cita o Tolentino Mendoça: “Este instante que passa é a porta por onde entra a alegria”.

Durante o confinamento em Portugal, li algures que tomar café, isto é, praticar a religião com mais fiéis entre o povo português, se havia tornado uma atividade ilícita, sendo proibido fazê-lo em diversos estabelecimentos, à imagem dos cristãos nas catacumbas, e para se poder celebrar este rito havia que se recorrer a um código tipo “quero um bitoque”. Eu, apesar das restrições, em Espanha, fui podendo praticá-la ao postigo, algo que fiz mais por carinho ao café do bairro (“Europa”, como o da minha infância) do que por devoção à cafeína. Regra geral, e digo-o sem querer ofender ninguém, “café solo”, do outro lado da fronteira, só “con leche”! No entanto, quando assumimos esta religiosidade, aprendemos todos os truques e locais para desfrutarmos da “verdade do café”!

Escrevo esta crónica com o café bebido ao lado e, apesar do George Clooney ser o embaixador do expresso e do Malkovich ser o deus da Nespresso, sinto que o meu estilo não fica atrás do grisalho de Hollywood e, nestas coisas do café, Deus é português! Afirmo isto com a mesma segurança de um segredo de Fátima, porque, também eu, há anos, em pleno centro de Madrid, a metros do Palácio Real, tive uma visão: uma carrinha da Delta Cafés a descarregar um cheirinho familiar num pequeno bar. Não fiz mais nada, entrei no mesmo, como Ramón Gómez de la Serna entrava no Café Pombo da Calle Carretas, depois de longas temporadas em Lisboa, habituado a tomar café no Martinho da Arcada, na Brasileira, no Leão d’Ouro, no Nicola e no Montanha, e pedi, em alto e bom português, “é uma bica cheia, ó faz favor!”.

O café tem mesmo o dom de adoçar o indócil, de tornar entendível o incompreensível, e o empregado lá me serviu um “café solo” acompanhado por uma saqueta de açúcar a avisar-me do perigo de andar por aí a divagar sobre epifanias de cafeína: "É melhor estar calado e parecer parvo do que falar e esclarecer as dúvidas definitivamente". E não é que o camareiro era o Groucho Marx!

"Café solo" - Luis Leal
"O humor abre espaço à sabedoria" - José Tolentino Mendoça