segunda-feira, novembro 26, 2012

AGFA: A Grande Ferida Aberta

A guerra do ultramar dentro de uma caixa e rolo de fotografias AGFA. Na realidade, achei que este acrónimo da antiga marca alemã me remeteria para "Memórias de África", tipo Meryll Streep e o Robert Redford em romance adúltero, mas não. Isso seria através das lentes de Hollywood (que nunca tiveram interessente por um Ultramar sete vezes com maior esforço de guerra que o Vietnam), aqui apenas há umas máquinas baratas, camuflados suados, fotografias reveladas com tanto que não se quer revelar, e uns quantos camaradas de G3 na mão que de lá voltaram, ficando para sempre lá. 
Por isso, AGFA: A Grande Ferida Aberta. 

A primeira de várias fotos que quero dedicar aos combatentes do Ultramar. Não estive lá. Mas o respeito pela memória de quem lá esteve está no meu ADN.



Enrique Meneses à lupa...

Que vida tão interessante. Enrique Meneses fotografou o século XX como um caçador abate eficazmente a sua presa. Objectiva e obturador rápido, focando o essencial. Quis conhecê-lo, literalmente, à lupa através de uma reportagem que o meu bom amigo Pedro recortou do jornal "El País".
Para conhecer um pouco mais. Vale a pena. 
"Enrique Meneses (Madrid, 1929) ha sido corresponsal en Oriente Medio y la India, director del programa A toda plana de Televisión Española,  director de la edición española de Playboy, creador y director de Los Aventureros en Radio Nacional y,posteriormente fundador de “Los Aventureros”, mensual con dos ediciones, española e inglesa. Realizó la serie “Robinson en África”, para TV2, un periplo de 20.000 km, 112 días y 11 países con sus hijas Bárbara y Anne Isdabelle de 15 y 14 años, de protagonistas. Además de trabajar en Life y Paris-Match, ha colaborado en decenas de diarios y revistas.  Fue el primer reportero que ascendió a Sierra Maestra con el Ché Guevarra y Fidel Castro durante la Revolución Cubana. Ha publicado los siguientes libros: Fidel Castro (Ed. Afrodisio Aguado, 1966), Nasser, el último faraón (Prensa Española, 1970), La bruja desnuda (Ed. Alce, 1976), Seso y Sexo (Ed. Campus, 1979), Escrito en carne (Planeta 1981), Una experiencia humana… Robinson en África (Planeta, 1984), La nostalgia es un error (Planeta), José Luis de Vilallonga (Grupo Libro 88, 1993), Castro, empieza la revolución (Espasa Calpe, 1995), África, de Cairo a Cabo (Plaza & Janés, 1998) y Hasta Aquí Hemos Llegado (Ediciones del Viento, marzo 2006). Ha recibido los siguientes premios: Asociación Nacional de Informadores Gráficos de Prensa  (Anigp) 2005: Premio Liberpress 2007; Premio Bitacora, mejor blog de política 2008; Premio Miguel Gil 2009; Premio @ Asociación Prensa Digital Andalucía 2009, “Premios Bitácoras.com”2009; Premio de Honor “Cirilo Rodríguez” 2010".

sexta-feira, novembro 23, 2012

Pois e Pois pois (Alexandre O'Neill)


Lemos aqui um dia Pois pois, de Alexandre O'Neill. Faltava-nos o Pois, que estava na página anterior do livro. Porque não ler os dois de seguida?


POIS

O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.


POIS POIS

Sobre o tampo da mesa
Rabo de Cavalo cotovelo-groselha
defronta Patilhas Grisalhas cerveja-cotovelo

Falam de dominguins versus ordoñez
de hemingways na brecha na querela
do assassino mano a mano

Falam a ouro e a sangue no ruedo de mármore

Sob o tampo da mesa
três joelhos conversam roçagantes:
o dele (sarja) entre os dela (nylon).

Rabo de Cavalo está quadrada.
Patilhas Grisalhas então entra a matar.

O sobre e o sob logo se confundem.
Que prometia (olé) o cartaz dele? 



Do seu livro Entre a Cortina e a Vidraça (1972)



(A fotografia é de Carol Mulek)



quinta-feira, novembro 22, 2012

Que conhecimento da democracia - José Gil

Divórcio, entre conhecimento e democracia
“ a lentidão da «aprendizagem da democracia», segundo a expressão consagrada pelo povo português. Os progressos no campo da história, do direito, da sociologia do nosso país não tiveram equivalência na prática da democracia, repercutindo-se timidamente no conhecimento geral que o povo tem dos mecanismos do Estado em que vive. Mais: depois do surto que se seguiu ao 25 de Abril, os ânimos voltaram a uma espécie de apatia, tanto no campo político como, digamos, no da cidadania. As universidades, que vivem em círculo fechado, mas também o regime partidário, as suas práticas e os seus discursos, o «autismo» dos governos e a sua visão medíocre do futuro, a falta de imaginação e a falta de coragem políticas contribuíram largamente para que os reflexos herdados da ditadura demorassem (e demorem) a dissolver-se. Refiro-me ao medo, à passividade, à aceitação sem revolta do que o poder propõe ao povo. Como se, tal como antigamente, a força de indignação, a reacção ao que tantas vezes aparece como intolerável, escandaloso, infame na sociedade portuguesa (tolerado, aceite, querido talvez pela maneira como as leis e regras democráticas se concretizam na sociedade, quer dizer no húmus das relações humanas), se voltasse para dentro num queixume infindável quanto à «república das bananas» ou «a trampa» que decididamente constituiria a essência eterna de Portugal, em vez de se exteriorizar em acção. Gostaria de insistir num ponto: o legado do medo que nos deixou a ditadura não abrange apenas o plano político. Aliás, a diferença com o passado é que o medo continua nos corpos e nos espíritos, mas já não se sente. Um aspecto desse legado deixou uma marca profunda num campo específico: no saber, na hierarquia do poder-saber que Salazar promoveu, cultivou e utilizou em proveito directo do poder autocrático que instaurou. O efeito desse medo hierárquico faz-se ainda hoje sentir. Por exemplo, o direito à cultura e ao conhecimento ainda não chegou ao sentimento da população portuguesa. Que esse direito existe e que cada português deveria vê-lo para si cumprido – todos o sentem, mas como parte do que idealmente lhes é devido pela justiça (que, aí, nunca se cumpre). Essa aspiração não é, pois, uma exigência tão evidente para os portugueses que estes, iletrados e analfabetos, saiam para a rua em manifestação pelo direito à cultura. Porquê? Porque o 25 de Abril não conseguiu abolir a divisão instruído/sem instrução que correspondia mais ou menos ao par poder-saber/pobreza-ignorância do tempo do salazarismo. Porque na sociedade portuguesa actual, o medo, a reverência, o respeito temeroso, a passividade perante as instituições e os homens supostos deterem e dispensarem o poder-saber não foram ainda quebrados por novas forças de expressão da liberdade. Numa palavra, o Portugal democrático de hoje é ainda uma sociedade de medo. É o medo que impede a crítica. Vivemos numa sociedade sem espírito crítico – que só nasce quando o interesse da comunidade prevalece sobre o dos grupos e das pessoas privadas. Mas não somos livres? O poder que nos governa não é livre e igualmente eleito por todos os cidadãos? Estaremos nós a praticar, de forma perversa, mais uma variedade do queixume? Não se pode, hoje, dissociar direitos democráticos e direitos de cidadania. A cidadania política, que engloba as eleições livres com o direito universal de escolher os seus representantes, não se concebe sem os direitos sociais, iguais para todos – direitos à educação, à saúde e todo o tipo de serviços sociais. Numa outra linguagem, poderia dizer, com Espinosa, que o fim de todo o Estado – e toda a organização dos homens em Estados é fundamentalmente democrática, para Espinosa – é assegurar a liberdade do cidadão, entendendo por liberdade o máximo possível da expressão, em sociedade, do seu conatus, quer dizer, da sua potência de vida. Ora, há diversas expressões, diversos graus de liberdade. Há sociedades e homens mais ou menos livres. Portugal conhece uma democracia com um baixo grau de cidadania e de liberdade. Dou a esta última palavra um sentido próximo do sentido espinosista. Sabemos pouco – quero dizer, raros são aqueles que conhecem – o que é um pensamento livre. Raramente no nosso pensamento se exprime o máximo da nossa potência de vida. Dito de outro modo: estamos longe de expressar, de explorar, e portanto de conhecer e de reivindicar os nossos direitos cívicos e sociais de cidadania, ou seja, a nossa liberdade de opinião, o direito à justiça, as múltiplas liberdades e direitos individuais no campo social. “ “Que conhecimento da democracia?” em “Portugal Hoje, o medo de existir “, José Gil

Há um deus único e secreto... Manuel António Pina


domingo, novembro 18, 2012

"O nome desfigura as coisas."


Este é um dos aforismos de Teixeira de Pascoaes que guardo na minha memória desde que me cruzei com esse pequeno livrito da Assírio&Alvim. Ontem, voltei a cruzar-me com ele. A tarde estava tristonha, chuvosa, húmida, mas o aconchego da companhia compensava a climatologia.

Eis mais alguns aforismos de Teixeira de Pacoaes:


- "A morte é a pessoa feminina de Deus."

- "Deus não está nos preceitos da Moral."

- "A corrupção favorece as ideias novas."

- "Os animais são pessoas, como nós somos animais."

- "Ser uma coisa evidente é ficar reduzido a quase nada."


- "Se Deus não fosse um absurdo, quem lhe ligaria importância ou acreditaria nele?"

- "O homem, antes de tudo, é poeta, por mais gordo ou adaptado à rotundidade planetária; e depois é pedagogo, aferidor de pesos e medidas, engenheiro, deputado e outras deformidades sociais."

- "O segredo da nossa vida moral não reside na etérea consciência, mas nas profundas da inconsciência, onde rastejam a dissimulação, a crueldade, o medo e outras virtudes adquiridas nos combates."

- "O que não aconteceu, nunca esteve para acontecer, e o que aconteceu, nunca esteve para não acontecer."

- "O amor é fome de outra vida, desejo de transitar. Quando dois amantes de abraçam e beijam, entredevoram-se, morrem um no outro, de algum modo, e transitam para um novo ser. A vida não pode ficar em nós, a repetir-se, que repetir é estar parado, é ocupar o mesmo lugar."

sexta-feira, novembro 16, 2012

"É pau, e rei de paus, não marmeleiro", Bocage


É pau, e rei de paus, não marmeleiro,
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro, tem o embigo;
Brando às vezes, qual vime, está consigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um u;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu.
Bocage

Ah, grande Bocage, "o putanheiro. Passou vida folgada, e milagrosa; comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro!" E hoje, serve-me de auxílio, inspiração e bibliografia para esta minha labuta docente. És grande!!!
Boa noite e até amanhã!

quarta-feira, novembro 14, 2012

"Passo o cano da Walter pelo peito". FAP
















AVÉ CHEIA DE GRAÇA

Passo o cano da Walter pelo peito.
Lá fora andam soldados, ouço a voz
de alguém abrindo a casa do correio.
Quem daria por coisa tão nenhuma?
Ó palmeiras adeus. Ó pedras negras
onde ficou um rasto de borracha.
E este rio também, que me ensinava
a descerrar os olhos prisioneiros.

Estou deitado no catre. A toda a volta
eu vejo roupa, roupa em malas, e uma estante
com livros, roupa ainda, sapatilhas.

Não é desta, já sei. O cano frio
acordou qualquer coisa nas costelas.
Avé cheia de graça, e o seu ventre.

Fernando Assis Pacheco, 1964. 

Em plena Guerra do Ultramar. Versos que te deixam com "pele de galinha". Uma poesia de um "eu estilhaçado". Um poema que acho que o meu pai vai gostar de ler. Ele que, ao longo dos anos, me ensinou a ter esta empatia por quem não pôde de lá voltar, ou que voltou ficando lá...
Boa noite.

Greve Geral/Huelga General


Para que possa dizer ao meu filho, tal como o meu pai me disse e o meu avô, que lutei pela nossa dignidade.
Para que pueda decir a mi hijo, como me dijo mi padre y mi abuelo, que he luchado por nuestra dignidad.


terça-feira, novembro 13, 2012

Os trabalhos de amor são os mais leves - FAP


Os trabalhos de amor são os mais leves
de quantos algum dia pratiquei
na cama as alegrias fazem lei
e se me queixo é só de serem breves

eu vivo atado às tuas mãos suaves
num nó de que este corpo já não sai
ferve o arco do sol a tarde cai
andam voando pelo céu as aves

mágoas outrora muitas fabriquei
e em países salobros jornadeei
ao dorso das tristezas almocreves

a vez em que te amei um outro fui
comigo fiz a paz nada mais dói
e os trabalhos de amor nunca são graves

Lisboa
12-X-1993, 23-XII-1993

Fernando Assis Pacheco

E amanhã será outro dia. Mas de Greve Geral! Perdoem-me (ou não, é-me indiferente...) o patriotismo bacoco:
"Viva Portugal!" "!Viva España!"
Apetece-me gritar estes dois países que são sinónimo de amor leve, aos quais vivo atado, mas que vivem tempos graves...

segunda-feira, novembro 12, 2012

Explicação da Eternidade

devagar, o tempo transforma tudo em tempo. 
o ódio transforma-se em tempo, o amor 
transforma-se em tempo, a dor transforma-se 
em tempo. 

os assuntos que julgámos mais profundos, 
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis, 
transformam-se devagar em tempo. 

por si só, o tempo não é nada. 
a idade de nada é nada. 
a eternidade não existe. 
no entanto, a eternidade existe. 

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos. 
os instantes do teu sorriso eram eternos. 
os instantes do teu corpo de luz eram eternos. 

foste eterna até ao fim. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, A Escuridão"

quinta-feira, novembro 08, 2012

quinta-feira, novembro 01, 2012

Kodak Dualflex Camera

Uma máquina que gosto particularmente. Pena que nunca a consegui desmontar (a lente superior) para lhe limpar a humidade de mais de 50 anos.
Trata-se de uma das minhas primeiras boxes e apetece-me partilhá-la aqui nos "senderos".
Boa noite e boa sorte... (Soou-me bem... muito cinematográfico).