quinta-feira, março 12, 2015

Quando chegaste - esquálida e coberta de adjectivos (José Luís Peixoto)

Quando chegaste - esquálida e coberta de adjectivos
que rejeitavas, que te seguiam - o silêncio deixou
de ser solene.

Atirámos frases inteiras às paredes, somos crianças,
e rimo-nos. A história escreveu-se longe
das nossas mãos.

Não sabemos mais verdades do que a nossa.

Existiu um dia, perdido, em que nos encontrámos.
Podíamos celebrá-lo com discursos estruturados e
insignificâncias. Preferimos comê-lo - é um bolo
de creme.”
José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"

quarta-feira, março 11, 2015

"A Luz" - Ángel Campos Pámpano

II
A Luz


Não é um jogo a luz entre os castanheiros, é um projecto, uma magia admirável; dádiva plural de onde convergem a raiz e o ramo, o espelhado enigma dos pássaros que cruzam a esta hora a nitidez do céu, o pulsar de uma terra que ressuma nudez e emoção, o fragor da folhagem, antiga folha que une o fruto e a semente.

Ángel Campos in "Jola" (2003) 
[trad. Luis Leal]


domingo, março 08, 2015

Mulheres perseguidas à coronada... (Imagem extraída da revista Sábado nº 470 de 2013)

No feminino.

Hoje é Dia da Mulher. Frase batida e nada de novo. Tende-se a isso, isto é, o mercado instaurar efemérides para vender o que quer que seja, a quem quer que seja. Uma mentira tão acéfala em si mesma, na sua vacuidade, que se torna verdade.  
No entanto, os outros 365 dias que esquecem as mulheres anulam dias como este em que muitos de nós pensamos “melhor um dia que nenhum” para celebrar essa metade que cria e carrega a vida no seu ventre, que luta diariamente e anacronicamente porque o natal que leva dentro de si a torna menos produtiva para esse tal mercado das efemérides, dos dias para celebrar.
A mulher quando nasce já traz dentro de si uma valentia protectora desinteressada, da maternidade que a gerou e jurou eternizar-se no seu corpo, com ou contra a sua vontade, caso a sociedade assim o decida e as religiões assim o amparem em adjectivações pecaminosas.
Nascer mulher evidencia o perigo que é -desculpem a redundância- ser-se mulher. Acarreta o risco de ser estuprada no seu direito a ser mulher -outra vez a minha redundância feminina- porque se nasceu num sítio onde criminosos têm prazer em mutilar clitóris ou, numa impunidade descarada, cobrem a sua vergonha masculina no rosto e corpo submisso feminino que violam cada vez que respiram. Argumenta-se com cultura ou vontades divinas, justifica-se a barbárie até com o recurso a palavras e escritos de punho e voz no feminino. Eu argumento com o peso secular de saber que vou ofender, uma vez mais, a dignidade duma mulher: a puta que os pariu! (Peço perdão à meretriz, que fique apenas o tom enfático do vernáculo).
Então neste calendário de mercado, hoje também é o meu dia porque sou homem gerado no ventre duma mulher, educado por e com mulheres, amado por mulheres e com a certeza que amo e amarei várias mulheres. Não é o momento para discutir tipos de amor, quem está a ler estes parágrafos não se confunde.
Homenagear as mulheres 365 dias por ano, é ser-se homem com “M” maiúsculo. É repudiar tanto o machismo como o feminismo, é saber que a igualdade do ser humano reside na sua diferença biológica que se completa em géneros livres para que exista um futuro…
Seres humanos a sério não necessitam de dias destes para que se lhes recorde o género. Estão lá, no dia-a-dia, juntos. Na dureza da existência que se suaviza na pele e no abraço consentido, porque na dignidade, na liberdade, não existe masculino nem feminino…
Por isso, lembrei-me desta imagem do passado que recortei para nunca me esquecer. Haverá muitas mais, e mais chocantes ainda, por esse mundo fora. “Mulheres que foram expulsas à coronada porque foram apoiar os seus homens”…
Já que está na moda ser-se tanta coisa, orgulho-me em ser um homem que se sente uma costela das mulheres. O que vem na bíblia não me convence. 


sábado, março 07, 2015

Enseñando lo que es un Haiku... (Kagami Biraki 2015)

Hablando brevemente, muy brevemente, sobre lo que es un haiku… En el Kagami Biraki (2015) del Kenshinkan Dojo. Muy bien acompañado por Juan Ignacio y por nuestro Pedro. 

quinta-feira, março 05, 2015

Un trocito de Japón aquí...

Un trocito de Japón aquí... 
Gracias Pedro Martin González. 

"¿La nieve que cae 
es otra 
este año?" 
Haiku de Bashô

quarta-feira, março 04, 2015

PRESENTACIÓN DE RUY VENTURA EN EL AULA DE POESÍA DIEZ-CANEDO DE BADAJOZ (03/03/2015)

por Luis Leal



Una brevísima nota biográfica:

El poeta portugués Ruy Ventura nació en Portalegre en 1973 y actualmente vive en Azeitão, donde enseña lengua y literatura portuguesa en un instituto de la localidad.
Su primer poemario, “Arquitectura de Silencio”, fue galardonado en 1997 con el Premio Revelación de la Asociación Portuguesa de Escritores. Desde entonces ha publicado otras obras como “Siete capítulos del mundo” y “Así se deja una casa” (ambos en 2003); “Llave de Ignición”, en 2009, “Instrumentos de Soplo” de 2010 y, en 2012, “Contramina”.
El año pasado, la obra del poeta cruza el atlántico y llega a Brasil con una antología llamada “Calle de la otra Calle” (“Rua da outra Rua”).
Es posible encontrar innumerables poemas suyos traducidos al inglés, alemán, francés y español.
Ruy Ventura, además de su actividad poética y docente, es también traductor,  investigador y ensayista con intereses tan diversos como la toponimia, el patrimonio histórico religioso, la poesía contemporánea y la literatura tradicional portuguesa. En el ámbito de la traducción hay que destacar su vinculación a Extremadura, siendo traductor de autores extremeños como Ángel Campos, Antonio Sáez o José María Cumbreño.

Algunas consideraciones personales sobre la lírica de Ruy Ventura:

En Ruy Ventura encontramos la raya, o, a lo mejor, dos rayas. Una serrana, desde la cuna, donde resuena España desde lo más alto de la Sierra de S. Mamede, y otra, también montañosa, que limita Portugal con su reflejo en el espejo del Atlántico, en una quietud casi monástica de la Sierra de Arrábida. 
Estas geografías inspiraron grandes nombres del lirismo portugués, como José Régio, desde su ventana de Portalegre, Sebastião da Gama en lo más alto de la península de Setúbal, o, incluso, mi tan estimado Bocage. Y, desde hace ya casi 20 años, Ruy Ventura es un dignísimo sucesor de este lirismo luso.
No es el tiempo cronológico el que pone las comas en la poética de Ruy Ventura, quizás algunos granos de arena o las ramas podadas de algunos momentos que llenan una casa, cuyos fondos son una especie de raíz que la sostienen en una arquitectura de silencio.
Desde el relieve encontramos una fuerza telúrica de montaña, escribiendo y reescribiendo su voz. El poeta Ruy Ventura persigue imágenes que caminan con la lucidez del vate que no cierra los ojos, que fotografía todo pero no encuentra nada para revelar. ¿Y por qué habrá que revelar la mirada?
Esa es la gran diferencia entre literatura y poesía como Ruy Ventura la concibe en su obra. Al optar por la prosa, el autor cuenta lo poético que encuentra en su universo con un lenguaje que se deja deslumbrar por su propio movimiento, dejando, incluso, herirse por sus imágenes.
¿Piedra o sangre? ¿Sangre o tinta? ¿Tinta o piedra? El poeta brasileño, que tanto cantó la aridez de su Sertão, como la fertilidad de Andalucia, João Cabral de Melo Neto nos educó por la piedra, sin embargo Ruy Ventura nos enseña que la piedra acompaña la forma del mundo, en su ausencia de voz, en la dureza que la aparta de ser tierra.
Al guardar en los ojos las semillas, el poeta logra abandonar la brevedad y cadenas que pueden ser las raíces de uno, obturando, siempre, en gestos impregnados de nitrato de plata, la sombra de su original voz poética.
Cerré las tapas que ocultan esta breve antología con la sensación de haber peregrinado por la montaña para visitar un santuario, seguro de que el verbo orar no es antagónico al laborar del poeta. Eso es más que evidente en la poética de Ruy Ventura cuyos poemas son un medio y la reflexión un fin. Como él mismo enuncia “hay, sin embargo, hechos, vestigios, trozos de papel, facturas que la escritura nunca descuidada fue a dejar entre las páginas de un desierto…”
En la lírica de Ventura, cuyo nombre nos podría resumir su obra, con la ayuda del diccionario de la RAE, encontramos felicidad, suerte, contingencia o casualidad, como también el riesgo, el peligro, o, por antonomasia, el suceso o lance extraño que procede de la actividad poética.  
En las palabras de Ventura sabemos que del grito a la nada se cruza por una tabla de madera que une los dos lados del andamio y nos quedamos con la certeza que si queremos intentar, de alguna manera, traer la idea de Dios a nuestro pensamiento, simplemente, estimados lectores, como dice el poeta que tengo el placer de presentar, hay que tener cojones, o, como se dice en portugués: “ter colhões”.    

"É uma pulseira?" - Excerto de "Galveias" de José Luís Peixoto

“É uma pulseira?
                O pai respondeu que não, e mostrou-lhe. Com o bico de uma esferográfica, começou a acertar o relógio de pulso. Esse trabalho era acompanhado por apitos que impressionavam, pi piii, pi piii. Joaquim Janeiro regalava-se com esse papel de arauto do progresso. O presente da filha era um relógio digital, comprado em Badajoz. A bracelete era toda de metal. Dava as horas inequívocas, mas tinha um botão que fazia aparecer a data e, se carregasse duas vezes, ficavam os segundos a passar. Havia ainda outro botão que, incrivelmente, dava luz. Essa era a função preferida da filha. Era à prova de água, mas não convinha experimentar. O pai ajustou-lho ao pulso, toda agente quis vê-lo de perto. Até os vizinhos, que estavam pendurados na ombreira da porta, deram dois ou três passos no interior da casa para se espantarem com esse produto. Conceição, vaidosa, exibiu-o com generosidade, mas só até certo ponto, jurou estimá-lo para sempre.”

José Luís Peixoto in “Galveias” p.160 e 161

segunda-feira, março 02, 2015

Mount Fuji

Foto de Pedro Martín

"Camões, grande Camões, quão semelhante..." (Bocage)




Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar c’o sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:

Ludíbrio, como tu, da sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!. . .
Se te imito nos trances da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.


Bocage



"Sponge Fernando" - Imagem extraída da revista Sábado nº 470 de 2013

"Como uma esponja? Como uma loja de esponjas, com um armazém anexo!" - Fernando Pessoa

"Boné" - José Luís Peixoto

"Boné? Eu disse boné? Peço desculpa, enganei-me. Quando disse boné, queria dizer: piercings, tatuagens, responder a questionários de verão, ir a programas televisivos da manhã, folhear revistas cor-de-rosa na bomba de gasolina, ir a festivais de música e cantar em voz alta, ter página no facebook, comer cachorros quentes na roulotte."