quinta-feira, outubro 31, 2013

no dia de todos os mortos

(por quem não me esqueci)

inteiriço e frio nasce o sol no dia de todos os mortos.
com um caminhar apagado
passo.
o vendedor arruma consolador
cada flor na bancada
(ordenada pelas mais tristes sortes)
margaridas, crisântemos, cravos, lírios
plantas canónicas sem santa sé.
umas outras tantas, pagãs, que não perecem.
plástico que impede o pranto das velas
e o solidificar das lágrimas,
como as salientes veias das mãos de quem as acende.
passo
à frente de gente que vela finados
e a porta do cemitério (sempre aberta) fechada a cadeados.
Eu passo.
(horário das oito às dezasseis, exceto feriados).
o olhar do vendedor e o meu cumprimentam-se num atalho
(conhecemo-nos e os nossos olhares também)
nunca lhe comprei nenhuma flor,
(para a dor tenho um jardim secreto)
e eu passo comigo oculto em reminiscências.
minhas.
dos meus.
dos que não me serão omitidos.
(já eu não sei se terei flores de época ou de molde perene de poliuretano
- hoje por hoje não quero- amanhã quem sabe?)
afasto-me, mas passo.
deixo os primeiros bafos a cristalizarem o ar
na breve chegada de mais um inverno.
passo e aparto-me do constrangimento da memória
aproveito a porta aberta aos cadeados do corpo
e a entreaberta janela curiosa do espírito.
vou fugindo enquanto posso.


MMXIII

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