domingo, junho 02, 2019

"O Infinito" - Luis Leal in "Rayanos Magazine"


A complexidade da coisa não poderia ser mais simples: o meu filho mais velho resolveu questionar-me sobre coisas de infinito. Foi há um par de semanas e, como com tantas outras perguntas, apanhou-me desprevenido.

Apesar de ter oito anos, por acaso, até sabe que o “oito deitado” é o símbolo de algo interminável graças à opção de um videojogo retro, o Street Fighter II, que temos em casa desde a minha adolescência. Isso fá-lo intuir que o tempo não acaba, que o round não é cronometrado e, no centro da cidade, enquanto estávamos a pôr os cadeados nas nossas bicicletas para evitar a ocasião fazer o ladrão, vira-se para mim e diz-me:

- Papá, o universo é infinito! Não acaba! Estamos a ver o universo com o Ismael...

(O Ismael é o seu professor e quem, felizmente, o tem acompanhado nos seus primeiros anos de primária, despertando-lhe ainda mais curiosidade do que aquela que qualquer criança tem.)

- É verdade filho.

Digo, com toda essa certeza típica dum pai a esconder todas as dúvidas do mundo.

- E há mais coisas infinitas papá?

Na verdade, não estava à espera que a conversa continuasse, pensei que ficasse por ali com a minha convicção pseudocientífica. A minha mente estava já no vaivém espacial a caminho do universo da Feira do Livro de Badajoz, apesar de ainda ter os pés bem no chão a preparar o seu irmão, o meu pequenito, recém-desmontado da cadeirinha a pedir-me água enquanto lhe recordava as palavras mágicas de “se faz favor”.

- Sim filho, há mais coisas. Olha, por exemplo, os números.

Explico, orgulhoso de ser um homem das humanidades que nunca fugiu da matemática. Porém, oculto-lhe o estigma da inutilidade das letras em prol do pragmatismo dos números. Lembro-me dum amigo cartesiano me dizer que sem a matemática nunca conseguiríamos erguer uma ponte. Não lhe tiro a razão, mas quantos já atravessaram pontes feitas com palavras e com palavras evitaram que fossem derrubadas? No entanto, voltemos às perguntas do meu mais velho:

- Porquê papi?

- Porque não acabam. Começas no zero (acho que disse no um, mas não quero ficar malvisto na crónica...) e nunca mais podes conceber uma paragem. Existe sempre uma noção de que há mais para contar, que há mais números...

De boca aberta, testa suada de ter vindo a pedalar, e cabelo amagado pelo capacete, o meu gaiato não pôde ficar por ali. Continua a inquirir-me, a desviar-me a atenção daqueles livros expostos no Paseo de San Francisco.

- Papá, e o que é que mais há de infinito?

Caramba, o que é que havia de responder mais ao miúdo? Se sou sincero, o meu eu abrutalhado pensava responder “epá, vai perguntar a quem saiba e não me chateies!”. Por acaso, o Neandertal que há em mim não se sobrepôs ao meu alter-ego, mais civilizado, a esforçar-se para educar, o melhor que pode, estes dois satélites que rodeiam o planeta povoado pelo Luis e pela Elsa.

Tanto eu como a minha mulher somos conscientes de que fazemos parte dum sistema planetário repleto de pedagogia light, pós-moderna, líquida, num batido de sabores que prima pela ausência de valores. Sabemos bem que educar, hoje em dia, como diz Gilles Lipovetsky, é seduzir. Basta vermos como vários papás e mamãs se limitam a condescender, a ceder a caprichos, cheios de medo de perder o amor dos filhos se lhes disserem "não" ou se se virem forçados a assumir uma postura de autoridade paternal. É impensável uma criança ouvir, como tantos de nós ouvimos: “a pulga já tem catarro?”.

Uma educação de autoritarismo é terrível. Contudo, seduzir em vez de educar, usando a lógica da publicidade, do estímulo acéfalo ao consumo, é igualmente aterrador. Como diz o filósofo francês “a educação com sedução contribui para termos crianças hiperativas que não sabem lidar com os constrangimentos”, rematando a questão ao enunciar que “educar não pode ser seduzir, não é uma lógica de sedução”. A voz de Lipovetsky é uma, entre tantas, que se atreve a recordar que as crianças, apesar de serem o melhor do mundo, para serem adultos significantes, por vezes têm de descobrir que não são o centro do universo, que têm de se reduzir à sua insignificância...

Qualquer um que leia o que vou escrevendo, vê que não sou modelo para ninguém. Sou uma autoridade em dúvidas e em insegurança, mesmo que até tenha essa capacidade interpretativa (digna dum Óscar!) em frente aos meus filhos. Esta conversa interminável, este incomensurável inquérito, quase filosófico, do meu descendente mais velho é um exemplo de como não sou exemplo.   

No momento não me lembrei de Einstein, mas a minha espontaneidade trouxe ao de cima uma das suas máximas e respondi ao meu puto:

- Olha filho, a estupidez! A estupidez é uma coisa infinita!

A sua procura, a sua busca de entendimento de um conceito universal, uma verdadeira “santa inquisição”, acabou à gargalhada, levando o irmão a rir da melhor maneira, por contágio, sem saber porquê.

Para mim, infinito e eternidade são sinónimos imperfeitos e há muito, antes mesmo de adquirir o estatuto de progenitor, que abandonei a sua cruzada. Bastam-me as suas rizadas infantis. Por enquanto, ter um pai estúpido, ainda é divertido.

"O Infinito" - Ilustração de S.L.P 


quinta-feira, maio 30, 2019

«Yo he sido transparente» - Leopoldo Panero

Yo he sido transparente
viajando en bicicleta,
con brisa en los pedales
y trigo en la chaqueta.

Leopoldo Panero

terça-feira, maio 28, 2019

"Escribir..." - Antonio Muñoz Molina

"Escribir es una tarea de frontera. Es ir avanzando desde lo que no se sabe, no dibujar el mapa de un territorio sino explorarlo sin más ayuda que la sumaria orientación de los puntos cardinales." -Antonio Muñoz Molina

quinta-feira, maio 23, 2019

Infinito

O meu filho mais velho questionou-me sobre o que é o infinito. Foi a semana passada e, com tanta parvoíce minha pelo meio, não o anotei como deveria.
Tem oito anos e sabe que o «oito deitado no chão» é o símbolo de algo interminável graças a um videojogo. Intui isso mesmo, que infinito não acaba, que é um jogo sem fim e disse-me, enquanto estávamos a pôr os cadeados nas nossas bicicletas:
- Papá o universo é infinito. Não acaba. Estamos a ver o universo com o Ismael.
(O Ismael é o seu professor e quem o tem acompanhado nos seus primeiros anos de primária.)
- É verdade filho.
Disse eu com toda essa certeza de pai a esconder todas as dúvidas do mundo.
- Há mais coisas infinitas papá?
Na verdade não estava à espera que a conversa continuasse, pensei que ficasse por ali, e a minha mente estava a caminho da Feira do Livro no «Paseo de San Francisco» com a mão dada ao pequenito recém-desmontado da cadeirinha.
- Sim filho, há mais coisas. Olha, por exemplo, os números.
- Porquê papi?
- Porque não acabam. Começas no um e nunca mais podes conceber uma paragem. Existe sempre uma noção de que há mais para contar...
De boca aberta, com a testa suada de ter vindo a pedalar, não pôde ficar por ali.
- Papi, e que mais há de infinito?
A verdade é que, mais uma vez, esperava que a conversa ficasse por ali, não se prolongasse num inquérito quase filosófico.
Não me lembrei de Einstein conscientemente, mas a minha espontaneidade trouxe ao de cima uma das suas máximas e respondi ao meu puto:
- Olha filho, a estupidez. A estupidez é uma coisa infinita.
A sua procura, a sua busca de entendimento de um conceito universal, acabou com gargalhadas infantis.
Infinito e eternidade são sinónimos imperfeitos. Talvez por tanta imperfeição tenha abandonado eu a sua cruzada.
Fico pelas suas gargalhadas infantis ao ver que ter um pai estúpido, por enquanto, ainda é divertido.

Pelo punho e letra de D. Miguel...

Nota manuscrita de Miguel de Unamuno para um jornal português, pertencente ao espólio da Fundação António Quadros - Cultura e Pensamento

quarta-feira, maio 22, 2019

"É melhor estar calado e parecer parvo do que falar e esclarecer as dúvidas definitivamente" - Groucho Marx

Adoro o café amargo, mas não desprezo a filosofia que tantos pacotinhos de açúcar têm trazido à minha existência.../Me encanta el café amargo, pero no desprecio la filosofía que tantísimas bolsitas de azúcar han traído a mi existencia… 

“Better to remain silent and be thought a fool than to speak and remove all doubt.”

Café con leche... 

terça-feira, maio 21, 2019

"conocer es amar" - Miguel de Unamuno


Un vasco, arraigado hace cerca de cuarenta años en una región castellana fronteriza de Portugal ha aprendido a conocer – y conocer es amar – a éste y a respetar hasta ciertas susceptibilidades que estima, y lo dice francamente, algo enfermizas. Y espera que el conocimiento mutuo, que es la más íntima hermandad, hada un día algo más grande que nosotros.

Nota manuscrita de Miguel de Unamuno (Salamanca, 1/III/1930)
in Fundação António Quadros - Cultura e Pensamento



domingo, maio 19, 2019

No livro «Agradar e Tocar» diz que a educação está em risco porque vivemos numa sociedade de sedução. Porquê? (Gilles Lipovetsky, em «Sábado», 16 de Maio de 2019, p.30)

Depois do Maio de 68, a educação autoritária, tradicional e religiosa, deu lugar a uma educação permissiva. Atualmente temos vários pais que querem agradar aos filhos e têm medo de perder o amor deles se lhes disserem "não" ou se forem autoritários. A educação autoritária foi terrível, é verdade, criou personalidades histéricas, mas a educação com sedução contribui para termos crianças hiperativas que não sabem lidar com os constrangimentos. Educar não pode ser seduzir. Não é uma lógica de sedução. Por causa disso, surge um problema porque transformámos a educação em sedução, e isso é impossível.

A vela...

A vela pouco
ilumina, mas é luz.
Acendo-a. Só.

quarta-feira, maio 15, 2019

"ESENCIA DE VERBENA" (1930) de Ernesto Giménez Caballero (porque hoy es San Isidro)

Uma velha bicicleta brasileira e o Milton Nascimento


Fotografia de Breno César. Uma bicicleta em Patos, no estado brasileiro da Paraíba. Sempre gostei do nome da capital deste estado: João Pessoa, desde que a conheci numa canção de Milton Nascimento no álbum Caçador de Mim (1981), já lá vai o tempo...


NOTÍCIAS DO BRASIL (OS PÁSSAROS TRAZEM...)

Uma notícia está chegando lá do Maranhão
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Veio no vento que soprava lá no litoral
De Fortaleza, de Recife e de Natal

A boa nova foi ouvida em Belém, Manaus
João Pessoa, Teresina e Aracajú
E lá do Norte foi descendo pro Brasil Central
Chegou em Minas já bateu bem lá no Sul

Aqui vive um povo que merece mais respeito
Sabe belo é o povo como é belo todo amor
Aqui vive um povo que é mar e que é rio
E seu destino é um dia se juntar

O canto mais belo será sempre mais sincero
Sabe tudo quanto é belo será sempre de espantar
Aqui vive um povo que cultiva a qualidade
Ser mais sábio que quem o quer governar

A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais é muito mais que qualquer Zona Sul
Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país

Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Ficar de frente para o mar de costas pro Brasil
Não vai fazer desse lugar um bom país

A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais é muito mais que qualquer Zona Sul
Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país

Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão
Ficar de frente para o mar de costas pro Brasil
Não vai fazer desse lugar um bom país

Compositores: Milton Nascimento / Fernando Brant





segunda-feira, maio 13, 2019

Mole ou duro...

Mole ou duro,
o pão alimenta a
honestidade.

"No sé cómo puede vivir..." - Miguel de Unamuno

No sé cómo puede vivir quien no lleva a flor de alma los recuerdos de su niñez.  
Miguel de Unamuno

Lembrança de maio (Adélia Prado)



LEMBRANÇA DE MAIO

Meu coração bate desamparado
onde minhas pernas se juntam.
É tão bom existir!
Seivas, vergônteas, virgens,
tépidos músculos
que sob a roupa rebelam-se.
No topo do altar ornado
com flores de papel e cetim
aspiro, vertigem de altura e gozo,
a poeira nas rosas, o afrodisíaco
incensado ar de velas.
A santa sobre os abismos –
à voz do padre abrasada
eu nada objeto,
lírica e poderosa.

Adélia Prado




quinta-feira, maio 09, 2019

segunda-feira, maio 06, 2019

Se encontrar...

Se encontrar nesta terra,
bruta de sol e rija de pedra,
uma gota esquecida de água,
saberei que a minha sede não
aumentou em vão, escorrendo
em suor herdado da frente de
quem me criou esperançado
numa vida sem calos nas mãos.

Se encontrar nesta terra,
iludida de que é minha,
uma sombra de nada,
verei como se erguem as
árvores outrora plantadas
em solo agreste de sonhos
verdejantes em campo e num
qualquer porvir possível.

Se encontrar nesta terra
tudo aquilo que perdi
aceitarei tornar-me torrão
vermelho, barrento, costurado
por grama opressora, mas
quieto não vá em mim nascer
uma simples flor.

sexta-feira, maio 03, 2019

Por mais pequena que seja...

Por mais pequena que seja, se a minha obra for um maior do que o meu ego, já fico contente...

quinta-feira, maio 02, 2019

Parece que faço anos...

Parece que faço anos. O calendário assim mo confirma. Não é por acumular mais uma Primavera, por ver que felizmente vou cruzando a cronologia da idade adulta, sem grandes mazelas e dores nas articulações, que para mim este dia não deixa de estar repleto de vazio.
Que o dia que nasceste se torne o teu dia é mais uma imposição da vida. Gosto do dia, mas dispenso a imposição. Isso entristece-me. O resto é uma necessidade de olhar para dentro, para mim, e ver que mudam as estações, passam os anos, escrevem-se novas páginas de vida... No fundo és o que tens vivido. Aceita-lo sem moralizar, sem racionalizar. Apenas tens a dignidade de olhá-lo de frente.