sábado, dezembro 08, 2018

Musgo lisboeta (Lisboa, 08/XII/2018)

É época de Natal e fazem-se presépios por este Portugal fora. O musgo, como já por aqui divaguei antes, é um elemento típico desta decoração natalícia e acredito que, em plena Lisboa, não seja fácil encontrar locais virados a norte (para o Porto caso não se dominem pontos cardeais) onde abunde musgo para tantos presépios. O que não estava à espera era encontrar vasinhos de musgo a cinco euros num mercado da capital. Seria musgo do bom certamente, pois figurava entre vários produtos biológicos e o vaso era redondo e verdinho. Por instantes, pensei num possível nicho de mercado, nas grandes quantidades de pedras musguentas que temos espalhadas pela «aCourela». Depressa se desvaneceu o espírito empreendedor. Olhei para aquele musgo e vi-o já a secar, longe da paisagem propícia ao seu manto tão verdejante como humilde. Vi-o como eu. Um provinciano que entende a grande cidade à distância da possibilidade de ter um pé no asfalto e outro na terra. Tive mesmo para comprar um vasinho e transplantá-lo para terras raianas. No entanto, cinco euros são cinco euros e, por mais que eu empatize com um musgo desenraizado e triste, preferi gastá-los num alfarrabista... Não é todos os dias que abandono a paisagem e venho a Portugal, perdão a Lisboa, ser turista!

Musgo em vaso

Musgo em vasos.
Cada um cinco euros.
Preço urbano?

Ciclistas à beira-mar (autor desconhecido)

«Arte Poética» - Daniel Faria (Foto de Adolfo Rodríguez)

«Arte Poética» - Daniel Faria (Foto de Adolfo Rodríguez)

Sol de Inverno

Sol de Inverno
assoma-se através
deste Outono.

sexta-feira, dezembro 07, 2018

Um mar de literatura ou uma literatura de mar?

«Toda a verdadeira vida é encontro» (Martin Buber, «Eu e Tu»)

Lembro-me de ter apontado esta citação de Martin Buber, «Toda a verdadeira vida é encontro», quando li esse clássico de Savater, «Ética para um jovem». Já passaram uns anos desde que li essas fotocópias que não respeitavam o copyright deste notável filósofo, mas que possibilitam o meu bolso, sem grandes fundos, ir formando-se academicamente e como pessoa.
Ainda ando às voltas com ambas formações. Antes não as dissociava, porém a académica apenas pesa por um desejo de ver em papel os anos que se vão acumulando a pesquisar e a investigar por «amor à arte». A pessoa não precisa de certificados e espero que tenha preponderância sobre todos os outros âmbitos. Vou tentando.
Esta semana foi rica de encontros, logo, lembrando Buber, foi rica em vida. Por questões académicas a minha pessoa desfrutou da presença de um ser humano que a enriqueceu. Na Fundação António Quadros, no trilho das vidas de António Ferro e Ramón Gómez de la Serna, tive o prazer de conhecer (e sei que posso dizer «estabelecer amizade») a sua presidente Mafalda Ferro. 
Por entre livros, epístolas, documentos interessantíssimos e inéditos para inumeráveis estudos e teses, foram as pausas, o seu bem-receber, o seu humor, a sua cultura, a sua sensibilidade e o nosso espírito falador, o melhor desses três dias passados em Rio Maior.
A Fundação António Quadros, reúne o espólio de três vidas, as de António Ferro, Fernanda Castro e António Quadros, no entanto, e sem desprimor para os demais herdeiros, uma mais, a da Mafalda, pelo zelo com que mantém os alicerces desta instituição de interesse público.
Já de volta a casa, e já fora dela outra vez, a pôr o cadeado nas bicicletas que nos têm transportado nestes dias, encontra-me uma pessoa que não esperava. Creio que veio cumprimentar-me por algo mais que educação. Posso estar enganado, não encontro razão para interesses ou segundas intenções, pareceu-me estima. Fico contente e cada vez sinto mais que com isso me basta. 
Obrigado Mafalda, obrigado a essa pessoa cuja identidade talvez outro dia revele, na vossa presença, e mesmo rodeado de tantas coisas fascinantes, continuo a lembrar-me desta citação. Até um próximo encontro!

Parem, escutem, olhem...

Parem, escutem,
olhem a natureza.
Simplicidade.

quarta-feira, dezembro 05, 2018

Entre árvores (Coruche)

Entre árvores
jaz o que antes foram
formosos ramos.

Rocinha, 24 de setembro de 2010


"PROIBIDO PARA MENORES No Jacarezinho o menino com máscara de Batman, não tem tempo para a fantasia, a violência acontece ao vivo diante dos seus olhos infantis, fosse ficção ele estaria proibido de assistir - Reuters."

(Fotografía: 24-9-2010)

www.rocinha.org


 


terça-feira, dezembro 04, 2018

Nas palavras, a fronteira separa as palavrinhas dos palavrões.

Nas palavras, a fronteira separa as palavrinhas dos palavrões.

Ponto de fuga

Ponto de fuga.
Harmonia felina.
Haicai perfeito.



Ao teu colo (02/XII/2018)

Ao teu colo a
gata encontra-se com
manha e tempo.

(para a Elsa, numa manhã com manha de Domingo)

Ao teu colo... (02/XII/2018)

O caracol diz:

O caracol diz:
Sonha, mas não adormeças.

«A Missão das Folhas» - Ruy Belo (Rio Maior)

segunda-feira, dezembro 03, 2018

Rio Maior 03/XII/2018

Estou imerso a estudar o que outros viveram e escreveram há cem anos. Estar um dia inteiro a tentar decifrar a caligrafia de Ramón por enquanto é um desafio fascinante, mas temo que uma futura falta de tempo o faça deixar de ser.
Não sei porque motivo estes autores, cuja cumplicidade estética e literária estou a investigar, começaram a escrever. O peso da modernidade, da vanguarda, por si só seria um motivo, porém o que é que despoletou nestes dois seres humanos, separados por uma fronteira, a vontade de se tornarem escritores? Outras perguntas até sou capaz de responder, mas esta não e tampouco traria nada de importante ao nosso estudo.
Hoje mesmo pensava porque motivo me agarro às palavras como uma tábua a flutuar de um naufrágio. Talvez por ler tantas citações tenda a dizer que escrevo para os meus filhos, para que eles, algum dia, saibam que tipo de homem foi o seu pai para além do progenitor rotineiro do dia-a-dia. 
Não é que exista uma fraude nessa afirmação, mas as palavras acompanham-me desde há muitíssimos mais anos do que aqueles que os meus filhos vieram à luz.
Ainda hoje, enquanto esticava as pernas no final de dia em Rio Maior e via como as luzes de Natal iluminavam o fecho do comércio da cidade, tive dificuldade em aceitar a minha solidão apesar do corpo e da alma ma solicitarem. 
Sei que houve uma época que redigia para deixar constância da minha solidão. Agora não. 
Dar uma resposta ao porquê escrevemos é fechar a porta ao exterior daquilo que somos e qualquer contestação que saia da nossa boca será apenas isso, uma delimitação. Um fecho. 
Por vezes sei, muitas vezes não e cada vez menos isso me importa.
Estudo os outros porque, desde que sei escrever, preciso de me entender a mim.

O touro pasta

O touro pasta
ciente de estar nos
próprios cornos.

(entre Évora e Montemor-o-Novo)

Fefê Torquato - Essa é uma história de uma pessoa.