quinta-feira, setembro 24, 2015

Crónica dum quisto simpático e dum sinal filha da puta

Estou na sala de espera acompanhado por nove pessoas e por um quisto simpático e um sinal filha da puta. Tenho marcado, para dentro de momentos, uma entrada no bloco operatório onde à navalhada de bisturi me vão extirpar este vulto de gordura e esta anormalidade cutânea.

É verdade, o quisto até é simpático. Redondinho, um berlinde infantil debaixo da minha pele. Já o sinal de simpático não tem nada. Ao chamá-lo assim, descendente de meretriz, pode parecer que estou a insultar a minha mãe. O sinal e eu, por enquanto, somos o mesmo. A mesma carne, mas de mãe diferente.

O médico disse-me que o melhor é separar estes siameses solares, uma vez que, se há que tirar um elemento sebáceo do meu corpo, não se lá há-de deixar um suástico. E não é que o sinal, além de filha da puta, tem no seu interior umas raias a renderem-lhe formas hitlerianas! Além desses tentáculos, alastra-se pelo Lebensraum das minhas costas como o terceiro Reich marchou pela Europa fora.
Chamaram outro paciente, mas ainda aqui estou.

Há coisas enquistadas em nós. Coisas que nos fazem ser quem somos. Reconheço que não é uma imagem agradável a olho-nu, esse do dia-a-dia, por vezes munido de óculos, que pouco pensa, mas que deixa passar de imediato, sem filtrar, imagens para o córtex cerebral. Como o quisto da teimosia, por exemplo. Invisível se não o quero ver. Por vezes maligno. Parece-me difícil que mo extirpem alguma vez. Tende a aumentar com a idade. Haverá uns quantos, lá em casa, especialmente, que até gostavam que existisse bisturi para isso.

O perigo das células cancerígenas, está em todos nós. Não me atrevo a falar, nem a escrever sobre isso. Acho indigno, uma pessoa como eu, só porque tem um sinal suspeito, possa opinar, o que quer que seja, sobre algo tão sério como uma doença oncológica. Escrevo este parágrafo com o respeito e a esperança de nunca sobre isso escrever.

(Foda-se! Acabo de pontuar isto e não é que me vem dar os bons dias o capelão!)

Enfim, ainda cá estamos os três. A simpática tumoração redonda e a epiderme suástica, o sinal das SS. Encontram-se equidistantes, mais ou menos seis centímetros, três para cada lado, em extremos opostos entre a minha coluna vertebral e as minhas costeletas com pouca chicha.

Enquistados e equidistantes no cabedal do costado. A ironia da biologia em tantas coisas do que somos.

O médico chamou uma família. Espero que a recuperação deste paciente seja tão agradável como esta espera que me permite divagar sentado numa sala de estar. Esperar com pouco medo não custa. Esperar e poder ter um médico argentino de origem calabresa, o partisano de conversa agradável, que não te exige genuflexão perante a sua profissão para que te dêem um benção de saúde ou de doença também ajuda.

Por mais que a medicina evolua, há gente que continuará com vultos enquistados, tumores simpáticos, suaves e discretos, e outros envergonhados, cancros de maligna envergadura e nomenclatura.
Sei que há gente que espera em banho-maria de pavor, desesperam nesta mesma sala, ou que nunca poderão desesperar num sala de espera como esta. Privada e paga com o dinheiro público.

Sei que o eu hipócrita até poderia ser hipocondríaco. Tinha seguro para isso.

E os que não têm saúde para isso? E os que nada lhes é seguro?

Tudo é tão certo quando se tem saúde. Conjugam-se perfeitamente três tempos verbais: presente, passado e futuro.

Lembro-me de quando ia com a minha mãe ao centro de saúde, lingrinhas e anémico. O meu avô tinha dos maiores gestos de amor que se pode ter por alguém. Madrugava de amor. Não como talvez madrugara para namorar na sua juventude, para cortejar a minha avó ou nas suas madrugadas de devoção à caça. Madrugava para que o seu neto pudesse ser atendido por um médico. Antes das seis da manhã, a pé, já lá estava, sendo o melhor seguro que pude ter, por isso hoje estou aqui sem vestígios de anemia e com um índice de massa corporal normal.

Nós chegávamos também cedo. Eu com os meus pais. Quase sempre a minha mãe, cujos pais tanto a ajudaram a ser mãe. O meu avô dava-nos a vez para que a Drª. Emília, a quem nunca nos ajoelhámos por ser um ser humano fiel à humanidade e uma médica devota ao seu padroeiro Hipócrates, nos examinasse, baixinha e com vestígios de nicotina nos dedos.

Cuidávamos uns dos outros. Não haviam seguros e a segurança social chegava onde chegava, num Portugal que tinha de madrugar para ter o direito de ser atendido.

Hoje sei que tudo está pior. Aquelas madrugadas da minha infância de falso anémico ainda cheiravam a Abril. Madrugar já não garante nada e Deus tampouco ajuda à tarefa, de tão atarefado que está lá pela paróquia e pela sopa dos pobres à beira da estrada.

Tenho dois quistos tipo Jekyll e Hyde nas costas, mas o país onde nasci tem um tumor de maioria numa assembleia assimétrica de representatividade. Tumorizado numa costa e afectando o corpo do português sem direitos e seguro.

Não sei se a oncologia poderia da nome a esta tumorização, distante, selectiva, imune à terapia da empatia. Alastram-se metástases idênticas em toda a península, em toda a Europa…

Ultimamente tem havido algumas hipóteses de operação, podemos operar à base de bisturi de eleições.

Espero que me chamem em breve.

Já estou de touca, bata e pantufas verde cirurgia, iguais às do nervosismo do parto dos meus filhos. Estou no bloco, mas ainda tenho acesso ao bloco e à caneta. Entre isto e a oficina, há a diferença de quem vai à revisão, mudar as pastilhas e os discos, pintar ou bater chapa, ser eu. Gosto mais do cheiro a óleo, a motores lubrificados, porcas e parafusos, do que deste éter anestésico. Gosto mais do desperdício de limpar os dedos negros de trabalho do que tanta comprensa que há por aqui e do que o bip-bip cardíaco do outro lado da porta. Vou deixar de escrever.

Anestesia. Lâmina rasgada sem dor. Biopsia feita. Pontos dados. Não sei se nas artes cirúrgicas se usa um nó como na costura.

A enfermeira acompanha-me à porta e pergunta-me se vim sozinho, não vá sentir-me tonto com o efeito ambulatório da anestesia. Disse-lhe que vim acompanhado, mas que volto a casa sozinho.

Ela olhou-me com o desejo de que alguém me ajude caso me desmaie no meio da rua. Já eu envergonhei-me de lhe pedir que me deixasse despedir do quisto simpático e do sinal filha da puta, agora sozinhos, como eu, dentro dum frasquinho.    

2 comentários:

Gonçalo Mendes disse...

Bonita cronica meu amigo.
e como te sentes, livre da suástica costal?

Grande abraço

Luis Leal disse...

Desculpa amigalhaço, só agora vi o teu comentário! Está tudo bem nas minhas costas... o mesmo talvez nao se possa dizer do mundo e do país onde nascemos... Como diz a sabedoria popular, haja esperança! Aquele abraço,