"Determinismo Tóxico" - Luis Leal
Comecei cedo a prestar atenção a todo o tipo de classes, quero dizer, apercebi-me do mundo tender à classificação, à categorização, à agrupação de características de todo o tipo, segundo determinados critérios. Quando dedicamos algum tempo à escrita, o adjetivo impõe-se como um bom exemplo deste classificar, remetendo o texto ora para territórios de simplificação, onde escasseiam estes vocábulos, ora para a jurisdição do exagero, onde a abundância adjetival é passível de ser acusada de barroca. Gosto de adjetivos, de atribuírem qualidades ao substantivo, da sua flexão de género (masculino e feminino), número (singular ou plural) e grau (diminutivo e aumentativo), e dei por mim a refletir sobre "tóxico", um adjetivo há algum tempo anda nas bocas do mundo para caracterizar um sem fim de coisas materiais ou imateriais susceptíveis de serem contaminadas por elementos nocivos. Gases e substâncias tóxicas, família, amizades e relacionamentos tóxicos, ou na cultura e na sociedade, a política tóxica (proclive à polarização) e a tão falada masculinidade tóxica, devido a uma série (que não é moda, é tendência - remeto para a subtil diferença), homónima à sua problemática: a adolescência.
Não sou alheio a tendências e assisti a este fenómeno de quatro episódios com a certeza de ser uma excelente produção "sign of the times", merecedora de atenção e para nada redutora à temática da acefalia "incel" ou a uma suposta toxicidade atribuída a características masculinas. Poder-se-ia substituir a frustração dos "celibatários involuntários" por outra qualquer reacção odiosa perpetrada por adolescentes que a série seria igualmente pertinente. Mas voltemos à raiz desta minha reflexão: o adjetivo e o seu uso. A banalização, o uso descontextualizado e sem critério do que quer que seja leva à frivolidade e da frivolidade é um passinho até à vacuidade. Ao descontexto somemos-lhe a ignorância e a carência de vocabulário, que, em vez de terminar no silêncio (“em boca fechada não entra mosca”), cada vez mais desemboca num papaguear de propaganda desconcertante para qualquer que etimologicamente creia nos valores de igualdade, dignidade e liberdade, esse anacronismo ético e não a actual perversão mercantilista.
As primeiras pinceladas desta crónica nasceram no barbeiro, devo dizer, recostado enquanto desfrutava do pequeno prazer que é cortar a barba à navalha. Recordo-me de pensar “fazer a barba é um elemento da masculinidade” ao que de imediato repliquei “nah, a barba e o bigode não são apanágio dos homens”. Tão-pouco a toxicidade é um atributo da masculinidade, ao contrário do que vi, no meu ambiente laboral, ser transmitido por alguém, cujo cargo deveria honrar com mais prudência, sem cair em generalizações perigosíssimas. A pessoa em causa (o meu caríssimo leitor já identificou a indiferença de género) afirmou, melhor exclamou, para uma plateia repleta de adolescentes de ambos sexos, que a condição de se nascer homem é sinónimo de "ser agressor". Não sou de grandes indignações, prefiro a calma, às vezes até me calo, não por medo, sim porque sei identificar perdas de tempo, contudo desta vez tive de intervir, não é que os rapazes e raparigas da plateia necessitassem, acredito que o surrealismo da situação os fizesse refletir (continuo a ter esperança no pensamento dos jovens - apesar do “brain rot” recém-diagnosticado), e manifestei o meu desacordo com o que acabara de afirmar, mesmo recorrendo a estatísticas óbvias de os homens serem mais proclives à violência do que a mulher. Estamos perante um total determinismo biológico [e tóxico] da agressividade e da violência que se desarticula com um olhar atento e honesto para a realidade. O seu contra-argumento foi uma acusação: “Não és feminista!”. Aí sim optei pelo silêncio, acabara qualquer tipo de argumentação, fomos derrotados (a pessoa em questão também, apesar de sentir-se vitoriosa) pela ausência de complexidade nos tempos tão complexos que vivemos. Restou-me a retirada de cabeça erguida, amparada por alguns adolescentes, rapazes e raparigas, sabedores de o livre pensamento ir para além dos “ismos”, e uma boa memória de uma verdadeira feminista, a saudosa Ana Luísa Amaral, ao dizer-me, olhos nos olhos, com uma sinceridade indiferente a cromossomas, “Luis, o feminismo é uma questão de direitos humanos”.
Se queremos neutralizar os elementos tóxicos que proliferam pelas nossas sociedades, se queremos proteger-nos desses energúmenos ressabiados com o sexo oposto (ou com o mesmo sexo, para ser inclusivo), não seria mais fácil parar para pensar? Entristece-me a constatação do óbvio, mas nos dias de hoje isso é pedir muito... talvez o que esteja intoxicado seja a razão.
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