A Colina d'Courela
Um mastim espanhol, naturalizado rafeiro alentejano, caminha devagar pelo alto da colina. A sua sombra larga e lobeira acompanha-o neste fim de tarde, quando o sol do Alentejo, cansado de calor, se inclina a poente. Conheceu o abandono quando era apenas um cachorro e, talvez por isso, os seus olhos guardem uma gravidade serena. Com a ferida do desamparo cicatrizada pela sua família adotiva, encontrou na Colina d'Courela a paz que ainda se pode reconhecer no campo.
Da sua matilha destaca-se um elemento sem genes caninos: um burro. Não é um asno qualquer, nasceu em Itália e atravessou, ainda pequeno, a Europa dentro da bagageira de um carro, num périplo digno de um filme de ação, contrabando e comédia. Talvez por isso pareça mais cosmopolita, mais aberto ao humor das coisas, e se ria das voltas do mundo (que deveria, mais do que ele, ter orelhas de burro). Aqui encontrou o seu lugar e uma planície aberta à sua graça filosófica e absurda, que arranca gargalhadas ao seu velho amigo.
A diferença fez com que ambos se tornassem inseparáveis, como se o destino lhes tivesse concedido a missão de olhar o mundo a partir daquele alto, onde o horizonte se estende até Espanha e a timidez das serras e dos rios se mostra alheia a quaisquer fronteiras. Ali conversam entre o ladrar e o zurrar, entendendo-se mais pelos silêncios e pelas pausas. O cão (atento e prudente) e o burro (divertido e observador) formam uma dupla improvável, mas profundamente harmoniosa.
O correr do tempo e a cadência das estações trouxeram outro tipo de silêncio, que parece ensurdecer os humanos. Antes, lembrava-se o rafeiro, ouviam-se vozes a atravessar os campos, vizinhos a chamar uns pelos outros, crianças a inventar jogos nos montes. Agora, parece que o diálogo (mesmo entre quem fala a mesma língua) se extingue lentamente, como o fogo que se apaga sem lenha. O ouvido atento do burro notava que os poucos sons da freguesia já não eram conversas, sim sinais curtos, toques de dedos em aparelhos brilhantes nas mãos dos homens.
A voragem, essa pressa febril e fabril, também quer subir à colina. Veem-se carros cada vez mais velozes e chegam notícias como relâmpagos. Até o vento parece querer imitar essa rapidez, levando consigo, de rajada, palavras mal começadas a dialogar.
“Sabes, os homens nunca foram grande coisa, mas agora acho que ainda estão mais aparvalhados”, disse o burro, coçando-se contra uma azinheira.
O cão abanou as orelhas, afastando de si a afirmação do amigo (e uma mosca chata). Não precisava de responder. Ambos sabiam: a pressa e a distração roubam aos humanos estas colinas mundo fora, onde o espaço é encontro e oportunidade entre o si e o outro.
Cão e burro ainda veem pequenas exceções. Algumas crianças, curiosas por essência, continuam a subir à colina, observam formigas, riem-se com as cócegas de uma borboleta, constroem refúgios secretos no meio do pasto (que já nem repasto é de ovelhas). Mas até mesmo tais criaturas de um Deus benévolo e desconhecido parecem ameaçadas de extinção. Os adultos oferecem-lhes os aparelhos brilhantes, essas caixas de luz e som artificial, que lhes sequestram a imaginação e os sonhos, para os capitalizarem nesses mesmos aparatos. O burro viu uma dessas caixas e ficou intrigado: era como um espelho sem reflexo, a sugar a alma de quem o olhava. Teve receio, mas não chegou a medo. O mastim, que aprendera a confiar apenas no que podia cheirar e tocar, desconfiava ainda mais, aquele brilho roubava o vagar que antes pertencia ao verdadeiro silêncio e ao jogo livre.
Mas a colina, erguida em paciência sedimentada, persiste em esperança e traz outra companhia ao duo de amigos. Um menino de quatro anos, membro da família adotiva do cão, subiu até ao cimo. Não trouxe nenhuma caixa luminosa nem pediu nada. Sentou-se, como de costume, entre o rafeiro e o burro e, com um pauzinho, começou a riscar a terra seca e arenosa. Desenha linhas sem forma, animais circulares, casas imaginárias, talvez algum rio navegável em sonhos. Não fala, apenas sorri enquanto inventa pequenos mundos com um simples gesto.
O cão deitou-se a seu lado, guardando aquele instante apenas com um pensamento: “Estou a ver o meu menino crescer.” Não lhe faltava mais, não necessitava de mais. O burro inclinou a cabeça e soltou um zurro baixo, risonho, como quem se reconhece desajeitado e arredondado num desenho infantil.
Todos habitam a Colina d'Courela: o rafeiro, o burro e a criança. Todos contemplam algo. O sol desce devagar e a tarde parece prometer qualquer coisa no risco leve de um pauzinho na terra.




