segunda-feira, setembro 09, 2013

Luis Cernuda - Donde habite el olvido




DONDE HABITE EL OLVIDO

Donde habite el olvido,
En los vastos jardines sin aurora;
Donde yo sólo sea
Memoria de una piedra sepultada entre ortigas
Sobre la cual el viento escapa a sus insomnios.

Donde mi nombre deje
Al cuerpo que designa en brazos de los siglos,
Donde el deseo no exista.

En esa gran región donde el amor, ángel terrible,
No esconda como acero
En mi pecho su ala,
Sonriendo lleno de gracia aérea mientras crece el tormento.

Allí donde termine este afán que exige un dueño a imagen suya,
Sometiendo a otra vida su vida,
Sin más horizonte que otros ojos frente a frente.

Donde penas y dichas no sean más que nombres,
Cielo y tierra nativos en torno de un recuerdo;
Donde al fin quede libre sin saberlo yo mismo,
Disuelto en niebla, ausencia,
Ausencia leve como carne de niño.

Allá, allá lejos;
Donde habite el olvido.

Luis Cernuda 


(Los placeres prohibidos, 1931)





sexta-feira, setembro 06, 2013

Lá na arrecadação, bem guardado, estava isto...

Nos últimos meses tenho encontrado, na casa dos meus pais e na minha arrecadação, alguns brinquedos que decidi passar para "as mãos" do meu filho de dois anos.
Eu tinha a sensação de que era proprietário de muitos brinquedos, e na realidade até era (nunca me faltaram brinquedos e como criança até os estimava e usava muito), mas comparando com os exemplos dos últimos anos (principalmente os que precederam esta crise, da qual parece não sairmos) é um bocado ridículo falar em enormes quantidades... Uma pequena caixa de papelão e esta caixa com a qual sonhei e criei sonhos e aventuras: a minha caixa vermelha de LEGO, que os meus pais me deram num Natal dos anos 80.
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quinta-feira, setembro 05, 2013

"Começar de Novo" - Ivan Lins e Simone



Começar de Novo - Ivan Lins

"Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido

Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio
Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena já ter te esquecido
Começar de novo..."

terça-feira, setembro 03, 2013

Não me aluguem o fim do mundo

"Não me aluguem o fim do mundo.
O apocalipse não está para arrendar
Nem o procuro na secção de classificados.

Isso querem os arautos, discípulos astutos
Da Fome, da Guerra, da Peste e da Morte.
O que não contam é com a sorte
Que ainda se vai tendo quando alguém é capaz…
De encontrar no dicionário a palavra audaz.

Não me vendam a depressão.
Para ser triste não é preciso pagar,
Basta com ser ou estar,
E o Xanax não sabe bem com pão.

Não me vendam optimismo.
Não me convertam a ismos,
(Apesar de estar de acordo com que se derrube o templo)
Já é tempo de meditar
E optar por não pagar.
Recusar dívidas impostas por quem não eu não conheço.

Não me vendam o meu nariz.
É grande mas não é grande coisa.
Foi-me dado (e também já foi esmurrado)
Mas é meu!

Não me dêem soluções.
Eu não quero o que é melhor para mim.
Eu quero o que vocês não querem para mim.
- Um hambúrguer com batatas fritas
E um refrigerante original com brinde.

 “Agora, com o seu menu:
«A declaração universal dos direitos humanos»
Escolhe já o teu!”

Não me tragam conforto.
Com taxa de esforço 
Escrito a letras pequenas numa oração a Nossa Senhora da Penhora.
Água? Salgada e privatizada em lágrimas.
E o sol? Desde que nasce é mais para uns do que para outros.

Lucro.
Proveito.
Esse é o vosso jeito,
Nem que levem tudo a eito.

Aqui não me vendem nada.
Em território neurónio  mando eu.
Quero que vocês se fodam.
Eu estou aqui, de tabuleiro na mão,
À espera que me atendam".
Agosto de 2013



Intenta meditar mientras caminas

"Intenta meditar mientras caminas. Limítate a andar mirando al suelo y sin mirar a los lados, y abandónate mientras el suelo desfila a tus pies. Las sendas son así: uno se siente flotar en el paraíso shakespeariano de Arden y cree que va a ver ninfas y pastores tocando el caramillo, cuando de repente se encuentra bajo un sol abrasador en un infierno de polvo y espinos y ortigas..., exactamente igual que la vida".
Jack Kerouak in "Los Vagabundos del Dharma" 
(descripciones que hizo después de una escalada a las montñas Cascadia).

Si vas a intentarlo, ve hasta el final

"Si vas a intentarlo, ve hasta el final. 
No hay sensación parecida
Estarás a solas con los dioses
y las noches arderán en llamas...
Llevarás las riendas de la vida hasta
la risa perfecta, es
la única lucha digna que hay".
Charles Bukowsky

segunda-feira, setembro 02, 2013

Ode ao Sonhador

"Que as rugas do pão
E a curiosidade do gato
Desenhem o sorriso da criança.

Que o nervosismo da primeira vez
Faça propaganda a um eterno
Sentimento de idiotice e alimente paixões.

Que o ébrio racional descubra a
Superfície lunar num foguetão parado
À conversa com a senhora da portagem.

Que o comunista se ofereça para coçar costas
E o fascista lhe pague um copo
No bar de petiscos do papista.

Que o cabide seja qualquer casa
De um chapéu solarengo e dançarino
De tangos do Gardel.

Que as folhas por escrever
Sejam campos abertos ao adubar
Do rasto do P-38 de Saint-Exupéry.

Que Esparta faça amor com Tróia
E Aquiles não tenha calcanhar
No possuir heróico de Heitor.

Que a balsa seja o rio 
E o rio seja bálsamo feliz todo ano
E não só no anual Carnaval.

Que a primitiva seja conjunto
De pessoas reais à raiz quadrada
De uma humanidade exacta.

Que tu, eu, o gato, intrometido 
Malabarista, possamos almejar
O ronronar enroscado a uns pés estafados". 

8/XII/2006
À luz do velho aquecedor de varetas.
Para nunca deixarmos de sonhar.

Ode Triunfal - Álvaro de Campos

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica 
Tenho febre e escrevo. 
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto, 
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos. 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 
Em fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 
De expressão de todas as minhas sensações, 
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical — 
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força — 
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro. 
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro 
E há Platão e Virgíllo dentro das máquinas e das luzes eléctricas 
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão, 
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinqüenta, 
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, 
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, 
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma. 

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! 
Ser completo como uma máquina! 
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! 
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, 
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento 
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões 
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! 
Fraternidade com todas as dinâmicas! 
Promíscua fúria de ser parte-agente 
Do rodar férreo e cosmopolita 
Dos comboios estrênuos. 
Da faina transportadora-de-cargas dos navios. 
Do giro lúbrico e lento dos guindastes, 
Do tumulto disciplinado das fábricas, 
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão! 
Horas européias, produtoras, entaladas 
Entre maquinismos e afazeres úteis! 
Grandes cidades paradas nos cafés, 
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas 
Onde se cristalizam e se precipitam 
Os rumores e os gestos do Útil 
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! 
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! 
Novos entusiasmos de estatura do Momento! 
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostados às docas, 
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos! 
Atividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific! 
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis, 
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots, 
E Piccadillies e Avenues de l'Opéra que entram 
Pela minh'alma dentro! 

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule! 
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras! 
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos; 
Membros evidentes de clubes aristocráticos; 
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes 
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete 
De algibeira a algibeira! 
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! 
Presença demasiadamente acentuada das cocotes 
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?) 
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente 
Que andam na rua com um fim qualquer; 
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; 
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra 
E afinal tem alma lá dentro! 

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!) 

A maravilhosa beleza das corrupções políticas, 
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, 
Agressões políticas nas ruas, 
E de vez em quando o cometa dum regicídio 
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus 
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana! 


Notícias desmentidas dos jornais, 
Artigos políticos insinceramente sinceros, 
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes — 
Duas colunas deles passando para a segunda página! 
O cheiro fresco a tinta de tipografia! 
Os cartazes postos há pouco, molhados! 
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca! 
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, 
Como eu vos amo de todas as maneiras, 
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfato 
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) 
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar! 
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós! 

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! 
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência! 
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes, 
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria, 
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios! 

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos! 
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar! 
Olá grandes armazéns com várias seções! 
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem! 
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem! 
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! 
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! 
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! 

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. 
Amo-vos carnivoramente, 
Pervertidamente e enroscando a minha vista 
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, 
Ó coisas todas modernas, 
Ó minhas contemporâneas, forma atual e próxima 
Do sistema imediato do Universo! 
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus! 

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks, 
ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes — 
Na minha mente turbulenta e encandescida 
Possuo-vos como a uma mulher bela, 
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, 
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima. 

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! 
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! 
Eh-lá-hô recomposições ministeriais! 
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos, 
Orçamentos falsificados! 
(Um orçamento é tão natural como uma árvore 
E um parlamento tão belo como uma borboleta.) 

Eh-lá o interesse por tudo na vida, 
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras 
Até à noite ponte misteriosa entre os astros 
E o mar antigo e solene, lavando as costas 
E sendo misericordiosamente o mesmo 
Que era quando Platão era realmente Platão 
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro, 
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele. 

Eu podia morrer triturado por um motor 
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. 
Atirem-me para dentro das fornalhas! 
Metam-me debaixo dos comboios! 
Espanquem-me a bordo de navios! 
Masoquismo através de maquinismos! 
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho! 

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby, 
Morder entre dentes o teu cap de duas cores! 

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta! 
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!) 

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais! 
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas, 
E ser levado da rua cheio de sangue 
Sem ninguém saber quem eu sou! 

Ó tramways, funiculares, metropolitanos, 
Roçai-vos por mim até o espasmo! 
Hilla! hilla! hilla-hô! 
Dai-me gargalhadas em plena cara, 
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas, 
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, 
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria! 
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto! 
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, 
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam, 
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto 
E os gestos que faz quando ninguém pode ver! 
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva, 
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome 
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos 
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas 
Nas ruas cheias de encontrões! 

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, 
Que emprega palavrões como palavras usuais, 
Cujos filhos roubam às portas das mercearias 
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! — 
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escadas. 
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa 
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão. 
Maravilhosa gente humana que vive como os cães, 
Que está abaixo de todos os sistemas morais, 
Para quem nenhuma religião foi feita, 
Nenhuma arte criada, 
Nenhuma política destinada para eles! 
Como eu vos amo a todos, porque sois assim, 
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus, 
Inatingíveis por todos os progressos, 
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida! 

(Na nora do quintal da minha casa 
O burro anda à roda, anda à roda, 
E o mistério do mundo é do tamanho disto. 
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. 
A luz do sol abafa o silêncio das esferas 
E havemos todos de morrer, ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, 
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa 
Do que eu sou hoje... ) 

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! 
Outra vez a obsessão movimentada dos ônibus. 
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios 
De todas as partes do mundo, 
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, 
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. 
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! 
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores! 

Eh-lá grandes desastres de comboios! 
Eh-lá desabamentos de galerias de minas! 
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos! 
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá, 
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões, 
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim, 
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa, 
E outro Sol no novo Horizonte! 

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto 
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo, 
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje? 
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, 
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro, 
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico, 
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes 
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais. 

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar, 
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, 
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, 
Engenhos, brocas, máquinas rotativas! 

Eia! eia! eia! 
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! 
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente! 
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! 
Eia todo o passado dentro do presente! 
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! 
Eia! eia! eia! 
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! 
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! 
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. 
Engatam-me em todos os comboios. 
Içam-me em todos os cais. 
Giro dentro das hélices de todos os navios. 
Eia! eia-hô! eia! 
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade! 

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa! 
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia! 

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá! 

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! 
Hé-la! He-hô! Ho-o-o-o-o! 
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z! 

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!



Álvaro de Campos

sábado, agosto 31, 2013

"Feel the silence..."


"Grandmother’s coffee…" [Simple Pleasures, Great Moments] (Andanças, 2013)


Let’s dance… We have an orchestra just for us… In the middle of nowhere... (Andanças, 2013)


Just Buda... (Andanças, 2013)


"Fake rain helps when we miss it" (Andanças, 2013)


"A Hand Rises From the Earth" (Andanças, 2013)


Las Canicas


Los Bolindres


"Poetry at the center of all" (Óbidos, 2013)


Excerto de "A Mãe que Chovia", conto infantil de José Luís Peixoto


sexta-feira, agosto 30, 2013

"Onde se pensa?" - Gonçalo M. Tavares


Quando um filho abraças de verdade

Quando um filho abraças de verdade
Apercebes-te quão concreto é o presente.
Olha-lo e parece irreal. Adaptas-te.
Beija-lo. Cheira-lo e aceita-lo para a eternidade nesse momento.
Esse é o verdadeiro tormento:
Passar a oportunidade
E nunca ser abraçado.

António Orla, in "Dispersos Diários", 1988.  

Como posso ser

Ao Joseph Conrad. Que trevas temos e quais nos definem?

Como posso ser
Outra língua que
Não a que me pariu?

A materna, de terna só as vogais fechadas
Com que como escriba me assumo e uso.
Como ela a mim. Me usa e abusa.
Me sussurra e acusa
A condição de estrangeirado.

Eu. Predicado
em complemento circunstancial de lugar de adopção,
Que me vi exilado
Por querer ser mais que fado,
(Património intangível na hora da refeição)
Ou enfado na fila do supermercado
Se alguém me põe à frente o
Quão carente sou de manter a minha dignidade.

Por isso sou assim. Uma boca que escreve.
Um tempo que vive e se expõe na ponta de
Uma bic que fala ao acaso por assim se expressar,
Com a língua que tem à mão.

Acompanhado de um "café solo" nego a minha língua.
Nego Vieira e Pessoa. Não me prostro ante nenhum imperador
Porque de impérios, de quinta a sexta, estou farto.

Assim nego minha pátria. Porque é minha.
3 vezes, antes do galo que me salva, peregrino, da forca cantar.
Assim nego,
Perante Deus,
Perante Portugal.

Eu. Sujeito
E filho da puta da língua que me pariu.

20/VIII/2013

quarta-feira, agosto 21, 2013

"Classics Illustrated - O Presente de Natal e outras histórias" - O. Henry (Adaptação de Gary Gianni)

A par do "Pantera Negra" na feira do livro de Cascaiz, a moeda de 1€ foi dividida com o autor americano O.Henry. Desconhecia por completo este escritor do início do século XX, cuja biografia é curiosíssima e me despertou bastante interesse. 
Destacou-se principalmente como contista, a quem atribuem um ritmo frenético de um novo conto por semana. Próximo da realidade dos seus leitores, o pseudónimo do ex-recluso William Sydney Porter, afastou-se do realismo vigente e reintroduziu um romantismo na cena literária americana, cujo casamento entre o cómico e o melancólico se mantém actual e ironicamente sofisticado. 
Gostei particularmente dos contos “A Voz da Cidade” e o hilariante “As Panquecas de Pimienta”. 
Trata-se de uma adaptação à nona arte, mas uma excelente "entrada" para os contos que algum dia posso conhecer (ou não...).

Os seis anos de arte do meu sobrinho Quico, também ele um fã de comics. “Quem sai aos seus não degenera”, sinto. Não é todos os dias que alguém nos dedica um desenho, e estes valem muito… Obrigado Quico. Leremos muitos livros juntos!




O Triunfo dos Porcos - Jean Giraud-Marc Bati (Original de George Orwell)

Esta BD já é bem antiga e, nas minhas ávidas mãos leitoras, já tem mais de 11 anos. Este verão, voltei a tirá-la da estante e, em paralelo com o original "Animal Farm", pus os desenhos de Jean Giraud na minha cabeça enquanto lia a obra-prima de George Orwell. Sempre tão actual e adaptável a tantos "ismos"...

Inédito: "A Origem do Pantera Negra"

Da feira do livro em Cascais, do fundo de uma caixa de papelão desorganizada (e com livros de pontas enroladas), a troco de 0'50€ à senhora, de sotaque alemão, dos livros de segunda mão, aqui chegou as "Superaventuras Marvel, nº7" de janeiro de 1983 com o inédito: "A Origem do Pantera Negra" (atenção que não é o Eusébio!).
"Old Comics" no seu melhor!

domingo, agosto 18, 2013

Vidas y muertes ciclistas - Antonio Muñoz Molina



Vidas y muertes ciclistas

Las bicicletas son para el verano, pero no tienen defensa contra la barbarie

La bicicleta es una máquina tan literaria que cuando estaba casi recién inventada ya empezó a circular por las novelas. Leyendo este verano Misericordia he descubierto algo que no recordaba de esa novela asombrosa, que se publicó en 1897: uno de los personajes alquila una bicicleta para ir de Madrid a El Pardo. En el Madrid de arrabales macabros y personajes desgarrados que Valle-Inclán aprendió a mirar y a escuchar gracias a Galdós —dándole el pago ingrato que aún se le sigue celebrando— esa bicicleta insospechada es un sobresalto ágil de vida moderna en medio del atraso, el oscurantismo, la injusticia cruda y el pobreterío. Uno quisiera saber algún detalle más sobre ella, y se la imagina elevada y veloz, democrática, futurista, circulando entre carretones lentos, entre jinetes arrogantes y coches de caballos de la aristocracia. Marcel Proust sentía debilidad por todas las formas de transporte moderno, en particular los automóviles y los aeroplanos, pero cuando quiso contar la visión primera de las “muchachas en flor” que deslumbran a un adolescente en la claridad de un paseo marítimo las describió montadas en bicicletas, avanzando en bandadas con tules blancos y esos vestidos deportivos libres de perifollos barrocos y agobios de corsés que el hábito del ciclismo permitió a las mujeres en el cambio de siglo. H. G. Wells observó que cada vez que veía a un adulto subido en una bicicleta crecía su confianza en la posibilidad de un mundo mejor. Casi no hay adulto más difícil de imaginar en bicicleta que Henry James, tan estirado siempre en sus retratos, pero hay constancia de que intentó aprender a montarla, aunque con consecuencias desastrosas. Se lanzó por un camino rural y perdió el control de su bicicleta, atropellando, aunque no gravemente, a una niña que jugaba a la puerta de una granja. Que esa niña llegara a ser de mayor Agatha Christie es uno de esos grandes azares que a los aficionados a la literatura y al ciclismo nos maravillarán siempre.

A Ramón Casas le gustaba sugerir un erotismo moderno de mujeres ciclistas, mujeres en automóviles, mujeres fumadoras de cigarrillos. En uno de los mejores cuentos escritos en español, y también uno de los más tristes, La cara de la desgracia, Juan Carlos Onetti recobra de Proust el motivo del veraneo y de la muchacha ciclista. Pero quien la mira pasar desde un balcón es un hombre desolado que gracias a ella revive, deshaciéndose de deseo y ternura. Una figura en bicicleta es pasajera, pero no tan rápida que sea también fugaz. La vertical necesaria favorece el perfil. El ritmo del pedaleo resalta la belleza de las piernas.

Pero la cumbre del arte inspirado o alentado en torno a las bicicletas es quizás un corto de François Truffaut de 1957, Les mistons, un poema visual de 17 minutos que consiste sobre todo en largos planos sinuosos de una mujer muy joven, la actriz Bernadette Lafont, pedaleando descalza en una bicicleta, las piernas desnudas, el pelo y la tela del vestido liviano agitados por la brisa de la velocidad.

La bicicleta es una máquina silenciosa y perfecta, como un velero, tan práctica que uno se asombra de que también sea tan poética. Las bicicletas son para el verano, le dice un padre a su hijo adolescente en esa comedia triste en la que Fernando Fernán-Gómez puso lo mejor de su talento y lo más verdadero de su memoria y de su imaginación, el infortunio de crecer en una ciudad en guerra y la añoranza de un padre que era más entero y más noble porque en el caso de Fernando era un padre inventado. El verano puede ser un modesto paraíso para los aficionados a las bicicletas, sobre todo para los ciclistas de ciudad que lidian con el tráfico de los días laborables, más todavía en las ciudades españolas, que con dos o tres excepciones son tan hostiles no sólo para el que se atreve a ir en bici, sino para cualquiera que aspira a ejercer el derecho soberano y saludable a caminar de un sitio a otro.

Y también, desde luego, para los débiles, los lentos, los distraídos, los abuelos. Cuando se vuelve de países con tráfico más civilizado cuesta adaptarse a la agresividad crispada de tantos conductores en España. Nueva York no es precisamente Ámsterdam ni Copenhague en las facilidades que ofrece para moverse con seguridad en bicicleta, pero cuando yo vengo de Nueva York a Madrid y salgo con la mía noto que se me impone un cambio instintivo de actitud. Hay que estar mucho más alerta, más a la defensiva, vigilando siempre acelerones bruscos; hay que acostumbrarse a que la visible fragilidad de uno raramente le hará recibir alguna deferencia; incluso hay conductores que se vuelven más agresivos precisamente porque uno es frágil: como si se despertara en ellos esa impaciencia bronca del que da un acelerón en un paso de peatones, o deja cruzar a quien va despacio conteniendo el impulso del motor como si apretara los dientes, como si caminar lentamente fuera una ofensa que mereciera desprecio y en ocasiones castigo.

A las siete de la mañana, a la hora de la fresca, en ese silencio de las calles anchas y vacías en el que uno puede ir en bici como si planeara en un ultraligero, también puede ocurrir el espanto. Las bicicletas son para el verano, para el ejercicio saludable y la movilidad sin emisiones tóxicas, pero no tienen defensa contra la barbarie. Las bicicletas son para pasear holgazanamente, pero también para ir a diario al trabajo. Óscar Fernández Pérez, un camarero de 37 años, iba al suyo en Madrid el miércoles 6 de agosto cuando fue arrollado por un conductor que se dio a la fuga y lo dejó agonizando en la calle. Óscar Fernández Pérez está muerto y el malnacido que lo mató no tiene gran motivo de preocupación. En 2012 lo detuvieron por conducir borracho de forma “negligente y temeraria” y le retiraron el carnet. Pero en febrero de este año lo habían vuelto a detener conduciendo y el único castigo fue una ampliación en la retirada inútil del carnet. Con un historial así, y habiendo huido después de atropellar mortalmente a un ciclista, cabría esperar que la justicia lo tratara con algo de rigor. Pero en nuestro país las leyes y el sistema judicial protegen casi siempre a los poderosos contra los débiles, a los corruptos contra los honrados, a los bárbaros contra las personas apacibles, a los conductores contra los ciclistas y los caminantes. El golpe que mató a Óscar Fernández Pérez fue tan fuerte que su bicicleta despedazada quedó a 15 metros de su cuerpo, pero el juez ha considerado que el conductor sin carnet que lo atropelló y no tuvo ni la compasión de parar y ayudarle merece quedar en libertad con cargos, después de declarar. El único delito que su señoría ha apreciado es homicidio por imprudencia. La pena por acabar así con una vida va de uno a cuatro años. José Javier Fernández Pérez, hermano de Óscar, lo ha resumido mejor que nadie, con unas pocas palabras verdaderas: “La justicia es una mierda. Matar sale muy barato en este país”.


Antonio Muñoz Molina

(El País, 17-8-2013)



sexta-feira, agosto 16, 2013

terça-feira, agosto 13, 2013

Quero um lápis para pintar II

“Quero um lápis para pintar”
Disse-me o meu menino.
Pouco lhe tarda a vida a ensinar
Que o mundo não é pequenino.

Do papel ao lápis
Há um risco que separa
Cores, esperança, paixões
E o riso que monta e restaura
Os móveis IKEA mais difíceis
E na caixa cem livros de instruções.

Torpeza abstracta ou genuinidade
Inata marcada a lápis de cera, marcador,
Caneta de feltro, lápis de cor, aquarela?
Prevejo um potencial Pollock!
Uma sequela com querela
De croquete e beberete!
Ah, e para a arte um crítico!
(De preferência um tísico,
Para uma morte, com olheiras, lenta
De desalento por acreditar que há talento,
Aqui ou onde quer que exista!)

O empreendimento do meu menino
Não é um quadro do crescer,
Nem aprender a fazer arte
No bacio.
(A arrastadeira do tempo vem
E encarrega-se disso)

Na hora do agora,
Na aurora do seu ser
Só flui a fugaz linha de um lápis
A pintar o que quer

E não quer mais nada.

“Quero um lápis para pintar” I

“Quero um lápis para pintar”
Disse-me o meu menino.
Pouco lhe tarda a vida a ensinar
Que o mundo não é pequenino.

Do papel ao lápis
Há um risco que separa
Cores, esperança, paixões
E o riso que monta e restaura
Os móveis IKEA mais difíceis
E na caixa 100 livros de instruções.

Torpeza abstracta ou genuinidade
Inata marcada a lápis de cera, marcador,
Caneta de feltro, lápis de cor,
Aquarela?
Prevejo um potencial Pollock!
Uma sequela com querela
De croquete e beberete!
Ah, e para a arte um crítico!
(De preferência um tísico,
Para que morra de repente
^^^^^^^--------------------
E não ressuscite!)

O empreendimento do meu menino
Não é um quadro do crescer,
Nem aprender a fazer arte
No bacio.
(A arrastadeira do tempo vem
E encarrega-se disso)

Na hora do agora,
Na aurora do seu ser
Só flui a fugaz linha de um lápis
A pintar o que quer
E não quer mais nada.

Quero um lápis para pintar


segunda-feira, agosto 12, 2013

Sobre o trabalho. Rui Knopfli

"Eu trabalho duro e dificilmente a madeira rija dos meus versos, sílaba a sílaba, palavra a palavra".
Rui Knopfli

O balão do João

O balão do João
é um globo de ar
ao lado da cabeceira de um velho
a morrer num lar.

O balão do João
não é uma canção infantil.
É o gesto gentil de um neto,
uma criança, que sabe que
o balão do João
está quase a voar.
O amor também se encontra nos genes.

...

De olhos fechados nenhum olhar se cruzará com o teu.

domingo, agosto 11, 2013

O presente contínuo de uma alma ausente

Ao Jorge. O eterno jornalista da Casal Boss... Quem iremos entrevistar hoje? 

O presente contínuo de uma alma ausente
Vê-se na negação do verbo estar
Que, rejeitando a saudade, a consente.

Albergues perenes,
lágrimas humidamente teimosas nos duplos vidros
de janelas que cortam paredes erguidas na memória,
alicerçadas em raízes,
agarradas a fendas,
secas brechas,
ageométricas, cartografadas com o que vem à mão nos lugares da tua vida.

Epidermes e tezes.
Ébanos e marfins.
Sinais, sardas, cicatrizes,
Tatuagens de porventura.
Bem-aventurado o humano ou o humanitário?
Ditoso o espírito periodístico,
Estilístico, que exerce o contraditório!

Vês que até
Chove em África
O Alentejo seca.
É mentira na América
E de contas ao fim,
Não há anjos em Berlim,
Apenas nisso Wenders tem fé.

Com o consolo a solo
De bússola e quadrante,
Do instante nasce o viajante.
A bordo de um diário com gente
Dentro.

O acaso da boleia dá-te milhas.
Descontá-las-ás numa qualquer companhia.
Levar-nos-á à adolescente aduana que não nos pedirá identificação.
Encontrar-nos-emos em casa do meu pai.
Abrirás a mochila e ouvir-te-emos com atenção.

Foz do Arelho. Agosto. 2013.