sábado, novembro 30, 2013

Do blogue 'Bianda'


Ó Luís, de um blogue feito em Cabo Verde: se calhar dá para acrescentares a esse teu trabalho dos palavrões, esse work in progress:


Filhos Radicais (Pais segurando firme)

Naia: Pai, hoje começamos a aprender os ordinais: sexagésimo, septuagésimo, octogésimo..
Eu: Uau, consegues até dizer essas palavras todas de enfiada!...
Naia: É, a professora disse que são palavrões, mas palavrões que podemos dizer - tratou de pontuar.
Eu (com súbito interesse): Ah é? E que palavrões que não podem dizer?
Naia: Mas não posso dizer!!..Mas tu dizes, papá, quando estás chateado..Dizes muito um que começa com P e termina com A.
Eu: Ah é, digo tanto assim? Hmm...E que outros conheces?
Naia (com um sorrisão): conheço um que está em "computador"
AHAHAHAHAHAH (Saiu-me uma gargalhada dessas do fundo do poço!)
Eu (com acrescentado interesse): Que mais?
Naia: Tem um que começa com M e termina com A
Eu (apavorado com a direção da conversa / mantendo a pose de cool)
Naia:...Acho que só conheço esses 3... (ela deve ter lido uma prisão de ventre repentina na minha cara e saiu com esse tranquilizante)
Eu (fingindo autoridade): Mas diz-me, onde se aprende isso tudo?
Naia: Ora, os meus colegas dizem palavrões a toda hora!..(a safadinha se safou)


Blogue Bianda (pub. 13.11.13)




sexta-feira, novembro 22, 2013

O rapaz da camisola verde (Pedro Homem de Mello)



 Poema de Pedro Homem de Mello cantado por Sérgio Godinho.


O rapaz da camisola verde

De mãos nos bolso e de olhar distante,
Jeito de marinheiro ou de soldado,
Era um rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Perguntei-lhe quem era e ele me disse
“Sou do monte, Senhor, e um seu criado”.
Pobre rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Porque me assaltam turvos pensamentos?
Na minha frente estava um condenado.
Vai-te, rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Ouvindo-me, quedou-se o bravo moço,
Indiferente à raiva do meu brado,
E ali ficou de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Soube depois ali que se perdera
Esse que só eu pudera ter salvado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.


Pedro Homem de Melo



(Mais dados em Santa Nostalgia)





segunda-feira, novembro 18, 2013

Auto-retrato (Alexandre O'Neill)



Depois de reler mais uma vez o auto-retrato do grande Bocage, venha cá o auto-retrato do grande Alexandre O'Neill:


AUTO-RETRATO

"O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angustia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omite-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada …)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse ..."




quarta-feira, novembro 13, 2013

Segundo balcão dos bombeiros (Fernando Assis Pacheco)


SEGUNDO BALCÃO DOS BOMBEIROS

Nesse tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?

ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro

por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfaro
o happy end é coisa dos cinemas

Fernando Assis Pacheco

(Em Arlindo Correia)


domingo, novembro 10, 2013

Ofício de amar (Al Berto)



OFÍCIO DE AMAR

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio
de outras galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silencio.....
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo

Al Berto





quarta-feira, novembro 06, 2013

LISBOA-1971 (Jorge de Sena)













LISBOA-1971


O chofer de taxi queixava-se da vida.
Ganha 400$00 por semana, o patrão conta
que ele se arranje do a mais com as gorjetas.
Os meus amigos morrem de cancro,
de tédio, de páginas literárias,
vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu
na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele
só queria por enquanto «calçar» uma das
que, artificiais, lhe preparou tão róseas).
As pessoas esperam com raiva surda e muita paciência
o autocarro, aumento de ordenado, a chegada
do Paracleto, bolsas de sopa do convento.
Mas o chófer de taxi contou-me que
discutira com um asno e lhe dissera:
«...V. que nesse tempo andava a fugir
de colhão para colhão de seu pai
para ver se escapava a ser filho da puta...»
E é isto: andam de colhão para colhão
a ver se escapam – e muitos não escapam.
E os outros não escapam aos que não escaparam.

Lisboa, 5 Agosto 1971

segunda-feira, novembro 04, 2013

quinta-feira, outubro 31, 2013

no dia de todos os mortos

(por quem não me esqueci)

inteiriço e frio nasce o sol no dia de todos os mortos.
com um caminhar apagado
passo.
o vendedor arruma consolador
cada flor na bancada
(ordenada pelas mais tristes sortes)
margaridas, crisântemos, cravos, lírios
plantas canónicas sem santa sé.
umas outras tantas, pagãs, que não perecem.
plástico que impede o pranto das velas
e o solidificar das lágrimas,
como as salientes veias das mãos de quem as acende.
passo
à frente de gente que vela finados
e a porta do cemitério (sempre aberta) fechada a cadeados.
Eu passo.
(horário das oito às dezasseis, exceto feriados).
o olhar do vendedor e o meu cumprimentam-se num atalho
(conhecemo-nos e os nossos olhares também)
nunca lhe comprei nenhuma flor,
(para a dor tenho um jardim secreto)
e eu passo comigo oculto em reminiscências.
minhas.
dos meus.
dos que não me serão omitidos.
(já eu não sei se terei flores de época ou de molde perene de poliuretano
- hoje por hoje não quero- amanhã quem sabe?)
afasto-me, mas passo.
deixo os primeiros bafos a cristalizarem o ar
na breve chegada de mais um inverno.
passo e aparto-me do constrangimento da memória
aproveito a porta aberta aos cadeados do corpo
e a entreaberta janela curiosa do espírito.
vou fugindo enquanto posso.


MMXIII

segunda-feira, outubro 28, 2013

Maria dos mil sorrisos (Vitorino)



Havia muitos anos que não escutava esta beleza do amigo Vitorino. Dei por acaso com ela e que saudades, meu amigo!


MARIA DOS MIL SORRISOS

Maria dos mil sorrisos
Alma ao largo sem avisos
Coração a dar a dar

Lua nova em céu mortiço
te proteja do enguiço
e das fúrias d´além mar

Na rua onde tu passas
Mandei embora as desgraças
Num copinho de licor

No mistério da tua porta
encontrei morada certa
P´ra dar de beber à dor

Se me deres o teu retrato
Dou-te o meu lenço bordado
Com a flor do laranjal

Anda agora muito em moda
Trança negra rubra rosa
Rebuçados no amar

Maria não vás ao beco
Está cheio de figas e medos
Vê lá bem os meus cuidados

Dos teus olhos estou lembrado
Num dia no Bairro Alto
Seus amores tão delicados



domingo, outubro 27, 2013

.o voraz mercado

o voraz mercado
é um substantivo, insubstancial e selvagem,
pelos mortais concebido
a quem muita gente não lhe interessa que seja domado.

não é um cataclismo natural,
nem divina vontade.
é apenas plutocracia circunstancial,
capitalismo anti-social
sem senso comum,
apenas ânimo de numérico resultado,
para tragédia do necessitado
e abundância na algibeira que enche
de gente inconsciente que
num mundo onde não caiam umas migalhas para o pobre,
não há condomínio fechado que os aliene do cheiro a podre.

o metano é um gás que não tem nada a perder.
da imoral flatulência e verborreia a que se está habituado
brota a violência e o caos indiscriminado.
por isso, desacautelado mercado,

cuidado.

à parede encostada a puta segura um intervalo

à parede encostada a puta segura um intervalo, contado em milésimos de fios de tabaco consumido enrolado em anéis queimados de papel a cada cilíndrica passa.

entre lábios secos de amor o cigarro esvai-se em ofegar cansado lunar  e em saliva de ladrilho com restos de esperma sem nome.

antevê-se de perfil a lingerie de uma lua solitária que apenas o deixa de ser quando alguém que passa,
paga. 


Lienzo de Isabel Diaz Gómez - “naipe o mujer fumando” -1975