domingo, dezembro 02, 2018

«Chego, acendo a lareira...» - Miguel Torga

«Chego, acendo a lareira, aninho-me no sofá, e fico horas infinitas a olhar em silêncio as labaredas, imerso numa bruma de sentimentos a que não consigo dar voz. É aqui que eu sinto com mais pungência que nunca hei-de ter expressão à altura da minha alma.» - Miguel Torga (in «Diário»)

Não me esqueço ("La Casa" de Paco Roca)

Não me esqueço.
Deu-me frutos e sombra
essa figueira.

Nota de leitura:
La casa, é difícil vender a casa que nos construiu e impossível cortar a árvore que nos deu fruta e sombra. 
"En aquella higuera me olvidaba del hambre"... (in "La casa", Paco Roca, p.47)

sábado, dezembro 01, 2018

Final de tarde. Regresso a qualquer lado...

Final de tarde.
Regresso a qualquer dos
lados que habito.

Dia 1 de Dezembro e o 1° Presépio (contagem decrescente para o Natal)

Ver o Natal brilhar nos olhos dos meus filhos faz-me fazer um esforço por recuperar a época natalícia da minha infância. Longe do consumismo do século XXI, fazer o presépio e a árvore de Natal em casa dos meus pais marcava a contagem decrescente para o dia 25 de Dezembro. Lembro-me do primeiro pinheiro artificial que tivemos (acabou em casa dos meus avós) e das figurinhas do presépio que a minha mãe foi juntando ao longo dos anos. Ir ao musgo, procurar essa relva em miniatura, era uma tarefa que significava estar quase a chegar a celebração do nascimento do Menino Jesus. O presépio fez-se, durante anos, no lugar da lareira onde não a acendíamos e que só mais tarde teve salamandra. Retirávamos a caixa de Skip dos meus brinquedos e a braseira de cobre de decoração para, durante mais ou menos um mês, erguermos uma aldeia cujos lagos eram fragmentos de espelhos, a vegetação musgo da quinta ou do descampado em frente de casa, e a neve, essa precipitação que só viria a conhecer bem gaiatão, eram dedos polvilhados de farinha. Por entre pastores, rebanhos, Leonores a irem à fonte, poços em colinas e pontes em água estagnadas a refletirem a minha inocência, lá foram Playmobiles, Legos, GI Joes e até o He-Man e o Skeletor, junto aos Reis Magos, adorar o recém-nascido salvador.
Verdade que o presépio da minha meninice foi guardado nessa caixa de lata azul e foi subtraído, acho eu, para casa da minha irmã. A minha mãe tem vários presépios nas vitrines da sala de jantar. Herdou esse gosto da infância que só nos últimos anos pôde consolidar. Mas o seu humilde presépio, o primeiro, teve três infâncias: a dela, a da minha irmã e a minha.
Hoje, com um presépio «Made in China» e musgo virado a norte no nosso campo aberto à infância dos nossos filhos, fizemos o nosso primeiro «Portal de Belén» n'Acourela. Para eles, como para mim, as figurinhas pouco diferem da bonecagem com que brincam, porém o acto é simples e solene. Só se faz uma vez ao ano. Mais do que nascer, pode ser que signifique um renascer. Um pouco melhor, um pouco mais puro, um pouco mais criança.

Presépio d'aCourela do Alentejo

sexta-feira, novembro 30, 2018

«En la veleta el viento monta en bicicleta» - Ramón Gómez de la Serna

«En casa del poeta» - Ramón Gómez de la Serna

En casa del poeta:
- ¿Qué tenemos esta noche?
- Haikai con perejil.

"Cenando con Ramón" (autor desconocido)

«El sillín de la bicicleta está hecho con dos muelles locos» - Ramón Gómez de la Serna

Recordamos Assis Pacheco

Fotografia de Joaquim Duarte em vidas & memórias de uma comunidade


Neste dia de 1995 morreu Fernando Assis Pacheco na livraria Buchholz de Lisboa, no mesmo dia que Fernando Pessoa, 60 anos atrás.


RONDA DOS POVOS

Adeus Quissala, Quimuanassala,
Hihinga-Zambi.
Adeus Mussesse, lavras mortas.
Poeira trazida pelo vento.

Adeus Calala, Canacassala,
Quimaio, Tabi.
O tchimbeco está vazio.
Passam os porcos do mato.

Adeus Hungo, povo do Hungo,
Fui lá uma sexta-feira
e era cinza, coisa pouca.
O capim vai comer-te.

Adeus Cazanga, Quimazanga,
Caguenguele, Mufuca, Praia.
Adeus Quijai, Cabári, Chengue.
Apodreceis ao sol.

Fernando Assis Pacheco




quinta-feira, novembro 29, 2018

«El dolor psíquico» - Ana Olivera

«(...) el dolor psíquico es un planeta desconocido para quien no lo habita.» - Ana Olivera, in «Del otro lado», p. 37.
Ana Olivera, "Del otro lado"

“Mi alma y mi perro”/“A minha alma e o meu cão” – Fernando Aramburu (in “Autorretrato sin mí”, pp. 121 e 122)

“Mi alma y mi perro” – Fernando Aramburu 

En este armario guardo mi alma. Entre camisas y pantalones cuelga, limpia y planchada, de su percha. Por tratarse de una prenda valiosa la llevo conmigo solamente en ocasiones especiales. Un alma es para toda la vida. Un alma no se arregla. Si se rompe no hay otra.

Por eso la reservo para cuando voy a sitios adonde no se debe de ir sin alma. Cuando voy al poema, por ejemplo. Cuando acerco el olfato a una flor aromática o cuando, al alzar la copa de buen vino, dirijo unos instantes a los colores de la tarde.

De niño, en cambio, no iba sin mi alma a ningún sitio. Ni para dormir me la quitaba. La echaba a volar junto a los ángeles que surcaban en bandada el cielo de mi infancia. Me complacía columpiarme con ella en las campanas. Y, al caer la noche, se la enseñaba a Dios, que de tanto conversar conmigo me parecía un miembro más de mi familia.   

El caso es que ya no salgo casi nunca con el alma a la calle. Se me hace que la gente, al verme, lo va a saber todo de mí. O que el viento y la lluvia me podrían arruinar. Los ángeles, mientras tanto, emigraron lejos, a otras infancias, y Dios murió como mueren todos los abuelos entre dos crepúsculos.

Eso sí, cuando me pongo el alma gano en dimensiones. Me revisto de una atmósfera que me hace más brillante que mi perro. Soy de pronto transparente. Soy un depósito de resplandores. Soy espiritual. Ataviado con mi alma, me prolongo en altura; alcanzo mayor profundidad y me dilato, en fin, en todas direcciones hasta dejar atrás la última estrella transitoria.

Pero luego, al borde de la eternidad, me cruzo con la mirada de mi perro, sentado y melancólico cerca de la puerta con su alma peluda de perro, y no sé qué me da dejarlo allí solo, abandonado a horas polvorientas, sin nadie que le hable ni le ponga la comida. Vuelvo entonces sobre mis pasos y hasta la saliva me sabe a amistad. Restituida la percha del armario a la ingrávida envoltura, me visto mis humildes y carnales pingos de diario, acaricio al perro, lo saco a pasear.  

“A minha alma e o meu cão” – Fernando Aramburu 

Neste armário guardo a minha alma. Entre camisas e calças está pendurada, limpa e passada a ferro, no seu cabide. Por tratar-se de uma peça valiosa apenas a uso em ocasiões especiais. Uma alma é para toda a vida. Uma alma não se arranja. Se se rasga não há outra.

Por isso reservo-a para quando vou a sítios onde não se deve ir sem alma. Quando vou ao poema, por exemplo. Quando aproximo o olfato a uma flor aromática ou quando, ao alçar o copo de bom vinho, dirijo uns instantes às cores da tarde.

Em criança, ao contrário, não ia sem a minha alma a nenhum sítio. Nem para dormir a tirava. Lançava-a a voar junto aos anjos que sulcavam em bandada o céu da minha infância. Agradava-me balançar-me com ela nas campanas. E, ao cair a noite, mostrava-a a Deus, que de tanto conversar comigo me parecia um membro mais da minha família.   

A realidade é que já não saio quase nunca com a alma à rua. Parece-me que a gente, ao ver-me, saberá tudo sobre mim. Ou que o vento ou a chuva ma poderiam arruinar. Os anjos, entretanto, emigraram para longe, para outras infâncias, e Deus morreu como morrem todos os avós entre dois crepúsculos.

Isso sim, quando ponho a alma ganho em dimensões. Revisto-me de una atmosfera que me faz mais brilhante do que o meu cão. Sou de imediato transparente. Sou um depósito de resplandores. Sou espiritual. Ataviado com a minha alma, prolongo-me em altura; alcanço maior profundidade e dilato-me, enfim, em todas as direções até deixar atrás a última estrela transitória.

Porém, logo que, à beira da eternidade, me cruzo com o olhar do meu cão, sentado e melancólico próximo da porta com a sua alma peluda de cão, e não sei porquê me dá para deixá-lo ali sozinho, abandonado a horas poeirentas, sem ninguém para falar-lhe ou pôr-lhe a comida. Volto então sobre os meus passos e até a saliva me sabe a amizade. Restituído o cabide do armário à envoltura sem peso, visto os meus humildes e carnais trapos do dia-a-dia, acaricio o cão, levo-o a passear. 

(in “Autorretrato sin mí”, pp. 121 y 122) 
Autor desconhecido

Um papel e uma pedrinha

Que eu sou um bocado neandertal é algo já adquirido e assumido. Sou um bocado abrutalhado nos hábitos, espartano em alguns costumes e um grande maricas (leiam a palavra como quiserem) noutros. Sou tão bom a cumprir regras como a questionar outras. Neste caso tem a ver com brinquedos.

O meu filho mais novo, agora no seu primeiro ano de jardim de infância, não pode levar brinquedos de casa para o colégio. Assim nos pediu a educadora, assim nos foi justificado com critérios que nos parecem justos e inteligentes, e, desde sempre, os objectos lúdicos domésticos não frequentam a escola. Não me custa cumprir esta regra e reiteramos estar totalmente de acordo com ela.

Porém, o meu pequenito, com o carácter típico e o desenrascanço de irmão mais novo, todos os dias tenta levar (inclusivamente à socapa) alguma das suas brincas consigo. Aí, o polícia que há nas minhas funções parentais é inflexivel e confisca antes da saída de casa tal material cheio de histórias e sonhos que mal falam.

Tenho a característica de não mexer um músculo facial mesmo que, por dentro, me esteja a escangalhar a rir. Isso é o que me separa da autoridade e do autoritarismo. Tento explicar e, em casa, é raro explicar mais do que três vezes. Se a argumentação democrática não é suficiente, impõe-se a ditadura. Por vezes custa-me esse golpe de Estado caseiro, mas tem de ser.

A sua rebeldia ganha força na sua imaginação. Os seus três anos sem preconceitos nem definições consumistas de brinquedos, enganam a postura parental, o veto imposto desde casa, e um papelinho e uma pedrinha ganham vida nos seus dedos e habitam nos bolsos das suas calças e dos seus casacos.

À porta do colégio, na fila para o seu dia-a-dia, vejo como os outros pais deixam os seus filhos levarem figuras de acção quase do tamanho dos seus próprio filhos, escudos, carrinhos e tantas outras coisas às quais já não presto atenção. O meu filho, ainda sem vergonha de ter o que é possível ter, mostra a sua pedrinha, uma pequenita china polida pelo Guadiana e pelos seus deditos, e o seu papelinho rabiscado em casa enquanto o irmão fazia os TPC.

O eu neandertal, abrutalhado, espartano nos hábitos e um grande maricas, emociona-se e duvida de todos os regimes que tem de impor para educar.
Quando toca, vão todos a correr para a fila onde a mochila lhes guarda o lugar. Ajudo-o a pôr bem as alças e ainda nos abraçamos. Digo-lhe que se porte bem e que o amo. Despeço-me com um «logo o papá vem-te buscar».

Afasto-me mais da fila do que a maioria dos pais. Talvez o faça porque já vivi esta etapa com um mais velho que já entra sozinho na escola, porque não tenho paciência de espírito graxista para estar de roda da educadora a falar das últimas técnicas pedagógicas e de puericultura ou talvez porque sou neandertal, abrutalhado, e não quero que os demais pais conheçam esse eu. Mas o que me diz o papel e a pedrinha vale mais por tudo o que se possa conhecer de nós.

quarta-feira, novembro 28, 2018

Os putos brincam

Os putos brincam.
Em cima do sofá a
gata observa.

«Lo más bonito de la bicicleta es su sombra» Ramón Gómez de la Serna

Lo más bonito de la bicicleta es su sombra - Ramón Gómez de la Serna

Lençóis quentes

Lençóis quentes e
lá fora noite fria.
Um duplo prazer.

Autor desconhecido

El capote «alentejano» - Ramón Gómez de la Serna

El capote «alentejano», ese capote lleno de esclavinas hasta la cintura y con un cuello de piel de conejo, sigue siendo la gran prenda epopéyica de Lisboa. Hemos dado un ideal abrazo, el abrazo del «volverse a ver», a ese capote «alentejano», «¡Hola! ¡Hola!... Otra vez por aquí». 

O capote «alentejano», esse capote cheio de esclavinas até à cintura e com uma gola de pele de coelho, continua a ser a grande peça de roupa epopeica de Lisboa. Demos um abraço ideal, o abraço do «voltar-se a ver», a esse capote «alentejano», «Olá! Olá!... Outra vez por aqui». 

Ramón Gómez de la Serna, in «Pombo», p.395
Autor desconhecido ("pinterest")