sexta-feira, abril 05, 2019

Ontem... e hoje


Ontem, confessava a amigos que no último ano sentia como se houvesse sido invadido por sentimentos antes ignorados ou não reconhecidos. «É uma etapa da vida», dizia o Javier e assentia o Adolfo, com quem vivi uma intensa tarde de Abril, ao assistirmos à conferência de Sonja Vrscaj, prisioneira 82386 de Auschwitz, no CPR de Badajoz, e ao ouvirmos os versos, a sangrar, de Maria do Rosário Pedreira, na Aula de Poesía Díez-Canedo, logo a seguir.
Pode a poesia salvar-nos? E recordo-me de Adorno e de Celan.
Acredito que sim, enquanto tivermos memória e lutarmos para a manter viva, como hoje está a fazer o meu amigo José Manuel Corbacho, na cidade das minhas pequenas memórias, Évora.

Ayer, confesaba a amigos que en último año sentía como se hubiese sido invadido por sentimientos antes ignorados o no reconocidos. «Es una etapa de la vida», decía Javier y asentía Adolfo, con quien viví una intensa tarde de Abril, al asistir a la conferencia de Sonja Vrscaj, prisionera 82386 de Auschwitz, en el CPR de Badajoz, y al escuchar los versos, sangrando, de Maria do Rosário Pedreira, en el Aula de Poesía Díez-Canedo, justo después.
 ¿Puede la poesía salvarnos? Y recuerdo Adorno y Celan.
 Creo que sí, mientras tengamos memoria y luchemos por mantenerla viva, como hoy lo está haciendo mi amigo José Manuel Corbacho, en la ciudad de mis pequeñas memorias, Évora.




Três cañas...

Não posso emocionar-me e não posso beber três cañas. É a conclusão a que chego.
Talvez as cañas só confirmem, com álcool, a emoção que me desperta todos os sentidos e me traz a noite branca.
Hoje, confessava a amigos que no último ano sentia como que fosse invadido por sentimentos antes ignorados ou não reconhecidos. «É uma etapa da vida», dizia o Javier e assentia o Adolfo, com quem vivi uma intensa tarde de Abril, ao assistirmos a uma conferência de uma sobrevivente de Auschwitz, no CPR de Badajoz, e ao ouvirmos os versos desgarradores de Maria do Rosário Pedreira, na Aula de Poesía Díez-Canedo, logo a seguir.
Pode a poesia salvar-nos? Acredito que sim. Porém, a mim, nestes últimos tempos, anda a passar-me facturas nocturnas uma qualquer fragilidade à qual não devo misturar outros estimulantes, poesia incluida, correndo o risco de chegar à exaustão.

Uma bela canção

Uma bela canção não tem porque ter música. Não tem porque conhecer acordes para que nos toque todas as melodias do silêncio que nos exige um momento.
Uma bela canção acaba sempre por ser cantada. Escapará às grades da timidez e ao decoro da humildade. Vive, desde o primeiro verso, para encontrar voz e na voz será pautada para o infinito, onde se gravam sentires e sentidos.
Hoje o nosso Pedro cantou, em tão pouco, tudo o que é. 
Privilegiado, como sempre, assisti. E agradeci, com uma oração profana, para que tão preciosas palavras conheçam o êxodo e não retornem à sua gaveta.

Alfredo

Passa-me a mão na cara
e vê como cresci menino de mim.

Passa-me a mão na cara
e vê como ela se foi para sempre
sem nunca deixar de pensar em ti,
nela e tudo aquilo que jamais vivi.

Passa-me a mão na cara
e derruba-me a máscara
imposta pela arte que nos deu vida
e nos projetou naquela noite de Verão
em que a chuva me trouxe o amor
verdadeiro pela última vez.

Passa-me a mão na cara
e sente a água das lágrimas
da criança que te salvou do fogo
com a pele enrugada de quem
acompanha o rasto do carro funerário.

Passa-me a mão na cara, Alfredo.
Sou eu, o Toto. Confessaste-te por mim
Deus e deixaste-me a eternidade em pedaços de fotogramas.

Não sei se irás para o paraíso.
Seja para onde fores,
de certeza,
alguém te deixará copiar.

quarta-feira, abril 03, 2019

"A adição às selfies" -Byung-Chul Han


A adição às selfies não tem muito a ver com um saudável amor de si mesmo: não é mais do que a marcha no vazio de um eu narcísico que ficou só. Perante o vazio interior, o sujeito tenta em vão produzir-se a si mesmo. Mas é só o vazio que se reproduz. As selfies são o eu em formas vazias. A adição às selfies intensifica a sensação de vazio. O que leva a uma adição assim não é o saudável amor de si mesmo, mas uma autorreferência narcísica. As selfies são belas superfícies lisas e lustrosas de um eu esvaziado e que se sente inseguro. Hoje, para se escapar ao vazio atormentador, deita-se mão ou à lâmina de barbear ou ao smartphone. As selfies são superfícies lisas e lustrosas que ocultam por um breve tempo o eu vazio. Mas se as virarmos da frente para trás, deparamos com o reverso coberto de feridas e que sangra. As feridas são o reverso das selfies.

Byung-Chul Han, A Expulsão do Outro, Lisboa, Relógio D’Água, 2018, p.35.

Byung-Chul Han


Ángel Campos regressa a Lisboa...


Álvaro Valverde recordou, com razão, que Ángel Campos regressa a Lisboa. Quiseram as circunstâncias que o acompanhasse, fruto de “A Semente na Neve”, até à Fundação José Saramago no próximo dia 12 de Abril.


Eu, cada vez mais habituado a traduzir coisas, tenho dificuldade em enunciar a capital do meu país, a cidade à qual, na minha meninice alentejana, se ia fazer pela vida ou terminá-la... Porém, é linda, “la ciudad blanca”, tal como Ángel a viu, com o Tejo a desaguar em qualquer alma ibérica.

Álvaro Valverde recordó, con razón, que Ángel Campos regresa a Lisboa. Quisieron las circunstancias que lo acompañase, fruto de “La semilla en la nieve”, hasta la Fundación José Saramago el próximo día 12 de Abril.

Yo, cada vez más acostumbrado a traducir cosas, tengo dificultad en enunciar la capital de mi país, la ciudad a la cual, en mi niñez alentejana, uno iba a buscarse la vida o a terminarla… Sin embargo, es preciosa, “la ciudad blanca”, tal cual como Ángel la vio, con el Tajo desembocando en cualquier alma ibérica. 

Convite


terça-feira, abril 02, 2019

Maria do Rosário Pedreira em Badajoz


No dia 4 de abril, podemos ouvir Maria do Rosário Pedreira ler e falar dos seus versos na Aula de Poesía Enrique Díez-Canedo, de Badajoz.

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.

Maria do Rosário Pedreira

In O Canto do Vento nos Ciprestes (2001)

En lyrikline.org podemos ouvir a autora ler este poema.

Fotografia de Aurélio Vasques

Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.


Nenhum Nome Depois (2004)


segunda-feira, abril 01, 2019

O deserto do idêntico

O deserto do
idêntico alastra
triste verdade.

Ramón visto por Pablo Neruda

A Ramón Gómez de la Serna lo conocí en su cripta de Pombo, y luego lo vi en su casa. Nunca puedo olvidar la voz estentórea de Ramón, dirigiendo, desde su sitio en el café, la conversación y la risa, los pensamientos y el humo. Ramón Gómez de la Serna es para mí uno de los más grandes escritores de nuestra lengua, y su genio tiene la abigarrada grandeza de Quevedo y Picasso. Cualquier página de Ramón Gómez de la Serna escudriña como un hurón en lo físico y en lo metafísico, en la verdad y en el espectro, y lo que sabe y ha escrito sobre España no lo ha dicho nadie sino él. Ha sido el acumulador de un universo secreto. Ha cambiado la sintaxis de idioma con sus propias manos, dejándolo impregnado con sus huellas digitales que nadie puede borrar. 

in Pablo Neruda, Confieso que he vivido, Barcelona, Plaza&Janés Editores, S.A, 2002, p. 157.