sábado, dezembro 31, 2016
quinta-feira, dezembro 29, 2016
terça-feira, dezembro 27, 2016
"Pássaros dum tiro" por Luis Leal (in revista "Mais Alentejo" nº 136)
Sei pouco sobre ornitologia. Há por esta península tantos bandos de aves à solta que isso ajudar-me-ia a compreender melhor o nosso habitat. Tal como observar pássaros, ouvir música é bastante prazenteiro para uma alma simples como a minha. Se posso, faço-o em simultâneo, de fones nos ouvidos e binóculos nos olhos, misturando aves, algumas raras, e melodias. Seria mesmo capaz de compilar uma banda sonora ornitológica. Ainda sou daqueles que aprenderam a entender o conceito de álbum mas, por pragmatismo, também faz “playlists” de momentos e ocasiões. Boas letras e trovas, para mim lírica pura, evadem-me de controvérsias, conceitos de estanqueidade literária e “nóbeis” atribuições.
Poucas vezes cheguei a um cantautor por conta própria, quase sempre alguém, ou algo, me guiou. Ligo bastante à crítica e às recomendações de uma amiga chegada, a casualidade.
A viajar, ainda adolescente pela palma da mão do Duarte Coxo (amigo além do fado), cheguei ao Jorge. O Sérgio acompanhava as noites bem passadas na casa do mestre Jorge Neto. Graças ao ouvido versado do meu cunhado Francisco von Gilsa conheci Joaquín, “el hombre del traje gris”. No entanto, não sei graças a quem ou o quê, fui apresentado ao Juan Manuel. Quatro melros de guitarra a tiracolo, jograis do meu e do tempo dos meus pais, que se deixaram apanhar nas minhas arapucas e, graças a artimanhas de caça para alimentar algo mais que o meu corpo, são magníficos exemplares das minhas capturas como caçador de versos e cantigas.
“Só” por existir, só por caminhar por bairros de amor e em alguns lados errados da ingenuidade, descansei num qualquer “Domingo no Mundo”. Descobri que também Rimbaud andara por desertos do amor e, no primeiro dia do resto da minha vida, mergulhei num mar inconcebível, “Pongamos que hablo de Madrid”, onde até a passarada vai ao psiquiatra e as princesas não querem ser princesas. Ali, no cruzamento de todos os caminhos, rumei ao “Mediterrâneo”, à cidade condal, assumindo a minha afeição por Antonio Machado e Miguel Hernández. A Hernández só pedi perdão por o Portugal de Salazar o ter entregado à “Guardia Civil” ao tentar cruzar a fronteira para exilar-se dum franquismo que o “mataria sem música, com os seus grandes olhos azuis abertos soterrados debaixo do vazio ignorante”.
Desde o ninho se aprende a voar, desde um esconderijo tornado público se levantam voos solitários. Passadas horas ermitas a subir céu aprende-se a contemplar a companhia, a sincronia, dum bater de asas experiente e carregado de sabedoria. Se a solo o Jorge Palma e o Sérgio Godinho são magníficos, juntos são soberbos. Aqui em Espanha, o mesmo se aplica a Joaquín Sabina e a Juan Manuel Serrat, esses amigos tão diferentes que podiam ter nascido do mesmo parto.
Curiosamente, encontro muitas parecenças urbanas, com tendência a pisar o acelerador do excesso, nas obras de Palma e Sabina. Igualmente nas de Godinho e Serrat, ambas interventivas e fraternais. Sei que Jorge Palma conhece o Joaquín Sabina. Num final dum concerto, envergonhado mas atrevido, perguntei-lhe enquanto lhe pedia um autógrafo. Quanto aos outros, não faço a mínima ideia, porém espero atrever-me a perguntar ao Sérgio Godinho, aquando da sua “tourné” poética por Badajoz, Cáceres e Plasencia, sobre o seu congénere Serrat.
Quando me falam de destino, costumo dizer não acreditar no determinismo da palavra. Não o digo muito convicto, digo-o com a “boca pequenina”, recordando o obstetra da família quando se fala de ampliar a família. Mas, se tal sina, desígnio cósmico, fado, ou qualquer outro sinónimo sem volta atrás, existe, espero que em pleno voo, a sobrevoar a península, estes pássaros se cruzem. Prometo estar atento, como bom caçador, sem munição, só com o coração.
domingo, dezembro 25, 2016
A arte sem afeto de nada me serve. São palavras vazias, notas soltas, imagens perdidas e melodias sem ritmo para os meus dias. É como sapatos bonitos que tenho mas que uso pouco porque não são cómodos ao caminhar. Sempre opto pelos velhinhos, sem estética nem moda, mas que me aparam os pés como mais nenhuns.
"Uma ideia de Bíblia" - Frederico Lourenço
"A Bíblia é uma narrativa em que o herói é filho de um carpinteiro e as restantes personagens são pastores e pescadores. Julgo que isso é muito revolucionário e interessa-me compreender como é que esse mundo greco-romano, no qual esse tipo de literatura era desconsiderado, se deixou conquistar. Podemos pensar que A mensagem de Jesus de Nazaré se dirigia aos judeus, mas o que ele acabou por conquistar verdadeiramente foi o mundo greco-romano, que não dava o mínimo de crédito a pescadores e a carpinteiros." in "Revista Visão", 15/XII/2016
sábado, dezembro 24, 2016
Luzes de Natal
Todos os anos, desde que comecei a conduzir, ia mostrar as luzes de Natal da minha cidade aos meus avós. A vida idosa de periferia não lhes facilitava deslocarem-se com o fim de visitarem o ambiente natalício do centro histórico. O Natal éramos nós, as luzes eram artificiais mas não falhavam a iluminar-nos.
Hoje cumpri esse ritual com os meus filhos. E os meus avós estavam connosco.
sexta-feira, dezembro 23, 2016
Alarme: Bicicletas! (por Eduardo Galeano)
- A
bicicleta fez mais que nada e ninguém pela emancipação das
mulheres no mundo – Dizia Susan Anthony.
E
dizia a sua companheira de luta, Elizabeth Stanton:
- As
mulheres viajamos, a pedalar, em direcção ao direito de voto.
Alguns
médicos, como Philippe Tissie, advertiam que a bicicleta podia
provocar aborto e esterilidade, e, outros colegas, asseguravam que
este indecente instrumento induzia à depravação, porque dava
prazer às mulheres que roçavam as suas partes íntimas contra o
assento.
A
verdade é que, por culpa da bicicleta, as mulheres deslocavam-se por
sua conta, desertavam do lar e desfrutavam do perigoso gosto da
liberdade. E, por culpa da bicicleta, o opressivo espartilho, que
impedia de pedalar, saía do roupeiro e ia ao museu.
(Tradução:
Luis Leal)
quarta-feira, dezembro 21, 2016
Aproxima-se o Natal...
Aproxima-se o Natal. O mundo afasta-se da solidariedade da época. Em Alepo não há milagres. Na Alemanha os mercados natalícios são vítimas de atentados. Nos EUA, um tirano de cabeleira loura prepara-se para subir ao poder com a amizade duns russos que veem morrer os seus às mãos dum vil alcoolismo que se consola, na ausência do vodka, com garrafas de colónia...
No quarto ao lado, dorme uma estrelinha e um pinheirinho. Por eles vivo o Natal e por aqueles que se afastam de serem humanos... Por mim, que me afasto de mim.
Civilidade (Alberto Pimenta)
CIVILIDADE
não tussa madame
reprima a tosse
não espirre madame
reprima o espirro
não soluce madame
reprima o soluço
não cante madame
reprima o canto
não arrote madame
reprima o arroto
não cague madame
reprima a merda
e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?
ok, monsieur.
Alberto Pimenta
Recitado por Luís Gaspar em Estúdio Raposa
quinta-feira, dezembro 15, 2016
Lembra-me um sonho lindo (Fausto)
terça-feira, dezembro 13, 2016
domingo, dezembro 11, 2016
Seis anos, parte II (9/XII/2016)
Cumprem-se hoje seis anos que descobri que o amor se escreve
a caneta e não se apaga… Parabéns
filho! Seis anos únicos, teus, nossos… / Se cumplen hoy seis años que descubrí
que el amor se escribe con boli y no se borra… ¡Felicidades hijo! Seis
años únicos, tuyos, nuestros…
sexta-feira, dezembro 09, 2016
6 anos
Hoje o Santiago faz 6 anos e está a escrever esta entrada comigo no telemóvel. É um dos momentos mais importantes das nossas vidas. Ele está a ler isto em voz alta. Será que um dia ele se recordará de o estarmos a fazer, lado a lado, cabeça com cabeça, dedo a dedo?
Agora o quê, pergunta ele?
Vamos publicar, digo-lhe eu.
quinta-feira, dezembro 08, 2016
Ferramentas e afeto
A Amélia e Francisco Nunes, "In memoriam"
Aceder a ferramentas é
fundamental para que qualquer obra se edifique. A ferramenta é uma extensão da
mão, moldada à necessidade e caracterizada pelo engenho, como tal, quando não
se têm os utensílios adequados, o projeto tende a ser mais duro de trabalho,
lento, algo tosco, longe dos padrões da perfeição exigida.
Em casa havia ferramentas
suficientes, nem todas específicas, mas sempre tive a sorte de alguém mas
emprestar com confiança e generosidade. Isso não impede que a casa da nossa
infância se vá desabando na Rua Reguengos de Monsaraz. Não a terminámos a
tempo. É imperfeita por medos e ingenuidade, no entanto, tal como a capela do
Mosteiro da Batalha, é bela na sua história e não faz falta ver-se acabada.
Atualmente tenho as
minhas ferramentas. Aprendi a desenrascar-me, a fabricar algumas por conta
própria, mas continuo a ir frequentemente à garagem do Chico Nunes pedir-lhe
ferramentas emprestadas. Um alicate específico em pontas, uma broca de
diamante, uma chave de bocas ou se posso usar o torno na sua bancada tão
organizada que me faz querer ter uma igual na qual seja capaz de escrever um
poema e soldar ao mesmo tempo.
Lá está o meu vizinho
favorito, músico militar em camisola de alças, a ensaiar com o seu saxofone. Bem
me quer ensinar solfejo, porém o ritmo da minha maturidade tarda, é irregular
como o dos amantes e nunca poderá executar música porque só serve para frui-la.
No meio desta garagem, organizada por serventias, ouço o sopro dum jazz futuro
e improvisado, o canto biográfico dum "Bird" e revejo-me na
camaradagem do Clarence Clemons na obra, de mangas arregaçadas, do “Boss”
Springsteen.
"Leva o que quiseres
Pintainho", diz-me com voz grave, brilhante, igual ao saxofone cuidado
pelas suas mãos. Confia em mim e eu nele. É uma alegria vê-lo na missa a tocar
na banda do Jesus com cara de quem não está chateado comigo por eu odiar que a
minha mãe me obrigue a ir à missa todos os domingos. Foi a melhor aquisição
para a capelinha da Senhora da Saúde e eu sinto-me melhor ao vê-lo aí. Até os
grandes homens, másculos e fortes, vão à missa, logo a minha virilidade não
está ameaçada pela beatice a que a minha mãe me obriga.
Não há ferramenta que
detenha o tempo, muito menos que o concerte. Da época da garagem, da Eucaristia
dominical imposta, passando pela única classe que algum dia tive - porque o meu
vizinho Chico, com tanta paciência e carinho me dava o nó na gravata, agradado
por ser o eleito da minha amizade, da minha admiração, sempre me dizia "o
meu Pintainho" – chego a este dia.
Também não há ferramenta,
de pleno juízo, que me tire a alegria em recordar ir ao outro lado da rua,
bater à porta e perguntar à vizinha Amélia pelo vizinho Chico. Ela deixa-me
entrar e diz-me para ir ter com ele à cozinha ou à garagem, ali onde ele é a
grande ferramenta que a vida, confiante e generosa, me emprestou.
Quis também a vida que
não nos despedíssemos. Os amigos não se despedem, honram a amizade de maneira
simples. Nunca aprenderei a fazer o nó da gravata. Não quero. Será sempre o
vizinho Chico quem mo vai fazer, orgulhoso de ver o Pintainho que as suas
ferramentas ajudaram a crescer.
Hoje o meu amigo
Francisco Nunes fazia 78 anos. A vizinha Amélia já o ouve a ensaiar na garagem.
Qualquer dia volto a atravessar a rua e bato-lhes à porta. Levarei a gravata na
mão, bem passada, e peço-lhe para me fazer o nó “windsor”, aquele que ele acha
dar-me mais classe…
quarta-feira, dezembro 07, 2016
Víctor Erice - El sur
Por falar em água e vedores..., é o que acontece, Luís. Tens de ver El sur (1983), este filme, esta beleza, mesmo não terminado como o seu realizador, Victor Erice, desejava.
terça-feira, dezembro 06, 2016
segunda-feira, dezembro 05, 2016
A propósito da necessidade de levar o ego a cagar à rua
Todos nós passeamos o nosso ego. A diferença está em que uns o passeiam à solta e outros à trela. Melhor estrangulados pela própria força, não vá morder em alguém...
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