terça-feira, fevereiro 12, 2019

La perspectiva del tiempo...

La perspectiva del tiempo puede que no sea la más justa, pero suele ver todo con más calma.

Solidão carnavalesca...

A solidão tem tantas máscaras, mas é das poucas coisas que, ao pensarmos nela, olhamo-la logo no rosto óbvio, aquele que nos contempla só, ausente de considerar-nos sequer companhia.
Evito olhá-la nos olhos e vou prestando mais atenção às máscaras, como se adornam de cores, gente, movimento, eloquência até. Vejo-as por aqui e cada vez com mais frequência. Parece, por vezes, um desfile, um cortejo carnavalesco, em folia silenciosa.
Houve uma época em que gostava do carnaval, uma época em que me apaixonei sem recurso a máscaras. Hoje, à parte de mascarar os miúdos, o carnaval é a solidão dos outros e a minha, tímida, pouco convincente, mas real.
Lá fora oiço os ensaios para o Carnaval de uns quantos solitários ao batuque gregário. Sei que tenho de sair e não tenho medo. Falta-me o estímulo, talvez a companhia. No entanto, ao contrário da verdadeira solidão, a coisa não é tão óbvia.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

São belos estes muros...

São belos estes muros de terra e pedra.
Pulidos e compactados pela chuva, que vai escasseando por aqui, dividem as courelas com a mesma facilidade com que se desmoronam, desnorteados, sem saberem para que lado ficou o musgo.

sábado, fevereiro 09, 2019

Os jovens capotes alentejanos...

Ignoram a neve os jovens capotes alentejanos, crentes num único frio da planície. Até serem adultos e abraçarem, pela primeira vez, o parente do planalto, o velho abrigo transmontano.

Gosto de homem livre...

Gosto de homem
livre: caminhar, cara
ao sol, palmilhar...

Momento (Jorge Barbosa)



Conheci Jorge Barbosa e este poema dele há varios anos ao ler uma crónica de António Lobo Antunes, Crónica da pomba branca (2008). Lá estava essa "fininha melancolia"...


MOMENTO

Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?

Não a do tédio
desesperante e doentia,
Não a nostálgica
nem a cismadora.

Esta nossa
fininha melancolia
que vem não sei de onde.
Um pouco talvez
das horas solitárias
passando sobre a ilha
ou da música
do mar defronte
entoando
uma canção rumorosa
musicada com os ecos do mundo.

Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
a que suspende inesperadamente
um riso começado
e deixa um travor de repente
no meio da nossa alegria
dentro do nosso coração,
a que traz à nossa conversa
qualquer palavra triste sem motivo?

Melancolia que não existe quase
porque é um instante apenas
um momento qualquer.

Jorge Barbosa 


Jorge Barbosa (Praia, Cabo Verde, 1902 - Cova da Piedade, Almada, 1971)


sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Creed II

Fim de tarde com o meu mais velho no cinema a ver o legado cinematográfico de Rocky, Creed II. Entre tanto murro no tronco e na cabeça, o filme não defrauda quem cresceu a ver como o Potro Italiano, aparentemente com tão poucos neurónios, versou filosofia de sempre forte (principalmente no final) e de encaixar os golpes baixos que a vida nos dá.
Um filme sobre pais e filhos. Sobre o que se tem a perder e quem nada tem para perder. Um filme que, como sempre, só não me deixa a chorar como uma Magdalena porque estou em público e sei que talvez fosse difícil para o meu filho entender o porquê... Porque, afinal de contas, e com a cara feita num bife batido, ele até acabou por ganhar.

O que chamamos «literatura»...

O que chamamos «literatura» não tem outra essência nem outra finalidade do que antepor entre nós e o chamado real, obstáculo ou ameaça, a teia sem começo nem fim da ficção, o único estratagema positivo que concebemos, que somos, para escapar ao que tocado ou visto nos destruiria.

Eduardo Lourenço

terça-feira, fevereiro 05, 2019

Vivemos...

Vivemos porque
o ar nos ensina a
querer respirar.

Mordeu o lábio

Mordeu o lábio
o Capitão de Abril,
Salgueiro Maia.


"¿Cómo te llamas?", pergunto-te no espanhol do dia-a-dia.


¿Cómo te llamas?, pergunto-te no espanhol do dia-a-dia.
Respondes Xavi.
¡Tu nombre completo, hombre!, relembrando-te as raízes.
Xavi “Super López” Pinto, dizes, com esse sorriso a voar mais além de qualquer inquisição paternal.
Tens razão. Escolhem-te um nome, impõem-te apelidos, porém, para o teu verdadeiro yo, só tu escolherás epíteto. Que seja “Súper López” ou o que tu quiseres. Com ou sem nome, essa designação que, como me ensinou Pascoaes, desfigura as coisas, sempre identificarei o teu sorriso e saberei que és meu filho.  


Súper López