domingo, março 03, 2013

"Porcos Rua" (Manif. 2 de Março)


Não me identifico com insultos grosseiros, acho que nos afastam do cerne dos problemas e levam-nos a debates mais virados para registos de língua e não para a realidade que, queiramos vê-la ou não, nos levou a insultar ou a ser vítima do insulto.
No caso de ontem, nas manifestações do movimento "Que se lixe a Troika" foram evidentes os insultos com recurso ao melhor vernáculo que o português nos disponibiliza. 
Participei na manifestação com uma t-shirt (algo oculta, devido ao frio, com um slogan em espanhol: "Educación pública, de todos para todos..."), cantei (desafinado, devo reconhecer) a canção que muitos "opinion makers" querem limitar a ideologias tidas como anacrónicas e não lhe reconhecem um simples humanismo digno desse substantivo que se chama fraternidade... Esses que a tornam tão redundante, num sentido mais lato também a criticam pelo que ela preconiza, a livre expressão. Essa é a "Grândola", a fraterna, a igualitária, a que tem os versos mais belos de todos: "Em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade"...
Por isso, por poder hoje escrever aqui as minhas palavras vãs, que a história esquecerá, no dia dois de março desafinei, caminhando alinhado, com mais de mil pessoas da terra que amo e que me ensinou a acreditar na liberdade de expressão. A minha doce (e atualmente tão triste) Évora.
Antes de unir-me ao centro dos protestos, telefonei a um amigo, daqueles” maiores que o pensamento”, cuja vida se vê parada por este flagelo do desemprego e da voracidade da austeridade, para que pudéssemos caminhar juntos em protesto e pelo futuro dos nossos filhos.
Na realidade, não pensei que a sua disponibilidade o permitisse (de facto, não o permitia), mas nunca pensei que discordasse desta iniciativa por uma questão de nome, de "que se lixe", de o que isso significa. Isso, claro, entre outros pontos de discordância que ele pensa pertinentes. Este telefonema amigo, fez-me pensar, fez-me interpretar como não existe um sentimento gregário na minha geração, como existia, por exemplo, na geração dos meus pais.
Não me vou armar em puritano, não falo bem. Recorro ao calão com frequência para evidenciar desde o mais simples estado de espírito, à total raiva e sentimento de não ser útil, de ter as mãos atadas, de fragilidade impotente… Não liguei ao nome do movimento, nem ligo.
Para que se tenha uma estrutura que reúne 1 milhão de cidadãos, num determinado dia e hora, a mostrar descontentamento, é sabido que tem de haver uma máquina, por detrás, bem oleada por movimentos, associações, partidos, mas neste caso, o mais determinante lubrificante é um sentimento de mais de 1/10 da população de pura imoralidade. Quem não o vê é provável que esteja cego ou tenha demasiadas dioptrias.  
Para mim, debater o slogan é debater semântica… Como está o panorama (basta olhar para a surdez de quem tem poder de decisão) não seria de estranhar que o movimento se chamasse “Que se foda a Troika!”. Essa é que é a realidade!
Não quero ofender ninguém com palavras rudes, mas não admito que me tirem o direito a ter esperança, que me vendam a empatia de se “pôr na pele do outro” como um sentimento ideológico de um determinado partido, que por acreditar na fraternidade e na igualdade de oportunidades sou como um “baladeiro” de esquerda que apregoo “estalinismo” através de acordes sem mérito artístico, que a utopia não existe, nem apresenta alternativas… não admito.
Hoje, voltei a casa. À minha outra pátria. Espanha. Aqui a realidade linguística é mais pragmática e tem algarismos de duas dezenas de gente no desemprego, por isso ninguém se ofende se se diz “Que se joda la Troika”. A realidade cultural também é outra, no entanto a imoralidade e o sentimento de impunidade latente é o mesmo, apresentem-se ou não se apresentem propostas…
Mas prefiro que critiquem o meu vernáculo, que ausência de propostas: Que se sinta empatia, que seja obrigatório entendê-la e estimulá-la (é pá, púnhamo-la na constituição!). Entenda-se que não se insulta, neste presente imediato, porque o povo português é um colectivo mal-educado (talvez o sejamos, mas não agora!). Que não se escravize o futuro e que se apreenda por que motivo 1/10 da população portuguesa quer que tudo isto se lixe! Pouco já se tem a perder… a realidade atesta-o.
Remeto este sábio excerto de Miguel de Unamuno, um ilustre escritor espanhol que entendia perfeitamente  a essência do povo português, para quem crítica as suas maneiras e vocabulário actual: “A brandura, a meiguice portuguesa não está senão à superfície; raspai-a e encontrareis uma violência plebeia que chegará a assustar-vos. A brandura é uma máscara”. Dá que pensar? Não dá?

1 comentário:

José Antonio Santiago disse...

Que la realidad de los niños que están pasando hambre en un otrora imperio sea vista con impotencia. Que aprendamos nosotros los humanos, de tan mala memoria, para cuando todo esto pase. Que no es olvide, que no.

Que tomen buena nota los políticos de lo que este sábado ha sido Portugal. Que callen de una vez ante la voz en grito y las tonadas enconadas de rabia de nosotros, los ningunos.

Gracias, Luis. Gracias a los portugueses que salieron el pasado sábado a la calle, por enseñarnos.

José A. Santiago