domingo, abril 28, 2013
sexta-feira, abril 26, 2013
sexta-feira, abril 19, 2013
mário cesariny / pastelaria
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tantas maneiras de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é por ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tantas maneiras de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é por ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.
quarta-feira, abril 17, 2013
A um deus surdo (Fernando Assis Pacheco)
A UM DEUS SURDO
Ó quem me dera ter outra vez vint’anos
navegar no ignoto sem portulanos
o peito feito para os da vida enganos
era sensacional ó hermanos
quem dera o brandy com castelo
o dedo ao arrepio do pêlo
o romanticismo do desvelo
e tudo isto fingindo um grande anelo
quem dera agora uma vez mais
o rápido de Irún no cais
a solicitude quente dos pais
ai eu tirando de ouvido muitos ais
ó quem dera e outra vez viera e dera
a ruminante paciência que há na espera
o mistério lento da Primavera
o emblema desenhado pela namorada: uma hera
Na IV Bienal de Poesia de Silves, em Abril de 2010, o Simão lê pela
primeira vez um poema do avô, Fernando Assis Pacheco, homenageado na
Bienal. A seu lado, o escritor Luis Serrano, a quem coube a conferência
sobre a obra do poeta, ficcionista e jornalista.
terça-feira, abril 16, 2013
Intensidad y altura
Quiero escribir, pero me sale espuma,
quiero decir muchísimo y me atollo;
no hay cifra hablada que no sea suma,
no hay pirámide escrita, sin cogollo.
quiero decir muchísimo y me atollo;
no hay cifra hablada que no sea suma,
no hay pirámide escrita, sin cogollo.
Quiero escribir, pero me siento puma;
quiero laurearme, pero me encebollo.
No hay toz hablada, que no llegue a bruma,
no hay dios ni hijo de dios, sin desarrollo.
quiero laurearme, pero me encebollo.
No hay toz hablada, que no llegue a bruma,
no hay dios ni hijo de dios, sin desarrollo.
Vámonos, pues, por eso, a comer yerba,
carne de llanto, fruta de gemido,
nuestra alma melancólica en conserva.
carne de llanto, fruta de gemido,
nuestra alma melancólica en conserva.
Vámonos! Vámonos! Estoy herido;
Vámonos a beber lo ya bebido,
vámonos, cuervo, a fecundar tu cuerva.
Vámonos a beber lo ya bebido,
vámonos, cuervo, a fecundar tu cuerva.
Cesar Vallejo dibujado por Picasso.
domingo, abril 14, 2013
Valsa de um parado letrado
Gira o led, vermelho, alto, picotado, apoiado,
Na parede aparafusado.
E giram olhares ao som de caixa de supermercado.
Apenas um dança.
Dling, dling. Roda.
“Nº 11, dirija-se ao guiché nº3”
Passos cuidados, quase fantasmagóricos, deslizam entre cubículos
abertos ao público e fechados à humanidade. Carimbos, despachos, teclados
ritmados à percursão de cutelos de magarefe.
Pára a valsa.
Começa falsa.
Senta-se e volta a rodopiar no mundo curricular.
“O que é que o Sr. sabe fazer?”
Ler e escrever.
“Desculpe, mas isso não é formação técnica suficiente. Muito
obrigado pela sua presença.”
Circular, ergue-se a humanidade, em esquadria alça-se,
empurrando, rodopiando,
no eixo oleado (a massa, cotão e pó consistente)
da cadeira,
verde
- de costas –
cómoda no desfalecer centrípeto de esperança…
Centrifuga-se, pergunta-se:
“Srª. Técnica, perdoe, destoe, a ignorância minha.
Esclareça-me.
Resolver o primeiro grau de uma equação é
inteligentemente mais útil do que escrever?”
E a valsa, espiriforme, enroscada, enrascada, prossegue.
Falsa farsa.
Dling, dling.
Led. Olhar. Escarlate. Guiché. nº3.
Pisou-se um pé.
(na ausência de argumentos, há a inércia técnica da
resposta)
Atrapalhação no bailar,
Mas a valsa segue,
De par em par.
14/IV/2014
"Os Lusíadas" e a 1ª Infância
(A propósito da literatura de domigo, e da iniciativa da revista "Visão")
Há que deixar tocar, manusear, pode ser que um dia chegue a ter interesse e a lê-los...
A variedade cromática e o grafismo despertou interesse ao meu filho de dois anos que nem sabe, nem imagina, quem foi Luíz Vaz de Camões...
Diálogos Simétricos
A pega-rabuda (Pica pica) é uma ave
da família Corvidae (parente próxima das gralhas e dos corvos), com um
aspecto inconfundível, graças às suas longas penas traseiras e à sua cor branca
e negra.
Uma fotografia que me faz pensar na simetria da
qual a matemática da natureza nunca se esquece.
Curso REALCE B1 e B2 (CPR de Coria – 2013)
Aqui temos um grupo de trabalho excelente! Alunos
interessados e seres humanos interessantíssimos! Eis o pequeno, mas grande
(como bem o atesta o provérbio: “poucos, mas bons!”) grupo do curso de língua e
cultura portuguesa (com um toque de lusofonia) do CPR de Coria. Da esquerda
para a direita, temos a Esther (eu, aí como um intruso!), o Julian, a Pilar e a
Maribel.
Aos meus amigos, o meu muito obrigado pelo interesse,
simpatia e por manterem vivo esse sentimento tão positivo que é a curiosidade e
o gosto por aprender!
Só falta, nesta fotografia, a presença da nossa amiga
Conchi, a assessora do CPR, que nos possibilitou com a sua esmerada organização
este curso de português!
A todos eles o meu bem-haja! E, mesmo longe, continuamos
todos em contacto!
"Os Lusíadas" do grande Luís Vaz de Camões (reinterpretados em conto - cada um dos 10 cantos - por José Luís Peixoto)
Excelente iniciativa da revista “Visão”, cada exemplar ilustrado
pelos “graffiters” Arm Collective, que, por mais 0’50€, nos permite, com a
ajuda preciosa do José Luís Peixoto, reinterpretar esta epopeia e obra
emblemática da literatura portuguesa (e em português).
Já li e tenho o 1º conto (e canto) e vale a pena.
Em épocas paupérrimas como as que vivemos, porque não tentar
enriquecer-nos com os grandes clássicos da cultura mundial? De certeza que o
Sr. Pedro Passos Coelho nunca leu “Os Lusíadas”, quanto muito os resumos da
Europa-América (que também li, mas que me levaram ao original não resumido)… Lá
estou eu outra vez a falar de gajos que não merecem ser mencionados junto a
tipos como o Camões ou o Peixoto…
quarta-feira, abril 10, 2013
Portugal Paliativo
Fumaste demasiado ou estás embriagado?
A tua tosse tísica acompanha o lenço escarlate.
E o iate?
Compraste com a hipoteca do atlântico?
Iodo, fez-te falta todo.
Sempre te conheci enfermiço.
O vigor físico marinheiro
Há quem o conte, de antes.
Só o vejo na poeira das estantes
E agora só te vejo de cacheiro,
A sair à rua com o cuidado
De quem tem fémures quebradiços
E, já se sabe, na tua condição, partir um osso é um
enguiço.
Exige uma intervenção séria e sabes que não estás para
esses investimentos.
A carrinha Mercedes já trouxe o teu apoio domiciliário.
Estás com fome?
Ali tens a tua marmita, restos de fritos,
frios, fios, de frango, escondidos na canja.
(também me contaram, e parece-me que vi a correr o risco,
porque antes comias
marisco)
Já só te permites ler as novidades que há no folheto
branco e pintado precário com sangue
Do Continente da ganância aze(ve)da.
Lembras-te quando escrevias com lápis azul? Enviaste
muita correspondência dessa
E agora estás doente…
Não te esqueças da boina no bengaleiro,
Que está junto à janela onde esqueces regar o floreiro.
Não te salva do Alzheimer mas poupa-te outro escaldão no cocuruto.
Já nem sequer te sentas astuto
A jogar com os outros à batota.
Agora só, para matar o vício, no jardim.
Na sociedade recreativa dos senhores e no festim
Dos casinos, só a recordação da economia que aprendeste
E te fez trabalhar bem, lá fora,
Aqui apenas escavaste uma fossa.
E a tua família?
Há séculos que não vejo a tua irmã, desfrutaram da herança dos vossos pais?
Duas parcelas, paralelas,
Partilhas, lá para o pé de Tordesilhas.
Os teus filhos não esquecem os teus devaneios, as horas
perdidas, bebidas.
O tempo de correria que não dedicaste.
Alguns vingam-se longe e não querem saber de um rectângulo
Passado.
Aguentam-se e não lhes podes, não tens moral (marinheira,
Saudosa, paternal, piedosa, pirosa… caridosa)
pedir que engulam o orgulho
da cama articulada que não te podem pagar.
Aguenta-te, até que volte a carrinha Mercedes,
E enquanto te permites ter cuidados paliativos…
Sempre tens na gaveta e nas paredes
O teu Ultramar tatuado, amputado
O mais próximo que podes voltar a ter de "amor de mãe",
Acaricia-a, a Walther esteve sempre aí, não foi preciso a
procurar.
Quando a beijares, leva contigo a fria memória gravada no
caixão,
Do seu fabrico alemão.
LA TRAMA - Jorge Luis Borges (Viñeta de Ásterix - Goschinny y Uderzo)
Para que su horror sea perfecto, César, acosado al pie de una estatua por los impacientes puñales de sus amigos, descubre entre las caras y los aceros la de Marco Junio Bruto, su protegido, acaso su hijo, y ya no se defiende y exclama. "Tú también, hijo mío!" Shakespeare y Quevedo recogen el patético grito.Al destino le agradan las repeticiones, las variantes, las simetrías; diecinueve siglos después, en el sur de la provincia de Buenos Aires, un gaucho es agredido por otros gauchos y, al caer, reconoce a un ahijado suyo y le dice con mansa reconvención y lenta sorpresa (estas palabras hay que oírlas, no leerlas): "Pero, che!". Lo matan y no sabe que muere para que se repita una escena.
Jorge Luis Borges
sexta-feira, abril 05, 2013
Oświęcim
Não quis entrar.
Era, em mim mesmo, o justificar
Um mausoléu de arame-farpado,
Sofrido. Sofrida
Memória de cinza.
O suor, o sangue, o sémen, a subnutrição impia.
Espremida, expressa em luta dele,
Em esforço, guerra, exprimida em 4 letras
(não me apetece uni-las em sílabas)
Óculos, próteses, pincéis (que tantos quadros em caras pintaram).
Sapatos sem pés.
Escovas
De cabelo
De dentes
Pentes.
Escorbuto sem novos mundos
E dissecadas
Almas.
Mas entrei.
Gasosa a morte no ol(facto),
Gordurosa a dor escorre visível. Glicerina que lava mãos obrigadas
Comandos sonda.
Saí.
Sem nunca ter lá estado. Vivo.
E vejo. Jovens t-shirts verde wehrmacht, falanges,
Legiões de dedos (sujos, intencionalmente) num ecrã dum
aparato
Desligado do respeito.
E na rua rapada,
Musculadas suásticas tatuagens carregam sacos da Zara.
Meu Deus: Não os perdoes, porque eles sabem o que fazem.
4/IV/2013
quarta-feira, abril 03, 2013
A propósito de fe...
Confianza potencialmente contagiosa. Enfermedad en extinción. Se cura con posología bibliográfica compleja de antibiótico.
Uma Ponte (Grandes Obras da Engenharia Emocional)
“O Bilinguismo, uma Mais-Valia no Poder Local” (Bachillerato de Português do IES Loustau-Valverde entrevista D. Pablo Carrilho, Alcaide de Valencia de Alcántara).
No passado dia 3 de Abril, o Presidente da Câmara de Valencia de Alcántara, D. Pablo Carilho, recebeu os alunos de língua portuguesa do 1º e 2º Bachillerato da escola secundária da mesma localidade.
Durante uma hora, os alunos entrevistaram o autarca, para uma futura publicação na revista “Cortiza”, abordando variadíssimos assuntos e temáticas que foram desde a sua formação académica, a sua infância e juventude portuguesa, o poder local raiano, até uma possível candidatura da “raia” a Património da Humanidade da UNESCO. Tudo isto na língua de Camões, dado que o alcaide é totalmente bilingue, falando um português correctíssimo e de todos alvo de elogio.
O saldo desta iniciativa é deveras positivo, esperando-se que, de este encontro informal, mas efectivamente simbólico, a comunidade de Valencia de Alcántara e a comunidade educativa do IES Loustau-Valverde, possam encontrar ainda mais referentes e argumentos para cooperação transfronteiriça e promoção e valorização deste espaço comum, e uma riqueza (por vezes demasiado óbvia que cai em esquecimento) que Espanha e Portugal partilham: a “Raia”. Uma “raia” com um nobre passado, um presente notável e um futuro que tem ser assegurado por todos nós.
terça-feira, abril 02, 2013
"Daredevil battles Hitler" (Un arquetipo curioso y un buen ejemplo de propaganda en el mundo de los cómics)
En los primordios de lo que hoy conocemos como "Marvel Comics", ya existía un superhéroe llamado "Daredevil". En realidad, sirvió de arquetipo al personaje creado en los años 60, por Stan Lee, que usa el mismísimo nombre ("Dan Defensor" en España y "Demolidor" en Portugal y Brasil). La diferencia está en el contexto histórico y en la profundidad de los personajes.
Aquí tenemos un héroe de propaganda de la 2ª Guerra Mundial, al estilo de otros como Superman o Capitán América, sin embargo el alter ego de Matt Murdock no vincula una propaganda tan evidente como su antecesor. Es un simple joven, huérfano de madre que sobrevive en "Hell's Kitchen" luchando en los estudias mientras su padre luchaba, para buscarse la vida, en los ringues de Boxeo. Para agravar su situación, el pobre Matt se queda ciego después de un accidente con productos radioactivos...
Mucho más hay para descubrir sobre estos dos personajes que comparten el mismo nombre y, si tenéis en cuenta mi opinión, merece la pena.
segunda-feira, abril 01, 2013
domingo, março 31, 2013
Nós e o actor Marco d'Almeida
Como disse no “post de memórias” anterior, na série “Processo dos Távora” fui duplo na cena final da execução do actor Marco d’Almeida. Num descanso das filmagens, o actor deixou-se fotografar connosco (note-se que na época não era tão conhecido como actualmente) e deixou de curtir o seu “sound” no seu Minidisc para satisfazer afavelmente o capricho de dois parolos. Não me lembro do que falámos, quase de certeza da seca que levávamos como figurantes, ao sol, sem água e com pouquíssimo comer. Sei sim, que ao seu obséquio, se uniram dois dedos de conversa amena.

Hoje, tantos anos mais tarde, confesso que nutro uma grande simpatia por este actor (que desde esse dia vejo como um “gajo porreiro”) e sigo com curiosidade a sua carreira, fazendo sempre votos de incursões em projectos interessantes, podendo continuar a “fazer nome” em outras coisas que não se resumam a algumas redundantes telenovelas da SIC e TVI, mas que são das poucas alternativas de trabalho para os intérpretes portugueses.
Como docente de PLE, uso com frequência duas interpretações do Marco: primeiro o agradável e divertido “A Bela e o Paparazzo” e, segundo, a excelente declamação em “vídeo-poema” de “Pastelaria” de Mário de Cesarinny para o projecto “Voz” das Produções Fictícias.
Espero, em breve, ver o recém-estreado “Comboio Nocturno para Lisboa”, no qual o actor participa. As críticas ao filme não têm sido boas (mas como tudo, valem o que valem!), no entanto tem o atractivo de belíssimos actores lusos e o Jeremy Irons, para mim um grande nome da 7ªarte.
Se algum dia lês isto, Marco, votos de uma brilhante carreira! Hoje vejo com agrado que está bem consolidada e no caminho certo! Isto, doze anos depois de te teres cruzado connosco, sem a mínima ideia de que algum dia divagaria sobre este casual encontro num blog qualquer…
Nós no "Processo dos Távora", 2001


Em 2001, há mais de uma década, a Elsa e eu participámos como figurantes (e eu também como duplo do filho mais novo dos Távora – interpretado pelo simpático Marco d’Almeida”) na série da RTP “O Processo dos Távora”, digamos que, por outras palavras, isto foi o mais próximo que alguma vez estive de uma carreira em Hollywood!
De esses dias, junto com os nossos amigos Sara e Miguel, guardamos estas “fotos de época” e a memória de longas loiras grenhas de “pseudo-surfista”.
Na verdade, a Elsa estava caracterizada como uma plebeia, mas a sua beleza superava (e supera) todas as que eram de “sangue azul”… Sou suspeito, mas as fotos provam o que aqui recordo e afirmo.
“Good old times” sem saudosismo, mas com “boa onda” (de “praia seca”)!
Dente de Leão (ou "O teu pai é careca?")
Na realidade, "Dente-de-leão" é o nome vulgar de várias espécies pertencentes ao género botânico "Taraxacum", das quais a mais disseminada é a "Taraxacum officinale", provavelmente a que fotografei.
Ruy Belo e Fernando Pessoa
Este poema de Ruy Belo, do seu livro Aquele grande rio Eufrates (1961), leva-nos para Fernando Pessoa. Poesia para este domingo chuvoso.
Ah, poder ser tu sendo eu!
Ei-lo que avança
de costas resguardadas pela minha esperança
Não sei quem é. Leva consigo
além do sob o braço o jornal
a sedução de ser seja quem for
aquele que não sou
E vai não sei onde
visitar não sei quem
Sinto saudades de alguém
lido ou sonhado por mim
em sítios onde não estive
Há uma parte de mim que me abandona
e me edifica nesse vulto que
cheio de ser visto por mim
é o maior acontecimento
da tarde de domingo
Ei-lo que avança e desaparece
E estou de novo comigo
sobre o asfalto onde quero estar
Ruy Belo
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
Fernando Pessoa
quinta-feira, março 28, 2013
Blackbird - The Beatles
Bem de longe, fotografei este pássaro negro nas traseiras de um hotel religioso em Fátima. O tipo não tinha medo da freira que por lá andava a tratar da lida doméstica. Talvez por terem cores semelhantes...
Apesar de ser de dia, ecoava no meu ouvido a voz de John Lennon e Paul McCartney...
Where are you Blackbird? Have a nice day!
Soneto Resgatado
Soneto Resgatado
(Dedicado a vários Homens de Palavra[s])
É tão natural ter bons alimentos
Aconchega tanto o estômago de quem os tem
Que a generosidade oportuna sem investimentos
É promoção que vai e não vem.
Ora, se no inverno a esplanada está
Fechada, a cadeado pelas finanças,
O que mais nos esquece é chá
E bolachas, fora da data, com traças.
E ao fim de três intervenções a dar o que não é seu,
O Sr. Dr. Alienado da maneira como se lá chegou
Lugar tem garantido como CEO
Um gozo acrescido ao que muito privatizou!
Seria este (se houvesse sido honrado)
Algo mais que um país resgatado.
27/III/2013
quarta-feira, março 27, 2013
The lighthouse of your eyes
In your eyes,
I sail freely.
In your eyes,
I dive deeply.
Without fear of
Loosing myself
In a stupid sense of homesick.
Searching in my past childhood
Something that doesn’t come back...
Because it’s here,
And it never truly abandoned me.
James, like the lighthouse that guides the ancient mariner,
You will always bring me
Shelter from the sea…
Our rope of hope…
Our gentle tide…
That ties us forever.
Dá-me Lume (Leiria, 2013)
"Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-se até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
há tanto tempo a acenar"
Jorge Palma
Parece o Darth Vader a dar lume à gaja dos Gift. Epá, foi do que me lembrei! Desulpa lá Sónia Tavares, agora é que me lembrei do teu nome e não me apetece apagar com esta tecla da seta pata trás.
Às suas costas ("A sus espaldas", original en español de Jorge Carnerero)
Mi buen amigo Jorge Carnerero, compuso esta preciosa letra (y música) para su grupo "Tierrakemá". Lo mínimo que puedo hacer es traducirla para la lengua de Camões como manera de mantener este compromiso que ambos tenemos con esta tierra de todos y, al mismo tiempo, de nadie que para mi siempre fue como una especie de "raya de afectos"...
Por aqueles
perdidos caminhos
Caminhando
às escuras
Com a esperança
de não ouvir nenhum ruído.
E vêem o
seu olhar no reflexo de algum rio.
E chega a
manhã
Com o
cansaço de mãos gretadas.
Botas
rotas, gastas
Que
conhecem todos os caminhos.
E já na sua
casa junto ao fogo
A sua
mulher espera em silêncio.
Noite
tranquila, calada de estrelas
E no peito
o frio de mil séculos…
Sobreiro,
oliveira e jara:
Olhares
vivos de velhos fantasmas
Que ainda
estão entre nós,
São aqueles
que sempre andavam
Com o peso
das suas vidas carregado às suas costas…
Mas sempre
há alguém
Que com o
dedo assinala:
“Olhe
senhor guarda, que esse homem é o que buscava”.
Um almoço moralista na Cervejaria Trindade.
Esta 2ºfeira estive em Lisboa, com a Elsa e o Santiago. Coisas de burocracia, embaixadas, livros de família e passaportes. Após esse périplo (em que sempre te perdes, não porque não saibas as direcções, mas porque há sempre um sinal lisboeta que te faz enganar no trânsito) demos um passeio pela baixa chuvosa.
A capital não perde beleza, mesmo com obras sem fim e miséria envergonhada (mas que já não se esconde), e, por esse motivo, por estar em Lisboa, “menina e moça”, decidimos ir à cervejaria Trindade (luxo gastronómico de "menú turístico" assumido que há quase uma década não tinha) e almoçar um “bife à Trindade”.

A companhia foi familiar, não a do meu amigo Sixto Galán e do José Kuski (como da primeira vez que lá estive), o sabor diferente. Quer pela confecção (o simpático empregado confessou-me que o molho era diferente), quer pelo sentimento de introspecção à saída da cervejaria.
Sendo um homem consoladamente feliz, tendo família, saúde e trabalho, cada vez que saio à rua, ligo a rádio, televisão ou internet, sofro... Não posso ficar indiferente a quem não tem trabalho, saúde e não pode cuidar da família…

E eu ainda posso almoçar, de dez em dez anos, na Trindade… Será que tenho de me sentir mal por isso? Impôs-se essa pergunta.
Não. É isso que querem que sinta, que sintamos. Recuso-me! Numa sociedade tendencialmente justa não se podem impôr perguntas deste tipo de moralismo pecaminoso e miserabilista.
Há dignidade no bem servir e ser servido, no consumo com gratidão, há relações económicas baseadas no trato justo… e não apenas na facturação governamental feita através de programas informáticos que não sabem de contas humanas, tal como os que os programam.
Ainda posso fazer algumas escolhas. Até quando? Não sei.
O dia que não as possamos fazer, só nos resta agarrar na espingarda, carregá-la, apontar, correr a mão e disparar. Passos limpos levar-nos-ão ao coelho que nos matará a fome.
Pelo menos não teremos “miserabilismo” de espírito que se nos quer impôr. Mataremos para comer. Se é o que querem... Cada vez há mais pessoas dispostas a isso. E isso não causa peso na consciência a quem nos governa?
Small Twins (O Lupo do "Áti" e o Lupo do "Quico")
A mera casualidade de eu e a minha irmã termos carros semelhantes (iguais na marca, mas distintos na motorização) fez com que o meu filho adorasse o nosso pequeno carro (e não tivesse o seu primo Quico, o seu herói, outro!).

Trata-se de um VW Lupo, já com mais de uma década, mas sempre preparado para nos levar aos sítios mais difíceis de estacionar e ter uns consumos adequados para esta crise (que parece imortal) e para o ambiente. É o “popó do Áti”, não o “popó” da mamã ou do papá.
É curioso como o meu filho se identifica com a 3ªpessoa do singular, o “Áti”. E eu, sem saber ajudá-lo mais nesta curiosidade de dois anos (“papá, ¿qué es esto?”), respondo-lhe o que sei, o que sinto que faz parte do nosso vocabulário de pai e filho e, nesse momento, não sou mais que o “papá do Áti”… e somos felizes ao volante do seu “popótico!”.
Dezarrezoado amor, dentro em meu peito (Sá de Miranda)
Um soneto de Sá de Miranda (at lunch time)...
Que faremos quando tudo arde??
Dezarrezoado amor, dentro em meu peito
tem guerra com a razão. Amor, que jaz
i já de muitos dias, manda e faz
tudo o que quer, a torto e a direito.
Não espera razões, tudo é despeito,
tudo soberba e força, faz, desfaz,
sem respeito nenhum, e quando em paz
cuidais que sois, então tudo é desfeito.
Doutra parte a razão tempos espia,
espia ocasiões de tarde em tarde,
que ajunta o tempo: em fim vem o seu dia.
Então não tem lugar certo onde aguarde
amor; trata traições, que não confia
nem dos seus. Que farei quando tudo arde?
Sá de Miranda
Cheiro a Café - João Afonso
Uma noite escrevi o teu nome
num café
a cafeteira adormece breve
mesmo ao pé
O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café
Não me enjeites quando te escrevo
o que à memória me vem
contas contadas, contas da história
que a ninguém devo, a ninguém
Já não vejo razão para calar
as múrmures águas na areia
sobre a praia a maré cheia
enche toda antes de vazar
A noite dura para além da tarde
cerveja com levedura
vaga de espuma entre o meio dia
calma a garganta que arde
O tesouro no ventre do mar
não será para quem mareia
como é bom dormir, acordar
preguiçar em branca açoteia
O sentido que eu tive da vida
num café
o que foi certo para mim um dia
já não o é
O mar que passa
pela vidraça
senta-se à mesa
cheira a café
Cão vadio, cão sem raça
pela rua a vaguear
candeeiro de luz baça
café moído a exalar
À noite os casais devassam
os enigmas duma luz mansa
os sonhos idos de criança
como farrapos soltos que passam.
El Golpe de la Grulla Tonta - By Luis Leal
Esta fue la primera (y creo que última) incursión en el mundo de los dibujantes de cómics. Como se ve, mi talento es demasiado para el noveno arte...
El guión también es un original mio, en realidad una historia de infancia que dedico a mi compañero Carlos Silva (que, sin su presencia en mi vida, no habría descubierto el placer que es ser niño, bien adjetivado de tonto - como la grulla de este tebeo- y lleno de ilusiones).
El cómic "El Golpe Tonto de la Grulla", se hizo en un curso del CPR de Borzas en el año 2012 con la presencia del gran autor extremeño Fermín Solis, que además de un excelente artista es un "tío grande" de eses que merece la pena tener como amigo.
En fin, memorias de una infancia mal dibujada y el aprecio por quién, incluso lejos, estará siempre presente en nosotros, algo que espero que, un día, Santi también pueda sentir... Esa es la verdadera amistad.
terça-feira, março 26, 2013
ROLLS OVER adeus anos 70 - José Paulo Ferro
Roll Over fica como um retrato de uma época que ainda está (em certa medida estava) por fazer e que sem dúvida gerará outros que o completem; numa época em que a imagem digital faz desaparecer a importância da fotografia e do snapshot pela imensidão de imagens que se podem gerar em cada segundo, este é um arquivo valioso para a memória destes anos e que complementa qualquer história do “rock português”. Mas é-o sobretudo pelo estilo de aproximação, pela forma como sublinha a cena em detrimento do personagem individual que nela se destaca, o acto, em detrimento da pose, a dinâmica literal em detrimento do esteticismo. Margarida Medeiros
Isto é certamente fotografia tribal. Havia então outras tribos, com outras marcas identitárias. Nós – o José Paulo, eu também – fazíamos parte desta tribo. Mas nunca pensámos na publicação destas fotografias «escondidas» (conhecidas de poucos e quase todas inéditas) para alimentar o mercado da nostalgia e do narcisismo. Por mim, tento vê-las na sua dupla essência: valiosos documentos sociológicos e espécimes da nobre arte da fotorreportagem. João de Menezes-Ferreira
Quem é o autor?
José Paulo Ferro nasceu em Alcobaça em 1955. Vive e trabalha em Lisboa. Frequentou a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa tendo feito o bacharelato em Design e a licenciatura em Artes Plásticas/ Pintura. Foi aluno e monitor do Instituto Português de Fotografia e actualmente é professor na Escola Secundária de Pedro Nunes. Expõe colectivamente desde 1975 e individualmente desde 1980.
sábado, março 23, 2013
La domesticación del samurái. El individualismo honorífico y la construcción del Japón moderno.
La domesticación del samurái. El individualismo honorífico y la construcción del Japón moderno
Trad. Hugo A. Pérez Hernáiz
Eiko Ikegami
2012 | 496 pp | ISBN: 9788415260530
Este libro presenta una nueva perspectiva para enfrentar el llamado enigma del Japón moderno, a través del análisis del desarrollo cultural del samurái japonés. La transformación cultural del samurái es la clave para la compresión y apreciación adecuada de las tensiones entre el individualismo y el colectivismo del Japón moderno. Explorar estas tensiones nos lleva al corazón mismo de este enigma: la síntesis paradójica de competencia y colaboración.
sexta-feira, março 22, 2013
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