quinta-feira, dezembro 31, 2015

"Oração" - Héroes Del Silencio

Termino 2015 com uma oração dos “Héroes del Silencio” que sente estes 365 dias que me envelheceram mas também me responsabilizam, porque os anos que passam têm de trazer algo mais que dores nas articulações...

Oração – Héroes del Silencio

Perco tempo a pensar no essencial
que às vezes deixo passar.
Quantas vezes ignorei já
capazes de me terem mudado!

E não há oração
capaz de decidir por mim.
Ó, senhor!, não resta outra opção
e jamais me voltarei a arrepender.

Sempre há uma disjuntiva
ante a qual sempre há que eleger,
não resta outra alternativa
rapidamente há que decidir.

E não há oração
capaz de decidir por mim.
Ó, senhor!, não resta outra opção
e jamais me voltarei a arrepender.

[Trad. Luis Leal]

quarta-feira, dezembro 30, 2015

Morte ao meio-dia (Ruy Belo)





MORTE AO MEIO-DIA

No meus país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o sol consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meus país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer.

Ruy Belo


Boca Bilingue (1966)





terça-feira, dezembro 29, 2015

Portraits of Daily Life (Mr. Pizza)

Momento (Jorge Barbosa)





MOMENTO

Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?

Não a do tédio
desesperante e doentia,
Não a nostálgica
nem a cismadora.

Esta nossa
fininha melancolia
que vem não sei de onde.
Um pouco talvez
das horas solitárias
passando sobre a ilha
ou da música
do mar defronte
entoando
uma canção rumorosa
musicada com os ecos do mundo.

Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
a que suspende inesperadamente
um riso começado
e deixa um travor de repente
no meio da nossa alegria
dentro do nosso coração,
a que traz à nossa conversa
qualquer palavra triste sem motivo?

Melancolia que não existe quase
porque é um instante apenas
um momento qualquer.

Jorge Barbosa 



Jorge Barbosa (Praia/Cabo Verde, 1902 - Cova da Piedade/Almada, 1971) foi um escritor cabo–verdiano.


Mais poemas e dados sobre o autor em Lusofonia.







segunda-feira, dezembro 28, 2015

Envidia 4

"Castiga a los que tienen envidia haciéndoles bien." Proverbio Árabe

Envidia 3

"La envidia es mil veces más terrible que el hambre, porque es hambre espiritual." Miguel de Unamuno

Envidia 2

"¡Oh envidia, raíz de infinitos males y carcoma de las virtudes!" Miguel de Cervantes

Envidia 1

"El tema de la envidia es muy español. Los españoles siempre están pensando en la envidia. Para decir que algo es bueno dicen: "Es envidiable". Jorge Luis Borges

domingo, dezembro 27, 2015

Apontamentos soltos.

Ora choro, ora canto. Diz-me Afonso Lopes Vieira cuja alma é de Deus mas o corpo, como o meu, deseja o mar.
Um indivíduo só no rebentar das ondas que lhe prendem o olhar de apontamentos soltos, liberdades toráxicas de verdades tóxicas, e, no mar, a esperança que se diluam.
Saber ser. Consciente de ter apenas uma vida, pergunto a uma árvore como é que ela é.
O vento encarrega-se de lhe tirar a palavra dos ramos.
- Então és tão cego que não vês que ela se adapta à disposição de onde venho e de como sopro?
Pus-me a seu lado e também o meu tronco se adaptou à solidão do vento que me falara.
Entendemo-nos bem.

Onde sempre seremos o mar... Um do outro (para a Elsa)

Morreu Fernando Pessoa. (Diário de Miguel Torga)

"Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935 - Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era." Miguel Torga

sábado, dezembro 26, 2015

Mi ciudad... (unknown artist)

Huyo para escapar de lo que debo

Huyo para escapar de lo que debo
A la vida que no fue ni acaso importa
Que merezca la pena. Me moría.
La emoción del paisaje me la llevo
Y al hombre que me implanta y me soporta
Y al milagro de huir donde volvía.

"Huir", de Jesús Delgado Valhondo. Libro póstumo. 16 poemas breves.

quinta-feira, dezembro 24, 2015

No Natal odiava receber pijamas, cuecas e meias.

No Natal odiava receber pijamas, cuecas e meias.
Quem me dava roupa de cama e roupa interior já previa
que um dia dormiria nu por opção.
Ainda assim ensinou-me a utilidade.
O infantil materialismo, ingrato de falta de tacto que só os anos trazem, esquece extremidades frias porque dorme aconchegado
no amor de quem dá mais do que pode sem que se note.
A criança que era gelou na circulação periférica do passado.
Na ausência de pijamas, cuecas e meias,
ficou no sangue e na memória a generosidade.
Esta noite já não tenho quem me dê
pijamas,
cuecas
e meias.
Agradeço tão tarde ter tido
pijamas,
cuecas
e meias…
Cabe-me a mim oferecer pijamas, cuecas e meias.
Não passaremos frio
e o Natal continuará a ter alguma utilidade.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

La libertad, Sancho...

Diários: Grande parte do que escrevo não dorme

Grande parte do que escrevo não dorme. Levanta-se da cama, de chinelos silenciosos, para um papel de insónia que acaba por deitar-se antes em lençóis de recordações, alguns bem amarrotados e de uma cama mal feita. Sinto falta de dormir em lençóis passados a ferro e lisos de odores de recém-feito.

Não durmo. Num berço um filho aprende a rotina nocturna. De momento, mal. Acorda, em oito meses, várias vezes por noite e eu, peito paterno, não o acalmo. Exige-se o amor de mãe em cansaço. E como é grande... O meu, esse, pura empatia ou pura inutilidade. Talvez se a necessidade a isso obrigasse, noites de pai e filho, adaptar-se-iam uma à outra, noites toscas e indiferentes ao choro mas presentes na segurança do que zela aquele que cresce.

Não durmo. Tenho dificuldade em dormir e escrevo mal para quem tem dezenas de apontamentos por concluir, por trabalhar, e que os tem aí, como este bebé, a acordar quase de hora a hora para mamar e sentir-se insatisfeito.

Não durmo. Mas escrevo. Um diário acordado. Realista de que a insónia é uma guerra perdida na almofada. Esvaem-se os pensamentos como plumas ao vento e, para quem se atreve a contemplá-los, é uma pena… Tento agarrá-los. Alguns ficam outros não. Lêem-se outros até que te acusam de iluminar a cama com o frontal da literatura nos dois dedos de testa em que se apoiam. Este pensamento está a abrir a boca. Será que escrevo para dormir? Ou não durmo para escrever?

Os defensores de que a morte é o eterno sono e derradeiro desterro, do qual não nos levantaremos para escrever, têm um argumento de peso. Até os entendo. Talvez o génio seja imune a isso. O meu génio trabalha com isenção de horário e fica rabugento, com mau génio. Vale-lhe o café, apolíneo prazer, de quem tem olheiras góticas, odeia o romantismo e sente que a cabeça pede coisas ao corpo enquanto sabe que este lhas pode dar.

Fábula (Bertolt Brecht)




FÁBULA

O lobo foi ter
com a galinha
e disse-lhe:

«Devíamos conhecer-nos
melhor para vivermos
com amor e confiança»

A galinha achou bem
e foi com o lobo.

Foi por isso que as suas
penas ficaram espalhadas
por todo o lado.

Bertolt Brecht 





segunda-feira, dezembro 21, 2015

Eres mi hermano, amigo, eres mi hermano... (foto de Adolfo Rodriguez)

Tenho 35 anos e aprendi hoje a lançar o pião

Nunca tive um pião tradicional quando era miúdo. Não sei porquê. Talvez já não estivesse na moda, fosse coisa de pobre (por isso já não se viam tantos), algo reaccionário para a pobreza dos oitenta que se vivia com a esperança trazida com a primavera de Abril. É que não sei.
Sempre brinquei muito. No bairro, em casa, no quintal, na quinta dos meus tios, na casa e no pátio dos meus avós... Jamais soube lançar um pião.
Hoje a ser pai fui criança nos exemplos dos meus filhos. Aprendi a enrolar a guita e a rodopiar, sem pensar, largado da mão...
Felizmente não é preciso ter "muita guita" para ter um objecto de madeira destes. Custou-me 0'90€ viajar à minha infância e corrigir esta lacuna que aí estava, escondida, de tão envergonhada de não saber como rodopiar...

domingo, dezembro 20, 2015

Día 19/XII/2015 Presentación en mi pueblo... Valencia de Alcántara

En tierras de Valencia de Alcántara nació, y se presentó ayer, mi [33], en un día de sol del Jiniebro, como este… Gracias a todos los presentes (en especial a la enorme familia Carnerero un ejemplo de humanismo "rayano" que tanta falta nos hace)… "Obrigado"… (fotos de mi amigo Adolfo Rodriguez Fernandez)