Ia, mais uma vez, para ralhar com o meu filho mais velho por ele andar sempre com as mãos sujas quando me interrompeu a dizer:
- Papi, ontem vi uma borboleta no colégio!
Edificamo-nos numa espécie de castelo de areia exposto a marés, pés a passearem à beira-mar, ventos oceânicos e a novas brincadeiras de pá e baldinho de praia.
Olhar-lhe para as mãos, para os restos de terra, areia ou plasticina debaixo das unhas, antes do banho que higieniza o dia, acaba por consolar-me com a sua curiosidade, com uma natureza ainda tão próxima do grito que deu quando saiu do ventre da sua mãe.
Porém impõe-se o asséptico que, tal qual uma doença, também pode ser contagioso. Cabe-me cortar as asas a este Ícaro que nem sequer teve tempo de queimar a sua liberdade de querer voar. Sequei-lhe com a toalha os cabelos, apoiei-lhe as mãos no meu joelho e cortei-lhe, uma a uma, cada unha negra que caíram no chão para depois serem aspiradas ainda tão cheias de sonhos.
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