domingo, março 08, 2015

Mulheres perseguidas à coronada... (Imagem extraída da revista Sábado nº 470 de 2013)

No feminino.

Hoje é Dia da Mulher. Frase batida e nada de novo. Tende-se a isso, isto é, o mercado instaurar efemérides para vender o que quer que seja, a quem quer que seja. Uma mentira tão acéfala em si mesma, na sua vacuidade, que se torna verdade.  
No entanto, os outros 365 dias que esquecem as mulheres anulam dias como este em que muitos de nós pensamos “melhor um dia que nenhum” para celebrar essa metade que cria e carrega a vida no seu ventre, que luta diariamente e anacronicamente porque o natal que leva dentro de si a torna menos produtiva para esse tal mercado das efemérides, dos dias para celebrar.
A mulher quando nasce já traz dentro de si uma valentia protectora desinteressada, da maternidade que a gerou e jurou eternizar-se no seu corpo, com ou contra a sua vontade, caso a sociedade assim o decida e as religiões assim o amparem em adjectivações pecaminosas.
Nascer mulher evidencia o perigo que é -desculpem a redundância- ser-se mulher. Acarreta o risco de ser estuprada no seu direito a ser mulher -outra vez a minha redundância feminina- porque se nasceu num sítio onde criminosos têm prazer em mutilar clitóris ou, numa impunidade descarada, cobrem a sua vergonha masculina no rosto e corpo submisso feminino que violam cada vez que respiram. Argumenta-se com cultura ou vontades divinas, justifica-se a barbárie até com o recurso a palavras e escritos de punho e voz no feminino. Eu argumento com o peso secular de saber que vou ofender, uma vez mais, a dignidade duma mulher: a puta que os pariu! (Peço perdão à meretriz, que fique apenas o tom enfático do vernáculo).
Então neste calendário de mercado, hoje também é o meu dia porque sou homem gerado no ventre duma mulher, educado por e com mulheres, amado por mulheres e com a certeza que amo e amarei várias mulheres. Não é o momento para discutir tipos de amor, quem está a ler estes parágrafos não se confunde.
Homenagear as mulheres 365 dias por ano, é ser-se homem com “M” maiúsculo. É repudiar tanto o machismo como o feminismo, é saber que a igualdade do ser humano reside na sua diferença biológica que se completa em géneros livres para que exista um futuro…
Seres humanos a sério não necessitam de dias destes para que se lhes recorde o género. Estão lá, no dia-a-dia, juntos. Na dureza da existência que se suaviza na pele e no abraço consentido, porque na dignidade, na liberdade, não existe masculino nem feminino…
Por isso, lembrei-me desta imagem do passado que recortei para nunca me esquecer. Haverá muitas mais, e mais chocantes ainda, por esse mundo fora. “Mulheres que foram expulsas à coronada porque foram apoiar os seus homens”…
Já que está na moda ser-se tanta coisa, orgulho-me em ser um homem que se sente uma costela das mulheres. O que vem na bíblia não me convence. 


sábado, março 07, 2015

Enseñando lo que es un Haiku... (Kagami Biraki 2015)

Hablando brevemente, muy brevemente, sobre lo que es un haiku… En el Kagami Biraki (2015) del Kenshinkan Dojo. Muy bien acompañado por Juan Ignacio y por nuestro Pedro. 

quinta-feira, março 05, 2015

Un trocito de Japón aquí...

Un trocito de Japón aquí... 
Gracias Pedro Martin González. 

"¿La nieve que cae 
es otra 
este año?" 
Haiku de Bashô

quarta-feira, março 04, 2015

PRESENTACIÓN DE RUY VENTURA EN EL AULA DE POESÍA DIEZ-CANEDO DE BADAJOZ (03/03/2015)

por Luis Leal



Una brevísima nota biográfica:

El poeta portugués Ruy Ventura nació en Portalegre en 1973 y actualmente vive en Azeitão, donde enseña lengua y literatura portuguesa en un instituto de la localidad.
Su primer poemario, “Arquitectura de Silencio”, fue galardonado en 1997 con el Premio Revelación de la Asociación Portuguesa de Escritores. Desde entonces ha publicado otras obras como “Siete capítulos del mundo” y “Así se deja una casa” (ambos en 2003); “Llave de Ignición”, en 2009, “Instrumentos de Soplo” de 2010 y, en 2012, “Contramina”.
El año pasado, la obra del poeta cruza el atlántico y llega a Brasil con una antología llamada “Calle de la otra Calle” (“Rua da outra Rua”).
Es posible encontrar innumerables poemas suyos traducidos al inglés, alemán, francés y español.
Ruy Ventura, además de su actividad poética y docente, es también traductor,  investigador y ensayista con intereses tan diversos como la toponimia, el patrimonio histórico religioso, la poesía contemporánea y la literatura tradicional portuguesa. En el ámbito de la traducción hay que destacar su vinculación a Extremadura, siendo traductor de autores extremeños como Ángel Campos, Antonio Sáez o José María Cumbreño.

Algunas consideraciones personales sobre la lírica de Ruy Ventura:

En Ruy Ventura encontramos la raya, o, a lo mejor, dos rayas. Una serrana, desde la cuna, donde resuena España desde lo más alto de la Sierra de S. Mamede, y otra, también montañosa, que limita Portugal con su reflejo en el espejo del Atlántico, en una quietud casi monástica de la Sierra de Arrábida. 
Estas geografías inspiraron grandes nombres del lirismo portugués, como José Régio, desde su ventana de Portalegre, Sebastião da Gama en lo más alto de la península de Setúbal, o, incluso, mi tan estimado Bocage. Y, desde hace ya casi 20 años, Ruy Ventura es un dignísimo sucesor de este lirismo luso.
No es el tiempo cronológico el que pone las comas en la poética de Ruy Ventura, quizás algunos granos de arena o las ramas podadas de algunos momentos que llenan una casa, cuyos fondos son una especie de raíz que la sostienen en una arquitectura de silencio.
Desde el relieve encontramos una fuerza telúrica de montaña, escribiendo y reescribiendo su voz. El poeta Ruy Ventura persigue imágenes que caminan con la lucidez del vate que no cierra los ojos, que fotografía todo pero no encuentra nada para revelar. ¿Y por qué habrá que revelar la mirada?
Esa es la gran diferencia entre literatura y poesía como Ruy Ventura la concibe en su obra. Al optar por la prosa, el autor cuenta lo poético que encuentra en su universo con un lenguaje que se deja deslumbrar por su propio movimiento, dejando, incluso, herirse por sus imágenes.
¿Piedra o sangre? ¿Sangre o tinta? ¿Tinta o piedra? El poeta brasileño, que tanto cantó la aridez de su Sertão, como la fertilidad de Andalucia, João Cabral de Melo Neto nos educó por la piedra, sin embargo Ruy Ventura nos enseña que la piedra acompaña la forma del mundo, en su ausencia de voz, en la dureza que la aparta de ser tierra.
Al guardar en los ojos las semillas, el poeta logra abandonar la brevedad y cadenas que pueden ser las raíces de uno, obturando, siempre, en gestos impregnados de nitrato de plata, la sombra de su original voz poética.
Cerré las tapas que ocultan esta breve antología con la sensación de haber peregrinado por la montaña para visitar un santuario, seguro de que el verbo orar no es antagónico al laborar del poeta. Eso es más que evidente en la poética de Ruy Ventura cuyos poemas son un medio y la reflexión un fin. Como él mismo enuncia “hay, sin embargo, hechos, vestigios, trozos de papel, facturas que la escritura nunca descuidada fue a dejar entre las páginas de un desierto…”
En la lírica de Ventura, cuyo nombre nos podría resumir su obra, con la ayuda del diccionario de la RAE, encontramos felicidad, suerte, contingencia o casualidad, como también el riesgo, el peligro, o, por antonomasia, el suceso o lance extraño que procede de la actividad poética.  
En las palabras de Ventura sabemos que del grito a la nada se cruza por una tabla de madera que une los dos lados del andamio y nos quedamos con la certeza que si queremos intentar, de alguna manera, traer la idea de Dios a nuestro pensamiento, simplemente, estimados lectores, como dice el poeta que tengo el placer de presentar, hay que tener cojones, o, como se dice en portugués: “ter colhões”.    

"É uma pulseira?" - Excerto de "Galveias" de José Luís Peixoto

“É uma pulseira?
                O pai respondeu que não, e mostrou-lhe. Com o bico de uma esferográfica, começou a acertar o relógio de pulso. Esse trabalho era acompanhado por apitos que impressionavam, pi piii, pi piii. Joaquim Janeiro regalava-se com esse papel de arauto do progresso. O presente da filha era um relógio digital, comprado em Badajoz. A bracelete era toda de metal. Dava as horas inequívocas, mas tinha um botão que fazia aparecer a data e, se carregasse duas vezes, ficavam os segundos a passar. Havia ainda outro botão que, incrivelmente, dava luz. Essa era a função preferida da filha. Era à prova de água, mas não convinha experimentar. O pai ajustou-lho ao pulso, toda agente quis vê-lo de perto. Até os vizinhos, que estavam pendurados na ombreira da porta, deram dois ou três passos no interior da casa para se espantarem com esse produto. Conceição, vaidosa, exibiu-o com generosidade, mas só até certo ponto, jurou estimá-lo para sempre.”

José Luís Peixoto in “Galveias” p.160 e 161

segunda-feira, março 02, 2015

Mount Fuji

Foto de Pedro Martín

"Camões, grande Camões, quão semelhante..." (Bocage)




Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez perdendo o Tejo
Arrostar c’o sacrílego gigante:

Como tu, junto ao Ganges sussurrante
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante:

Ludíbrio, como tu, da sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura:

Modelo meu tu és... Mas, ó tristeza!. . .
Se te imito nos trances da ventura,
Não te imito nos dons da natureza.


Bocage



"Sponge Fernando" - Imagem extraída da revista Sábado nº 470 de 2013

"Como uma esponja? Como uma loja de esponjas, com um armazém anexo!" - Fernando Pessoa

"Boné" - José Luís Peixoto

"Boné? Eu disse boné? Peço desculpa, enganei-me. Quando disse boné, queria dizer: piercings, tatuagens, responder a questionários de verão, ir a programas televisivos da manhã, folhear revistas cor-de-rosa na bomba de gasolina, ir a festivais de música e cantar em voz alta, ter página no facebook, comer cachorros quentes na roulotte."

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

"O Clube dos Anjos" de Luís Fernando Veríssimo

“Nem todos os dias se quer ouvir uma estaladiça fuga de Bach, ou amar uma mulher suculenta, mas todos os dias se quer comer. A fome é o único desejo reincidente. A visão acaba, o sexo acaba, o poder acaba – mas a fome continua”.
É baseado nesta premissa que se baseia o delicioso livro de Luís Fernando Veríssimo “O Clube dos Anjos” que me chegou às mãos através do critério literário, sempre certo, do meu querido Henrique Jorge.

Afinidades animais, perspectivas de morte no prazer da gula, e “o desafio filosófico da gastronomia: a apreciação que exige a destruição do apreciado”. 

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

"Morte onde está a tua vitória?" - António Lobo Antunes

Magnifica a crónica de António Lobo Antunes desta semana. Para quando o Nobel da literatura?

Lá deu com o bicho: um meningococo. Imaginaram a cena? Se isto não vos faz admirar o meu pai, cuja valentia, herdada do pai dele, foi sempre enorme, vão à fava”. in crónica “Morte onde está a tua vitória?” 


segunda-feira, fevereiro 23, 2015

Há 28 anos já...

Há 28 anos que o "enorme" Zeca nos abandonou. Um ser humano que "em cada esquina" via um amigo e "em cada rosto igualdade", um homem cuja música me ensinou a querer ser mais livre sem esquecer que nessa liberdade me construo e me realizo num futuro que espero digno para os meus filhos... O Zeca... que me ensinou que a amizade é maior que o pensamento...
Aqui estarás sempre, "enquanto nos ponhamos a pensar"...  
"Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também"

"Te di los días, las horas y los minutos" - Miguel Torga

(Torga, para siempre Torga...)

Te di los días, las horas y los minutos
De estos años de vida que pasaron;
En versos se quedaron
Imágenes que son máscaras anónimas
De tu rostro prohibido;
El hambre insatisfecha que sentí
Era de ti,
Hambre del instinto que no fue escuchado.

Ahora retrocedo, leo los versos,
Cuento las desilusiones en la lista del corazón,
Recuerdo la pesadilla de los deseos,
Miro el desierto humano desolado,
Y pregunto por qué, por qué razón
En las dunas de tu pecho el viento pasa
Sin tropezar en la gracia
De la más ligera señal de mi mano…
                                               Miguel Torga  

domingo, fevereiro 22, 2015

versos de vertedero

los versos en un vertedero
son una verdad tirada como un váter de una casa en ruinas 
porque nadie quiso restaurarla
sueltos
tirados por el suelo
pueblan
alrededores
de poemas
cada vez más lejos del centro

elijo la métrica que mejor mide
mis miedos
la encuentro y la confundo con la primavera
tres sílabas solo
almendro

estuvieras tú aquí

si te digo que te quiero
y estuvieras aquí,
el querer se moriría precario
de nuestro tiempo.
lo callo sin sufrimiento.
sé que nuestro amor
se asume en la mirada azul
del silencio
cómplice que se aparta
de esa palabra que es nuestra
en un cruce tan cerca de
la eternidad.

sábado, fevereiro 21, 2015

O caminho do guerreiro (Bushido do século XXI)

O caminho do guerreiro (Bushido do século XXI)

Existe uma tendência que se concretiza no vazio porque com o corpo se nasce e se morre. Vazio de adornos que não fiquem gravados na epiderme ou grafados na intemporalidade do ser.
As artes marciais são um adorno intangível, imaginado em estética, porque não adornam o corpo, endurecem-no e realizam-se na ética dum espírito que entende dualidades, tanto vive tempos de guerra como de paz.
Em silêncio, sem grandes alaridos, colocam-te ao espelho limitações, desafios reais dum segundo cuja competitividade é unicamente manter-se com vida outro segundo.
A forma existe para mostrar a vida de um conteúdo, adapta-se porque interpreta o real e eterniza-se na curiosidade humana que se senta na necessidade de reflexão.
O espírito marcial em pleno século XXI não ecoa cortante no gume da katana, não se enumera em códigos Hagakures ou se circunscreve a Livros dos Cinco Anéis. Sun Tsu, perdeu-se pervertido por economistas, políticos ou vendedores. Resta-nos a sua essência, uma quietude funesta, último ardil contra a voracidade deste tempo que nos obrigam a comprar.
O guerreiro do presente não é um arquétipo do oriente, nem casta militar de ordem cavaleiresca no ocidente.
Em silêncio, por vezes no murmúrio da escrita, não associa estoicismo ao renegar a queixa, honra a coragem dos seus antepassados com as mãos mais que vazias, despojadas, pela violência feita economia, casas frias pelo absurdo valor de qualquer energia, com as 24 horas do dia transformadas em múltiplas ânsias que tem de acalmar, que tem de pelejar.
Não há glória para o guerreiro do século XXI, nem novelas cavaleirescas, nem ideais quixotescos. O peito aberto não é heroísmo de estratega. É falta de roupa.
O romantismo do martírio não tem sentido porque os esforços de guerra cavam sempre trincheiras de lama e as ratazanas apenas trazem a doença de mais uma conta que saldar.
À noite, o merecido descanso do guerreiro embala-se numa rede de desespero. Partilham-se filosofias virtuais para que se mantenha da ideia o sonho. O espírito desnutrido sobrevive adormecido por uma refeição diária mas conectada com o mundo.
Não há hara-kiri assistido. É normal ver um guerreiro de joelhos. Há dignidade na humanidade em genuflexão ante a sua própria condição, sempre que nos joelhos não pese humilhação.
Existe a tendência ao vazio.
A casta de ser-se guerreiro revela-se na coragem com que alguns assumem a sua condição sem pudor, sem a vergonha da violência deste presente em todo o mistério parece revelado por o futuro contido neste novo século. Não há muita luz nem virtude nesta condição.
Existe realidade no vazio, mas ainda há escassa liberdade de decidir se vale a pena levantar a guarda e lutar. 

"A pedra acompanha a forma do mundo" - Ruy Ventura

“La piedra acompaña la forma del mundo. La imagen crece. Acompaña toda la ciudad y, algún tiempo después, nace en la piedra – un rostro, una voz perdida hace tantos años.” 
Ruy Ventura

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

"O relógio põe vírgulas nesta frase" - Ruy Ventura

“O relógio põe vírgulas nesta frase. A pontuação que resta vem de algumas gotas de chuva. Regam a angústia. Escondo-a – porque não me pertence.”   Ruy Ventura


quarta-feira, fevereiro 18, 2015

domingo, fevereiro 15, 2015

Ninguém nos ganha aos matraquilhos

“Ninguém nos ganha aos matraquilhos”… Ecos, pretéritos, que soam a madeira chutada pelo chumbo dos pés que sempre tive para o futebol… mas nos matrecos a coisa era outra, um pulso adestrado que se via no rendimento no tridente atacante.

Grande disco do Vitorino! 

sábado, fevereiro 14, 2015

Llueve al ritmo de un makiwara en Naha


(Para Elsa, Juan Ignacio y Pedro Martín.)

El primer pequeño paso para que se reconozca que el tiempo pasó es aceptar que del dolor también se puede llegar al tuétano de las cosas.
Dojo vacío, cuello sudado de práctica, pantalones gastados, amarillos en blanco de lino, atados por nudos perfectos, justos, de dedos duros y callosos, sentados en el escalón del jardín. El sonido de la lluvia revive el té que se toma bastante caliente.
Chojun Miyagi no necesitaba recordatorios de tal naturaleza. Miraba fijamente el espacio exterior, ordenado y callado, de su diáfana escuela, poblada por aparatos rudos, toscos de manejo, que ayudan a la educación del cuerpo y del espíritu por la piedra.
En su mirada resonaban golpes secos en madera hinchada. Sus manos vacías encallecían un alma sobria, recta, generosa de raíces, convictamente fuertes y firmes en el agarre.  
El último sorbo de té, infusión de que todo el arte perece, le mereció la mesura de un ritual.
Posada la taza en el escalón de madera, rascó los dedos en la parte de atrás del cuello, todavía humedecido, y cumplió el resonar de su mirada, golpeando con sequedad el mojado makiwara bajo la lluvia.
La percusión de una orquestra de puño, dirigida por este viejo maestro de Okinawa, en crescendo, líricamente embrutecida, se hacía acompañar por un recatado silencio femenino.
Pasos cortos, marcha arrastrada de etiqueta, kimono humilde con nobles pliegues de princesa, le trajeron la comprensión del paraguas, sujeto en otras manos. Manos suaves, de esposa de un viejo maestro…
Llueve al ritmo de un makiwara en Naha.
El Budo no se sintetiza en la maestría del puño que se agota en artrosis cronológicas. Igualmente habita en las manos cómplices de quien nos protege al entrenar bajo la lluvia.  

"Todo o filho que quer chegar aos limites, ao último limite do reino do pai, não quer medir, quer sair" - Gonçalo M. Tavares

“Todo o filho que quer chegar aos limites, ao último limite do reino do pai, não quer medir, quer sair. Saltar para o outro lado, ultrapassar o limite. Começar de novo. Porém, é isto: é impossível começar verdadeiramente de novo. Somos sempre filhos”.
Gonçalo M. Tavares


“Todo el hijo que quiere llegar a los límites, al último límite del reino del padre, no quiere medir, quiere salir. Saltar hacia el otro lado, sobrepasar el límite. Empezar de nuevo. Sin embargo, esto es: es imposible empezar verdaderamente de nuevo. Somos siempre hijos”.
Gonçalo M. Tavares


terça-feira, fevereiro 10, 2015

A CIDADE, AS CIDADES de Juan Ramón Santos

Numa só cidade
cabem muitas cidades.
                               Por exemplo,
esse local fechado
que veem no outro lado da rua
dedicou-se à venda de banda desenhada
e conseguiu aguentar-se alguns anos
antes de sucumbir à hecatombe.
Eu não cheguei a entrar nunca,
confesso,
mas sei que ali dentro se reuniam
amantes de bds
e freaks das mais diversas espécies.
Para muitos deles,
por mais que passe o tempo, esse lugar,
que para o resto passa inadvertido,
formará sempre parte indiscutível
da sua particular cartografia
desta cidade,
                               e em troca
pode ser que nunca cheguem nem sequer
a lembrar-se do parque
que se estende discreto mesmo em frente,
pode ser que algo anódino
e fora de moda, sim é certo,
mas que no entanto, para mim
não deixará jamais de estar ligado
a plácidas manhãs de verão
a empurrar um carrinho de bebé
ou velando o seu sono, um pouco mais tarde,
à sombra de uma árvore,
tão contente,
com um suculento livro entre as mãos.

segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Auto-retrato (Rui Knopfli)




AUTO-RETRATO

De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes
do riso claro à angústia mais amarga.

De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracional, lesto na mirada ao seio
entrevisto, à nesga da perna, à fímbria da nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

De suiço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.

Rui Knopfli







domingo, fevereiro 08, 2015

"Eu falo às paredes" - José Tolentino Mendonça

Andei, quase duas semanas, com esta crónica do José Tolentino Mendonça dentro do bolso do casaco para que não me esquecesse das suas palavras:
“A vida é um laboratório de humildade, onde as nossas perspectivas se refazem constantemente”.

sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Rascunhos acompanhados por Ángel Campos e Paul Celan...

Para o meu "hermano" José Antonio Santiago.
As dúvidas são sinal de trabalho... Notas soltas, ao lado do poema, crescem em paralelo com o pragmatismo da tradução que nunca se olvida do lirismo...

"Arte Poética" Jorge Luis Borges (trad. Ruy Belo)

A melhor forma de aprender é com o exemplo dos melhores. A vida adulta possibilita-nos isso: seleccionar com quem queremos aprender e absorver o brio do seu trabalho. O experimentalismo da juventude nem sempre nos é grato nesse aspecto…
É o caso do grande poeta português Ruy Belo, cujo labor de tradutor trouxe para a língua portuguesa a lírica do enorme Jorge Luis Borges. Eis este belo exemplo da “Arte Poética” de Borges, na tradução e caligrafia de Ruy Belo…


quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Chove ao ritmo de um makiwara em Naha

À Elsa…

Chove ao ritmo de um makiwara em Naha

O primeiro pequeno passo para reconhecer o tempo que passou é aceitar que da dor se chega ao tutano das coisas.
Dojo vazio, pescoço suado de prática, calças gastas, amarelas em branco de linho, atadas por nós perfeitos, justos, de dedos duros e calejados, sentados no degrau do jardim. O som da chuva reaviva o chá que se bebe bem quente.
Chojun Miyagy não necessitava recordatórios dessa natureza. Fitou o espaço exterior, ordenado e calado, da sua escola. Aparelhos rudes, toscos de manejo, ajudam a educar o corpo e o espírito pela pedra.
No seu olhar ecoavam pancadas secas em madeira inchada. As suas mãos vazias calejavam uma alma sóbria, recta, generosa de raízes, convictamente fortes e firmes no agarre.
O último sorvo de chá, infusão de que toda a arte perece, mereceu-lhe a dignidade de ritual. Pousada a chávena no degrau de madeira, arranhou os dedos na parte detrás do pescoço, ainda humedecido, e cumpriu o eco do seu olhar, golpeando com secura o makiwara molhado à chuva.
A percussão de uma orquestra de punho, dirigida por este velho maestro de Okinawa, em crescendo, acompanhada pelo silêncio recatado de sua esposa. Passos curtos, arrastada marcha de cerimónia, kimono humilde com vincos nobres de princesa, trouxeram a compreensão do guarda-chuva sujeito nas outras mãos, suaves, da esposa dum velho mestre.   
Chove ao ritmo de um makiwara em Naha.
O Budo não se sintetiza na mestria de punhos, esgotada nas artroses do tempo. Também reside cúmplice nas mãos de quem os protege de treinar à chuva. 

Un rincón de luz...

Acompañado, solo, del sol...

terça-feira, fevereiro 03, 2015

O poeta de alta competição

o poeta de alta competição
lê fibras e hidratos de carbono
preparado a literário concurso

declama lama em verso
e escreve estrofes hipertrofiadas
que no fundo são como os testículos
da literatura anabólica
realidade inútil mirrada

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