| "A Primavera a assomar-se" - Foto de LL |
sexta-feira, fevereiro 15, 2019
quinta-feira, fevereiro 14, 2019
Sonho
É raro lembrar-me dos sonhos, mas hoje era impossível não o fazer. Nos confins do meu cérebro, a noite que passou, sonhei com uma personagem do mundo da sétima arte. Uma figura paternal, idosa, então, melhor, uma espécie de avô do celulóide.
Não recordo ao pormenor do que falávamos, sei que falávamos, sentados em duas cadeiras simples, duras, mas daquelas que te fazem sentar bem para evitar lombalgias. Não havia ninguém mais na sala. Agora, vendo bem, não sei se era uma sala, talvez um espaço quase vazio onde poderíamos montar o cenário que quiséssemos.
Falei, falei. Era eu e não me ocultava atrás de qualquer tipo de conversa de circunstância. Talvez falasse de como, de vez em quando, tenho medo, de como com frequência me engano ou de como me emocionei, ainda ontem, a olhar para as flores das nossas amendoeiras. Falei e falei, essa foi a única certeza, feita sensação.
Ironicamente, talvez a rotina do corpo tivesse a enviar sinais ao cérebro, quando nos levantámos e nos despedimos com um abraço, honesto, frágil, despido de egos, o telemóvel activou o despertador e o Jack Johnson lá me trouxe para o mundo empírico.
Mesmo sendo onírica, soube-me bem, soube-me a pouco. Sonharei com ele outra vez?
quarta-feira, fevereiro 13, 2019
Crónica: "O Processo" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº147, p.48)
Crónica: "O Processo" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº147, p.48)
José P. era um funcionário
público com a mania de transcrever citações no seu bloco de notas. A última, de
Onésimo Teotónio de Almeida, assim a trasladou: “Para nos apercebermos mais
nitidamente das mudanças lexicais e das alterações culturais (...), seria
importante verificar a diminuição de termos como dever, honra, respeito,
humildade, modéstia, honestidade, virtude, autenticidade, genuíno, compromisso,
consciência, lealdade, coragem (...)”. Apesar da intenção de o fazer, José P.
não dispôs de tempo para encontrar alguma “app”, ou “googlar”, a fim de saber a
frequência com que se usam algumas destas palavras e quais seriam as mais
usadas actualmente na sua língua.
Por obrigação (não por vocação),
José P. passou os últimos meses, na companhia de outros colegas de profissão,
imerso num concurso de acesso à função pública. Assim foi e, consciente da sua imperfeição
humana, porém com formação e experiência profissional a habilitarem-no para o
desempenho das funções que se lhe exigia, fê-lo da melhor maneira possível e de
acordo com a legislação vigente, algo que, apesar da tarefa nada agradável, lhe
permitia dormir descansado, sabendo que, graças a este procedimento, não seria
atacado pelo “karma”.
Durante o processo, José P. não
sublinhou citações. Redigiu e assinou papelada, em especial relatórios de ocorrências
(quiçá úteis para guiões de humor, ou de terror, dependendo da sensibilidade do
espectador), que agora poderão ser consultados nos arquivos ou “hackeados” da
base de dados da administração pública.
Acompanhado pelos restantes
membros do júri, José P., ciente da responsabilidade das suas funções, tal como
do dever para com os aspirantes, fez tudo o que os seus superiores lhe
indicavam, por vezes com certa dificuldade em receber informação de quem lha
deveria legalmente transmitir e em condições laborais desapropriadas à obrigação
que tinha em mãos. E assim, com um certo estoicismo, tudo se fez.
O acesso aos quadros do Estado
decorreu (apesar dos episódios hollywoodescos em acta para a posteridade!)
dentro dos prazos e das normas previstas. Como deve ser, todos os candidatos
tiveram o direito a serem esclarecidos acerca da sua avaliação (oralmente e por
escrito) podendo reclamar tal juízo. O júri estava aí para isso e fê-lo a tempo
e horas, debaixo dum olhar (que se espera atento, mas pelo qual não era
responsável) dos serviços de inspecção. O certo é que não teve mãos a medir,
sendo várias as reclamações às quais esse grupo de profissionais, com José P. à
cabeça, respondeu, munido de muitos (muitíssimos) apontamentos, tabelas,
grelhas e somatórios de critérios de avaliação.
Fruto, quem sabe, do Verão quente,
de movimentos de denúncia necessários, de uma sociedade cada vez mais
consciente de direitos, o simples facto de se ser membro dum júri já é motivo
de suspeição, quase sinónimo de corrupção. José P. não está livre de defeito,
tal como os seus pares avaliadores e tal como qualquer candidato, do mais
brilhante ao mais ignóbil.
O dever pesa tanto como o direito.
Hoje José P. tem a sensação de só se ter o direito a atirar pedras e esconder a
mão. Já que se atira uma pedra, e se pode aleijar o outro, há o dever de
mostrar a mão, provar o porquê do apedrejamento.
Numa dessas queixas, alguém
afirmou “existirem irregularidades” no processo. O funcionário público, com a
mania de transcrever citações, e a sua equipa, respondeu com a justificação imperiosa
por lei, solicitando tais irregularidades serem demonstradas. Tão acostumados
estamos ao silêncio administrativo, que, desta vez, o silêncio veio de quem
reclama.
Cumpridos os princípios éticos e
de conduta (regulados pelos artigos 53 e 54), o júri dissolveu-se, voltando ao
simples e desacreditado dia-a-dia do funcionalismo público. Os aspirantes
ocuparam as vagas por mérito próprio, com tudo de circunstancial que isso
implica, e José P. volta ao lápis de sublinhar, desenganado de evolução,
respeito pelos direitos e integridade do seu semelhante. Passar do 8 ao 80, é
um “processo” mais que kafkiano, é moralizar intrujice com embustice.
“Somos culpados até se provar que
somos inocentes ou culpados. Os media e as redes sociais metem-nos no calabouço
desde o primeiro momento. O direito ao bom nome e à honra é coisa de séculos
passados. Anacronismos...”. Eis uma intromissão de José P. entre as ilustres
citações do seu bloco. Enquanto se dilui o processo numa lembrança de ter de ser
esquecida, o funcionário pensa “cada vez temos mais medo um dos outros”...
terça-feira, fevereiro 12, 2019
La perspectiva del tiempo...
La perspectiva del tiempo puede que no sea la más justa, pero suele ver todo con más calma.
Solidão carnavalesca...
A solidão tem tantas máscaras, mas é das poucas coisas que, ao pensarmos nela, olhamo-la logo no rosto óbvio, aquele que nos contempla só, ausente de considerar-nos sequer companhia.
Evito olhá-la nos olhos e vou prestando mais atenção às máscaras, como se adornam de cores, gente, movimento, eloquência até. Vejo-as por aqui e cada vez com mais frequência. Parece, por vezes, um desfile, um cortejo carnavalesco, em folia silenciosa.
Houve uma época em que gostava do carnaval, uma época em que me apaixonei sem recurso a máscaras. Hoje, à parte de mascarar os miúdos, o carnaval é a solidão dos outros e a minha, tímida, pouco convincente, mas real.
Lá fora oiço os ensaios para o Carnaval de uns quantos solitários ao batuque gregário. Sei que tenho de sair e não tenho medo. Falta-me o estímulo, talvez a companhia. No entanto, ao contrário da verdadeira solidão, a coisa não é tão óbvia.
segunda-feira, fevereiro 11, 2019
São belos estes muros...
São belos estes muros de terra e pedra.
Pulidos e compactados pela chuva, que vai escasseando por aqui, dividem as courelas com a mesma facilidade com que se desmoronam, desnorteados, sem saberem para que lado ficou o musgo.
domingo, fevereiro 10, 2019
Sapatos no chão
Sapatos no chão,
deitada a sesta no
sofá... domingo.
deitada a sesta no
sofá... domingo.
(O Xavi a curar a gripe no quentinho da aCourela...)
sábado, fevereiro 09, 2019
Os jovens capotes alentejanos...
Ignoram a neve os jovens capotes alentejanos, crentes num único frio da planície. Até serem adultos e abraçarem, pela primeira vez, o parente do planalto, o velho abrigo transmontano.
Momento (Jorge Barbosa)
Conheci Jorge Barbosa e este poema dele há varios anos ao ler uma crónica de António Lobo Antunes, Crónica da pomba branca (2008). Lá estava essa "fininha melancolia"...
MOMENTO
Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
Não a do tédio
desesperante e doentia,
Não a nostálgica
nem a cismadora.
Esta nossa
fininha melancolia
que vem não sei de onde.
Um pouco talvez
das horas solitárias
passando sobre a ilha
ou da música
do mar defronte
entoando
uma canção rumorosa
musicada com os ecos do mundo.
Quem aqui não sentiu
esta nossa
fininha melancolia?
a que suspende inesperadamente
um riso começado
e deixa um travor de repente
no meio da nossa alegria
dentro do nosso coração,
a que traz à nossa conversa
qualquer palavra triste sem motivo?
Melancolia que não existe quase
porque é um instante apenas
um momento qualquer.
Jorge Barbosa
Jorge Barbosa (Praia, Cabo Verde, 1902 - Cova da Piedade, Almada, 1971)
sexta-feira, fevereiro 08, 2019
Creed II
Fim de tarde com o meu mais velho no cinema a ver o legado cinematográfico de Rocky, Creed II. Entre tanto murro no tronco e na cabeça, o filme não defrauda quem cresceu a ver como o Potro Italiano, aparentemente com tão poucos neurónios, versou filosofia de sempre forte (principalmente no final) e de encaixar os golpes baixos que a vida nos dá.
Um filme sobre pais e filhos. Sobre o que se tem a perder e quem nada tem para perder. Um filme que, como sempre, só não me deixa a chorar como uma Magdalena porque estou em público e sei que talvez fosse difícil para o meu filho entender o porquê... Porque, afinal de contas, e com a cara feita num bife batido, ele até acabou por ganhar.
O que chamamos «literatura»...
O que chamamos «literatura» não tem outra essência nem outra finalidade do que antepor entre nós e o chamado real, obstáculo ou ameaça, a teia sem começo nem fim da ficção, o único estratagema positivo que concebemos, que somos, para escapar ao que tocado ou visto nos destruiria.
Eduardo Lourenço
quinta-feira, fevereiro 07, 2019
terça-feira, fevereiro 05, 2019
"¿Cómo te llamas?", pergunto-te no espanhol do dia-a-dia.
¿Cómo te llamas?, pergunto-te no espanhol do dia-a-dia.
Respondes
Xavi.
¡Tu nombre completo, hombre!, relembrando-te as raízes.
Xavi “Super López” Pinto, dizes, com esse sorriso a voar mais além de
qualquer inquisição paternal.
Tens
razão. Escolhem-te um nome, impõem-te apelidos, porém, para o teu verdadeiro yo, só tu escolherás epíteto. Que seja “Súper
López” ou o que tu quiseres. Com ou sem nome, essa designação que, como me
ensinou Pascoaes, desfigura as coisas,
sempre identificarei o teu sorriso e saberei que és meu filho.
![]() |
| Súper López |
domingo, fevereiro 03, 2019
Retrato de duas jovens (1939) - Eduardo Malta
sábado, fevereiro 02, 2019
sexta-feira, fevereiro 01, 2019
A VIDA/LA VIDA – Miguel Torga
A VIDA – Miguel Torga
Povo sem outro nome à flor do seu destino;
Povo substantivo masculino,
Seara humana à mesma intensa luz;
Povo vasco, andaluz,
Galego, asturiano,
Catalão, português:
O caminho é saibroso e franciscano
Do berço à sepultura;
Mas a grande aventura
Não é rasgar os pés
E chegar morto ao fim;
É nunca, por nenhuma razão,
Descrer do chão
Duro e ruim!
LA VIDA – Miguel Torga
Pueblo sin otro nombre a flor de su destino;
Pueblo substantivo masculino,
Mies humana de la misma intensa luz;
Pueblo vasco, andaluz,
Gallego, asturiano,
Catalán, portugués:
El camino es áspero y franciscano
De la cuna a la sepultura;
Pero la gran aventura
No es rasgarse los pies
Y llegar muerto al final;
¡Es, nunca, por ninguna razón
Perder la fe en este suelo
Duro y ruin!
Povo sem outro nome à flor do seu destino;
Povo substantivo masculino,
Seara humana à mesma intensa luz;
Povo vasco, andaluz,
Galego, asturiano,
Catalão, português:
O caminho é saibroso e franciscano
Do berço à sepultura;
Mas a grande aventura
Não é rasgar os pés
E chegar morto ao fim;
É nunca, por nenhuma razão,
Descrer do chão
Duro e ruim!
in “Poemas ibéricos” (1965)
LA VIDA – Miguel Torga
Pueblo sin otro nombre a flor de su destino;
Pueblo substantivo masculino,
Mies humana de la misma intensa luz;
Pueblo vasco, andaluz,
Gallego, asturiano,
Catalán, portugués:
El camino es áspero y franciscano
De la cuna a la sepultura;
Pero la gran aventura
No es rasgarse los pies
Y llegar muerto al final;
¡Es, nunca, por ninguna razón
Perder la fe en este suelo
Duro y ruin!
in “Poemas ibéricos” (1965)
(Trad. Luis Leal)
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| Retrato a carvão de Miguel Torga pelo pintor Isolino Vaz |
(Quanto mais se adentram as minhas raízes lusitanas pela terra mais me sinto ibérico... é a vida.)
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