sábado, outubro 12, 2019

Crónica: "Ser Amável" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº150, p.62)

"Ser Amável"

O primeiro olhar da janela de manhã, o velho livro de novo encontrado, rostos entusiasmados. Neve, o mudar das estações. O jornal, o cão, a dialéctica. Tomar duche, nadar. Velha música. Sapatos cómodos. Compreender. Música nova. Escrever, plantar. Viajar, cantar. Ser amável.
Vendo bem, este primeiro parágrafo poderia ser, perfeitamente, uma lista de pequenas satisfações. Um inventário que deveríamos fazer com mais frequência e que, feitas as contas, está repleto de coisas que até não são caras ou são perigosamente grátis.
Contudo, a única coisa que é minha neste parágrafo, tão simples quanto reconfortante, é a tradução e adaptação da sintaxe para português da versão espanhola do original alemão do poema “Prazeres” de Bertold Brecht.
Que o meu caríssimo leitor não se preocupe com esta apropriação em terceira mão. De certeza que o dramaturgo e poeta alemão, quando listou estes versos, fê-lo sem qualquer sentimento de exclusividade. Qualquer poeta, digno desse nome, não pensa nisso. Agradece a dádiva do primeiro verso num poema a abrotar em recíproca generosidade.
A verdade é que se, neste preciso momento, tivesse de me apropriar do poema mudaria pouca coisa. Porque não atrever-me e, quem sabe, encontro algumas das emoções que me têm escapado ultimamente? Quer acompanhar-me numa lista paralela? Ora vamos lá a isso!
“Prazeres” por Luis Leal:
Subir a persiana pela manhã, o livro sublinhado, sorrisos no rosto. Temperatura amena, a existência de quatro estações. A revista, o cão, as gatas, as crianças, o Byung-Chul Han. Tomar duche, andar de bicicleta. Música antiga. Pés descalços. Compreender. A boa sugestão musical. Escrever. Ter água para regar. Flanar. Abraçar. Ser amável.
Se isto não fosse uma reflexão feita crónica, o meu estimado leitor bem me poderia acusar de falta de originalidade a roçar o plágio. Assumo esse facto, com humildade e sem discussão.
Porém, à medida que vejo os anos passar, cada vez mais me convenço que deveríamos plagiar o último verso de Brecht, o de “ser amável”.
Tenho fé em que essa é a verdadeira fórmula para um mundo melhor. Bom dia, boa tarde, olá, obrigado, de nada, com licença, faça favor, etc. Um dia com amabilidade torna qualquer existência melhor, nem que seja por segundos. Parece que isso está, como o lobo-ibérico, em perigo de extinção e até se confunde com “micromachismos”.
Pelos vistos, segundo um artigo pretensiosamente feminista, o simples facto de eu abrir a porta a uma mulher e ceder-lhe a passagem faz de mim um micromachista. Como também o faço a homens e, no outro dia, até o fiz ao caniche da minha vizinha, devo ter outro nome qualquer. Como vai o mundo, hoje em dia, não me arrisco a dizer educado.
Quando a sociedade moderna, tão rápida quanto despistada, nos transmite que temos tudo garantido, remetem-se para cultismos palavras ou expressões como “agradecido”, “grato” ou “bem-haja”. É pena, pois se reduzirmos a velocidade a que vamos vivemos, vemos a amabilidade e gratidão irem de bem por esta vida e de mãos dadas.
É muito raro deixar uma crónica da “Mais Alentejo” para a última da hora, mas confesso que esta foi redigida no “deadline” que o António Sancho nos permite antes de se zangar em “fúria verde”, pois ele jamais permitiria pôr-se de outra cor.
Clubismos à parte, de certeza que o meu estimado leitor já se apercebeu de ter em mãos o exemplar nº 150 de um sonho antigo do nosso director, do nosso António Sancho. Uma quimera feita realidade que já atingiu a maioridade de um projecto competente, de qualidade sem fronteiras regionais e que, há muito, também se conhece no país onde habito e escrevo estas palavras, Espanha.
O que é que posso dizer para além do agradecimento por fazer parte desta ilustre equipa da Mais Alentejo? Pouco ou nada. Partilho só como é receber a revista cada vez que acaba de ser editada. Com prazer. Um desses pequenos grandes prazeres que junto aos meus versos roubados a Brecht.

"Prazeres" - Luis Leal

Crónica: "Ser Amável" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº150, p.62)


Ser amável. Tenho fé em que esta é a verdadeira fórmula para um mundo melhor. Bom dia, boa tarde, olá, obrigado, de nada, com licença, faça favor, etc. Um dia com amabilidade torna qualquer existência mais aprazível, nem que seja por segundos. Se forem tão amáveis, seria um prazer que lessem esta crónica da Mais Alentejo nº150 (e a revista nº151 já nas bancas). Votos de um amável fim-de-semana!

Ser amable. Tengo fe de que esta es la verdadera fórmula para un mundo mejor. Buenos días, buenas tardes, hola, gracias, de nada, con permiso, haga el favor, etc. Un día con amabilidad hace cualquier existencia más apacible, aunque sea por segundos. Si sois tan amables, sería un placer que leyeseis esta crónica en “Mais Alentejo” nº150 (y la revista nº151 ya en los quioscos). ¡Qué tengáis un amable fin de semana!


terça-feira, outubro 08, 2019

domingo, outubro 06, 2019

Kenshinkan Dojo – “A Casa da Espada Celestial” - Luis Leal in "Rayanos Magazine"

Kenshinkan Dojo – “A Casa da Espada Celestial”


Desde tenra idade o Oriente sempre me fascinou. Esse ponto cardeal que continuamente me remeteu para povos, paisagens (nunca por mim vistas para além de filmes e fotografias!), artes e filosofia. Talvez por ter nascido em Portugal, esse pequeno país de gente lançada aos oceanos na ânsia de chegar aos mais extremos cantos do mundo, o Japão ocupou um lugar de destaque e, ainda hoje, sonho com um dia poder visitar o país do sol nascente. Se o puder concretizar, fá-lo-ei para homenagear a minha infância (abundante em cinematografia de série B), como também para recordar a ingenuidade dos primeiros jesuítas que ali chegaram para disseminar um evangelho, hoje remanescente no coração de pouquíssimos nipónicos. 
Foto de Juanma Zarzo
Apesar de reconhecer o fascínio que tenho por a terra dos samurais, admito que é cada vez menos romântico e mais realista, quando comparado com os meus verdes anos. Porém, tal não invalida o meu deslumbramento. Ler ajuda bastante. Neste caso sobre história japonesa, sobre Xintoísmo, sobre filosofia Zen (se é que a posso chamar filosofia...), a par de alguma literatura de autores nipónicos. 
A maturidade acalmou o desejo de me projetar numa espécie de Nathan Algreen raiano, isto é, um ocidental anacrónico à procura de paz no Bushido. Para quem não sabe, trata-se da personagem dum capitão norte-americano - em conflito interior por haver testemunhado a crueldade das Guerras Indígenas Americanas -, criada por John Logan nessa, já antiga, película intitulada “O Último Samurai”.
Foto de Juanma Zarzo
Escrever uma crónica com algum léxico japonês exige várias (e imperfeitas!) tentativas de tradução e, caríssimo leitor, permita-me apenas ressalvar, caso desconheça, que o conceito de Bushido nos remete para o que se poderia definir como o “caminho do guerreiro”. Se omitirmos figuras históricas como Miyamoto Musashi, ou os famigerados Kamikazes durante a Segunda Guerra Mundial, se nos afastarmos de extremismos, como a cerimónia do Seppuku, o esventramento vulgarmente conhecido por Haraquíri (escrevo isto a lembrar-me de Yukio Mishima), esta forma de encarar a vida, tão conotada com uma atitude aguerrida, paradoxalmente cuida de prestar uma enorme atenção ao sublime da existência, encontrando exíguos consolos, paz, por entre tantas feridas e buracos presentes na armadura do ser.
O meu estimado leitor já se estará a indagar por que motivo me pus para aqui a escrever sobre cultura japonesa na “Rayanos Magazine”? E tem toda a razão. O que é que o Japão, o Oriente, tem a ver com esta nossa rai(y)a?
Respondo-lhe com um segredo, contudo sem qualquer tipo de sigilo. Nestes tempos nos quais a luz dos néons parece pôr à vista de todos o mistério do que antes se considerava profundo, difícil, praticamente sagrado, em Badajoz, numa esquina do coração da cidade, existe um local no qual somos convidados à reflexão, a viver, através da perspectiva das artes marciais tradicionais. Falo-vos do Kenshinkan Dojo.
Um Dojo não é um sinónimo perfeito de escola, pois trata-se de um termo usado para designar um espaço destinado ao ensino e à prática das artes marciais e da meditação, assente numa ténue fronteira entre o sagrado e o profano. Ali o respeito flui desde o trato pessoal até ao mais pequeno pormenor de manutenção e limpeza do local.
        O Kenshinkan Dojo adapta-se, com notável esmero, ao paradigma e é o sonho de uma das vidas mais interessantes com as quais me pude cruzar. Afirmar que ali encontrei um dos meus grandes mestres e amigos é motivo de orgulho, uma honra. Digo-o em verdade e não só para manter o estilo oriental da crónica. 
Foto de Juanma Zarzo
       Se traduzirmos Kenshinkan ficamos com algo aproximado a “A Casa da Espada Celestial”. Aí habita Pedro Martín González (Menkyo Kyoshi Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu), tal como o recato duma prática marcial ancestral, honesta, que não se confunde com o andar à batatada dos filmes de acção foleiros que ajudaram muitos neófitos a conceberem o Budo (“artes marciais”) como uma trivial manifestação de violência.
Pedro Martín Sensei, há quase quatro décadas a formar budokas, convida-nos a interpretar as artes marciais de uma forma holística. Por outras palavras, uma interpretação mais além das técnicas apanágio de defesas e ataques, explorando de forma equilibrada os movimentos culturais, as sensibilidades humanísticas e vários valores que considero essenciais e, infelizmente, não proliferam na sociedade.
Desde o primeiro dia que pisei o Kenshinkan Dojo, pela mão do meu amigo João Reis, senti-me a entrar num espaço de verdadeira devoção, amor sincero, por estas artes, talvez mal adjetivadas pelo deus romano da guerra. Senti que chegara ao meu Oriente, ao meu Japão, e não havia necessitado apanhar nenhum avião, ou caravela (como bom português!), para lá chegar.
Hikari significa “à procura de luz” e é também o título homónimo do último livro de Pedro Martín. Ler esse belo volume, com fotografias do jovem (e talentosíssimo) Juanma Zarzo, é conhecer o pilar que sustenta “A Casa da Espada Celestial”, é atrevermo-nos a contemplar como o ser humano se expressa de várias maneiras, todas legítimas, se houver respeito pelo outro, se houver simplicidade, se houver honestidade.
É bem possível que jamais pise o país do sol nascente. Deixei de procurar essa luz a Oriente. Encontrei-a aqui, onde habito. Não foi difícil. Como diz Pedro Sensei: “Sim, o simples é perdurável e, portanto, é verdadeiro”.


Reformas douradas...


quinta-feira, outubro 03, 2019

A felicidade pode ser real sem ser partilhada, mas não é a mesma coisa se tivermos afectos ao nosso lado. Tenho a certeza.

Conseguir algo intimamente desejado já não me parece uma vitória ou uma mentira. Não nego a felicidade de ter logrado o que até foi difícil, exigindo abnegação e esforço. Porém, não me iludo. Imóvel a olhar este dia, a vê-lo com distância de mim mesmo, e quem vejo não sou eu. Vejo aqueles que me alentaram a desejar, a continuar a tentar. Vejo principalmente duas pessoas que já não estão e a quem não pude telefonar para dar uma boa-hora.
Estariam orgulhosos. Sei-o desde dentro, desde o meu coração onde habitam. Cada letra que aprendi a conjugar em sílabas, que se converteram em palavras, em frases apontadas por aí, não esconde que advém dum mundo iletrado.
A felicidade pode ser real sem ser partilhada, mas não é a mesma coisa se tivermos afectos ao nosso lado. Tenho a certeza.
Continuo imóvel, mas o meu olhar já não se centra em mim. Observo o vazio. Não há euforia. Vejo afabilidade. Vejo um dia a acabar.

segunda-feira, setembro 23, 2019

«A Casa dos Hóspedes» - Yalal al-Dim Rumi (versão Luis Leal)

Isto de se ser um ser humano
é como administrar uma guest house.
Cada dia uma nova visita.
Uma alegria, uma tristeza, uma decepção, uma maldade,
alguma felicidade momentânea
a chegar com um visitante inesperado.
Dá-lhes as boas-vindas e acolhe-os todos,
inclusivamente se são um grupo penoso
a desvalorizar completamente a tua casa.
Trata cada hóspede com todas as honras
pois podes estar a criar espaços para novas delícias.
O pensamento obscuro, vergonhoso, malvado,
recebe-os à tua porta com um sorriso e convida-os a entrar.
Agradece a todos os que vierem
pois talvez possas descubrir que foram enviados
para guiar-te para mais além.

Yalal al-Din Rumi, «The Essential Rumi», trad. Coleman Barks, 1999 (adaptado por Luis Leal).


domingo, setembro 22, 2019

Plano Familiar de Leitura/Plan Familiar de Lectura



Um café sabe sempre a liberdade...


Conversas de pequeno-almoço em família... e unicórnios!

Sentados à mesa, num pequeno-almoço de Domingo em família, digo em tom de brincadeira:
- A mamã já está tranquila pois não vem por aí nenhuma mana...
(Isto porque a minha mulher acaba de chegar de França e, nos últimos anos, cada vez que foi para além dos Pirinéus levou consigo cada um dos nossos filhos no ventre.)
O mais velho diz de imediato que não quer nenhuma irmã, já está bem assim. A Elsa aproveita a conversa e pergunta ao nosso mais pequenito se ele gostaria de ter uma mana e a sua resposta não poderia ser mais rápida e segura:
- Mamy, eu quero um unicórnio!

sábado, setembro 21, 2019

Um prazer ao qual te apoias...

Habituado à secura dos dias, à escassez de precipitação nas terras por onde habitas, umas gotitas tímidas lembram-te que ter de trazer chapéu de chuva não é um estorvo... É um prazer ao qual te apoias.

O marmelo na árvore

O marmelo na árvore testemunha como o Verão passou sem se dar por ele e como o Outono chegou sem grande vontade de assumir o seu devido protagonismo entre as quatro estações.

Cheira a chuva

Cheia a chuva
e a jacarandás sem
flores, outonais.

sexta-feira, setembro 20, 2019

Nem imaginas o bem que se dorme...

Estou por aqui a rabiscar uns papéis do trabalho e oiço umas colegas a falarem sobre o seu tempo livre. Uma mostra videos às outras e comentam as virtudes do que se vê, pelo que oiço tratam-se de aulas de dança sem limite de idade.
A conversa continua com perguntas sobre onde é, que dias há aulas e quanto custa, mas o que me ficou foi uma afirmação que merece a pena registar neste diário de bordo, tantas vezes a meter água:
«Nem imaginas o bem que se dorme depois de dançar...»

quinta-feira, setembro 19, 2019

Pós-ecologismo




PÓS-ECOLOGISMO

Ir de trotinete eléctrica onde antes se ia a pé.


Lido no blogue Coração Acordeão, de António Gregório.




domingo, setembro 15, 2019

"Un perro refleja la vida familiar"/"Um cão reflete a vida familiar"

Sir Arthur Conan Doyle decía que "un perro refleja la vida familiar". No sé si nuestro perro refleja la nuestra. Abandonado y temblando de miedo, llegó a nuestras vidas hace un par de meses por casualidad, esa buena madrina de inolvidables encuentros. Al igual que a mis hijos, no me canso de contemplarlo y, a pesar de tener dificultad en entender lo que siento, es un extraño milagro poder hacerlo. Jamás humanicé a un animal y no me identifico con las polémicas animalistas del presente, sin embargo sé que la amistad, el compañerismo, o incluso el amor, habitan en otros seres, además de en aquellos que denominamos racionales.

Sir Arthur Conan Doyle dizia que "um cão reflete a vida familiar". Não sei se o nosso cão reflete a nossa. Abandonado e a tremer de medo, chegou às nossas vidas há uns quantos meses por casualidade, essa bela madrinha de encontros inesquecíveis. Tal como aos meus filhos, não me canso de contemplá-lo e, apesar de ter dificuldade em entender o que sinto, é um extranho milagre poder fazê-lo. Jamais humanizei um animal e não me identifico com as polémicas animalistas do presente, no entanto sei que a amizade, o companheirismo, ou mesmo o amor, habitam noutros seres, bem para além daqueles que denominamos racionais.


Mapa administrativo de Portugal





(Visto no blogue Santa Nostalgia)



quinta-feira, setembro 12, 2019

O som da depiladora

O som da depiladora denuncia que te estás a preparar para vestires uma indumentária mais formal amanhã. Não é que tenhas pelos nas pernas visíveis, é o teu ritual antes de usares saia.
Este é um dos sons que te fazem previsível e eu oiço-o com o prazer de quem te espera e te quer dizer que te ama.
O amor é tão rotineiro quanto previsível. Há quem diga que isso não é bom para a durabilidade do mesmo. Talvez. Porém, eu sei que a paixão se alimenta destes actos, destes afazeres do dia-a-dia que escolhemos passar juntos...

quarta-feira, setembro 11, 2019

No confundamos discreción con silencio cómplice...

Como dice un gran amigo mío, no confundamos discreción con silencio cómplice. Eso me lleva a compartir lo que he pensado hoy al enterarme de una lista de trabajo. No pasa nada si te pillan copiando y con chuletas… Sanción es cosa de diccionario y no de procedimiento administrativo.  

Como diz um grande amigo meu, não confundamos discrição com silêncio cúmplice. Isso leva-me a partilhar o que pensei hoje ao ver uma lista de trabalho. Não há problema se te apanham a copiar ou com cábulas... Sanção é coisa de dicionário e não de procedimento administrativo.

Indignado

Estou indignado. Repito-o a mim mesmo, indignado. Devo está-lo, pois só assim poderei assimilar este sentimento e abandoná-lo no momento certo.
Há um ano atrás, cumpri com as minhas obrigações laborais e intervim num concurso público para a carreira docente. No decorrer do processo, um candidato foi apanhado a copiar de cábula na mão. O mesmo foi convidado a sair do local do exame e apreendido o auxiliar de memória (hoje a marinar nos arquivos a administração pública). A situação foi tão surreal como escabrosamente pública, com quase duas dezenas de testemunhas. Redigiram-se actas da incidência, foram informadas as autoridades de inspeção competentes e, por uma questão de justiça, pensou-se que o candidato iria ter a correspondente sanção administrativa.
Passado um ano desta desagradável (e embaraçosa) situação, sou confrontado com a inclusão de tal pessoa nas listas de contratação, ocupando um lugar como contratado no sistema público de ensino.
O desprestigio não foi unicamente para os trabalhadores que cumpriam com as suas funções de supervisão e selecção. É-o para todos aqueles que se apresentaram ao concurso honestamente, mas, principalmente, para o organismo da comunidade autónoma que tutela o ensino público e privado. 
Para além de indignação, devo dizer que tenho vergonha... pois sinto que a mediocridade da situação nos mete a todos no mesmo saco, escapando-se unicamente a consciência de que a tem tranquila. Este "profissional" uma coisa saberá transmitir ao alunos: copiar compensa.

terça-feira, setembro 10, 2019

Saida Mukhametzyanova canta "Canção do mar"


Saida Mukhametzyanova é uma cantora russa muito nova, um fenómeno no seu país.

Fui bailar no meu batel,
além do mar cruel...




Passar ao lado

Passar ao lado.
Como esta lágrima,
junto à boca...

«Uno, dos, tres...»

«Uno, dos, tres... pollito inglés» é a frase que mais tenho ouvido nesta tarde relaxada em que não há trabalhos de casa nem teste no horizonte.
Andam por aqui a brincar e a jogarem ao «pollito inglés». Eu apenas observo, em silêncio adulto a ocultar morriña de infância, e penso mais uma vez em como foi possível que este patego, dum bairro operário eborense, criasse prol noutra língua. Sei que tenho pensamentos tão parvos, mas não os renego e aceito-os.
O «pintainho inglês» até existiu durante os  Verões algavios em companhia do meu tio Leopoldo e da minha tia Dolores. Ser loiro e ter olhos azuis ajudava à nacionalidade emprestada entre os turistas da grande Albion.
«Tudo foi por onde tinha que ir» são palavras que tantas vezes ouvi. Têm razão, um gajo tem de ir por onde tem de ir. O tempo foi passando e eu não sei muito bem porque é que tem vindo por aqui.
Eles sabem. Os meus filhos sabem. Sabem porque brincam e usam as nacionalidades como meros adjectivos de galinácios. É para isso que servem e vão para a cama sem saberem porque é que o «pollito inglés» foi um pinto diferente no passado do seu progenitor. Não sei se os invejo por isso ou por simplesmente eu já não ser criança ao seu lado e ter de envergar este traje de progenitor.
Sei que os vou chamar para ao pé de mim e os vou abraçar como o primata que sou. Vou beijá-los tanto como o pai babado que sou mas que não gosta demasiado de falar deles aos outros. Vou contar-lhes que quando era puto brincava ao mesmo, mas que íamos mais longe, mais para Oriente, e que o nosso pintainho era substituído por um macaquinho e... «Um, dois, três, macaquinho do chinês!».

sábado, setembro 07, 2019

Fuzeta


«Abúrrete en el Instituto como mejor puedas»/«Entedia-te na escola o melhor que puderes» - Robert Walser

«Abúrrete en el Instituto como mejor puedas. Mi pequeño conquistador, ya verás cómo es el mundo, en ese mundo de fuera, cuando ejerzas tu profesión y aspires y luches, ya verás cómo se te abrirán bostezantes océanos de aburrimiento, vacío y soledad. Quédate aquí. Cultiva un poquito más tu nostalgia. No puedes imaginar qué felicidad, qué grandeza hay en la nostalgia, es decir, en la espera. De modo que aguarda. Deja actuar dentro de ti ciertas presiones. Aunque no demasiado.» (trad. Juan José del Solar)

«Entedia-te na escola o melhor que puderes. Meu pequeno conquistador, já vais ver como é o mundo, esse mundo de fora, quando exerças a tua profissão e tenhas aspirações e tenhas de lutar, já vais ver como se te abrirá a boca em oceanos de tédio, de vazio e  solidão. Fica aqui. Cultiva um bocadinho mais a tua nostalgia. Não podes imaginar a felicidade, a grandeza que há na nostalgia, quer dizer, na espera. De modo que aguarda. Deixa actuar dentro de ti certas pressões. Ainda que não em demasia.» (trad. Luis Leal)

Robert Walser, «Jakob Von Gunten», Madrid, Siruela, 2009, p.100.

sexta-feira, setembro 06, 2019

...

Sei que dizer-te amo-te não satisfaz o infinito a habitar em tudo o que te digo e no que sinto. Talvez por isso tenha abandonado os poemas e canções de amor na gaveta da adolescência, protegidos em cadernos de palavras minhas escritas pelo teu punho e letra.
Na época, não sabia que jamais saberia escrever sobre amor, apesar do tentar ao lançar-me do sentimento para a palavra. Emulava poetas para transcrever-te o meu coração. Aceitei a tradição, os versos, mas o meu coração ultrapassava a métrica e só não entrou em síncope porque o aceitaste tão acelerado quanto frágil. Fizeste-me poeta sem ter lido suficientemente a vida para o ser. Só de ti aceito esse destino, porque todos os dias sei que dizer-te amo-te não satisfazará o infinito a habitar em tudo o que não te poderei dizer e em tudo o que a mortalidade do meu corpo não me permitirá sentir. A minha alma diz-me que não o sou, porém a tua contradi-la. Só sou e serei teu. Poeta.

quinta-feira, setembro 05, 2019

A ternura flui...

A ternura flui melhor em espaços e vidas cientes de uma certa ordem. Não o nego, porém nunca encontrei este sentimento em pleno caos...

Dia de cão


Dia de cão

Coisa que me emociona é história de cadelinhas vira-latas que salvam crianças de ataques de pitbulls. Outro dia foi em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A cadelinha Milu, uma vira-lata de pelagem curta, marrom e branca, dessas cachorras bem ordinárias, arrancou o couro da garganta de um pitbull em pleno acesso de fúria. Era o Mal personificado por dentes cravados na junta de joelho de um menino de 11 anos. O garoto talvez perca alguns movimentos parciais da perna. Ao ver o menino em enorme sofrimento, a cachorra atravessou a rua como um foguete, em vias de ser atropelada, e pulou direto na jugular do ferocíssimo cão. Ferido de morte, o pitbull largou a perna da criança e soltou um longo e doloroso ganido.

Tinha os olhos injetados de sangue cor de vinho quando virou o pescoço no limite da musculatura e mordeu uma orelha da vira-lata. Milu, três anos de rua, acostumada a garantir as refeições na base do pega-e-corre, acusou o golpe, mas em vez de arregar, apertou mais forte o pescoço do inimigo. Ouviu-se o som surdo de duas travas. A primeira, da oclusão perfeita e letal das mandíbulas da cadelinha. A segunda, da traquéia do pitbull virando geléia, se me permitem a assonância. Milu perdeu parte de uma orelha, mas foi adotada pela família do menino salvo, sendo enviada, tempos depois, para viver num sítio da família. Se tudo der certo, a vira-lata terá garantido para si, graças a um ato desvairado de coragem, casa e comida até morrer. Deve haver uma lição nisso.

Nessas coisas residem o sucesso do livro Marley e Eu, que não li, nem pretendo ler, por pura inveja. Difícil não se emocionar com essas histórias de cães heróis, porque temos essa proximidade emocional com os cachorros, criaturas que nos enchem de amor apenas porque gostam de comer, bem e muito, sem fazer esforço. Eu vivo com duas cockers spaniels, cães hiperativos e famélicos que vivem, permanentemente, com os ânimos exaltados. São mãe e filha, mas roubam comida uma da outra, brigam, rugindo como leoas, no meio da madrugada, latem pelas escadas do prédio, destroem os jardins plantados pela síndica, e cada uma a seu tempo destruiu boa parte do mobiliário da casa. Cansadas, dormem no sofá da sala, ou o que sobrou dele, porque a mais nova fez dois enormes buracos no estofamento. Ambas apanharam de cinto nos quadris para aprenderem a não subir no sofá. Ou elas são burras o suficiente para não fazer a associação entre o ato e a dor, ou são inteligentes o bastante para perceber que me sinto culpado o suficiente para não bater nelas outra vez. Não sei como Marley se sentiria nessa situação, mas as duas voltaram a dormir no sofá a sono solto.

A mais velha, quando está no cio, corre para cima até de yorkshire, vira a bunda, dobra o cotoco de rabo para o lado. Já cruzou, à revelia de minha vontade, com um outro cocker na pracinha infantil da quadra, em frente de meia dúzia de crianças. De outra feita, deixou-se possuir por um bichon frisé na frente de outros cães e pessoas, num gramado público da Asa Norte, quando tudo indicava que o cio já tinha acabado. Passou vinte minutos grudada com o amante, um de costas para o outro, cada qual com aquele olhar de paisagem tão caro aos do mundo canino. A mais nova só teve um cio. Todos os cachorros que tentaram se aproximar foram violentamente repelidos por dentes arreganhados, novinhos em folha. Ambas já morderam crianças. Duvido que a história de Marley seja mais emocionante do que a delas, uma comprada na feira por 120 reais, outra nascida no quartinho da dispensa aqui de casa.

Mas Marley é americano, tem pedigree e a bossa de todo labrador. E, possivelmente, um dono mais talentoso.

 (22-maio-2007)

(Fonte)