segunda-feira, novembro 28, 2016

"Ser malo o ser bueno"

Milagre da casa...

Acredito em milagres porque a casa da minha infância esteve em tijolo vivo, taipais nas janelas e esquentador onde tomávamos banho.
Acredito em milagres porque quem lá viveu tornou-se essa casa. Um edifício com história, precário de construção, austero em luxos, inseguro por ser tão fácil de arrombar, mas com gente dentro. Uma família de arquitectura imperfeita, e por aprovar as plantas na câmara municipal, com pobreza energética, mas com o valor de manter-se de pé, lado a lado, digna de não envergonhar a vizinhança.

"Yo no creo en Dios, pero tengo el sentimiento de lo infinito." Marcel Arland

domingo, novembro 27, 2016

"Digam-me como é uma árvore" – Marcos Ana (Trad. Luis Leal)

Marcos Ana, preso político, durante 23 anos, do franquismo. Morre o corpo ao homem mas prevalece o poeta de resistência...

"Digam-me como é uma árvore" – Marcos Ana 

Digam-me como é uma árvore
contem-me o canto de um rio
quando se cobre de pássaros,
falem-me do mar,
falem-me do cheiro aberto do campo
das estrelas, do ar.

Recitem-me um horizonte sem fechadura
e sem chave como o choço de um pobre,
digam-me como é o beijo de uma mulher,
deem-me o nome do amor
não o recordo.

As noites ainda se perfumam de apaixonados
nervosismos de paixão à lua
ou só resta esta fossa,
a luz de uma fechadura
e a canção da minha rosa?

22 anos, já esqueci
a dimensão das coisas,
o seu cheiro, o seu aroma,
escrevo às escuras o mar,
o campo, o bosque, digo bosque
e perdi a geometria da árvore.

Falo por falar assuntos
que os anos me esqueceram.

Não posso continuar:
oiço os passos do funcionário.



Que gentileza, que simpatia, que paciência para aturar-me...

Até hoje, nunca um desconhecido me tinha abordado pessoalmente a dizer que lê este blog e lhe agrada o que vai sendo escrito e publicado.
Fiquei algo desconcertado mas visivelmente agradado com tamanha gentileza e simpatia. Não tive ocasião para lhe dizer que este não é um dos melhores fóruns para aprender a língua portuguesa sem um, ou outro, erro de ortografia, tal como desculpar-me por esse facto me envergonhar. Tento rectificar essas lacunas com frequência, pesa-me na consciência, porém sei que continuarei a dar umas calinadas, na gramática e na sintaxe, por estas bandas de quando em vez.
Grafar os meus dias, os meus pensamentos, está a tornar-se o que algumas vezes imaginei no passado. Não profanarei a palavra "escritor" por purismo. Tantos anos de estudos literários nunca renunciaram a prática da literatura, o acto de escrever por si só, bastante mais antigo em mim que análises e teses.
A rapariga que me abordou disse-me o seu nome. Quis a imediatez do momento não memorizá-lo. Outro motivo para desculpar-me...

Viajante ou turista?

Dentro de mim sempre soube a resposta. Talvez nunca a tenha justificado por insegurança, por não parecer demasiado intelectual. Aí tenho outra lição a guardar.
Tive a oportunidade de questionar um grande escritor de viagens, o Gonçalo Cadilhe, onde existe a fronteira entre o viajante e o turista. O autor, a quem seguramente já fizeram esta pergunta mil vezes, não distingue um do outro, assume-se ambos, porque são o mesmo. Admite, no entanto, um pequeno matiz: a curiosidade. Esta característica talvez previligie um viajar mais autêntico.
O mundo,  esse "lonely planet" mapeado e com guias recomendados, não traz certezas absolutas, traz reflexões que nos remetem para a insignificancia do ser e do estar humano.
"Lá por gostares de foigrat não significa que tenhas de conhecer o ganso" relembrou um Gonçalo que teve a humildade de comparar o seu registo literário ao do Quim Barreiros. Simples e assumido para os outros, aqueles que na viagem já vão na mochila, aqueles cuja viagem é o livro da viagem.
Aqui podemos ter "cagança", dar classe às palavras, preterir umas a favor de outras, e classifico o Gonçalo de viajante e de um ganso com quem não me importaria conversar e conhecer melhor as rotas de voo...

sexta-feira, novembro 25, 2016

A não ubiquidade do corpo

A não ubiquidade do corpo não me permite estar na materna Évora a celebrar 30 anos de Património Mundial da Unesco, não me permite estar em Leganés a abraçar o meu “hermano” José Antonio Santiago Sánchez pelo seu “Habitar” e, igualmente, não me permite estar em San Vicente a recordar a lealdade ao homem, e ao poeta Ángel Campos, que tanto admiro a um grupo de amigos e à da Asociación Cultural "Vicente Rollano".
Mas a intenção é omnipresente, sobretudo a boa, essa desejada aos demais, que verdadeiramente sobrevive às limitações do nosso estado físico...

La no ubiquidad del cuerpo no me permite estar en la materna Évora celebrando 30 años de Patrimonio Mundial de la UNESCO, no me permite estar en Leganés abrazando a mi “irmão” José Antonio Santiago por su “Habitar” y no me permite estar en San Vicente recordando la lealtad al hombre, y al poeta Ángel Campos, que tanto admiro a un grupo de amigos y a la Asociación Cultural “Vicente Rollano”.

Pero la intención es omnipresente, sobretodo la buena, esa deseada a los demás, que verdaderamente pervive a las limitaciones de nuestro estado físico... 



quinta-feira, novembro 24, 2016

Limpeza...

O meu pai morreu sem fechar o livro à cabeceira. Quase não via e acumulava volumes de papel reciclado em solidão.
O meu pai morreu sem deixar-me nada mais que livros.
Tenho de os fechar. Muitos talvez queimar, tantos outros doar. O meu pai morreu bolorento mas orgulhoso de só nos amar mais a nós do que as palavras. E morreu sem deixar-me nada mais que palavras.
Cabe-me a tarefa de limpar a sua última morada. Tanta papelada, tanto nada. Ninguém mais é capaz. Eu também não mas ele ensinou-me a não me queixar, a não me isolar em sentimentos que tantos outros também têm e não se justificam com eles.
Há montes de restos do meu pai aqui, acumulados em pilhas ou por ordem nas estantes do escritório, segundo o formato e não tanto o conteúdo. Sento-me a olhar para as nossas árvores, para as nossas vidas, podadas como se pôde. Há pouco do avô, algumas fotografias, memórias do tempo da sua guerra. Um relógio.
Corto o cordel de uma pilha de papel de jornal. Folheio o cheiro a humidade e decido desfazer-me dele na salamandra.
Porque é que teve de ser assim? Porque é que te dedicaste tanto a mim?
Quem é que me vai abraçar e aconchegar na cama?
Quem é que vai conversar com o homem que criaste?
Cai a lágrima em direção ao chão outrora nosso. Cai antes na mão, no punho entreaberto da navalha que, antes de minha, antes de tua, fora do avô.
Germina a semente no coração. Com esta lágrima. Agora sei porque tantas vezes sentias o meu peito, apertavas contra o teu.
Posso despedir-me pai.
Não quero nada. Deste-me tudo em vida. Vou fechar todos os teus livros. Só assim posso abrir o meu.

quarta-feira, novembro 23, 2016

Reconciliado com o passado?

Ó homem imperfeito! Idiota da história! Estúpido desencontro com a natureza! Como te podes reconciliar com as barbaridades do passado, se no presente te posicionas outra vez errado? 
E o pior não é estares enganado, é andares para aí a apregoar que és sábio!

Évora, a terra da alma (30 anos, Património da Humanidade)

Apercebi-me de Évora ser o que é quando tinha 5 anos. Estava um senhor, creio que funcionário camarário, debaixo dos arcos, esfregando a escova áspera palavras já suaves de ordem dum pós-revolução. Aquilo custava-lhe imenso, e à minha curiosidade também, mas via como cuidava com brio o granito histórico da minha cidade. “Vem cá a Rainha de Inglaterra” disse meu pai à minha estupefação em frente do escadote aberto em hora de expediente. Sem grande ruído nem furor, esse foi primeiro contacto que tive com um argumento shakespeariano, com uma figura da realeza sem ser a dos contos dos irmãos Grimm. Há tanta luminosidade nesta minha recordação... na minha cidade…

Aprendi com Claudio Rodríguez que todos levamos uma terra dentro, que nos alenta, que nos acusa e que nos salva. É a terra da alma.

Nasci ali e em mim habita cada rua, cada casa, cada passo, saltos e trambolhões, cada eborense guardião desse templo de capitéis de luz ao qual regresso tantas noites em sonhos. Ali me ajoelho, leal à sua história, apesar de Évora não mo permitir. Em solo com reminiscências feudais, esta cidade, erguida por três culturas, ensina-nos a dignidade de, no latifúndio do espírito, mandarmos apenas nós.


Há 30 anos atrás, atribuiu-se-lhe o estatuto de Património da Humanidade e de ponta-de-lança no que respeita a atribuições deste tipo no Alentejo. Envaidece-me essa espécie de “Liga dos Campeões” da UNESCO. Porém, para quem se sente eborense, é o seu andar, caminhar, passo a passo, pela vida da cidade, o verdadeiro património, para mim, bastante mais imaterial que material.

domingo, novembro 20, 2016

"Habitar" de José Antonio Santiago

Enquanto andamos por este mundo físico, tão sensível à dor como também ao tato e ao abraço, habitamos o nosso corpo e invadimos, de inúmeras maneiras, o habitat de outros.

A amizade, a camaradagem, que a vida me tem vindo a brindar tem muito de “habitar” em mim, sentindo, com gratidão, a reciprocidade no outro em tons de estima e apreço mútuo, ausente de bajulações, interesses ocultos, imperando o respeito e muita sinceridade.

Escrever sobre JAS é escrever sobre um verdadeiro “hermano”, sem plasma nem biologia, mas com o habitar no apartamento em cima do meu, numa época que ficará para sempre num limbo do que somos e ao qual sempre podemos recorrer, se a memória assim o entender.

Esta semana recebi pelo correio, num envelope anacrónico (sem siglas de empresas multinacionais de venda on-line), o seu mais recente livro no qual, quis este mundo físico, este tempo, este companheirismo doméstico, que também eu habite. 

Obrigado José. “Gracias mi buen hermano”. Mesmo longe, estás e fazes-me melhor. Ambos somos tanta coisa…  Queira a vida que sejamos essa lealdade bela, sem complexos nem nexos, até um de nós deixar de “habitar” este solo indistinto de fronteiras ou pátrias.

Ramón Gómez de la Serna acreditava ser a amizade mais do que motivo para enaltecer o génio. Neste caso, nem se justifica, não é necessário, é evidente.

Este livro supera o ensaio sobre arte poética. É o génio de um intelectual, a argumentação de um filósofo vivo contaminada pela alma de poeta, o habitat natural de um ser humano cuja existência obrigou a abandonar a timidez, a inibição das nuvens de um dia chuvoso, e a deitar-se ao brilho do sol mais formoso… e, simplesmente, “Habitar”.

Eis a sinopse (em português) desta obra que, no dia 25 deste mês, será apresentada em Leganés:

“Os dois textos que compõem este volume encontram-se presididos por uma ideia comum. A imprescindível necessidade humana de “territorializar” e “habitualizar” toda a sua existência. Desde a própria linguagem (“Poetizar ou a necessária superstição da linguagem”), até à sua mais própria “quotidianidade” (“Casar a casa”), o humano encontra-se marcado biológica e biograficamente pela sinalização espacial e temporal. Estar marcado significa também – por isso mesmo – que em toda cultura e situação histórica, o ser humano precisa de selar o seu espaço e o seu tempo: vestígios, ciclos, palavras ou datas são os limites adaptativos e de sentido desde o qual todo habitar humano pode, dessa forma, projetar-se ou restituir a sua própria condição”.


Sexualidade galáctica

Do pudor excessivo do passado, passámos a uma sexualidade de normalidade explicita. É usual verem-se conteúdos de teor sexual, material, sem resíduos de afeto, em qualquer lugar e em qualquer hora do dia.

A explicitude desta sexualidade navega pela rede sem pensar em privacidade nem futuro. A libido, de tão imediata, caí flácida em segundos. Eros substituído por euros. É possível desfrutar duma sexualidade sem nos sentirmos oprimidos pelo império da imagem, esse devastador do império dos sentidos?

Nunca conseguiria descrever bem uma relação sexual no papel. Excitar com a pena, lubrificar estranhas ou erguer falos com verbos bem escolhidos e conjugados. Quando leio sobre géneros literários, ou cinematográficos, cujo motor da intriga é o sexo, penso não ter glamour para isso, nem sombra de talento que se aproveite. 

Pode ser porque tenho uma sexualidade de revistas pornográficas dos anos 80, partilhada com os amigos do bairro, uma imaginação galáctica, de VHS, fruto do biquini da Carrie Fisher no "Regresso de Jedi", ou sinta o vazio do "fim da aventura".


Não tenho medo de partilhar o que me faz sentir maduro com os meus sentidos e desejos não ocultos a quem de direito. Tenho medo de ver que nos estão a vender, e nós a comprarmos, ser normal abdicarmos da nossa privacidade e converter a nossa sexualidade, pervertida de performance, como perfil de uma rede social de rasto perene.

E sei que esta entrada neste diário se escreveu a propósito duma visita a uma exposição do universo "Star Wars" e um encontro imediato com o biquini da minha imaginação nessas tardes de Verão em que o video só funcionava com os botões "pause", "play", "rewind" e "foward"... Estarei velho? De certeza. Conservador? Não. Não poderia. Se alguém encontrar essas k7s de video ficaria a saber, na sua fita gasta, o porquê.


Vê-se logo quem é este gajo, não se vê?




(Fonte: b3ta.com)

sábado, novembro 19, 2016

Plantar

ao plantarmos
obcecamo-nos com o crescimento
da árvore.
sem querermos, as raízes aprofundam-se em esquecimento.

al plantar
nos obsesionamos con el crecimento del árbol.
sin querer, las raíces
se profundizan en el olvido.

sexta-feira, novembro 18, 2016

Ao riso do amanhecer...

Triste parque esquecido...

Na cidade, os espaços dedicados às crianças costumam ser os parques infantis. É frequente, em várias zonas de influência, encontrar este mobiliário urbano gasto pela criançada e vandalizado pelos "nem, nem". Escorregas, baloiços e balancés, são o contacto que alguns dos nossos filhos têm com a natureza biomecânica dos seus corpos.
Não gosto de parques infantis. Se vou é porque não há alternativa ou porque é necessário ar da rua. Concordo com o que me diz uma colega de trabalho, uma analogia urbana e perfeitamente entendível para o citadino comum, "los niños tienen que sacarse a la calle a diario como los perros". Poucas vezes estamos de acordo.
Este Verão, a escassos metros do parque infantil da nossa área de residência, inaugurou-se uma infraestrutura invejável dedicada à pequenada, uma infraestrutura centrípeta que suga as brincadeiras para além do bairro e faz com que, miúdos e graúdos, ali se acumulem em uniformidade.
A empurrar o carrinho do mais novo e de mão dada ao mais velho, passei de largo, com a sentença lida de não haver tempo para nos juntarmos à maralha. Foi nesse momento que o meu filho mais velho me disse "papá, o parque sente-se triste".  Desconcertado, não o entendi à primeira. "Este não papá, o outro que já não tem meninos".
Não me atrevi a estragar tão belo sentimento de infância. Apertei-o contra a minha perna e anca com os seus cabelos arrepiados entre os meus dedos. "Não te preocupes, qualquer dia vamos lá fazer-lhe uma visita".

terça-feira, novembro 15, 2016

Netos dos filhos, dos filhos da ira

Há escassos dias celebrou-se o 98 aniversário do armistício da Primeira Guerra Mundial e o meu pai esteve, com a sua Liga dos Combatentes, presente nas cerimónias oficiais. O meu bisavô Umbelino combateu nesta guerra, o meu bisavô Leopoldo também, esteve desaparecido, foi prisioneiro de guerra e voltou "esgaseado" pelo gás mostarda das trincheiras. Os seus filhos, os meus avós maternos, nunca souberam que este fora o primeiro grande conflito à escala mundial, era, para a visão possível do mundo em pleno salazarismo, a guerra de França. Curiosamente, ambos, a minha avó Helena e o meu avô João, viram refugiados e ouviram canhões da Guerra Civil Espanhola, souberam doutra guerra em França, e de uns alemães ávidos de tungsténio português, despediram-se dum filho a embarcar para Angola e outro para um exílio de cruzeiro, pois já nem as suas mãos escaldadas na infância o livravam de ser carne de canhão. As guerras não acabaram por aqui. Nem acabarão. Nunca souberam história, nunca estudaram história, eles foram a minha história e enquanto viver recordá-la-ei como homenagem... 
A guerra está no passado de quem me criou, com quem vivi e ainda faz parte do que vivo enraizado em Portugal. Sou um herdeiro envergonhado de não poder aliviar o sofrimento dos meus bisavós devido aos gases que lhe queimaram pulmões, pele e equipamento de pouco mais que serapilheira. Sou os olhos envergonhados, por não ajudar os espanholitos a atravessarem a fronteira e a chegarem ao Atlântico, cheios de medo da GNR. Sou o camuflado e as mãos suadas a segurarem a G3 que me baleou de rajada uma juventude que não saberei entender nos meus filhos sem trauma e stress. 
Sou o filho mais novo do fim do século XX, a quem as gerações mais velhas não lhes agrada, nem levam a sério, o meu desapego e a descrença num mundo utópico de paz sem recurso à violência. 
Voltei ao século passado, ao passado familiar, graças a um jovem poeta da minha geração com quem partilho a lírica da primeira guerra mundial, o atrevimento de Shackelton, os despojos da modernidade que nos impõem. A ouvir Ben Clarck a recitar, aceitei a condição  de netos dos filhos, dos filhos da ira.

segunda-feira, novembro 14, 2016