quinta-feira, dezembro 27, 2018

A alma deste cavador (Haikus Alentejanos)

A alma deste
cavador resiste dura
ao chão bravio.


Velha enxada.
Metal, madeira, seca
em mãos humildes.


Esbarrondou-se
o barranco sobre mim.
Morro com terra.


A charneca tem
trigo e horizonte.
Olhar de ganhão.


A memória
de maioral resiste
ao sol de Verão.


O rafeiro vai
ao monte cumprimentar
velhos malteses.


Na taberna há
versos, vinho, pão, cante
e muitas petas.


De navalha no
bolso sou ganhão, maltês,
neto de feitor.


Fui investido
ganhão pela navalha
do Mestre João.


A navalha vai
migando a fome ao
pão e bolota.


Fio de azeite.
Ostento a riqueza
da oliveira.


Sobreiro velho
dá sábia cortiça.
Aprendeu ao sol.


Não enxota nem
exclui a azinheira.
Olhem "pós" porcos.


A árvore dá
sombra e memória
a esta terra.


Enforcou-se a
nascente no ramo da
vide eterna.


Velhas palavras
habitam nestes torrões.
Pó. Memória.


A fonte secou.
Magano o destino
alentejano.

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