terça-feira, setembro 01, 2015

"Como todos os anos na mesma época..." - Boris Vian

«Como todos os anos na mesma época, as férias acabaram e, a menos que nos decidamos a fazer alguma coisa contra isso, temos a certeza que tudo vai recomeçar... Mas parece que o governo que trata da escola, em vez de se limitar a ir ele mesmo à "escola", quer obrigar os outros a ir: está tudo mal.»
Boris Vian, in "Jazz Hot"

Que nojo (Mário Dionísio)

Mário Dionísio por Pomar (1950)



Que nojo

São carcaças
de gente morta por dentro
Escondem mucos pegajosos
que empestam toda a paisagem

São abutres pelados são caraças
de olhos vítreos de intenção
são bostas de sangue e o centro
de onde mana a corrupção
Só nunca serão carrascos
porque lhes falta a coragem

O medo os faz silenciosos
pelas costas atrevidos
Movem-nos ódios e ascos
flatulências de ambição
pequeninos verrinosos
gordurosos retraídos

São fura-greves são espias
vaidosos de ser pisados
segregam epidemias
de vergonha São repolhos
de gangrena engravatados
São piolhos são piolhos
são piolhos

Mário Dionísio



(Blogue Voar fora da asa)



segunda-feira, agosto 31, 2015

infância a boiar

o meu filho sussurra à gata uma qualquer coisa de cumplicidade felina. de gatas, num verão deitado no chão, pergunta-me se os seus olhos são diferentes. verdes escurridiços. brinquedos à bolina num tapete deserto de mar. sem o saber, há uma terra ao alcance desta criança. a de uns braços decididos a amarem-no, sem muros, na paz de um lar ainda de manhã. o conhecimento das farpas do arame chegam-lhe da descoberta pueril, brincadeira de campo, na divisória da noite aconchegada de lençóis de uma mãe e do dia que com ele cresce.
a terra inalcançável, à deriva na piedade de dedos suados de ecrãs simultâneos. tem-se pena em rede. não se é possível pulsar um don't like numa infância a boiar. legitimamente, refugiamo-nos no quotidiano da nossa distância, na segurança circunstancial de terra pisada por acaso. arrasta-se a rede, puxa-se sem descanso. arrastões de boas intenções, rolhadas no hermetismo, na censura sem sociedade ponto verde, duma qualquer garrafa perdida.
os olhos desta gata não vêem o cadáver que a rede me arrasta. ausentes dos pixeis estão os meus filhos. um sonha, outro brinca. porém não consigo deixar de os ver ali, a boiar.


Nota: A imagem está propositadamente "extra-largo" por a vergonha que me produz. Afogo-me com ela, consciente da impotência do verbo...  

Geografías infantiles/Geografias infantis

"Viver também para fazer-se" - José Luis Sampedro

“Viver também – e essa meta faço-a minha – para fazer-se. Todos se fazem, fazemo-nos, sabendo-o ou não, mas só se se tiver consciência disso se vive de verdade, de forma activa: colaborando com a vida em vez de se deixar levar. Criar-nos criando e não me refiro ao trabalho obrigatório e alienante, tão incensado pelo sistema económico para nos fazer dóceis produtores (esquecendo que no seu livro básico o trabalho é um castigo divino), mas à criação, ao esforço espontâneo nascido de nós mesmos, quer seja a escalar o Everest, bordar a cheio ou meter um barquinho numa garrafa. Criar obra realmente própria, como a morte própria desejada por Rilke, essa em que nos manifestamos inteiros: o nosso estilo, a nossa constituição interior, as paixões do nosso sangue e dos nossos nervos.
Fazer-se, sim; mas não nos fazemos sozinhos. Essa constituição e as paixões são influenciadas e até condicionadas pela paisagem e a época que nos acolheram ao nascer e, sobretudo, pelos que constantemente nos rodearam e rodeiam.”

José Luis Sampedro, in “Monte Sinai” pp.114 e 115

[Trad. Carlos da Veiga Ferreira]

sábado, agosto 29, 2015

Interferência (Alberto de Serpa)



INTERFERÊNCIA

Quem veio bater à minha porta? Quem?
Quem me fez abrir a janela e a noite morta?

O caminho estava deserto e o seu silêncio tinha horas.
Vento? Esta noite tem a paz e o sossego da morte.
Só eu e as estrelas sentíamos a solidão fantástica...
Nos ouvidos e na ansiedade guardei o rumor que chamou,
As minhas mãos tiveram a carícia doutras mãos perdidas
E uma companhia invisível acendeu uma luz na minha alma...

Alguém terá pensado em mim, longe?

Alberto de Serpa 


(Blogue Fel de cão - Ourém)



domingo, agosto 23, 2015

Max Jacob in “Conselhos a um jovem poeta”

Apollinaire sentia horror pelas «obras de antologia», quer dizer, pela poesia perfeita. Tinha razão, creio. Não obstante, também há que saber fazer de isto a causa do respeito pela arte, e, para além disso, sempre fica algo, suficientemente.
Estude pois a gramática, a retórica e a fonética sobre tudo.
E esqueça-o tudo.

Max Jacob in “Conselhos a um jovem poeta” [trad. Luis Leal]

sexta-feira, agosto 21, 2015

Deep Purple (Artie Shaw with Helen Forrest)



Porque a banda británica Deep Purple tinha esse nome? É engraçado...

"The British rock band Deep Purple got their name from Pete De Rose's hit as it was the favourite song of guitarist Ritchie Blackmore's grandmother; she would also play the song on piano" (Wikipedia). Aqui podemos ouvir duas versões da Orquestra de Artie Shaw com a cantora Helen Forrest. Uma canção composta em 1933.

Um bom contraste com o post anterior.



DEEP PURPLE

When the deep purple falls over sleepy garden walls
And the stars begin to twinkle in the sky—
In the mist of a memory you wander back to me
Breathing my name with a sigh.
In the still of the night
once again I hold you tight.
Tho' you're gone your love lives on when moonlight beams.
And as long as my heart will beat,
lover, we'll always meet
here in my deep purple dreams....


Uma versão mais breve ao vivo do ano 1939 com cenas de um filme





Smoke on the Water, 1973, Live in Usa (Deep Purple)







quinta-feira, agosto 06, 2015

neblina (Marta Lança)



neblina

a porta do café dá para a embaixada de frança quase no cruzamento com a rua da esperança.
uma neblina branca cobre os prédios com um potencial surrealista. Estar calor sem fazer sol tem qualquer coisa de tragicomédia. O telejornal da tarde fecha com uma peça do Sassetti que morreu há pouco na falésia. O piano induz a olhar a rua no seu crescendo de vida - aquele momento em que o fim (de cada um e de todas as coisas) é conscienciosamente anunciado. A velhota passa agarrada à sobrinha, o polícia olha para as botas melancólico, o homem levanta vagarosamente as chávenas das bicas, a rapariga lê o jornal, e nada disto é sereno.

Marta Lança

(A vida escrita, 13 de maio de 2012)


Acompanhamos com esta peça de Bernardo Sassetti para lermos as palavras de Marta Lança.









"James Dean on the set of Rebel Without a Cause"



James Dean on the set of Rebel Without a Cause peers out of the darkness of the set, Warner Brothers Studios, 1955, by Bob Willoughby.



quarta-feira, agosto 05, 2015

A um jovem poeta (Manuel António Pina)



A um jovem poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina



Do seu livro Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança





Simple Pleasures with Ray Ban

Red Bike (Caldas da Rainha)

domingo, agosto 02, 2015

Entre Duas Terras - "O cronista apresenta-se" (texto in "Revista Mais Alentejo" nº128)

O cronista apresenta-se

Teoriza-se um big bang, uma fusão do átomo, um pensamento, uma intervenção divina, uma descrença, uma palavra, várias palavras feitas introdução, o que seja, até chegar-se a qualquer conclusão. Se intelectualizo de onde venho trina-me uma guitarra sem fado, de cordas ritmadas e inocentes, acompanhada pelo Jorge Drexler, a voz amiga de sempre que nunca conheci, que compôs esta canção de propósito para mim: Yo no sé de donde soy,/mi casa está en la frontera/y las fronteras se mueven,/como las banderas.
Tendo a meditar o que vivo, talvez por tantas vezes não saber que língua ecoa dentro de mim, em que terra estou, qual o fuso horário do meu ritmo biológico, que ar inspiro e que dióxido de carbono liberto ao meu redor. Porém, descobri que os gestos rotineiros, alheios ao pensamento, mudos de idiomas, sem nacionalidade, sempre nos levam às nossas raízes.
Cada vez que levo a mão ao fundo do meu bolso agarro-me à certeza dum objecto, ao perigo constante da lâmina que pode cortar amarras mas não o lastro dum ego que, ao querer interpretar-se, evidentemente, perde tempo.
De mão na algibeira sei que sou alentejano. Agarro o meu passado em forma de navalha, consciente do brilho da folha metálica que me serve de espelho, do gume acutilante de viver o momento, junto com o óxido que delata a mentira da imortalidade do metal.
Escrever na MaisAlentejo incita o cronista a apresentar-se assim, de mãos vazias mas com a naifa no bolso. Encarecidamente, pede ao leitor para não o confundir com um vulgar bandoleiro. A única arma que porta capa grilos e o único banco que este cronista assalta guarda memórias e divagações cujo quotidiano lhe vai hipotecando na austeridade de tempo para as grafar.
Materializamo-nos em algum objecto, ou em vários, desde a pura admiração à espúria escravidão. O meu avô quis-me leal a essa verdade, a este objecto. Acredito que me pôs uma navalha invisível no berço, dando-me uma terceira mão, tão indispensável como as outras duas.    
Cuidar duma navalha não é diferente de aguçar os nossos filhos através da suavidade da carícia no duro deslizar da pedra de amolar. Nas palavras de João Serra, todo o canivete era tratado com todo o cuidado, evitando-se que fosse atingido pela ferrugem e cuidando do fio de corte, que não podia ter falhas ou rombos. Pouco volume fazia nos bolsos camponeses, onde entrava de manhã, com o lenço e a onça de tabaco para os fumadores. (…) Com ele se cortava o pão (…) se retalhavam azeitonas (…) se afiavam lápis na escola e abriam cartas e, excepcionalmente, livros. Com ele um homem podia fazer frente a perigos reais ou imaginários. Com ele um homem nunca se sentia só.
Com a navalha no bolso tenho passado algumas fronteiras, às vezes na bagagem de porão por causa da conotação terrorista que tem em qualquer aeroporto, ao ponto de, recém-aterrado, necessitar duma navalhita local, honesta nos serviços, que raramente me acompanha de volta a casa.
De navalha no bolso passei a fronteira. Um alentejano não se sente diferente dum extremeño. Nesse continuum de planície pautado pela serrania e riscado pelo Guadiana, que decidiu que a oeste se fala português e a este espanhol, a navalha corta fronteiras. Prova disso é o MacGyver, esse embaixador universal do potencial do homem e do canivete!  
E foi com a navalha que selei a minha hermandad com o poeta Samuel Chamorro, quem, junto à navalha herdada do meu avô, colocou a necessidade do lápis. Os seus versos encerram, com chave-de-ouro, que pátria é a herança dos nossos pais, algo que não confundo com país: Com a tua navalha pai/afio um lápis, o meu/que sempre,/sempre/escreve sem bico.

Entre Duas Terras - "O cronista apresenta-se" (in "Revista Mais Alentejo" nº128)


quarta-feira, julho 29, 2015

domingo, julho 26, 2015

"Burn" - The Cure ("The Crow Soundtrack")

Seguramente que a melhor cena de maquilhagem da história da sétima arte devemo-la à nostalgia e tristeza do Charlie Chaplin em “Timelight” (“Luzes da Ribalta”), mas a minha geração aprendeu com um sombrio Brandon Lee, vingativo ao som dos The Cure, em “The Crow” (“O Corvo”)… Com mais de 20 anos, não há pintura facial branca e batom negro que igualem esta personagem criada por James O’Barr. 
 

sábado, julho 25, 2015

Dia de "S. IACOBUS MAIOR"


Gosto de ler, pensar e escrever nesta espécie de jardim sem flores, fitando as oliveiras. (Ruy Ventura)

Gosto de ler, pensar e escrever nesta espécie de jardim sem flores, fitando as oliveiras. Como eu, são alentejanas exiladas que, apesar do desterro, vão agarrando a terra com as raízes, produzindo rebentos, resistindo a podas sem tino, produzindo fruto que só alguns aproveitam. Sobreviveram ao deserto e à barragem, mas tiveram de migrar. Também eu, se me permitem.
Ruy Ventura (24 de Julho de 2015)

sexta-feira, julho 24, 2015

Reflexões de Eduardo Lourenço, na revista LER:

"Deixámos há muito de funcionar sob um paradigma religioso, em que o nosso destino era coletivo e possuidor de um sentido. A Humanidade era conduzida pela Providência. (...) Depois passou a ser o Homem - e a Reforma está na origem disso - o criador do seu próprio futuro. Sem a Providência, e com os riscos inerentes. O problema é saber se este sonho cartesiano levado ao extremo, em que deixamos de ser filhos da natureza, para sermos seus donos, é um exercício impune. (...) Talvez a capacidade que temos de manipulação da natureza venha a virar-se contra nós, porque afinal também fazemos parte da natureza. Talvez nos tornemos vítimas dos poderes desses deuses virtuais que pensamos que somos. Ou que somos sem saber."

quarta-feira, julho 22, 2015

"O sorriso arcaico"

«¡Qué hermosa vida!», goza el hombre, sintiéndose acariciado por esos ojos… Su mano se mueve hacia ella bajo las sábanas, pero se inmoviliza antes de tocarla, en cuanto percibe una tibieza en el lienzo. Allí se detiene como un peregrino ante el santuario final, mientras se deja mecer en las ondas tranquilas del aroma femenino. Sus párpados, al cerrarse poco a poco, van adoptando una expresión final de beatitud.
Ya dormido, la mujer inmóvil le sigue contemplando enternecida. Sonrisa de niña descubriendo al hombre; mirada de madre ante el hijo en la cuna; emocionada serenidad de hembra colmada por su amante.

José Luis Sampedro, in La sonrisa etrusca, p. 248.
[Trad. Luis Leal]

Educación por la piedra... (Hojo Undo) El arte de mi amigo Juanma Zarzo

segunda-feira, julho 20, 2015

“Mas tu sim, as minhas palavras fazem ninho no teu peitinho. Algum dia recordá-las-ás de imediato; não saberás de onde vêm e serei eu, como agora arrancas de dentro de mim tanto do que esqueci.”

“Pero tú sí, mis palabras hacen nido en tu pechito. Algún días las recordarás de pronto; no sabrás de dónde vienen y seré yo, como tú ahora sacas de mis adentros tantos olvidos.”

José Luis Sampedro, in “La sonrisa etrusca”, p. 219.

domingo, julho 19, 2015

segunda-feira, julho 13, 2015

Prescrição (Miguel Torga)

Foto: Matt Bell



PRESCRIÇÃO

Deixa passar as horas
Sem as contar.
Alheia a cada instante,
Vive, a viver a vida, a eternidade.
Feliz é quem não sabe
A própria idade
E em nenhum ano pode envelhecer.
Dura encantada na realidade.
Negar o tempo é o modo de o vencer.


Coimbra, 30 de Junho de 1983

Miguel Torga



Uma voltinha de mota?



Apanha-me essa mota, ó Luís, que o kazama77 fotografou. Vê lá se ele empresta para dar uma voltinha...






domingo, julho 12, 2015

A DIGNIDADE - Ángel Campos


enquanto possa pensar-te
não haverá esquecimento

ainda se chamas
acudo a ti
fluo desde a minha mão
à mão que estendes desvalida
e entro no teu abraço
com o temor que engendra o medo

mas vou à tua procura
acudo a ti oferecendo-me
como animal sedento
que focinha na lama

acudo a ti
ascendo à tua respiração
fragmentado rumor que é puro abismo
sulco aberto na rocha
                                               leito seco

que oculta a água
a mesma que agora eu
acerco até aos lábios gretados
por mitigar apenas
a febre que humedece
a nítida brancura dos lençóis

acudo a ti
ao teu recolhimento
à untura que acalma os teus joelhos
à pausa limpa da tua voz
entrecortada
por ver se o que um dia disseste
poderá ser dito
de novo com a mesma dignidade

porque tu bem sabes
                                               há palavras
que duram muito mais que a queda

por isso hoje acudo a ti
à tibieza do teu sangue
à tersa pele que cobre as tuas pernas
acudo a ti
ao nada
                retido o alento
da tua voz que me fala
até fazer-se em mi
                               certa

a palavra que dura
legível na sua mudez
suspensa nos lábios
e escrever com ela
a minha biografia

sei que enquanto possa dizer-te
não haverá esquecimento
que do espaço do teu nome
há de brotar
abertas as suas duas sílabas
a semente na neve


[Trad. Luis Leal]

"Casillas, de Espanha Bons Ventos e Bons Exemplos"

Desde há dez anos que pergunto, numa dinâmica dessas típicas de sala de aula, a adolescentes espanhóis um exemplo de um ídolo. Muitos dos quais associo à figura de boa gente, respondem: “o Iker Casillas”. 
Neste mundo tão de aparências como é o nosso, e em especial o ambiente "pesetero" do futebol, o exemplo desportivo e de cidadania deste guarda-redes sempre me pareceu positivo (até mesmo numa época tão “contaminada” como a última da era Mourinho!).
Agora de caminho para a Invicta, talvez venha a ser o ídolo de alguns adolescentes portugueses. Que também aí seja lembrado como boa pessoa e um modelo de desportista, mostrando, mesmo através de algo tão prosaico como o futebol, que de Espanha também vêm bons ventos e bons exemplos.
  

terça-feira, julho 07, 2015

Um privilégio estar em Salamanca...

Rio Alva, na Ponte das Três Entradas, na companhia do mestre Miguel Torga

Não me lembro de ter alguma vez lido um livro de poesia desde a primeira à última página, como se de um romance se tratasse, mas esta antologia do Mestre Miguel Torga foi uma expceção.
Pena o adjetivo "lírico" ter uma conotação injusta por uma grande maioria que não o entende e limita. Não me imagino sem esta profunda gratidão que tenho pela obra de Torga... Não me imagino sequer...

A Ponte das Três Entradas

segunda-feira, julho 06, 2015

domingo, julho 05, 2015

Oxi

Princesa de cara roupa
Princesa corcunda rota

Princesa de banquetes
Princesa de croquetes

Princesa da alta finança
Princesa matriz e herança

Princesa da moeda única
Princesa sem uma única moeda

Povo que se vê Grego
Sem Pão

Penélope a fiar barato o destino
Ulisses perdido num mar de dividas
A flutuar à deriva e sem divisas.

Depois de tantos trabalhos
Hércules manda Hera pró caralho

Endireita as costas vergadas
(Humilhada por humilhada)
Ostracizada de 18
E feita num oito
Mas a Grécia
Berço da democracia consultado.
Sim ou não.

Os gregos, que baptizaram a filha
De Agenor e de Telefasa
A quem chamaram
Europa, 
Disseram 
Não.
Eu que sou neto de Helena
Acredito que temos que saber dizer
Oxi.

E agora?
Uma nova aurora?
Não.
É apenas mais um capítulo,
Mais um parágrafo na história
Desta Europa
Que já não cai na canção do bandido...

sexta-feira, junho 19, 2015

segunda-feira, junho 15, 2015

Esses loucos baixinhos (Joan Manuel Serrat)

Com uma tradução, de uma canção de Joan Manuel Serrat, sinto em português aquilo que não fui capaz de escrever. Os meus loucos baixinhos…

Esses loucos baixinhos (Joan Manuel Serrat)

Com frequência os filhos parecem-se connosco
e assim nos dão a primeira satisfação;
esses que se mexem com os nossos gestos,
agarrando-se a tudo quanto há ao seu redor.

Esses loucos baixinhos que se erguem
com os olhos abertos de par em par,
sem respeito por horários nem por costumes
e aos que, por seu bem, (dizem) há que domesticar.

Menino,
deixa já de chatear-me com a bola.
Menino,
que isso não se diz,
que isso não se faz,
que isso não se toca.

Carregam com os nossos deuses e o nosso idioma,
com os nossos rancores e o nosso porvir.
Por isso nos parece que são borracha
e que lhes bastam os nossos contos
para dormir.

Empenhamo-nos em orientar as suas vidas
Sem saber o ofício e sem vocação.
Vamos-lhes transmitindo as nossas frustrações
com o leite morno
e em cada canção.

Nada nem ninguém pode impedir que sofram,
que os ponteiros avancem no relógio,
que decidam por eles, que se enganem,
que cresçam e que um dia
nos digam adeus.
[trad. Luis Leal]




Boss AC












sábado, junho 13, 2015

Moñino Times nº9 (ISSN 1699-9509)

Projectos deste tipo, com poucos meios, organizados e desorganizados por programas e currículos por cumprir, alterados hormonalmente, ingenuamente vanguardista e adolescente, têm tanto mérito como outras revistas culturais e literárias que por aí circulam.
Para mim, é uma honra colaborar num espaço escrito que poderá conter os grandes nomes da letras do amanhã. Apenas sou mais um dos que participaram nesta edição da Moñino Times nº9, com as hormonas um pouco mais organizadas, talvez, mas sei que este projecto não seria o mesmo sem um grande Antonio Carrasco e uma enorme Marta López. Obrigado por me ajudarem a acreditar que vale a pena! (E não é que o Pete Seeger começou a assobiar o "hino da alegria"!)





terça-feira, junho 09, 2015

Ensayo de presentación del libro “Pessoa y España” de Antonio Sáez Delgado

No hay intelectualidad, ni generación que aspire a dicho status, que no se haya reunido alguna vez en un espacio de tertulias, con ese ambiente improvisado, o, en la peor de las hipótesis, emulado.

De país para país, de clima en clima, de latitud en latitud, las cabezas que se asumían pensantes interpretan su instante a partir de mesas de cafés, barras de bares o para quórums extasiados de cervecerías como lo hacía un señor alemán con un bigote raro.

Su presencia se hacía pública, se firmaban manifiestos, se redactaban versos, se daban discursos, el presente se peleaba con el pasado en revistas y libros, pero nacían movimientos, vanguardias y revoluciones tan comprometidas con ismos como con egos.

Hace exactamente 100 años, en 1915, en el reducto urbano de Lisboa, una brillante generación ganó un nombre de revista, la misma que albergaba su interpretación del tiempo presente, que el proprio tiempo convirtió en estética y marco fundamental de la historia de la literatura portuguesa. Mejor, me retracto de la afirmación anterior, simplemente diciendo de la literatura, consciente del peso universal que la palabra tiene.

Cien años, un siglo, es la huella que la revista Orpheu tiene para la literatura y filosofía del siglo XXI. Cien años con el futurismo de Almada Negreiros convencido por su anti-Dantismo que lo acercaba bastante a España: “Si Dantas es portugués, yo quiero ser español”. Cien años con Mário de Sá-Carneiro, deprimido pero con estilo, porque si un intelectual se tiene que suicidar que lo haga en Paris. Sá-Carneiro lo hizo, seguro de la bibliografía de cinco frascos de arseniato de estricnina. Y cien años con Fernando Pessoa, multiplicado por sus aparentemente infinitos heterónimos.

Otros nombres también se encuentran connotados bajo el signo de Orpheu, pero son estos tres, con especial relevancia e interés para la figura literaria de Pessoa, que sobresalen. Nunca la problemática de otros egos, otros “yo”, hubiera surgido de manera tan original en la literatura, al punto de hacer la propia biografía del autor tan secundaria que apenas interfiere en la genialidad creativa de su obra.   

El compromiso se hizo con el arte, con las novedades emergentes de los comienzos del siglo XX. Un compromiso personal, de autor, minoritario pero contradictoriamente gregario, nunca ajeno a los medios por los que la modernidad permite divulgar una obra. A pesar del carácter mayoritariamente póstumo de la obra de Pessoa, el autor siempre reconoció importancia a todos los medios de divulgar la labor del artista.

El mérito pionero de Fernando Pessoa, así como de los cien años de la revista Orpheu, nos llega a 2015 con el peso del canon, como emperador de las letras lusas, de nostalgias o de vicios. Su noción de modernidad se hace contemporánea en una literatura que no se quiere sentir “infoexcluida”, que ya no se escribe a pluma, de pie apoyada a una cómoda de insomnio, pero que se bloguea o tuitea desasosegadamente en cualquier muro de una red social.

Esta analogía con el presente nos lleva a la red epistolar que llevó Fernando Pessoa a España o al revés, que creo que tampoco queda mal y que Antonio Sáez no se va a enfadar conmigo por eso, es decir, que trajo España a Fernando Pessoa.

Se sabe que el autor de los heterónimos escribió a Miguel de Unamuno presentándole el primer número de Orpheu, con “la absoluta conciencia de la originalidad y elevación”, no teniendo ningún escrúpulo en decirlo.  No hay indicios que D. Miguel le haya contestado. La generación del 98 en España sería como la generación de escritores y hombres de letras que actualmente no se mueven por la vorágine del mundo de internet, de expresión analógica, que no tienen ni tiempo ni ganas de mediar las nuevas generaciones digitales.

Sin embargo, la juventud inquieta de jóvenes poetas ultraístas de Adriano del Valle, Rogélio Buendía y Isaac del Vando-Villar, usando la terminología de cien años vueltos en el futuro, aceptaron la petición de amistad de Fernando Pessoa y, sin una recepción fulgurosa, el experimento Orpheu y el modernismo portugués llega a España. Parafraseando Antonio Sáez “nos encontramos ante uno de los momentos más apasionantes de la historia literaria en el contexto ibérico, que nos ofrece la posibilidad de utilizar una perspectiva de análisis múltiple y dinámica, que participe en paralelo de las herramientas de la historia de la literatura y de la literatura comparada”.

La analogía peca tanto de simplista como gana fuerza al ser actual, aún más si se divulga en una red social.  Todos los días se genera literatura en formatos predominantemente digitales, se desdobla en innumerables géneros, de calidad discutible y con críticas igualmente discutibles, llegando la misma a un público tan amplio que ninguna generación literaria, gregaria, libertaria, de tertulia o ermitaña podría imaginar.

Mientras leía “Pessoa y España”, me imaginaba a estos jóvenes ultraístas y al autor de los heterónimos, cuya voluntad de internacionalizar las literaturas de sus países era palpable, con la humildad de los medios con que contaban entonces, y como las circunstancias de su presente acabaron por condicionar de forma evidente la recepción de la obra de Pessoa en España.

El tiempo no estuvo de su parte entonces. Pessoa en su relación epistolar con sus congéneres españoles, mantuvo, como era típico de su persona, su genio poético y literario oculto, a pesar de su intento, algo sutil, de publicar en España.

Las circunstancias se encargan de que Pessoa fuera visto en esa relación epistolar como un crítico literario o, de manera aún más explícita, divulgador de otros autores contemporáneos suyos de la literatura portuguesa.

En “Pessoa en España” estamos ante una investigación cuidada, donde la búsqueda exhaustiva en los fondos originales por parte del investigador, con innumerables ejemplares epistolares inéditos, es evidente desde la primera página hasta la última de este libro.

Todos los capítulos son de un rigor científico asequible a cualquier tipo de lector debido a la pluma amena de Antonio Sáez, que tiene notas de pie de página igualmente placenteras como motivantes para que uno se sumerja en más aspectos interesantes de la literatura comparada.

No me cabe la menor duda de que esta era ya una publicación necesaria en el ámbito de los estudios pessoanos y de la literatura comparada, además con una característica que la hace aún más interesante, esa complicidad entre literaturas, al cual da igual el tiempo que duró, puesto que hoy es patrimonio peninsular.

Voy a usar un capítulo de este libro para presentar al autor del mismo. El capítulo 4 “Balizas para la recepción de Fernando Pessoa en España”. Quiero usar este capítulo, encerrado en la publicación de un libro, para que no se me acuse demasiado de parcialidad, de aprecio intelectual y de amistad por Antonio Sáez Delgado, puesto que el conocimiento y el ejemplo humano del autor desde mi paso por la academia son un ejemplo para mí.

Tengo una anécdota, en este contexto incluso me permito acercarme al falso amigo en portugués, que significa chiste, de mi juventud de fan de Joaquín Sabina. Antonio, en sus clases de literatura comparada, nos daba la libertad de hacer trabajos sobre los autores que quisiéramos de lengua española y yo, por aquel entonces, estaba enamoradísimo de Sabina, en especial de su “Hombre del Traje Gris”.

Javier Menéndez Flores en la biografía de Sabina, “Joaquín Sabina – Perdonen la Tristeza”, hace referencia, o recolecta, textos de gente de la intelectualidad de entonces y, un periodista, de cuyo nombre no quiero acordarme, hace una referencia descontextualizada de una amistad con James Joyce.  Mi falta de preparación, de conocimiento, mi ingenuidad mezclada con seudointelectualidad, además sin el acceso a la red que nuestro presente nos permite para contrastar, de inmediato, fechas y datos, me hicieron hacer referencia a tal barbaridad en mi cándido ensayo sabiniano.

Antonio, al revés de lo que era una tendencia en la academia de entonces, podía haberse mofado de la estupidez de su alumno. Todo lo contrario. Como los grandes maestros me enseñó que hay que hacer la distinción entre conocimiento y opinión, entre estudios literarios y periodismo. No se rió de mí, como podía haber hecho (y me merecía que lo hubiera hecho), pero se rió conmigo.


Por eso vuelvo al capítulo 4, a las balizas de la recepción en España, donde el autor habla de todos los nombres que acercaron diacrónicamente la figura literaria de Pessoa a España. Menciona y dignifica el trabajo de todos, pero se olvida de uno. Uno de los grandes. El suyo. Pasados quince años, es un honor poder estar aquí, a su lado, y reírme con él de tan grotesca laguna. 

Luis Leal Pinto