domingo, setembro 18, 2016

Epitáfio a um Tirano - W.H. Auden (trad. Luis Leal)

Pode-nos parecer algo longínquo e improvável, mas os próximos 50 dias de 2016 serão decisivos para a humanidade e para a sua história. Ao refletir sobre isso, lembrei-me do “Epitáfio a um Tirano” de W. H. Auden, que traduzi para português.

Epitáfio a um Tirano (W. H. Auden, 1907 - 1973)

“A perfeição, de um tipo, era o que ele andava à procura,
E a poesia por ele inventada era fácil de entender;
Ele conhecia a estupidez humana como a palma da sua mão,
E estava profundamente interessado em exércitos e armadas;
Quando ele ria, respeitáveis senadores escangalhavam-se a rir,
E quando ele chorava pequenas crianças morriam nas ruas.”


Epitaph on a Tyrant 

"Perfection, of a kind, was what he was after,
And the poetry he invented was easy to understand;
He knew human folly like the back of his hand,
And was greatly interested in armies and fleets;
When he laughed, respectable senators burst with laughter,
And when he cried the little children died in the streets."

Hugo Pratt e Dizzy Gillespie (1959)


Velhas amizades

Indiretamente, hoje tive notícias dum velho amigo, um desses amigos cuja importância fora tanta que esta pessoa, aqui a registar o seu ser e estar, seguramente não seria a mesma.
Criámo-nos juntos num pátio do bairro do "Moinho do Cu Torto", "aka" Nossa Senhora do Carmo.

Num mundo onde já não há distâncias, ambos distanciámo-nos em vidas adultas desligadas. Cada qual à sua maneira e sem animosidades, apenas com a realidade que as redes sociais do mundo digital ofuscam ao colectivo. Perdemos a cumplicidade e provámos que a amizade também poder ser perfectiva sem necessidade de ruturas. Apesar de eu a querer mais que perfeita e contínua… deixámo-nos de seguir.

Há que fazer por isso? Talvez. Há que aceitar essa perfectividade? Por vezes. Quando no presente te cruzas com esse passado, custa a lembrança? Por vezes. Como é que lidas com isso? Acreditando que em qualquer tempo, estimar um amigo é das maiores riquezas que levaremos desta terra para os sete palmos abaixo de terra que nos esperam.

terça-feira, setembro 13, 2016

Noite surda

A noite surda range nas molas desse colchão esquecido das temporadas suadas de Verão e agasalhadas de Inverno. Põe-se o poema a jeito, sem ruído, tímido, mas extrovertido para a edição da caneta no lençol branco. Na surdez da noite, descobre-se aflito, a gesticular, o menino de voz estridente e um presente indecente para a pureza duma infância. 
A noite surda, o suor de não se ouvir o grito. As mãos apoiadas, acordadas em pânico, o coração órgão acelerado, e os olhos diferentes, cheios de passado indiferente ao sufoco de não saber onde é que está.

sábado, setembro 10, 2016

Tenho bem presente a imagem do meu tio Manuel a dormir no palheiro com a espingarda ao lado. A necessidade de proteger o que plantara, o que cuidara, o que aprovisionara para dar de comer à sua família, justificava esta imagem que não gostaria de um dia ter de reencarnar.
A vida de pequeno agricultor, de ganadeiro, de pastor, não é nada bucólica como o poeta nos faz crer.
Não está assim tão longe o tempo em que o senhor feudal exigia o tributo e parte da colheita. Em tempos de PAC, de campos subsidiados, os roubos de produtos agrícolas estão ao nível do carjacking de marcas de altas gamas.
O meu tio protegia o seu trabalho de um acampamento ilegal na sua propriedade. De ciganos que andavam a rondar para ver o que podiam mangar (lembro-me bem e não cairei num registo correcto politicamente se não o é com o que vivi). O peso do Ultramar pesava-lhe no passado e ajudava-o a assumir a arma carregada e um possível apontar em legítima defesa. Era assim, a sua geração é assim.
Lembro-me tanto dele, e da quinta da infância das minhas primas, porque hoje parte de nós cá em casa deposita no campo a esperança de um futuro familiar sustentável. No entanto, proliferam os roubos nos olivais, amendoais, montados de sobro, até mesmo vinhas, numa total impunidade.
Quem me diria que o azeite, e a sua modesta azeitona, ascenderia ao estatuto de produto de luxo e emblema ibérico da gastronomia “gourmet”? Torradas de azeite, pão com azeitonas, refugados, etc., eram coisa de pobre e hoje este óleo natural é ouro líquido.
Parece que a influência do mediterrâneo chega até onde encontrarmos oliveiras plantadas. É uma imagem bonita de se pensar, bem mais idílica do que a de um homem guardar o suor do seu trabalho à ponta de escopeta porque a lei não o protege.
Hoje à tarde estava a passar na televisão, num desses canais reacionários, uma sessão de cinema Western. Bud Spencer, Terrence Hill, Djangos, Clints, Waynes e afins defendiam-se assim até chegar a mão da lei, em forma de Rangers, Xerifes e “Deputies”… O campo não tem portas e, apesar de parecer esquecido, votado à desertificação, não se protege minimamente na memória da cidade. Vamos ver como será quando houver uma crise da batata… Vai-se descobrir que não nasce empacotada. 

"Sé tú mismo" - Marc Tauss



sexta-feira, setembro 09, 2016

Praia do Vau 08.09.16

Deixei o rescaldo da fronteira ardida em casa e rumo ao sul de Portugal. 
O vento transporta o cheiro a queimado por quilómetros e, sem saber, chegamos ao nosso destino também a arder. As cinzas no ar povoam esta terra dedicada a turistas e o fumo veste o pôr-do-sol para um momento trágico. A serra de Monchique arde descontroladamente. 
Há alguns anos que não venho ao Algarve, o que me unia a esta região morreu e o pouco que me resta não me faz priorizar visitas nem veraneios como os de antanho. Sem mágoa, olho para trás como olho para este fogo, deixo que se extinga e aceito o horizonte a ocultar-me a beleza dos dias de sol nesta região.

quarta-feira, setembro 07, 2016

Fronteira a arder

O fogo não conhece limites, não se circunscreve a fronteiras, devora hectares e não é por acaso que Hades arde mitologicamente. 
No norte arde o Gerês e o "Xures", enquanto aqui arde o Caia e nem o rio com o mesmo nome impediu que cruzasse as águas e ateasse fogo à margem espanhola. Passei de carro pela antiga nacional e vi como as chamas passavam de um lado para outro da ponte José Saramago. 
"O que farei quando tudo arde?" do Sá de Miranda pode-se interpretar com tantas retóricas e ao longo destes anos da minha vida tenho visto demasiadas coisas a arder. Não tenho interesses pirómanos e o fogo só me fascina por depois de se extinguir em cinzas adquirir um estatuto fértil, de adubo para crescimentos futuros. 
Amanhã passarei nos locais ardidos, os quais penso já terem os focos extintos, pensarei qualquer coisa diferente do Sá de Miranda. Tenho a certeza. 
Aqui deitado, com a noite menos tropical do que em dias anteriores, ainda cheiro o ar ardido e lembro-me que o melhor é evacuar o meu espírito deste diário. Por hoje já chega.

Vincent Hawkins








terça-feira, setembro 06, 2016

É melhor aprenderes a voar com a galinha do que com a águia. A galinha nunca vai deixar de sonhar com o voo completo, sempre com os pés bem assentes na terra para o impulso. A águia adquiriu o estatuto no ninho e altiva orgulha-se de não necessitar da terra para nada, até descobrir que não há voos intermináveis.

Noite tropical...

Setembro começou agarrado às temperaturas de Agosto. Mais de 40 graus durante o dia e a rondar os 30 durante a noite. 
Não me bastava o suor, e a letargia dos movimentos de pele pegada ao corpo, ainda tinha de me constipar e andar a fungar quando toda a gente anseia nadar no mar ou numa piscina. 
Se já me custava antes dormir, agora ainda mais. Consola-me a estupidez e ironia da situação. Vivo um clima de Verão com sintomas de Inverno... 

segunda-feira, setembro 05, 2016

"Arthur Bispo do Rosario" - Eduardo Galeano


Arthur Bispo do Rosario fue negro, pobre, marinero, boxeador y artista por cuenta de Dios.
Vivió en el manicomio de Río de Janeiro.
Allí, los siete ángeles azules le trasmitieron la orden divina: Dios le mandó hacer un inventario general del mundo.
Monumental era la misión encomendada. Arthur trabajó noche y día, cada día, cada noche, hasta que en el invierno de 1989, cuando estaba en plena tarea, la muerte lo agarró de los pelos y se lo llevó.
El inventario del mundo, inconcluso, estaba hecho de chatarras,
vidrios rotos,
escobas calvas,
zapatillas caminadas,
botellas bebidas,
sábanas dormidas,
ruedas viajadas,
velas navegadas,
banderas vencidas,
cartas leídas,
palabras olvidadas y
aguas llovidas.
Arthur había trabajado con basura. Porque toda basura era vida vivida, y de la basura venía todo lo que en el mundo era o había sido. Nada de lo intacto merecía figurar. Lo intacto había muerto sin nacer. La vida sólo latía en lo que tenía cicatrices.

Eduardo Galeano