quarta-feira, agosto 31, 2016

O meu pai movia-se entre nós - e.e. cummings

O meu pai movia-se entre nós,
cantando cada nova folha saída de cada árvore
(e cada criança tinha a certeza de que a Primavera
dançava quando ouvia o meu pai a cantar).

segunda-feira, agosto 29, 2016

"El Quijote" marchito, igual que un clavel de abril...

Presumível

("make my day")
há um motivo
sorriso
um aviso
uma acção
do passado
talvez o culpado
desta condição.

acusa-se com provas
factos justificados
perante o grande júri.
advogam-se as causas
à luz que deve iluminar
a processo
dentro da lei
dos homens a legislarem a natureza
a evitarem cumplicidades
associações desconsideradas 
até se provar o contrário
criminosas
pelo seu embaraço.

de pé o réu
não admite
em confessa
ser
presumível
autor.

presumivelmente poeta. 
é tudo uma questão passional.
que o julgue o tempo
quando este deixar de ser arguido
da sua própria existência.

A piscina na estrada...


Ensinei o meu filho mais velho a nadar. Posso afirmar, a partir de hoje, ser tudo uma questão de prática. Foi numa piscina aberta ao público, à qual temos ido refrescar estes últimos dias de Agosto. 
Aprender a nadar é aprender a sobreviver num meio para o qual não estamos particularmente concebidos. Espero que nunca tenha de nadar para sobreviver, no entanto, como se faz na Holanda, toda a gente devia pelo menos saber boiar, manter-se à tona dentro (e fora, já agora) de água. 
Em casa, junto com o pequenito, ambos na banheira, lavei-lhes a pele e o cabelo ainda com jeitos de cloro, sequei-lhes a pele atópica e apliquei-lhes o creme do dia-a-dia. Ainda usei o secador nos caracóis do mais novo pois anda um bocado ranhoso. Enquanto fazia estas tarefas, às quais já estou tão mecanicamente habituado, percorri "The Road" do Cormac McCarthy. 
Não dou por garantido cada gota de água com que os lavo, cada noz de champô, cada dose de gel duche, o sabor do dentífrico, a electricidade do secador de cabelo. Não dou por garantido aqui estar sempre para os cuidar no seu crescimento.
Todos os que têm filhos deveriam ser capazes de entender a personagem do pai neste livro de sobrevivência física e moral num mundo com todos os recursos esgotados. Darwin tem quase toda a razão, sobrevivem os mais fortes, mas também sobrevivem os que colaboram. Neste caso, um pai e um filho numa estrada em direcção ao litoral sul.
Estamos no final do Verão mas não sabemos quantos Invernos aguentaremos. Sobreviveremos? Ninguém está preparado. Será que o fogo viverá dentro deles? A semente foi plantada com fé de o clima possibilitar que algo germine nesta era de estupidez.

sexta-feira, agosto 26, 2016

Não te basta já a dor de cabeça de seres de carne e osso?

Escrevo para me descrever, para não me esquecer, isso pensava. Tenho esse hábito, hoje já rotina, de grafar o que sou à solta. Na escrita, silencio o que tem um referente fonético por convenção e hábito, hoje já rotina, que nos torna sociais. 
Escrevo porque o aprendi. Não esqueço descender de quem lho foi impedido, por isso treino-o como pratico uma forma, um golpe rotineiro. No entanto, quanto mais me escrevo mais tenho a certeza da necessidade de saber ler-me. Isso creio que nunca o aprenderei com rigor, nem de cor. 
Numa gritaria nunca sou capaz de isolar uma voz. No trabalho, sem prazer, unicamente necessidade, uso a técnica da sanção colectiva, infelizmente com os pecadores pagam sempre os justos.
Fora desse âmbito, vozes destas são para as evitar. Não te basta já a dor de cabeça de seres de carne e osso?

terça-feira, agosto 23, 2016

Portagem, 23/VIII/2016

Sempre que vou à Portagem passo por Portalegre. Havia coisas a tratar e parámos nos locais indicados para os afazeres. Só depois fomos em direção a Castelo de Vide para matar saudades da paisagem. Ainda em Portalegre, bem no centro tristemente envelhecido, tomei um café que me ofereceu o terceiro volume do Dom Quixote.

O "bookcrossing" é das iniciativas mais bonitas, depois das bibliotecas públicas e escolares, para o fomento da leitura e, quiçá, de um espírito mais iluminado. Tenho "El Quijote" original, edição humilde mas bem completa, porém nunca terminei a sua leitura apesar de ter lido várias adaptações e versões livres. Acredito que muitos dos intelectuais das praças públicas internacionais tão-pouco o leram mas o seu estatuto seria outro se o reconhecessem. Seriam honestos com a inteligência do próximo, mas fundamentalmente seriam honestos consigo próprios. Mentimos tantas vezes a nós mesmos que tornamos a mentira a verdade do que somos. 

Depois de Castelo de Vide, depois da bela e estreita estrada com árvores de tronco vestido de branco, chegámos à Portagem. Refrescámo-nos na companhia de bons amigos (para variar abusaram no preço do almoço graças ao nosso ar e companhia de estrangeiros) e fomos o que há anos somos. O Luis, o José, a Pepi, iguais aos anos que passam, fiéis ao afecto, com filhos e com a cumplicidade da Elsa, da Camino e do Rafa. Faltavam o José Manuel e a Maite fisicamente. 

À volta, depois de uns mergulhos anti-inflamatórios e de umas conversas à beira do Sever, conduzi feliz em direção a casa. 

Gosto de estar assim, acompanhado, rodeado por gente que não se julga, que apenas é o que é. Consola-me saber isso e ser eu, sem máscara, sem filtro social que não seja o da estima e da amizade. O que é que seria do Dom Quixote sem o seu fiel escudeiro (amigo que era o que era) Sancho Pança? Seria apenas mais um cavaleiro de triste figura. Ao homem incapaz de ser amigo por assim o dever ser, acontece exactamente o mesmo. É um triste homem...

segunda-feira, agosto 22, 2016

Estivemos todo o dia em casa. O agosto remata o final dos seus dias com um calor que só à sombra permite a existência, ou à noite, porque também é amigo da insónia.
Não é fácil entreter duas crianças, uma delas um bebé de um ano, nestas circunstâncias. Há que ter paciência. Têm de aprender a abrigar-se do frio como também do sol que nos marca com raios UV.
Onde vivemos, o frio é passageiro e quase sempre provoca-me saudades. O sul, esse que no mapa também se marca com cores quentes.
O vento é emulado por uma coluna de ar artificial, uma ventoinha que trabalha noite e dia dois a três meses por ano. O seu ruído é mecânico, tão diferente da sínfonia do vento que anunciará em breve o outono.
Não páro de pensar. Não sou capaz de adormecer sem antes fazer ou conjugar algum verbo da segunda conjugação, regular ou irregular, só para rimar. Ler, escrever, por exemplo, para não entrar em mais detalhes.
Hoje li pouco. Uns artigos sobre o Bordalo Pinheiro do Zé Povinho, um documento sobre a guerra civil espanhola e uma entradas num diário alheio. Mas o que levo para a cama é um pensamento preocupante de como os extremismos, neste caso particular o ISIS, recrutam fiéis logo na primeira infância a troco de umas guloseimas, de umas promessas divinas, ofensivas para qualquer deus decente, de serem "as crias" do profeta. É tão fácil doutrinar para que explodam em nome da cobardia humana...
Fecho os olhos em oração a um qualquer deus decente e rogo-lhe que interceda por estas crianças. Tenho fé não sei bem no quê, se em deus ou num resto de decência humana.

As Pontes (Acetre)




Sobre o disco de Acetre a que pertence "As pontes", Arquitecturas rayanas, podemos ler o seguinte na página musicaflok.es :

"As Pontes fue el primer single que el grupo extremeño Acetre lanzó, como adelanto a su álbum Arquitecturas Rayanas. También fue el primer videoclip que realizaron, con impecable resultado, como podéis ver tras el salto. Rodado en Badajoz, el tema habla de los puentes físicos tendidos a ambos lados del Guadiana a su paso por la ciudad."


AS PONTES

Blanca es la paloma
Que aquí se posó
Bella como el alba
Cuando sale el sol

Ó minha pombinha branca
Vem depressa ao meu quintal
Salpicadinha d’amores
Pra ver meu amor chegar

Claveles en mayo
Rosas en abril
Mi amante se peina
Junto al toronjil

Ausente de ti, meu bem
Sempre estou a suspirar;
Esta paixão do meu peito
Já não a posso olvidar

Pequeña es la dama,
Pequeña y hermosa
Y reparte amores
Como hojas de rosa

A rosa depois de seca
Foi-se queixar ao jardim,
O jardinheiro lhe disse
Tudo no mundo tem fim

Abanicos verdes
Lleva la pastora
y guarda el ganado
mientras me enamora

Pastora, boca de cravo
Cintura de capitão
Cadeado do meu peito
Chave do meu coração

Cuando en ti pienso
Renace mi amor,
Donde prendió el fuego
Ceniza quedó

Ó minha pombinha branca
Vem depressa ao meu jardim
salpicadinha de flores
Pra ver meu amor partir

Quando os meus olhos te viram
Meu coração se alegrou
Na cadeia dos teus braços
Minha alma presa ficou.





sexta-feira, agosto 19, 2016

Recordando a Lorca...

Hace dos días, se cumplieron 80 años desde que nos dejó a manos del odio ideológico...

Sísifo de rede ovelheira

O trabalho do campo é duro e qualquer pessoa que tenha noção de várias vidas laborais além das que no seu dia-a-dia exerce deve concordar comigo. 
A minha manhã começou bem cedo, ver o sol nascer é sempre uma maravilha, e esperava-me uns metros de cerca ovelheira, arame farpado dissuasório de focinhos intrometidos e bastantes estacas ressequidas no meio do matagal rasteiro do Agosto alentejano. 
Munido de alicate de corte (estúpido deixei o universal em casa que tanta falta me fez), chave de fenda, martelo de orelhas (as quais não resistiram nem a um dia de labuta) e algumas coisas, tipo cordéis e elásticos, para desenrascar, meti mãos à obra. 
Pouco a pouco, fui entrando na rotina de arrancar grampos, cortar arame, enrolar as velhas cercas e reciclar o arame farpado. A tarefa exigia movimento constante numa solidão que nem minimizei com o rádio ou música do telemóvel, uma vez que até tinha posto os auriculares no bolso da camisa. Dei por mim a pensar em coisas estúpidas, incertezas, medos de que o outro, o que está fora da minha cerca, me invadisse com más intenções. Receios que o que tenho recolhido, criado aqui dentro, sem essa barreira fugisse para longe de mim. 
Estava desconfortável, não com o trabalho duro, com as mãos e antebraços picados e arranhados, sim com a solidão dos meus pensamentos. 
Mas, por mais "new age", "couching" ou sabedoria proverbial de livro de auto-ajuda pareça, os pensamentos são as flores do nosso jardim. A nossa tarefa de jardineiros é escolher o tipo de flora que por lá queremos ver a propagar-se. A fotossíntese com a cara ao sol e os sentidos cientes dos elementos, ajuda-me a minimizar o que hoje por lá plantei. 
A rodar pelo terreno acima, lembrei-me do mito de Sísifo e de quando o conheci e entendi o que talvez significasse. Não quero ser arrogante e dizer que o entendo, quando o que sinto é compaixão. Hoje rebolei rede ovelheira, outros dias carrego sacos de compras, móveis, livros, utilidades e inutilidades, etecetera, longe da condição de titã, lá me vou aguentado, duvidando, sendo cada vez mais pragmático num corpo onde sinto marcas de tempo e se veste com roupas totalmente cobertas de pó.
Num ritmo cada vez mais parecido ao do meu avô e do meu pai, trabalhei com as ferramentas quase adequadas, olhei-me no horizonte passado e reconheci mais lentidão, mas com mais segurança e eficácia nos passos. Dorido, ao fim do dia, repenso que todos os trabalhos exigem inteligência, brio e destreza. No meu caso, um cinto de ferramentas ter-me-ia poupado as costas e feito ganhar minutos na execução das tarefas. Tenho sorte. O Sísifo tem sorte. Por mais pensamentos infestantes que tenhamos, amanhã podemos recomeçar.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Victor "Young" Perez

O sol da tua infância tunisina
nunca deixou o teu coração ser francês.
Os teus punhos foram nacionalizados
mas tu nunca foste um protectorado de Vichy.
Obrigaram-te a levar a estrela
a ti a verdadeira estrela
o mais jovem campeão
do mundo
e de David.
O quadrilátero era de arame farpado
e o árbitro mais que comprado.
Com fome e sem sentires o jogo das tuas pernas
voaste pelo fumo das chaminés do crematório
a escorreres sangue de campeão,
verdadeiro, sem raça,
sem pureza que só existe
em farsas
e ideologias
que para a história
não foram mais que sofrimento
derramado em hemorragia.
A tua guarda debilitada
pela guarda de um campo de concentração
não te desconcentrou
nem pôde a humilhação
desleal doutra categoria de peso
fazer frente ao peso da alma.
Há quem afirme que o peso da alma são 21 gramas,
se assim é foram as tuas gramas
que se imposeram à tonelagem de crueldade
e fizeram do teu voo
um combate para a eternidade.
O sol em Janeiro na Polónia não se vê. Foi difícil marchar de pés sangrentos
para voltar à beira-mar do mediterrâneo.
Oportunista, como bom pugilista, encontraste um aberta na guarda da morte
e esquivaste o esquecimento.
Bastava-te um momento
mas uma bala fez-te ir ao tapete
antes de tempo.

Rua da Cal Branca

Como qualquer superfície de mármore, era preciso ter cuidado para não se escorregar. Mas sempre os sentidos se alegravam por ali passarem.
Optava por lavar todas as escadas de joelhos. Do rés-do-chão ao segundo andar, a senhora da limpeza, de quem nunca soube o nome, era tal qual a sua mãe que anos antes lavara a mesma escadaria na mesma incomodidade de genuflexão mas deixando como herança o brio e o hábito do esfregão e do sabão azul.
Hoje escorreguei na brancura do mármore desta lembrança da Rua da Cal Branca. Escorregámos. Nunca subi essa escada sozinho porque lá em cima alguém me esperava sem necessidade de avisar.
A senhora já me conhecia, o plátano lá fora também. Fazia questão de me receber com o acto cerimonioso de interromper o seu labor para que passasse e não escorregasse na humildade da sua existência. Creio que assim o pensava.
Eu não. A gratidão que tenho pelo seu gesto é presente como tento pisar com cuidado e reconhecimento o trabalho prévio dos outros. O sorriso é o do jovem apaixonado já então lhe reconhecia o mesmo azul dos olhos e longo cabelo da sua princesa.
Hoje as escadas da Rua da Cal Branca voltaram a ser subidas a vários anos e quilómetros de distância. Lá estava a senhora de joelhos a lavar com sabão azul o mármore dos nossos passos.
Cumprimentámo-la e fomos cumprimentados como se ontem por lá tivéssemos passado. Ela olhou-nos e soube que a sua dignidade ia ali connosco. A da sua mãe também. No nosso caminhar há a brancura do seu esforço, agora o nosso esforço.

Escrever tem-se convertido na necessidade de libertar o que penso ao mesmo tempo que tenho assumido que isso de pouco vale.

"Dormir es la mejor manera de meditar" - Dalai Lama

terça-feira, agosto 16, 2016

Pode uma palavra inspirada salvar a humanidade? Pode. Salvar um ser humano é amparar o colectivo, mesmo que não não nos apercebamos ou reconheçamos isso.