segunda-feira, janeiro 05, 2015

Ventos de outono – José Hierro (1947)

Viemos, alegria! dar o vento
glória final às folhas douradas.
Arder, fundirem-se os montes em labaredas
crepusculares, trágicas e sangrentas.

Gira, ascende, enlouquece, pensamento.
Hoje dá o outono soltura às suas manadas.
Não sentes ao longe as suas pisadas?
Passam, deixando o campo amarelecido.

Por isto, por sentirmos ainda
música e vento e folhas, alegria!
Por a dor que nos tem cativos,

Pelo sangue que emana da ferida
alegria em nome da vida!
Somos alegres porque estamos vivos.

José Hierro (de “Alegria”, 1947) – [trad. Luis Leal]

Ex libris

“Ex-libris” -da expressão latina “ex libris meis”- expressa, literalmente, "dos livros de" ou "faz parte de meus livros", empregava-se para associar um livro a uma determinada pessoa ou a uma biblioteca específica. Este complemento circunstancial de origem (“ex + caso ablativo” que tive de recordar dos meus rudimentos de latim) indica que tal livro é "propriedade de" ou obra "da biblioteca de".
Geralmente trata-se de um carimbo, um selo personalizado, marca que escritura, sem notário, esse sentimento de propriedade, que não deixa de ser materialismo e que não deixa de ter peso na nossa bagagem, quase sempre agradável, exceto se várias mudanças te mostram o peso literal da crença que possuir muitos livros equivale a muita cultura. A realidade lombálgica trata sempre de nos pôr no nosso lugar.
Nunca tive nenhum “ex-libris” e confesso que a minha relação com o livro é de amor, de sensual toque, algo possessivo até, de interesse desinteressado, invasiva de assédios de notas a divagar a lápis. Mas com o passar dos dias mais aberta à partilha, a sair com hora e dia de regresso -definido pela nobreza literária de a quem se empresta- à estante de origem ou obséquio de estima porque sabemos que já nos deu tanto que é hora de mudar de residência e, quiçá, dar ainda mais.
A presença da Elsa, o seu presente partilhado comigo nesta época de Natal e Reis, foi carimbada no canto do meu bloco de notas que todos os dias escrevo… Embebo o carimbo num azul de tapete de tinta e marco a minha mais efémera propriedade, os meus livros, a minha biblioteca. Apenas desejo que não me absorva, que não se oculte no pó dos momentos ou que a vida me mude tanto ao ponto de deixar de acreditar que uma biblioteca tem de ser tanto pública como respeitada, pois um livro nunca pode ser único e exclusivo de uma criatura qualquer.
Que o ex-libris seja uma espécie de carimbo à moda de passaporte. É isso que penso fazer e tenho aprendido de grandes amigos.  

sábado, janeiro 03, 2015

Seja este o verso (Philip Larkin)

Eles foderam-te, a tua mãe e o teu pai.
Eles podiam não ter intenção disso,  mas foderam-te.
Eles encheram-te com as culpas que eles tinham
E juntaram algumas extra, só para ti.

Mas por sua vez eles também se foderam
Por tontos de chapéu e casacos antiquados
Que metade do tempo eram meloso-rígidos
E outra metade atirados às gargantas uns dos outros.

O homem impõe a miséria ao homem.
Aprofunda-se como um recife costeiro.
Escapa enquanto possas,
E não tenhas filhos teus.

[trad. Luis Leal]

Fiat 850 (Por aí vindo de Beja) - Foto do meu amigo Ricardo Isaá


Ruínas em ruínas


Esquece o que está feito (Philip Larkin)

Interromper o diário
Foi um choque para a memória,
Foi um começar em branco,

Já não se cicatriza
Por tais palavras, tais acções
Como um acordar do desconsolo.

Queria terminá-los,
Apressei o funeral
E relembrei

Como as guerras e os invernos
Perdidos atrás das janelas
Duma infância opaca.

E as páginas em branco?
Se alguma vez forem escritas
Que seja observando

Reincidências celestiais,
O dia que as flores brotam,
E quando os pássaros migram.

De “High Windows” (“Janelas Altas”), 1974 [Trad. Luis Leal]

Primeira noite (José Ángel Valente)

Empurra o coração,
parte-o, cega-o,
até que nasça nele
o poderoso vazio
do que nunca poderás nomear.

Sê, ao menos,
a sua eminência
e ossos partidos

da sua proximidade.
Que se faça noite. (Pedra,
nocturna pedra só.)

Alça-se então a súplica:
que a palavra seja somente verdade.


De “A Modo de Esperança” [Trad. Luis Leal]    

sexta-feira, janeiro 02, 2015

Certeza (Octavio Paz)

Se é real a luz branca
De este candeeiro, real
A mão que escreve, são reais
Os olhos que veem o escrito?

De uma palavra à outra
O que digo desvanece-se.
Eu sei que estou vivo
Entre dois parênteses.
de "Salamandra" [trad. Luis Leal]

quinta-feira, janeiro 01, 2015

Una cuestión de tiempo (Nuno Júdice) in "O Fruto da Gramática"

Del otro lado de la casa, los niños juegan con el tiempo
que corre para que ellos no jueguen con él. En la casa
al lado, un perro ve el tiempo a pasar y le ladra
para que él huya como si fuera un ladrón. En la calle, el mendigo
pide a toda la gente la limosna de un tiempo, y toda
la gente dice que no tiene tiempo para darle. En el café, pido
una taza de tiempo, corto y bastante fuerte
porque no tengo tiempo para dormir, pero
a mi lado hay quien pida una taza bastante llena
de tiempo para que el tiempo se tarde en beber. Hay
quien corra por falta de tiempo, y el tiempo va
detrás de él para cogerlo. En el metro, la chica
cruza el andén, despacio, como si tuviera más tiempo
que todos los que cuentan el tiempo para
que no se les descuente en el tiempo. Y cuando me preguntan
si tengo tiempo, miro el reloj, como si él
estuviera lleno de tiempo, y pido que quiten de dentro
de él todo el tiempo, y que lo vacíen hasta el último
segundo, para que me quede con tiempo para
que vea cuanto tiempo ya pasó.
[Traducción: Luis Leal]

Apaixonada por outonos e entardeceres - Maria Victoria Moreno

Apaixonada por outonos e entardeceres
Peregrina nas pastagens da vida
Procura-te no temor do anoiteceres
Fragâncias velhas de ilusões e amores.

Sorriram para ti todas as flores,
Fez-se a árvore na tua ferida
E, por claras estrelas, a alma adormecida
Foi desde o abismo aos altos miradouros.

Inefáveis paisagens de harmonia
Abriram-se ante ti como um presente
Em volutas de lua opalescente.

Desposaram-se em suave melodia
As pétalas de luz, a paz do relento
Com teu corpo, já lírio evanescente.

Maria Victoria Moreno (trad. Luis Leal)

Maria Victoria Moreno, nascida em 1939 em Valencia de Alcántara e finada em Pontevedra no ano de 2005, foi uma poetisa e escritora que me foi dada a conhecer por José Antonio Santiago e que espero poder vir a conhecer melhor e, quem sabe, traduzir mais algumas das suas palavras.

V - Um insecto (Samuel Chamorro)

V
Um insecto
agónico, no vidro:
limite impossível.

Um insecto
absorto, no espelho:
impossível limite.

Samuel Chamorro (trad. Luis Leal)

(Foto de: http://devotions4women.com/2012/06/11/the-bug-on-my-window/ - Edited by Luis Leal)

"Que só sejam beijos o que nos tape a boca"/"Qué sólo sean besos lo que nos tape la boca".


Novos sóis


terça-feira, dezembro 30, 2014

El poema nace

El poema nace del esfuerzo
de obturar el inconcreto,
de la necesidad de hacer de la nada
verbo cubierto con nitrato de plata.

VI Nenhuma dor é tão grave (Samuel Chamorro)

Nenhuma dor é tão grave
nenhuma morte tão última

que não possam moderar-se
diante dos olhos de um estranho.

Claves para hacer negocios con Portugal (Colaboración en el libro)

Termino 2014 con la enorme sensación de gratitud… Ya en lo que respeta al colectivo, como decía Vasco Graça Moura, le falta al mundo contemporáneo algo de poesía… Espero que 2015 nos traigan unos cuantos versos de esperanza. 
Os dejo mi última colaboración en la guía “Claves para hacer negocios con Portugal” en la compañía de buenos amigos como Antonio Sáez Delgado y José Ignacio Martín, donde divagamos sobre “La imagen del otro”, “Historia de Portugal”, “Patrimonio portugués”, “Literatura portuguesa” y “Figuras claves de Portugal”. Os recomiendo los “Falsos Amigos” de mí amigo José. 
(Un especial agradecimiento a todos los que están por detrás de mis textos, sabéis que sois y siempre seréis mi intertexto…) 

Termino 2014 com a enorme sensação de gratidão… Já no que diz respeito ao colectivo, como dizia o ilustre Vasco Graça Moura, falta ao mundo contemporâneo poesia… Espero que 2015 nos traga uns quantos versos de esperança. 
Deixo-vos a minha última colaboração no guia “Claves para hacer negocios con Portugal” na companhia de bons amigos como Antonio Sáez Delgado y José Ignacio Martín, onde podemos divagar sobre “A imagem do outro”, “História de Portugal”, “Património português”, “Literatura portuguesa” e “Figuras chave de Portugal”. Recomendo-vos os “Falsos Amigos” do meu amigo José. (Um especial agradecimento a todos los que estão por trás dos meus textos, sabem que são e sempre serão o meu intertexto…)





quarta-feira, dezembro 24, 2014

Aprendizagem Básica (Gonçalo M. Tavares) in Revista Visão 18.XII.2014


Eddie Vedder - Imagine 2014 (Official Audio) Multicam

Dias sós / Días solos

Dias sós.
Embaciado o espelho ausente de reflexo das manhãs infantis,
Num grito desperto pelo espreitar sincero do sol num fio de persiana.

Manhã lenta de café
Desenhado com tons de leite
E a rádio sintonizada num programa feito pelos teus próprios dedos.


Días solos.
Empañado el espejo ausente de reflejo de las mañanas infantiles,
En un grito despierto por el acechar sincero del sol en un hilo de  persiana.

Mañana lenta de café
Dibujado con tonos de leche
Y la radio sintonizada en un programa hecho por tus propios dedos.

segunda-feira, dezembro 22, 2014

O centro da distância (Ángel Campos Pámpano)

O centro da distância (Ángel Campos Pámpano)

Abre os olhos
a um só acorde, a um ritmo
em si mesmo.
Requere um homem novo
esta luz que desponta.

Razão de ti
vão dando as tuas palavras
mais pobres, boca
nua que conhece
a melhor luz do dia.

Rosa de nevoeiro
sumida no silêncio
fundo do ar
Reconheço no teu nome
esta luz que declina.

Do seu livro “Siquiera este refugio” (“Ao menos este refugio”), 1993.

Tradução: Luis Leal

Algures no Alentejo



Se calhar está na hora de cortar o cabelo, ou fazer a barba...

domingo, dezembro 21, 2014

a la hora de poner la mesa, éramos cinco

a la hora de poner la mesa, éramos cinco:
mi padre, mi madre, mis hermanas
y yo. después, mi hermana mayor
se casó. después, mi hermana pequeña
se casó. después, mi padre murió. hoy,
a la hora de poner la mesa, somos cinco,
menos mi hermana mayor que está
en su casa, menos mi hermana pequeña
que está en su casa, menos mi padre,
menos mi madre viuda. cada uno
de ellos es una lugar vacío en esta mesa donde
como solo. pero van a estar siempre aquí.
a la hora de poner la mesa, seremos siempre cinco.
mientras uno de nosotros esté vivo, seremos
siempre cinco.

José Luís Peixoto (trad. Luis Leal)

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Não voltarei a ser jovem (Jaime Gil de Biedma)


No volveré a ser joven

Que la vida iba en serio
uno lo empieza a comprender más tarde.
como todos los jóvenes, yo vine
a llevarme la vida por delante.

Dejar huella quería
y marcharme entre aplausos.
envejecer, morir, eran tan sólo
las dimensiones del teatro.

Pero ha pasado el tiempo
y la verdad desagradable asoma:
envejecer, morir,
es el único argumento de la obra.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Próximo do que importa (Ángel Campos Pámpano)

O céu da tarde ainda é um incêndio, uma pedra queimada que lentamente envelhece. O ar é limpo e baixo como um novo prazer que tu desconhecias. Alvoroça-se o silêncio. Melodia de asas entre as folhas vivas. Escondido na tela, assusta-te um pássaro, um pássaro impossível, negado para o voo, um desejo ilusório enredado entre os ramos, emaranhado na paisagem; um pássaro apanhado ao que lhe nega o poder de ascender, o de ausentar-se. 

Tradução: Luis Leal




Alizabith.tumblr








quarta-feira, dezembro 17, 2014

Alba (Ezra Pound)

As cool as the pale wet leaves
of lily-of-the-valley
She lay beside me in the dawn.

“Fria como as pálidas folhas molhadas
dos lírios do vale
Ela dorme a meu lado na madrugada”.

quinta-feira, dezembro 11, 2014

sublinhado

aprende-se a sublinhar, a anotar, a apontar num livro, porque já se viu alguma vez uma palavra, verbo, frase acariciada pela tolerância do lápis ou sentenciada pela ponta ajuizada duma esferográfica.

de ciências (ou meio físico talvez) da 3º classe, herdado de irmão de segunda mão. estava no armário da gaveta de quinquilharias úteis do meu avô joão. esse e um livro para traçar letras, analfabetizadas pelas circunstâncias, que não se sabem ler mas esperançadas de ser a chave de uma porta qualquer ou ferramentas para operar longe do mundo operário. estes eram os únicos livros que a casa dos meus avós possuía.

eram escassas as letras no pátio do carvalho nº5 e o carteiro, à exceção da contas com números para pagar, também não nos letrava. a vida levava-se com a razão do pão nosso de cada dia, de estantes vazias, limpas de pó, cheias de afectos visíveis e invisíveis, com cúmplices passos xadrez, de chão branco e castanho, numa cozinha de bancos duros e conversa suave.

o cheiro frio matinal livre do peso dos cobertores que pesavam em temperatura mas que me guardavam os sonhos de menino. o couro cabeludo fresco no áspero verão de sabão azul com o aroma do banho de mangueira, o final de tarde duma infância loira penteada com a mão firme em doçura de helena, que deixara tróia para ser minha avó e leal como todos nós.

com meu avô páris e sua helena, o azul dos meus olhos mergulhou pela primeira vez no atlântico. os meus progenitores estavam ocupados a construir um reino que afinal se vendeu antes de afundar-se.

nas margens em branco das páginas do livro de ciências (ou meio físico talvez), amarelecidas pelas passagens das estações com paragens pontuais de poucos dedos, estava um itálico pueril de “importante”. provável apontamento futurista de tio para sobrinho. um de vários para rios de portugal, linhas de norte a sul da cp e a constituição de uma planta que só fazia a fotossíntese para louvar  deus e, eventualmente, se salazar deixasse.

esse livro morreu nas minhas mãos. matei-lhe a genealogia na minha idade média adolescente. abriu-me as portas do renascimento mas ainda bem que não me viu piegas como os românticos. ficou no coração, ajudou a cabeça a ser humana e ajudou a pagar a alimentação do estômago para que chegasse à modernidade tão desassossegada por um passado com tão poucas letras…

mas tão, tão sublinhado.

XI/MMXIV

quarta-feira, dezembro 10, 2014

sexta-feira, dezembro 05, 2014

“Convívio” de Nuno Júdice.

Folhas soltas de final de outono. Avizinha-se o inverno.

Universalizar o cante (Janita Salomé)

“ «Embriagai-vos! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai-vos!» Será que o cante alentejano inspirou Charles Baudelaire neste fervor poético? Se não vejamos (ou bebamos) o vinho vivo da amizade, solidariedade, comunhão de vozes e espíritos ou a poesia e virtuosismo do cante, condimentos essenciais presentes na majestade, solenidade e densidades geradas quando as vozes e o seu soar e sentir mais profundo se abraçam.”
Janita Salomé

quinta-feira, dezembro 04, 2014

“Palavrões” de Paulo Condessa

Leitura, quase instantânea, de “Palavrões” de Paulo Condessa. E não é que é a p*** da vida…

O outono de uma infância em ruínas

O outono de uma infância em ruínas
Não alberga espontaneamente gargalhadas de criança.
Espera o pôr-do-sol que se derruba em silêncio…

quinta-feira, novembro 27, 2014

"O Herói" - Crónica de António Lobo Antunes



Vou-me embora p’ra Lisboa

Vou-me embora p’ra Lisboa 




(Cancioneiro Popular Alentejano 
- Grupo de Cantares de Évora)

Alentejo terra do pão
Onde eu tenho a residência
Acabou-se a azeitona
Meu trabalho fez ausência

Vou-me embora p’ra Lisboa
Porque a vida cá é má
À procura de coisa boa
Procuro não encontro cá

Quando eu entrei no comboio
Que assoprava pela linha
Às vezes penso comigo, e digo
Não sei que sorte é a minha

Quando eu cheguei ao Barreiro
Montei-me no barco que passa o Tejo
Chora por mim, que eu choro por ti
Já deixei o Alentejo

Chora por mim, que eu choro por ti
Já deixei o Alentejo

Somos Cante (Somos Património Imaterial da Humanidade)

Somos Cante
(Ao Alentejo, ao seu Cante, à minha gente)
"Somos sangue.
Somos terra.
Somos quente suor.
Somos um rosto de frente.

O sangue torna-se terra,
O suor absorve o lenço
A cara dá-se pelos avós
E a voz torna-se cante.

Eu que nasci no Alentejo
Serei chão
Quando a seca me chegar às veias.

A alma
Essa, pelas veredas,
Além, à sombra,
Caminhará de braço dado
E passo lento,
Sincopado pelo coração
Que nos late à capela.
Comunga-se com água a ferver
Coentros, poejos e alho
E esperamos que o paraíso tenha taberna".



sábado, novembro 22, 2014

TRANSCRIPCIÓN DE LA PRESENTACIÓN DE LA TRADUCCIÓN DE ANTONIO SÁEZ DELGADO DEL “LIBRO DEL DESASOSIEGO” DE FERNANDO PESSOA

Librería Colón (Badajoz) a 21 de noviembre de 2014


«Quisiera empezar esta presentación hablando sobre el autor del “Libro del Desasosiego”, Fernando Pessoa. Hablar de Pessoa es como hablar de un “baúl” vivo, desordenadamente brillante en su descomunal obra, publicada o inédita, que me deslumbra por su misantropía como también por su fuerte personalidad poliédrica y filosófica.

La fascinación por su obra ya es muy antigua, desde los tiempos de mi juventud, de mis clases de lengua portuguesa en el instituto en que me di cuenta que Pessoa no inventaba personajes, él criaba escritores y poetas completos, siendo esta una manera, como el propio afirmaba, “de sentir el mundo de manera más completa”.

Tuvo una vida discreta como ciudadano, pero para la historia de la literatura se desdobló en varios heterónimos (según el editor del actual “Libro del Desasosiego”, Jerónimo Pizarro, 136) que lo ascendieron al panteón de los más brillantes e importantes del modernismo del siglo XX y de toda la literatura mundial.  

Su juventud en Sudáfrica, su pasado anglófono, su bilingüismo (evidente en heterónimos de lengua inglesa como Alexander Search) o incluso multilingüismo (pues parece que Pessoa se atrevía también a escribir en francés), marcan una transición en el paradigma cultural y literario portugués tan cercano al canon de las letras francófonas  y lo abre al universo literario de Shakespeare.  

Hablar de sus más importantes heterónimos como el anti-metafísico Alberto Caeiro (que preconizaba que “pensar es estar enfermo de los ojos”), el latinista Ricardo Reis o ingeniero decadente Álvaro de Campos, es ver universos literarios en la figura de Pessoa.

La filosofía epicureísta del maestro Caeiro, soportada por la perfección moral e intelectual de Reis, es un contrapunto al decadentismo de Campos, tan visible en el poema “Opiário” dedicado al poeta portugués Mário de Sá Carneiro, del cual os leo la estrofa que podía perfectamente pertenecer a Bernardo Soares, a quién Pessoa adjudicó parte de su “Libro del Desasosiego”:

“Por eso yo tomo opio. Es un remedio
Soy un convaleciente del Momento.
Vivo en la planta baja del pensamiento
Y ver pasar la vida me hace tedio”.

Como sabemos, Bernardo Soares es, dentro de la ficción del libro que hoy presentamos, un simple ayudante de guarda libros en la ciudad de Lisboa, pero Pessoa lo define como una personalidad no distinta de la suya, “pero una simple mutilación de ella”. Se trataría del propio Pessoa restando el raciocinio y afectividad.

Introducido el poeta nos vamos al “Libro del desasosiego”. Para mí, (y creo que para los que son sensibles a estos temas de la literatura y de la poética) a nivel intelectual hay un antes y un después de haber leído el “Libro del Desasosiego”.

Se trata de una obra maestra póstuma, guardada en un sobre lleno de cientos de fragmentos que oscilan entre el diario íntimo, la prosa poética y la narrativa, textos estos que nadie sabrá si Pessoa tenía o no ganas de organizar. Este sobre ocultó durante 47 años el “Libro del Desasosiego”, curiosamente los mismos años que vivió Pessoa.

Este libro, que cuenta ya con innumerables versiones en portugués, y con cuatro traducciones en español es la prueba evidente que una prosaica cirrosis no impide un genio de la literatura de seguir creando. Como dice mi amigo Antonio, efectivamente Pessoa “es el único escritor muerto que publica más que escritores vivos; un milagro, un emblema de la modernidad”.

Esta nueva edición, de Jerónimo Pizarro, reconocido estudioso pessoano, vuelve al sobre, a la fuente de textos, creando un nuevo corpus y una nueva organización de la obra. Pizarro entra de esta manera en la historia del “Libro del desasosiego” que es también la historia de sus versiones y ediciones.

Pizarro se aleja de versiones anteriores al establecer una datación posible o aproximada de todos los fragmentos que constituyen su edición. Con un corpus de 445 fragmentos (número bastante inferior al encontrado en otras versiones), se incide en una lectura histórica con una supuesta evolución cronológica donde encontramos la progresión de sus dos semiheterónimos: el tantas veces olvidado Vicente Guedes y Bernardo Soares que es una apropiación tardía de la biografía de Guedes.  

Tenemos entonces dos heterónimos y una obra más corta, dividida en dos fases de escritura;
la centrada entre 1913 y 1920 de Guedes y una segunda, entre 1929 y 1934 protagonizada por Soares.

Partimos de una lectura más clara, más simbolista decadente, asociada a la figura de Vicente Guedes, y llegamos a una segunda parte, a un Bernardo Soares más sobrio, perplejo ante la condición humana, una personificación del tedio y la inacción, siendo, al mismo tiempo, un retrato de la ciudad de Lisboa. Pessoa y Lisboa son una rima perfecta, pero al contrario de Pizarro no creo que Pessoa sea Lisboa, puesto que el genio supera la capital.

Tuve la suerte de cruzarme con varias de las ediciones anteriores, sentí sus estados de alma, sus fragmentos indecisos, intenté ver sus enfoques y recorridos en todas las direcciones, y me alegro mucho que ahora Antonio Sáez, con esta traducción, sea también parte de la historia “desassossegada” de este libro.

Ahora me toca hablar de Antonio Sáez. Esta es, sin duda, la tarea más difícil porque Pessoa no fue maestro mío y Antonio lo fue y sigue siendo.

Ahora sería el momento en que yo alabaría su brillante currículum docente, sus artículos, su trabajo de traducción o su obra como poeta y escritor reconocida por el prestigioso premio Eduardo Lourenço. Creo que no hace falta. Todos los que estamos aquí conocemos la obra de Antonio o si no, disculpadme amigos, lo tenéis en internet. 

Prefiero volver atrás en el tiempo, hace 15 años, cuando conocí a Antonio, todavía con pelo y un poquito más gordito. En la Universidad de Évora, cuyo escudo preconiza el “honesto estudio”, tuve muchos profesores pero pocos maestros. No es por estar aquí hoy que puedo afirmar que Antonio fue uno de ellos. Preguntad a la mayoría de los alumnos de mi promoción.

En sus clases Antonio me dio más que Español I y II o Literatura Comparada. Yo, como estantería bastante vacía que era entonces, empecé a llenarme con sus sugerencias de libros y letras que hoy tengo tatuadas más allá de la epidermis. Pero también me presentó a Pepa y a su novio marino, personajes famosos de sus dictados inventados sobre la marcha.

Antonio me dio más que El Quijote de Cervantes.  Me montó en el  Seat 600 del Monseñor Quijote que me llevó, junto al alcalde Sancho, por esos campos de la Mancha (con unas paraditas para comer un trocito de queso manchego y una copita de Rioja).
Antonio, sin darse cuenta, me dijo que Machado también se crió en un patio como yo.

Antonio me dio “Instantes” de generosidad, como el que me está dando ahora al invitarme como amigo a presentar su traducción, “Instantes” que me acompañan en una fotocopia cutre (como todas las fotocopias que nos daba, sí, Antonio no es perfecto) de un poema de Jorge Luis Borges, que al final todavía no sé si es verdaderamente suyo…

Me gustaría terminar como empieza ese supuesto poema de Borges:
“Si pudiera vivir nuevamente mi vida
En la próxima trataría de volver a ser alumno de Antonio”.».

  


   




 


  



sábado, novembro 08, 2014

Catão (Eugénio Lisboa)



CATÃO

A pátria é triste. Sofro. Estou calmo.
Único honesto, entre deshonestos, clarividente,
entre os cegos, a indignação há muito acalmo.
Estou só. Sofro quando alguém sente.
A honestidade – que solidão! A coragem cansa.
Em breve, cadáver que a outros mortos fala,
penso em Atenas, plena de alegria mansa,
e no coração afogo palavras que o pudor cala.
Estou cansado de prever o negro acontecer.
Algo nasce. Algo morre. Com quem perde, estou.
Honestidade é pátria de quem outra não sabe ter.
Ao abismo das causas perdidas, quieto, vou.
Melhor do que ocupar-me da minha pobre vida,
agora que os pássaros a cantar começam,
na espada pego, com mão há pouco ferida
– o vento rasgo. Percebo que meus pés tropeçam.

Eugénio Lisboa


Lourenço Marques, 7.2.75




quinta-feira, novembro 06, 2014

Retrato

Hay un refrán portugués que dice: "mejor parecer que ser". En este retracto parece que me tomo bastante en serio, algo que intento no hacer, excepto con las cosas que me enamoran y con las cuales me comprometo. Y eso lo consiguió mi amigo Jose Manuel Méndez Sierra con su mirada y "click" artístico oportuno. 
Ahora ya puedo figurar en la contraportada de algún libro o revista con pinta de qué puedo decir o escribir algo con interés... A él (y a su esposa Ino) un fuerte abrazo y muchas gracias ("o meu muito obrigado!"). P.D. José, esperemos que puedas fotografiar esta cara dentro de veinte o treinta años arrugada por las risas que nos producen nuestras conversaciones de sofá (patrocinadas por un café cuyo nombre no quiero acordarme).

quarta-feira, outubro 29, 2014

O calão das trincheiras


Por estes e outros motivos é que sou um defensor acérrimo do calão e do seu estudo histórico e linguístico (e o vou dizendo quer para manter a sua história ou libertar a frustração do meu espírito). 
Eu, cuja pinta de “bife” não delata as minhas origens, finalmente entendo de onde vem este termo (nada a ver com o mundo dos talhos e magarefes) e outros que são uma constante no léxico português e com os quais podemos honrar os nossos avós (os meus bisavôs Leopoldo e Umbelino) que combateram na 1ª Guerra Mundial. Recordemos também que os que de lá vieram, meio loucos, “esgazeados” como ficaram baptizados, vítimas de gazes (como o mostarda), com a sua miséria pessoal enriqueceram o vocabulário e o imaginário cultural do povo português.
No centenário da 1ª Guerra Mundial, “Guerra de França” como dizia a sabedoria empírica, alheia a terminologias históricas, da minha avó Helena, continuar a entender o seu calão é uma boa homenagem aos que por lá andaram, “tugas”, “camones” ou “boches”. 
Vale a pena ler este trabalho da “Visão História”.

segunda-feira, outubro 27, 2014

De pé, amparado pela parede do tempo (Diário)

De pé, amparado pela parede do tempo, contemplo uma nova vida se forma no ventre da Elsa, da minha mulher. De pé, fascinado pela magia dum monitor.
Já criámos vida ao aceitarmo-nos como homem e mulher, reafirmámos a vida com o nascimento do Santiago e hoje contempla-se, nesta janela, não sei se de sistema operativo Windows, uma nova existência, de género provável masculino, de traço recente, a lápis, pouco apertado, provisório, no bloco de notas das nossas vidas.
Se se afirmar, contornar a caneta, a tinta permanente, chamar-se-á Xavier e não sabemos se chegará ao extremo oriente mas já atracou e evangelizou os nossos corações.
A escravidão do tempo revela-se na matéria perene dos nossos corpos. De isso não tenho dúvidas. Liberta apenas está, dos grilhões, quando explode com energia infantil, na recusa, não dominada pela gramática adulta, desarrumada, despenteada, mesmo com bronquite e a antibiótico, como as gracinhas do meu filho, alheio a tudo o que escrevo.
Pode ser que herde da infância a ternura e de poeta alguma loucura, que seja a sua carta de alforria à escravidão da matéria e do tempo. Que leia, talvez isto, que a alma pode ser tão perene quanto o corpo se não a cuidamos.
Este é o nosso tempo. Este é o nosso momento, esteja eu aqui a escrever, tu na cama a saltares, ou a mamã a carregar no ventre o que se vê numa janelinha dum monitor, que já é, mas ninguém sabe o que será.

"A Mística do Momento" num café.

O João Afonso, na letra do seu "Cheiro a café", canta "o sentido que eu tive da vida num café", o que poder-se-ia perfeitamente adaptar a esta "Mística do Momento" que tive numa bica, na companhia de José Tolentino Mendonça. "Não desistas da luz" e "agradece a dança luminosa do mundo ao teu redor" foram doces saquinhos de verdade para os meus sentidos, tal como a obra, neles citada, que agora dorme na minha cabeceira à espera de, logo à noite, ser acordada.

"Todo o silêncio" - José Luís Peixoto


domingo, outubro 26, 2014

Para o Pessoa

«Quando contemplo o firmamento, obra das tuas mãos, a lua e as estrelas que fixaste lá, que é o homem – pergunto – para que dele Te lembres? Que é o filho do homem, para que Te ocupes dele?»
(Sl. 8, 4-5)

Para o Pessoa
Poeta versava com peta.
Misturou sinto com absinto
A estalar corações de vidro pintados,
Embriagado de si mesmo, como uma pedra, livre do monte,
No pára-brisas de um Chevrolet pela serra de volta à aldeia urbanizada pela sua infância.

Escreve de pé a razão que não sei
Que não soube e não souberam.
Digna do desassossego
Ao qual não me nego
Quer na estante, quer no instante.
Como Pessoa.

Mas não sou Pessoa
De encostar-se, de pé, à cómoda insónia.
Tenho o medo sonâmbulo de desfalecer no peso apoiado,
Que caia no chão, nas balelas,
E se abram as gavetas para as quais escrevo.

Soa-me a Pessoa
(a Fernando,
Pelo ir pela vida rimando,
Postando
Moderna filosofia de rede social).

Citando se vai andando
Pela literatura da amargura,
De avatares heterónimos,
Imbróglios
Dessa treta que é
Caso particular de binómio de

Pessoa humana.