quarta-feira, abril 10, 2019

Cos pés descalzos - Suso Díaz

Cos pés descalzos
e a alma aflita polos inimigos
a moza – encinta –
camiñou esfolada
polos toxos,
na noite,
mazada polas pedras,
de día.

O corpo latexaba por dous
e o medo bruaba
nas costas espidas.

Homes sen rostro
loitaban coas sombras
no camiño que se abría algures.

Os corpos, aínda quentes,
acubillábanse nas cortes
dos donos da serra.

A moza durmía co gando,
saía á luz cuberta de medos,
moraba aquí, acolá,
atopou refuxio na soidade
dunhas aldeas xunguidas.

As aldeas agochaban os corazóns
que rexían un futuro inimaxinable.

De Turei a Meaus
camiñou espida a liberdade.

Xentes sen goberno
gobernaban o seu futuro,
mantiñan unha fiestra
aberta á necesidade.

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Com pés descalços
e a alma aflita pelos inimigos
a moça – emprenhada –
caminhou esfolada
pelos tojos,
na noite,
amassada pelas pedras,
de dia.

O corpo latejava por dois
e o medo bradava
nas costas despidas.

Homens sem rosto
lutavam com as sombras
no caminho que se abria algures.

Os corpos, ainda quentes,
abrigavam-se nos currais
dos donos da serra.

A moça dormia com o gado,
saía à luz coberta de medos,
morava aqui, acolá,
encontrou refugio na saudade
dumas aldeias benzidas.

As aldeias escondiam os corações
que regiam um coração inimaginável.

De Turei a Meaus
caminhou despida a liberdade.

Gentes sem governo
governavam o seu futuro,
mantinham uma frincha
aberta à necessidade.

in Suso Díaz, a utopía que diluíu o vento, Santiago de Compostela, Positivas, 2019, p. 45. (trad. Luis Leal)
a utopía que diluíu o vento de Suso Díaz



"A Semente na Neve" de Ángel Campos em Portugal (9/IV/2019)

A tradução a A Semente na Neve de Ángel Campos e a antologia de Suso Díaz El vuelo de la memoria, ao poeta de San Vicente de Alcántara dedicada, foram ontem apresentadas em Portugal. De manhã, no Instituto Espanhol Giner de los Ríos e, à tarde, na Fundação José Saramago. 
Obra à parte, se já me impressionava o amor da sua terra, em Lisboa, fiquei com a certeza absoluta que este homem (com quem mal me cruzei) foi uma figura ímpar da nossa cultura e do diálogo peninsular. Estou grato por ter participado em tão preciosos actos. 

La traducción de la “Semilla en la nieve” de Ángel Campos y la antología de Suso Díaz “El vuelo de la memoria”, dedicada al poeta de San Vicente de Alcántara, fueron ayer presentadas en Portugal. Por la mañana, en el Instituto Español Giner de los Ríos y, por la tarde, en la Fundación José Saramago. 
A parte de su obra, si ya me impresionaba el amor de su tierra, en Lisboa, me quedé con la certeza absoluta de que este hombre (con quien apenas me crucé) fue una figura impar de nuestra cultura y del diálogo peninsular. Mi gratitud por haber participado en tan preciosos actos. 

(Fotos: Fundação Saramago, Lilia Tavares e Fran Amaya)
Memorial em honra de Ángel Campos (Instituto Espanhol Giner de los Ríos, Lisboa)
Acto de homenagem


Apresentação Fundação Saramago

Fran Amaya

Nuno Júdice

Suso Díaz

Luis Pastor e Lourdes Guerra



Outra vez...

Outra vez passei ao lado de minha casa e não entrei.
Começa a ser recorrente continuar e não recolher-me.
Temo ver tudo o que fui sem-abrigo.
Perecer, forçado ao relento.

terça-feira, abril 09, 2019

A mulher corta...

A mulher corta as unhas durante a travessia de barco.
Cai o tempo em pedaços.

(Montijo)

Montijo, 9/IV/2019

Faço questão de apanhar o barco até ao Cais do Sodré. Há anos que não o faço e, já que hoje até tenho disponibilidade, por que não tentar encontrar um pouco da minha ingenuidade provinciana entre o dia-a-dia dos que trabalham na capital?
Muito mudou desde a última vez que cruzei o Tejo de cacilheiro até Lisboa. Apercebo-me que falamos de, para aí, uns bons quinze anos.
É Abril e está frio para este mês que o T.S. Eliot chamou o mais cruel de todo o calendário. Não estou de acordo com ele. Abril é o mês em que aprendi a ver esperança no erguer de uma flor, porém, isso não interessa para aqui.
Crueldade só vejo no desequilibrio que por aqui encontro em cada passo que dou. Poderia dizer que tropeço em turistas, mas estaria a mentir. Há muitos, mas quem quiser olhar para outros sítios, ainda há muito que descobrir. Basta que deixemos de lado os óculos da massificação.
Crueldade vejo nestes ministérios, com fachadas de mármore dum Portugal profundo do qual os políticos fazem com que a capital só extraia e não distribua.
Vejo que, a reboque dum poeta que traduzi, com estima, venho a Lisboa falar de poesia e não me apetece.
Apetece-me dizer a todos estes homens e mulheres que a cultura só tem capitais porque o dinheiro ou o poder de uns quantos assim o decide.
Logo voltarei para casa. Apanharei o barco e conduzirei para casa, para o outro lado da fronteira, mas estive na capital, estive em Portugal, mesmo que só me identifique com a sua paisagem.

O cais sabe...

O cais sabe
contemplar o rio sem
jamais embarcar...

segunda-feira, abril 08, 2019

"A comunicação digital interconecta-me, mas ao mesmo tempo que me isola." - Byung-Chul Han

Na comunicação analógica, temos em geral um destinatário concreto, um interlocutor pessoal. A comunicação digital, pelo contrário, propicia uma comunicação expansiva e despersonalizada que não necessita de interlocutor pessoal, nem de olhar, nem de voz. Por exemplo, enviamos constantemente mensagens pelo Twitter. Mas não são dirigidas a uma pessoa concreta. Não se referem a ninguém em concreto. Os meios sociais não promovem forçosamente a cultura da discussão. São com frequência manejados pelas paixões. As shitstorms (1) ou os “linchamentos digitais” constituem uma avalancha descontrolada de paixões que não configuram uma esfera pública.

Obtenho informação da rede, sem que tenha para isso de me dirigir pessoalmente seja a que interlocutor for. Não tenho de me deslocar ao espaço público para obter informações ou produtos. Faço, antes, com que a informação e os produtos venham até mim. A comunicação digital interconecta-me, mas ao mesmo tempo que me isola. Destrói a distância, mas a falta de distância não gera qualquer proximidade pessoal.

in Byung-Chul Han, A Expulsão do Outro, Lisboa, Relógio D’Água, 2018, p. 91



(1) Literalmente: “tempestade de merda”. O termo evoca as expressões de indignação, insultos, grosserias, difamações, etc., que, por exemplo, proliferam nas caixas de comentário dos media e nas redes sociais.


Byung-Chul Han


sexta-feira, abril 05, 2019

Ontem... e hoje


Ontem, confessava a amigos que no último ano sentia como se houvesse sido invadido por sentimentos antes ignorados ou não reconhecidos. «É uma etapa da vida», dizia o Javier e assentia o Adolfo, com quem vivi uma intensa tarde de Abril, ao assistirmos à conferência de Sonja Vrscaj, prisioneira 82386 de Auschwitz, no CPR de Badajoz, e ao ouvirmos os versos, a sangrar, de Maria do Rosário Pedreira, na Aula de Poesía Díez-Canedo, logo a seguir.
Pode a poesia salvar-nos? E recordo-me de Adorno e de Celan.
Acredito que sim, enquanto tivermos memória e lutarmos para a manter viva, como hoje está a fazer o meu amigo José Manuel Corbacho, na cidade das minhas pequenas memórias, Évora.

Ayer, confesaba a amigos que en último año sentía como se hubiese sido invadido por sentimientos antes ignorados o no reconocidos. «Es una etapa de la vida», decía Javier y asentía Adolfo, con quien viví una intensa tarde de Abril, al asistir a la conferencia de Sonja Vrscaj, prisionera 82386 de Auschwitz, en el CPR de Badajoz, y al escuchar los versos, sangrando, de Maria do Rosário Pedreira, en el Aula de Poesía Díez-Canedo, justo después.
 ¿Puede la poesía salvarnos? Y recuerdo Adorno y Celan.
 Creo que sí, mientras tengamos memoria y luchemos por mantenerla viva, como hoy lo está haciendo mi amigo José Manuel Corbacho, en la ciudad de mis pequeñas memorias, Évora.




Três cañas...

Não posso emocionar-me e não posso beber três cañas. É a conclusão a que chego.
Talvez as cañas só confirmem, com álcool, a emoção que me desperta todos os sentidos e me traz a noite branca.
Hoje, confessava a amigos que no último ano sentia como que fosse invadido por sentimentos antes ignorados ou não reconhecidos. «É uma etapa da vida», dizia o Javier e assentia o Adolfo, com quem vivi uma intensa tarde de Abril, ao assistirmos a uma conferência de uma sobrevivente de Auschwitz, no CPR de Badajoz, e ao ouvirmos os versos desgarradores de Maria do Rosário Pedreira, na Aula de Poesía Díez-Canedo, logo a seguir.
Pode a poesia salvar-nos? Acredito que sim. Porém, a mim, nestes últimos tempos, anda a passar-me facturas nocturnas uma qualquer fragilidade à qual não devo misturar outros estimulantes, poesia incluida, correndo o risco de chegar à exaustão.

Uma bela canção

Uma bela canção não tem porque ter música. Não tem porque conhecer acordes para que nos toque todas as melodias do silêncio que nos exige um momento.
Uma bela canção acaba sempre por ser cantada. Escapará às grades da timidez e ao decoro da humildade. Vive, desde o primeiro verso, para encontrar voz e na voz será pautada para o infinito, onde se gravam sentires e sentidos.
Hoje o nosso Pedro cantou, em tão pouco, tudo o que é. 
Privilegiado, como sempre, assisti. E agradeci, com uma oração profana, para que tão preciosas palavras conheçam o êxodo e não retornem à sua gaveta.

Alfredo

Passa-me a mão na cara
e vê como cresci menino de mim.

Passa-me a mão na cara
e vê como ela se foi para sempre
sem nunca deixar de pensar em ti,
nela e tudo aquilo que jamais vivi.

Passa-me a mão na cara
e derruba-me a máscara
imposta pela arte que nos deu vida
e nos projetou naquela noite de Verão
em que a chuva me trouxe o amor
verdadeiro pela última vez.

Passa-me a mão na cara
e sente a água das lágrimas
da criança que te salvou do fogo
com a pele enrugada de quem
acompanha o rasto do carro funerário.

Passa-me a mão na cara, Alfredo.
Sou eu, o Toto. Confessaste-te por mim
Deus e deixaste-me a eternidade em pedaços de fotogramas.

Não sei se irás para o paraíso.
Seja para onde fores,
de certeza,
alguém te deixará copiar.

quarta-feira, abril 03, 2019

"A adição às selfies" -Byung-Chul Han


A adição às selfies não tem muito a ver com um saudável amor de si mesmo: não é mais do que a marcha no vazio de um eu narcísico que ficou só. Perante o vazio interior, o sujeito tenta em vão produzir-se a si mesmo. Mas é só o vazio que se reproduz. As selfies são o eu em formas vazias. A adição às selfies intensifica a sensação de vazio. O que leva a uma adição assim não é o saudável amor de si mesmo, mas uma autorreferência narcísica. As selfies são belas superfícies lisas e lustrosas de um eu esvaziado e que se sente inseguro. Hoje, para se escapar ao vazio atormentador, deita-se mão ou à lâmina de barbear ou ao smartphone. As selfies são superfícies lisas e lustrosas que ocultam por um breve tempo o eu vazio. Mas se as virarmos da frente para trás, deparamos com o reverso coberto de feridas e que sangra. As feridas são o reverso das selfies.

Byung-Chul Han, A Expulsão do Outro, Lisboa, Relógio D’Água, 2018, p.35.

Byung-Chul Han