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| Foto de Juanma Zarzo |
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| Foto de Juanma Zarzo |
Conseguir algo intimamente desejado já não me parece uma vitória ou uma mentira. Não nego a felicidade de ter logrado o que até foi difícil, exigindo abnegação e esforço. Porém, não me iludo. Imóvel a olhar este dia, a vê-lo com distância de mim mesmo, e quem vejo não sou eu. Vejo aqueles que me alentaram a desejar, a continuar a tentar. Vejo principalmente duas pessoas que já não estão e a quem não pude telefonar para dar uma boa-hora.
Estariam orgulhosos. Sei-o desde dentro, desde o meu coração onde habitam. Cada letra que aprendi a conjugar em sílabas, que se converteram em palavras, em frases apontadas por aí, não esconde que advém dum mundo iletrado.
A felicidade pode ser real sem ser partilhada, mas não é a mesma coisa se tivermos afectos ao nosso lado. Tenho a certeza.
Continuo imóvel, mas o meu olhar já não se centra em mim. Observo o vazio. Não há euforia. Vejo afabilidade. Vejo um dia a acabar.
Sentados à mesa, num pequeno-almoço de Domingo em família, digo em tom de brincadeira:
- A mamã já está tranquila pois não vem por aí nenhuma mana...
(Isto porque a minha mulher acaba de chegar de França e, nos últimos anos, cada vez que foi para além dos Pirinéus levou consigo cada um dos nossos filhos no ventre.)
O mais velho diz de imediato que não quer nenhuma irmã, já está bem assim. A Elsa aproveita a conversa e pergunta ao nosso mais pequenito se ele gostaria de ter uma mana e a sua resposta não poderia ser mais rápida e segura:
- Mamy, eu quero um unicórnio!
Habituado à secura dos dias, à escassez de precipitação nas terras por onde habitas, umas gotitas tímidas lembram-te que ter de trazer chapéu de chuva não é um estorvo... É um prazer ao qual te apoias.
Estou por aqui a rabiscar uns papéis do trabalho e oiço umas colegas a falarem sobre o seu tempo livre. Uma mostra videos às outras e comentam as virtudes do que se vê, pelo que oiço tratam-se de aulas de dança sem limite de idade.
A conversa continua com perguntas sobre onde é, que dias há aulas e quanto custa, mas o que me ficou foi uma afirmação que merece a pena registar neste diário de bordo, tantas vezes a meter água:
«Nem imaginas o bem que se dorme depois de dançar...»
O som da depiladora denuncia que te estás a preparar para vestires uma indumentária mais formal amanhã. Não é que tenhas pelos nas pernas visíveis, é o teu ritual antes de usares saia.
Este é um dos sons que te fazem previsível e eu oiço-o com o prazer de quem te espera e te quer dizer que te ama.
O amor é tão rotineiro quanto previsível. Há quem diga que isso não é bom para a durabilidade do mesmo. Talvez. Porém, eu sei que a paixão se alimenta destes actos, destes afazeres do dia-a-dia que escolhemos passar juntos...
«Uno, dos, tres... pollito inglés» é a frase que mais tenho ouvido nesta tarde relaxada em que não há trabalhos de casa nem teste no horizonte.
Andam por aqui a brincar e a jogarem ao «pollito inglés». Eu apenas observo, em silêncio adulto a ocultar morriña de infância, e penso mais uma vez em como foi possível que este patego, dum bairro operário eborense, criasse prol noutra língua. Sei que tenho pensamentos tão parvos, mas não os renego e aceito-os.
O «pintainho inglês» até existiu durante os Verões algavios em companhia do meu tio Leopoldo e da minha tia Dolores. Ser loiro e ter olhos azuis ajudava à nacionalidade emprestada entre os turistas da grande Albion.
«Tudo foi por onde tinha que ir» são palavras que tantas vezes ouvi. Têm razão, um gajo tem de ir por onde tem de ir. O tempo foi passando e eu não sei muito bem porque é que tem vindo por aqui.
Eles sabem. Os meus filhos sabem. Sabem porque brincam e usam as nacionalidades como meros adjectivos de galinácios. É para isso que servem e vão para a cama sem saberem porque é que o «pollito inglés» foi um pinto diferente no passado do seu progenitor. Não sei se os invejo por isso ou por simplesmente eu já não ser criança ao seu lado e ter de envergar este traje de progenitor.
Sei que os vou chamar para ao pé de mim e os vou abraçar como o primata que sou. Vou beijá-los tanto como o pai babado que sou mas que não gosta demasiado de falar deles aos outros. Vou contar-lhes que quando era puto brincava ao mesmo, mas que íamos mais longe, mais para Oriente, e que o nosso pintainho era substituído por um macaquinho e... «Um, dois, três, macaquinho do chinês!».
«Abúrrete en el Instituto como mejor puedas. Mi pequeño conquistador, ya verás cómo es el mundo, en ese mundo de fuera, cuando ejerzas tu profesión y aspires y luches, ya verás cómo se te abrirán bostezantes océanos de aburrimiento, vacío y soledad. Quédate aquí. Cultiva un poquito más tu nostalgia. No puedes imaginar qué felicidad, qué grandeza hay en la nostalgia, es decir, en la espera. De modo que aguarda. Deja actuar dentro de ti ciertas presiones. Aunque no demasiado.» (trad. Juan José del Solar)
«Entedia-te na escola o melhor que puderes. Meu pequeno conquistador, já vais ver como é o mundo, esse mundo de fora, quando exerças a tua profissão e tenhas aspirações e tenhas de lutar, já vais ver como se te abrirá a boca em oceanos de tédio, de vazio e solidão. Fica aqui. Cultiva um bocadinho mais a tua nostalgia. Não podes imaginar a felicidade, a grandeza que há na nostalgia, quer dizer, na espera. De modo que aguarda. Deixa actuar dentro de ti certas pressões. Ainda que não em demasia.» (trad. Luis Leal)
Robert Walser, «Jakob Von Gunten», Madrid, Siruela, 2009, p.100.
Sei que dizer-te amo-te não satisfaz o infinito a habitar em tudo o que te digo e no que sinto. Talvez por isso tenha abandonado os poemas e canções de amor na gaveta da adolescência, protegidos em cadernos de palavras minhas escritas pelo teu punho e letra.
Na época, não sabia que jamais saberia escrever sobre amor, apesar do tentar ao lançar-me do sentimento para a palavra. Emulava poetas para transcrever-te o meu coração. Aceitei a tradição, os versos, mas o meu coração ultrapassava a métrica e só não entrou em síncope porque o aceitaste tão acelerado quanto frágil. Fizeste-me poeta sem ter lido suficientemente a vida para o ser. Só de ti aceito esse destino, porque todos os dias sei que dizer-te amo-te não satisfazará o infinito a habitar em tudo o que não te poderei dizer e em tudo o que a mortalidade do meu corpo não me permitirá sentir. A minha alma diz-me que não o sou, porém a tua contradi-la. Só sou e serei teu. Poeta.
A ternura flui melhor em espaços e vidas cientes de uma certa ordem. Não o nego, porém nunca encontrei este sentimento em pleno caos...
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| José Régio no Largo do Cemitério em Portalegre. |
O destino abençoou-o com muitíssimo talento, mas nunca foi capaz de o proteger do fracasso. Esse é o motivo pelo qual teima em culpar os deuses pela sua sina, convertendo o seu génio em puro azedume.
O interesse despoleta a memória. Só alguém interessado é capaz de fabricar recordações do passado.
A consciência tranquila é o horizonte dum oceano nas profundezas de alguém em paz com o que vê e não vê, com o que sente e não sente.
Os putos estão refastelados a ver os desenhos animados e oiço uma personagem infantil a dizer: «a minha felicidade não depende da opinião dos outros». Presto atenção e vejo que quem o diz é um miúdo original que dá pontuações a produtos fora de validade com os seus sinais da barriga. «Estas batatas fritas merecem cinco sardas da minha pança».
Fico a ver os desenhos com eles e penso que poderia fazer o mesmo. Crítica de barriga cheia. «Ná», a minha opinião não deve condicionar ninguém, já basta, por vezes, impedir-me de ter mais perspectivas...
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| "Y todo era posible" - Luis Leal Crónica "Y todo era posible" - Luis Leal in "Rayanos Magazine" |