domingo, outubro 06, 2019

Kenshinkan Dojo – “A Casa da Espada Celestial” - Luis Leal in "Rayanos Magazine"

Kenshinkan Dojo – “A Casa da Espada Celestial”


Desde tenra idade o Oriente sempre me fascinou. Esse ponto cardeal que continuamente me remeteu para povos, paisagens (nunca por mim vistas para além de filmes e fotografias!), artes e filosofia. Talvez por ter nascido em Portugal, esse pequeno país de gente lançada aos oceanos na ânsia de chegar aos mais extremos cantos do mundo, o Japão ocupou um lugar de destaque e, ainda hoje, sonho com um dia poder visitar o país do sol nascente. Se o puder concretizar, fá-lo-ei para homenagear a minha infância (abundante em cinematografia de série B), como também para recordar a ingenuidade dos primeiros jesuítas que ali chegaram para disseminar um evangelho, hoje remanescente no coração de pouquíssimos nipónicos. 
Foto de Juanma Zarzo
Apesar de reconhecer o fascínio que tenho por a terra dos samurais, admito que é cada vez menos romântico e mais realista, quando comparado com os meus verdes anos. Porém, tal não invalida o meu deslumbramento. Ler ajuda bastante. Neste caso sobre história japonesa, sobre Xintoísmo, sobre filosofia Zen (se é que a posso chamar filosofia...), a par de alguma literatura de autores nipónicos. 
A maturidade acalmou o desejo de me projetar numa espécie de Nathan Algreen raiano, isto é, um ocidental anacrónico à procura de paz no Bushido. Para quem não sabe, trata-se da personagem dum capitão norte-americano - em conflito interior por haver testemunhado a crueldade das Guerras Indígenas Americanas -, criada por John Logan nessa, já antiga, película intitulada “O Último Samurai”.
Foto de Juanma Zarzo
Escrever uma crónica com algum léxico japonês exige várias (e imperfeitas!) tentativas de tradução e, caríssimo leitor, permita-me apenas ressalvar, caso desconheça, que o conceito de Bushido nos remete para o que se poderia definir como o “caminho do guerreiro”. Se omitirmos figuras históricas como Miyamoto Musashi, ou os famigerados Kamikazes durante a Segunda Guerra Mundial, se nos afastarmos de extremismos, como a cerimónia do Seppuku, o esventramento vulgarmente conhecido por Haraquíri (escrevo isto a lembrar-me de Yukio Mishima), esta forma de encarar a vida, tão conotada com uma atitude aguerrida, paradoxalmente cuida de prestar uma enorme atenção ao sublime da existência, encontrando exíguos consolos, paz, por entre tantas feridas e buracos presentes na armadura do ser.
O meu estimado leitor já se estará a indagar por que motivo me pus para aqui a escrever sobre cultura japonesa na “Rayanos Magazine”? E tem toda a razão. O que é que o Japão, o Oriente, tem a ver com esta nossa rai(y)a?
Respondo-lhe com um segredo, contudo sem qualquer tipo de sigilo. Nestes tempos nos quais a luz dos néons parece pôr à vista de todos o mistério do que antes se considerava profundo, difícil, praticamente sagrado, em Badajoz, numa esquina do coração da cidade, existe um local no qual somos convidados à reflexão, a viver, através da perspectiva das artes marciais tradicionais. Falo-vos do Kenshinkan Dojo.
Um Dojo não é um sinónimo perfeito de escola, pois trata-se de um termo usado para designar um espaço destinado ao ensino e à prática das artes marciais e da meditação, assente numa ténue fronteira entre o sagrado e o profano. Ali o respeito flui desde o trato pessoal até ao mais pequeno pormenor de manutenção e limpeza do local.
        O Kenshinkan Dojo adapta-se, com notável esmero, ao paradigma e é o sonho de uma das vidas mais interessantes com as quais me pude cruzar. Afirmar que ali encontrei um dos meus grandes mestres e amigos é motivo de orgulho, uma honra. Digo-o em verdade e não só para manter o estilo oriental da crónica. 
Foto de Juanma Zarzo
       Se traduzirmos Kenshinkan ficamos com algo aproximado a “A Casa da Espada Celestial”. Aí habita Pedro Martín González (Menkyo Kyoshi Tenshin Shoden Katori Shinto Ryu), tal como o recato duma prática marcial ancestral, honesta, que não se confunde com o andar à batatada dos filmes de acção foleiros que ajudaram muitos neófitos a conceberem o Budo (“artes marciais”) como uma trivial manifestação de violência.
Pedro Martín Sensei, há quase quatro décadas a formar budokas, convida-nos a interpretar as artes marciais de uma forma holística. Por outras palavras, uma interpretação mais além das técnicas apanágio de defesas e ataques, explorando de forma equilibrada os movimentos culturais, as sensibilidades humanísticas e vários valores que considero essenciais e, infelizmente, não proliferam na sociedade.
Desde o primeiro dia que pisei o Kenshinkan Dojo, pela mão do meu amigo João Reis, senti-me a entrar num espaço de verdadeira devoção, amor sincero, por estas artes, talvez mal adjetivadas pelo deus romano da guerra. Senti que chegara ao meu Oriente, ao meu Japão, e não havia necessitado apanhar nenhum avião, ou caravela (como bom português!), para lá chegar.
Hikari significa “à procura de luz” e é também o título homónimo do último livro de Pedro Martín. Ler esse belo volume, com fotografias do jovem (e talentosíssimo) Juanma Zarzo, é conhecer o pilar que sustenta “A Casa da Espada Celestial”, é atrevermo-nos a contemplar como o ser humano se expressa de várias maneiras, todas legítimas, se houver respeito pelo outro, se houver simplicidade, se houver honestidade.
É bem possível que jamais pise o país do sol nascente. Deixei de procurar essa luz a Oriente. Encontrei-a aqui, onde habito. Não foi difícil. Como diz Pedro Sensei: “Sim, o simples é perdurável e, portanto, é verdadeiro”.


Reformas douradas...


quinta-feira, outubro 03, 2019

A felicidade pode ser real sem ser partilhada, mas não é a mesma coisa se tivermos afectos ao nosso lado. Tenho a certeza.

Conseguir algo intimamente desejado já não me parece uma vitória ou uma mentira. Não nego a felicidade de ter logrado o que até foi difícil, exigindo abnegação e esforço. Porém, não me iludo. Imóvel a olhar este dia, a vê-lo com distância de mim mesmo, e quem vejo não sou eu. Vejo aqueles que me alentaram a desejar, a continuar a tentar. Vejo principalmente duas pessoas que já não estão e a quem não pude telefonar para dar uma boa-hora.
Estariam orgulhosos. Sei-o desde dentro, desde o meu coração onde habitam. Cada letra que aprendi a conjugar em sílabas, que se converteram em palavras, em frases apontadas por aí, não esconde que advém dum mundo iletrado.
A felicidade pode ser real sem ser partilhada, mas não é a mesma coisa se tivermos afectos ao nosso lado. Tenho a certeza.
Continuo imóvel, mas o meu olhar já não se centra em mim. Observo o vazio. Não há euforia. Vejo afabilidade. Vejo um dia a acabar.

segunda-feira, setembro 23, 2019

«A Casa dos Hóspedes» - Yalal al-Dim Rumi (versão Luis Leal)

Isto de se ser um ser humano
é como administrar uma guest house.
Cada dia uma nova visita.
Uma alegria, uma tristeza, uma decepção, uma maldade,
alguma felicidade momentânea
a chegar com um visitante inesperado.
Dá-lhes as boas-vindas e acolhe-os todos,
inclusivamente se são um grupo penoso
a desvalorizar completamente a tua casa.
Trata cada hóspede com todas as honras
pois podes estar a criar espaços para novas delícias.
O pensamento obscuro, vergonhoso, malvado,
recebe-os à tua porta com um sorriso e convida-os a entrar.
Agradece a todos os que vierem
pois talvez possas descubrir que foram enviados
para guiar-te para mais além.

Yalal al-Din Rumi, «The Essential Rumi», trad. Coleman Barks, 1999 (adaptado por Luis Leal).


domingo, setembro 22, 2019

Plano Familiar de Leitura/Plan Familiar de Lectura



Um café sabe sempre a liberdade...


Conversas de pequeno-almoço em família... e unicórnios!

Sentados à mesa, num pequeno-almoço de Domingo em família, digo em tom de brincadeira:
- A mamã já está tranquila pois não vem por aí nenhuma mana...
(Isto porque a minha mulher acaba de chegar de França e, nos últimos anos, cada vez que foi para além dos Pirinéus levou consigo cada um dos nossos filhos no ventre.)
O mais velho diz de imediato que não quer nenhuma irmã, já está bem assim. A Elsa aproveita a conversa e pergunta ao nosso mais pequenito se ele gostaria de ter uma mana e a sua resposta não poderia ser mais rápida e segura:
- Mamy, eu quero um unicórnio!

sábado, setembro 21, 2019

Um prazer ao qual te apoias...

Habituado à secura dos dias, à escassez de precipitação nas terras por onde habitas, umas gotitas tímidas lembram-te que ter de trazer chapéu de chuva não é um estorvo... É um prazer ao qual te apoias.

O marmelo na árvore

O marmelo na árvore testemunha como o Verão passou sem se dar por ele e como o Outono chegou sem grande vontade de assumir o seu devido protagonismo entre as quatro estações.

Cheira a chuva

Cheia a chuva
e a jacarandás sem
flores, outonais.

sexta-feira, setembro 20, 2019

Nem imaginas o bem que se dorme...

Estou por aqui a rabiscar uns papéis do trabalho e oiço umas colegas a falarem sobre o seu tempo livre. Uma mostra videos às outras e comentam as virtudes do que se vê, pelo que oiço tratam-se de aulas de dança sem limite de idade.
A conversa continua com perguntas sobre onde é, que dias há aulas e quanto custa, mas o que me ficou foi uma afirmação que merece a pena registar neste diário de bordo, tantas vezes a meter água:
«Nem imaginas o bem que se dorme depois de dançar...»

quinta-feira, setembro 19, 2019

Pós-ecologismo




PÓS-ECOLOGISMO

Ir de trotinete eléctrica onde antes se ia a pé.


Lido no blogue Coração Acordeão, de António Gregório.




domingo, setembro 15, 2019

"Un perro refleja la vida familiar"/"Um cão reflete a vida familiar"

Sir Arthur Conan Doyle decía que "un perro refleja la vida familiar". No sé si nuestro perro refleja la nuestra. Abandonado y temblando de miedo, llegó a nuestras vidas hace un par de meses por casualidad, esa buena madrina de inolvidables encuentros. Al igual que a mis hijos, no me canso de contemplarlo y, a pesar de tener dificultad en entender lo que siento, es un extraño milagro poder hacerlo. Jamás humanicé a un animal y no me identifico con las polémicas animalistas del presente, sin embargo sé que la amistad, el compañerismo, o incluso el amor, habitan en otros seres, además de en aquellos que denominamos racionales.

Sir Arthur Conan Doyle dizia que "um cão reflete a vida familiar". Não sei se o nosso cão reflete a nossa. Abandonado e a tremer de medo, chegou às nossas vidas há uns quantos meses por casualidade, essa bela madrinha de encontros inesquecíveis. Tal como aos meus filhos, não me canso de contemplá-lo e, apesar de ter dificuldade em entender o que sinto, é um extranho milagre poder fazê-lo. Jamais humanizei um animal e não me identifico com as polémicas animalistas do presente, no entanto sei que a amizade, o companheirismo, ou mesmo o amor, habitam noutros seres, bem para além daqueles que denominamos racionais.


Mapa administrativo de Portugal





(Visto no blogue Santa Nostalgia)



quinta-feira, setembro 12, 2019

O som da depiladora

O som da depiladora denuncia que te estás a preparar para vestires uma indumentária mais formal amanhã. Não é que tenhas pelos nas pernas visíveis, é o teu ritual antes de usares saia.
Este é um dos sons que te fazem previsível e eu oiço-o com o prazer de quem te espera e te quer dizer que te ama.
O amor é tão rotineiro quanto previsível. Há quem diga que isso não é bom para a durabilidade do mesmo. Talvez. Porém, eu sei que a paixão se alimenta destes actos, destes afazeres do dia-a-dia que escolhemos passar juntos...

quarta-feira, setembro 11, 2019

No confundamos discreción con silencio cómplice...

Como dice un gran amigo mío, no confundamos discreción con silencio cómplice. Eso me lleva a compartir lo que he pensado hoy al enterarme de una lista de trabajo. No pasa nada si te pillan copiando y con chuletas… Sanción es cosa de diccionario y no de procedimiento administrativo.  

Como diz um grande amigo meu, não confundamos discrição com silêncio cúmplice. Isso leva-me a partilhar o que pensei hoje ao ver uma lista de trabalho. Não há problema se te apanham a copiar ou com cábulas... Sanção é coisa de dicionário e não de procedimento administrativo.

Indignado

Estou indignado. Repito-o a mim mesmo, indignado. Devo está-lo, pois só assim poderei assimilar este sentimento e abandoná-lo no momento certo.
Há um ano atrás, cumpri com as minhas obrigações laborais e intervim num concurso público para a carreira docente. No decorrer do processo, um candidato foi apanhado a copiar de cábula na mão. O mesmo foi convidado a sair do local do exame e apreendido o auxiliar de memória (hoje a marinar nos arquivos a administração pública). A situação foi tão surreal como escabrosamente pública, com quase duas dezenas de testemunhas. Redigiram-se actas da incidência, foram informadas as autoridades de inspeção competentes e, por uma questão de justiça, pensou-se que o candidato iria ter a correspondente sanção administrativa.
Passado um ano desta desagradável (e embaraçosa) situação, sou confrontado com a inclusão de tal pessoa nas listas de contratação, ocupando um lugar como contratado no sistema público de ensino.
O desprestigio não foi unicamente para os trabalhadores que cumpriam com as suas funções de supervisão e selecção. É-o para todos aqueles que se apresentaram ao concurso honestamente, mas, principalmente, para o organismo da comunidade autónoma que tutela o ensino público e privado. 
Para além de indignação, devo dizer que tenho vergonha... pois sinto que a mediocridade da situação nos mete a todos no mesmo saco, escapando-se unicamente a consciência de que a tem tranquila. Este "profissional" uma coisa saberá transmitir ao alunos: copiar compensa.

terça-feira, setembro 10, 2019

Saida Mukhametzyanova canta "Canção do mar"


Saida Mukhametzyanova é uma cantora russa muito nova, um fenómeno no seu país.

Fui bailar no meu batel,
além do mar cruel...




Passar ao lado

Passar ao lado.
Como esta lágrima,
junto à boca...

«Uno, dos, tres...»

«Uno, dos, tres... pollito inglés» é a frase que mais tenho ouvido nesta tarde relaxada em que não há trabalhos de casa nem teste no horizonte.
Andam por aqui a brincar e a jogarem ao «pollito inglés». Eu apenas observo, em silêncio adulto a ocultar morriña de infância, e penso mais uma vez em como foi possível que este patego, dum bairro operário eborense, criasse prol noutra língua. Sei que tenho pensamentos tão parvos, mas não os renego e aceito-os.
O «pintainho inglês» até existiu durante os  Verões algavios em companhia do meu tio Leopoldo e da minha tia Dolores. Ser loiro e ter olhos azuis ajudava à nacionalidade emprestada entre os turistas da grande Albion.
«Tudo foi por onde tinha que ir» são palavras que tantas vezes ouvi. Têm razão, um gajo tem de ir por onde tem de ir. O tempo foi passando e eu não sei muito bem porque é que tem vindo por aqui.
Eles sabem. Os meus filhos sabem. Sabem porque brincam e usam as nacionalidades como meros adjectivos de galinácios. É para isso que servem e vão para a cama sem saberem porque é que o «pollito inglés» foi um pinto diferente no passado do seu progenitor. Não sei se os invejo por isso ou por simplesmente eu já não ser criança ao seu lado e ter de envergar este traje de progenitor.
Sei que os vou chamar para ao pé de mim e os vou abraçar como o primata que sou. Vou beijá-los tanto como o pai babado que sou mas que não gosta demasiado de falar deles aos outros. Vou contar-lhes que quando era puto brincava ao mesmo, mas que íamos mais longe, mais para Oriente, e que o nosso pintainho era substituído por um macaquinho e... «Um, dois, três, macaquinho do chinês!».

sábado, setembro 07, 2019

Fuzeta


«Abúrrete en el Instituto como mejor puedas»/«Entedia-te na escola o melhor que puderes» - Robert Walser

«Abúrrete en el Instituto como mejor puedas. Mi pequeño conquistador, ya verás cómo es el mundo, en ese mundo de fuera, cuando ejerzas tu profesión y aspires y luches, ya verás cómo se te abrirán bostezantes océanos de aburrimiento, vacío y soledad. Quédate aquí. Cultiva un poquito más tu nostalgia. No puedes imaginar qué felicidad, qué grandeza hay en la nostalgia, es decir, en la espera. De modo que aguarda. Deja actuar dentro de ti ciertas presiones. Aunque no demasiado.» (trad. Juan José del Solar)

«Entedia-te na escola o melhor que puderes. Meu pequeno conquistador, já vais ver como é o mundo, esse mundo de fora, quando exerças a tua profissão e tenhas aspirações e tenhas de lutar, já vais ver como se te abrirá a boca em oceanos de tédio, de vazio e  solidão. Fica aqui. Cultiva um bocadinho mais a tua nostalgia. Não podes imaginar a felicidade, a grandeza que há na nostalgia, quer dizer, na espera. De modo que aguarda. Deixa actuar dentro de ti certas pressões. Ainda que não em demasia.» (trad. Luis Leal)

Robert Walser, «Jakob Von Gunten», Madrid, Siruela, 2009, p.100.

sexta-feira, setembro 06, 2019

...

Sei que dizer-te amo-te não satisfaz o infinito a habitar em tudo o que te digo e no que sinto. Talvez por isso tenha abandonado os poemas e canções de amor na gaveta da adolescência, protegidos em cadernos de palavras minhas escritas pelo teu punho e letra.
Na época, não sabia que jamais saberia escrever sobre amor, apesar do tentar ao lançar-me do sentimento para a palavra. Emulava poetas para transcrever-te o meu coração. Aceitei a tradição, os versos, mas o meu coração ultrapassava a métrica e só não entrou em síncope porque o aceitaste tão acelerado quanto frágil. Fizeste-me poeta sem ter lido suficientemente a vida para o ser. Só de ti aceito esse destino, porque todos os dias sei que dizer-te amo-te não satisfazará o infinito a habitar em tudo o que não te poderei dizer e em tudo o que a mortalidade do meu corpo não me permitirá sentir. A minha alma diz-me que não o sou, porém a tua contradi-la. Só sou e serei teu. Poeta.

quinta-feira, setembro 05, 2019

A ternura flui...

A ternura flui melhor em espaços e vidas cientes de uma certa ordem. Não o nego, porém nunca encontrei este sentimento em pleno caos...

Dia de cão


Dia de cão

Coisa que me emociona é história de cadelinhas vira-latas que salvam crianças de ataques de pitbulls. Outro dia foi em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. A cadelinha Milu, uma vira-lata de pelagem curta, marrom e branca, dessas cachorras bem ordinárias, arrancou o couro da garganta de um pitbull em pleno acesso de fúria. Era o Mal personificado por dentes cravados na junta de joelho de um menino de 11 anos. O garoto talvez perca alguns movimentos parciais da perna. Ao ver o menino em enorme sofrimento, a cachorra atravessou a rua como um foguete, em vias de ser atropelada, e pulou direto na jugular do ferocíssimo cão. Ferido de morte, o pitbull largou a perna da criança e soltou um longo e doloroso ganido.

Tinha os olhos injetados de sangue cor de vinho quando virou o pescoço no limite da musculatura e mordeu uma orelha da vira-lata. Milu, três anos de rua, acostumada a garantir as refeições na base do pega-e-corre, acusou o golpe, mas em vez de arregar, apertou mais forte o pescoço do inimigo. Ouviu-se o som surdo de duas travas. A primeira, da oclusão perfeita e letal das mandíbulas da cadelinha. A segunda, da traquéia do pitbull virando geléia, se me permitem a assonância. Milu perdeu parte de uma orelha, mas foi adotada pela família do menino salvo, sendo enviada, tempos depois, para viver num sítio da família. Se tudo der certo, a vira-lata terá garantido para si, graças a um ato desvairado de coragem, casa e comida até morrer. Deve haver uma lição nisso.

Nessas coisas residem o sucesso do livro Marley e Eu, que não li, nem pretendo ler, por pura inveja. Difícil não se emocionar com essas histórias de cães heróis, porque temos essa proximidade emocional com os cachorros, criaturas que nos enchem de amor apenas porque gostam de comer, bem e muito, sem fazer esforço. Eu vivo com duas cockers spaniels, cães hiperativos e famélicos que vivem, permanentemente, com os ânimos exaltados. São mãe e filha, mas roubam comida uma da outra, brigam, rugindo como leoas, no meio da madrugada, latem pelas escadas do prédio, destroem os jardins plantados pela síndica, e cada uma a seu tempo destruiu boa parte do mobiliário da casa. Cansadas, dormem no sofá da sala, ou o que sobrou dele, porque a mais nova fez dois enormes buracos no estofamento. Ambas apanharam de cinto nos quadris para aprenderem a não subir no sofá. Ou elas são burras o suficiente para não fazer a associação entre o ato e a dor, ou são inteligentes o bastante para perceber que me sinto culpado o suficiente para não bater nelas outra vez. Não sei como Marley se sentiria nessa situação, mas as duas voltaram a dormir no sofá a sono solto.

A mais velha, quando está no cio, corre para cima até de yorkshire, vira a bunda, dobra o cotoco de rabo para o lado. Já cruzou, à revelia de minha vontade, com um outro cocker na pracinha infantil da quadra, em frente de meia dúzia de crianças. De outra feita, deixou-se possuir por um bichon frisé na frente de outros cães e pessoas, num gramado público da Asa Norte, quando tudo indicava que o cio já tinha acabado. Passou vinte minutos grudada com o amante, um de costas para o outro, cada qual com aquele olhar de paisagem tão caro aos do mundo canino. A mais nova só teve um cio. Todos os cachorros que tentaram se aproximar foram violentamente repelidos por dentes arreganhados, novinhos em folha. Ambas já morderam crianças. Duvido que a história de Marley seja mais emocionante do que a delas, uma comprada na feira por 120 reais, outra nascida no quartinho da dispensa aqui de casa.

Mas Marley é americano, tem pedigree e a bossa de todo labrador. E, possivelmente, um dono mais talentoso.

 (22-maio-2007)

(Fonte)


terça-feira, agosto 27, 2019

"La frugalidad ordena las costumbres." - Ramón Andrés

La frugalidad ordena las costumbres. La palabra nació de frux, “grano de trigo”. El frugal, el que pasa con poco, es difícil de vencer.
            A los hombres frugales los griegos los conocieron como khrésimoi, los “útiles”. Lo comenta Cicerón.
*
A frugalidade ordena os costumes. A palavra nasceu de frux, “grão de trigo”. O frugal, aquele que vive com pouco, é difícil de vencer.
            Os homens frugais ficaram conhecidos pelos gregos como khrésimoi, os “úteis”. Assim no-lo diz Cícero.

Ramón Andrés in “Poesía Reunida Aforismos” (2016)
Trad. Luis Leal

segunda-feira, agosto 26, 2019

Mundos minúsculos...


O nosso rafeiro...

O nosso rafeiro é tão alentejano que até come gaspacho... Belo cão, a andar por esses montes em liberdade. Vê-lo na companhia da restante canzoada e a acompanharem-nos cada vez que chegamos à aCourela é do melhor que o dia-a-dia me tem trazido. Talvez me reveja nele, no meu rafeiro, no cão que sempre quis e deixei de imaginar que algum dia me poderia acompanhar...

quarta-feira, agosto 21, 2019

Ausência de cara a cara...

Dão jeito estes aparatos. A tecnologia põe-nos em contacto e a par de tudo à milésima de segundo. Mas a voz e o olhar são filtrados por um ecrã. O corpo tem uma distância, proporciona uma segurança física que o cara a cara não permite. O atrevimento e a cobardia ampliam-se ao quadrado no mundo digital por isso mesmo, por falta da presença física do outro.
Isto não é de agora. Por isso, excepto com algumas pessoas, nunca gostei de falar ao telefone. As cordas vocais não mostram como está o rosto, os cabos não transmitem gestos e trejeitos. O silêncio torna-se um incómodo.
Com as mensagens passa-se o mesmo, apesar da proliferação de smileys e emojis. Malinterpretam-se com facilidade.
Pessoas a mim próximas adaptaram-se com demasiada facilidade a estes meios. Cedo começaram a usar o telefone para um terrorismo emocional que deixou marcas. Sei-o hoje e, por carácter, safei-me de ser a principal vítima. Não deixa de ser triste, pois o que nos poderia manter mais unidos também nos afasta, nos cala e nos faz pensar que as palavras ditas (ou escritas) através destes meios não são muito diferentes de balas a abaterem parte do nosso espírito.
Recebi há pouco uma dessas mensagens, seguido de um telefonema meu que tentou esclarecer o escrito. A ausência do cara a cara facilitou o jorrar de sentimentos reais que desconfio serem de base imaginária, ociosa. A assertividade fluiu com mais naturalidade do que há uns anos atrás e ficou várias vezes muda. O meu silêncio tem tanto de vergonha própria como de alheia.
Desliguei o telefone e desejei o cara a cara. Dar a cara, dialogar e reconhecer as nossas faltas, nunca foi o caso. Sempre foi mais fácil discussões ao telefone, pôr na cara à distância, e, se a coisa vai por caminhos que não é do agrado, enveredar pela defesa pessoal do ataque de histerismo com devoção pelo altíssimo. Lembro-me de um dia, há muitos anos, ter ouvido um «mato-me» ao cimo das escadas e ter ficado frio como o mármore dos degraus. Nesse momento, soube o que é a chantagem.
O tempo tem passado e é raro lembrar-me desse episódio ao qual assisti como personagem secundária, contudo bastante imbuido na narrativa. Aprendi a lutar em batalhas que valem a pena. Esta não vale, apesar da tristeza que me pode deixar a alma ferida. Porém, à chantagem não sucumbo. Protege-me a consciência. Protege-me uma cara que não evita os olhos nos olhos.

Keiko

Voltar ao dojo,
em seiza de joelhos.
Pratico. Sou eu.

terça-feira, agosto 20, 2019

«Talvez pouco dado à abstracção...» - José Régio

«Talvez pouco dado à abstracção e à especulação filosófica, o alentejano é contemplativo (...). Em poucos poetas portugueses se nos impõe a obsidiante presença da sua província como nos poetas alentejanos. Não será muito difícil ver que um inato sentido plástico anda neles unido a esse amor da vasta região onde nasceram.»

José Régio, "Escritos de Portalegre", Portalegre, Edição A Cidade, 1984, p.123.

José Régio no Largo do Cemitério em Portalegre.

Ao abraçar o sol...

Ao abraçar o
sol, as nuvens mimam a
terra com sombra.

sábado, agosto 17, 2019

quinta-feira, agosto 15, 2019

O destino abençoou-o...

O destino abençoou-o com muitíssimo talento, mas nunca foi capaz de o proteger do fracasso. Esse é o motivo pelo qual teima em culpar os deuses pela sua sina, convertendo o seu génio em puro azedume.

terça-feira, agosto 13, 2019

O interesse

O interesse despoleta a memória. Só alguém interessado é capaz de fabricar recordações do passado.

A consciência tranquila

A consciência tranquila é o horizonte dum oceano nas profundezas de alguém em paz com o que vê e não vê, com o que sente e não sente.

segunda-feira, agosto 12, 2019

«Miguel Torga e Eu» - Manuel Alegre


Fui ao seu consultório muitas vezes.
Tratou-me da garganta e do nariz.
Limpou-me as ventas. Mas sobretudo
abriu-me as válvulas de dentro
para que o vento da pergunta circulasse
varrendo teias medos presunções.
Também de versos me falou: «O primeiro é dado
os outros tens de conquistá-los.»

E quando do país desesperava
confessando-lhe desisto
ele dava-me a receita e a divisa
«ser contra isto para ser por isto

E sempre em sua casa me regalou
com seu Porto e seu tinto Barca Velha
às vezes galinholas e narcejas.
«Fui caçá-las para ti» – dizia.

Por isso lhe estou grato. Por me tratar
das ventas e dos versos.
Por repartir comigo o pão o vinho e a palavra.
Por sua fidalguia. E sobretudo
por sua lição de vida e poesia.

In «Coimbra nunca vista» (poesia), de Manuel Alegre, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1995 (1.ª edição).

Filosofia de desenhos animados

Os putos estão refastelados a ver os desenhos animados e oiço uma personagem infantil a dizer: «a minha felicidade não depende da opinião dos outros». Presto atenção e vejo que quem o diz é um miúdo original que dá pontuações a produtos fora de validade com os seus sinais da barriga. «Estas batatas fritas merecem cinco sardas da minha pança».
Fico a ver os desenhos com eles e penso que poderia fazer o mesmo. Crítica de barriga cheia. «Ná», a minha opinião não deve condicionar ninguém, já basta, por vezes, impedir-me de ter mais perspectivas...

quinta-feira, agosto 01, 2019

"Y todo era posible" - Luis Leal in "Rayanos Magazine"

Y todo era posible – Luis Leal (“Rayanos Magazine”)

“Allá en mi juventud, antes de haber salido de casa de mis padres dispuesto a viajar, ya conocía yo el estruendo del mar de páginas y páginas que ya había leído. Llegaba el mes de mayo con todo florecido, el rodillo del alba se ponía a girar, sólo había que oír al soñador hablar de la vida tal si ésta hubiese ocurrido”. Los verdes años de Ruy Belo, poeta portugués muy vinculado a España, donde vivió y escribió, no son diferentes del pasado de muchos de nosotros que vivimos ciertas rutinas a finales del siglo pasado. Este soneto de Belo, sin duda, es de mis poemas favoritos, quizás porque veo algo de mí en él.
Allá en mi juventud, antes de haber salido de casa de mis padres, los años eran lentos. No solamente los gatos en el tejado me parecían gigantes, los días eran enormes, y las vacaciones de verano eran esa eternidad de luz y calor con derecho a algunos días de piscina municipal y, gracias a mi tío, algunos chapuzones en la playa.
Iba al colegio, jugaba en la calle, hacía los deberes, montaba en bici en el barrio, leía montones de cómics, veía la tele, ayudaba y acompañaba a mis padres (¡odiaba trabajar con mi padre!), o me quedaba con mis abuelos, en mi otro barrio, con una rutina muy semejante. La verdad es que, en mi infancia y juventud, mi vida (y la de la mayoría de los chavales de mi edad) no estuvo sometida a ninguna obsesión por “hacer cosas”.  
Nuestro tiempo obedecía al reloj y al calendario como los demás. Los días tenían 24 horas, la semana iba de lunes a domingo y el viernes nos enamoraba al son de The Cure porque estábamos en puertas del merecido fin de semana (It's Friday, I'm in love!). La vorágine existía en nuestras pasiones y en nuestras amistades cara a cara o, si lo teníamos ya en casa, por teléfono fijo.
Mi estimado lector detectará algo de viejuno en mí, algo de desencanto en mis palabras y quizás piense que soy un nostálgico, o peor, un analógico. No voy a contradecir sus pensamientos, sin embargo, no le ocultaré que nací en fechas en que sociológicamente se me puede considerar, todavía, Millennial o miembro de la Generación Y.
Solo me gustan los rótulos en los frascos para no equivocarme al abrirlos y ser consciente de su fecha de caducidad. Que se vean las personas, las generaciones, como colectivos etiquetables, consumibles, es cosa de la sociedad, no es cosa mía. Sé que viví sin imaginar lo que es Internet, sin imaginar que un día iban a existir hoteles donde se paga para que nos quiten el móvil, que iban a existir redes sociales más allá de la familia, amigos, barrio o ciudad. Seguidores ya existían, pero nos enseñaban a tener cuidado con ellos. Influencers también, sin embargo, no era fácil llegar a los medios de difusión, eso exigía algún escrutinio y algún mérito. Sé que el ritmo no era el de hoy y que teníamos más oportunidades de fijarnos en la duración de los días, en las estaciones del año. Sé que vivíamos más al compás de la naturaleza.
Al contrario de muchos que conocieron esta realidad, no creo que haya sido un privilegio, fue pura casualidad. No merece la pena demonizar la sociedad, echar la culpa al capitalismo salvaje, a la tecnología abrumadora, a la aparente falta de rumbo que lleva este mundo. Soy tan insignificante que mis teorías solo le robaría más tiempo a mis lectores y si estas líneas ya se lo están robando, humildemente, les ruego que me disculpen.
Si hay algo que me preocupa, más incluso que el cambio climático y la deshumanización del presente, es la velocidad con que esta posmodernidad nos está obligando a vivir. Si en los adultos es ya algo preocupante, estoy seguro de que en los niños es algo efectivamente dañino.
Intento proteger a mis hijos de esta realidad, intento que sus vidas no estén sometidas a la dictadura del tiempo ocupado con miles de actividades y no estoy obsesionado con que estén siempre haciendo algo. Me da igual que se aburran. Jamás seré su entertainer, ni exigiré a nadie que lo sea. Soy su padre. Me gusta que sean niños llenos de energía, pero no pasa nada si están pensando en las musarañas.
La mejor estimulación precoz que he encontrado es acompañarlos, que la calidad del tiempo que estamos juntos no sea considerada como buena o mala, sí como honesta y sincera en afectos. Por eso me ha preocupado que mi hijo de ocho años me dijera: “Jo, papi, el curso pasó volando…”. Su noción del tiempo, a tan temprana edad, me hizo reflexionar, me hizo volver a mi propia noción del tiempo en mi infancia y descubro que tenemos que bajar el ritmo, que fijarnos más en la naturaleza, algo que, acorde con los patrones de la era digital, es no hacer nada productivo.
Estoy escribiendo esta crónica y ellos están jugando, tendidos en el suelo. Hace calor y solo podemos salir al final de la tarde. Quizás estén aburridos. Yo vuelvo a Ruy Belo, a cómo “todo pasaba lejos en otra vida y tenían las cosas siempre una salida, ¿Cuándo fue? Ni yo mismo sabría contarlo. Era mío el poder que se tiene en la infancia, no existía entre yo y las cosas distancia y era todo posible con sólo desearlo”.
            Si somos capaces de tener esta distancia entre nosotros y las cosas, algo me hace creer que tendremos un tiempo en nuestras vidas en que todo era posible.

"Y todo era posible" - Luis Leal

Crónica "Y todo era posible" - Luis Leal in "Rayanos Magazine"