segunda-feira, outubro 28, 2019

Aflijo-me




Há muito que não voltava aos “Diários” de Miguel Torga e os lia a salto de moita, parando-me em muitas das suas entradas. Hoje, como que de volta a um lugar onde me posso sentar descansado, não consegui desapegar-me destas suas palavras:

“(...)Mas a minha fraqueza maior é não poder desprezar ninguém, mesmo os próprios inimigos. São meus semelhantes, apesar de tudo, e eu não consigo descrer no homem, seja ele como for. Em vez de os esquecer, trago-os no pensamento. Sofro por eles. A minha grande alegria é admirar os outros, e procuro encontrar em cada um as linhas positivas do seu caminho. Afinal somos todos elos de uma grande corrente, e é pelos ferrugentos que ela pode quebrar. Aflijo-me, solidário com a sua humanidade, que gostava de ver mais generosa, sem reparar que o tempo desaparece, alheio às razões que impedem a semente de germinar.”. (in “Diário III”)

Tinha 39 anos. Tenho 39 anos. Aflijo-me.

Miguel Torga


O avião de papel...

Um tinto em boa companhia...


domingo, outubro 27, 2019

Razão...

Por esta internet, e redes sociais, vejo tanta gente a querer ter razão que nem perco tempo a argumentar o que quer que seja. Cara a cara, numa conversa civilizada, ainda sou capaz de refutar se não estiver de acordo e se o meu interlocutor for digno de respeito intelectual. Se não, aplico a mesma filosofia para o mundo digital, isto é, não abrir a boca ou mexer uma palha para escrever a minha opinião.

O que me deixa boquiaberto é mesmo o facto de uma esmagadora maioria achar-se detentora de verdades universais, achar que a sua opinião merece o mesmo estatuto do honesto estudo científico. Para um casmurro como eu, teimoso dos cinco costados como o meu avô João Leal, ou como o nosso rafeiro alentejano, dar o braço a torcer nunca me custou se sou derrotado com a razão, com a inteligência que me escapou, porém, se cá por dentro a certeza se ergueu com tijolos e pedras com certificado de qualidade e honestidade, bem podem ficar à espera sentados. Não me desmonto da burra se o que à minha frente está não atinge os mínimos exigidos por mim e o meu jumento. Não o faço com alarido, normalmente. Opto por pastar onde me deixem sossegado. 

Revoluções? Gostava de ter vivido a dos meus pais. Vivi os restos e, agora, a única revolução que sinto poder ter, é não deixar que estes que gritam razões e palavras de ordem, poluam o que ainda vou pensando e vendo do mundo.

Cinismo? Ainda não. Pode ser que lá chegue um dia (algo que me desagradaria), contudo essa não é a minha razão para continuar a deixar por escrito o que vou vivendo... 

"El Quijote y su Rocinante" por Xavi


Parafusos e porcas...

Gosto de parafusos, porcas, anilhas e toda essa parafernália de ferragens que fazem parte de quase todos os objectos do nosso dia-a-dia. Sou daqueles que se vêem um parafuso no chão não o deixam abandonado e o recolhem numa caixinha, repleta de divisórias, para usos futuros. O certo é que muitíssimas das ferragens acolhidas têm conhecido segundas oportunidades, como os parafusos de fenda hoje recuperados para os guarda-lamas da bicicleta da Elsa. O meu filho mais velho faz o mesmo. Sei que o faz por imitação e não lhe escondo o meu orgulho, dizendo-lhe «vais ver que esse parafuso ainda nos vai desenrascar!».

Um exemplo disso foi, há uns meses, em León, estávamos num parque da cidade onde tinha havido uma feira, com comes e bebes, na noite anterior. No meio das brincadeiras, foi um regalo vê-lo com o irmão apanhar mãos cheias de porcas que por ali ficaram abandonadas. Algumas já as usámos, no barracão da aCourela, principalmente, porém outras estão guardadas nesses compartimentos para as segundas oportunidades de bricolage caseira.

Encontrar algo útil, como estas ferragens, é tão importante para mim como encontrar um primeiro verso ou uma frase desbloqueadora do que me vai por dentro.  Parece que tudo encaixa, ou enrosca para ser mais concreto, num perfil que gosto de comparar com ideologias políticas: para a esquerda alivia, para a direita aperta. O centro não me traz analogias para este tipo de mãos à obra.

Contudo, ter as mãos sujas de óleo é sinónimo de realização pessoal como é o calo na falange do dedo medio direito ou do cansaço dorsal do ecrã do portátil. Escrevo isto a correr o risco de ser interpretado como um funcionário público a fazer-se passar por pseudo-operário. Talvez o seja, mas não me preocupa como me vêem. Preocupa-me como me sinto. Os parafusos cada vez mais desapertados pela sociedade, em que os próprios líderes mundiais denunciam a falta de um, dois, ou vários fundamentais ao seu exercício cerebral, não ajuda muito. Tenho pena da dignidade das mãos sujas de trabalho cada vez menos quererem agarrar um livro, cada vez mais se aliviarem nos ecrãs tácteis e perderem a consciência da sua essência, da sua classe. Classes sociais inconscientes do seu lugar no sistema é assustador e não  me augura solidez democrática e veta a passagem à mobilidade social. Os pobres de hoje dificilmente ascenderão a uma classe média e riqueza só em sonhos.

Enfim, a verdade é que, para mim, as porcas e os parafusos, se o torno e o trabalho de torneiro for de qualidade, encontram sentido para as suas existências em espiral. Enroscadas erguem e dão firmeza a todo tipo de construção e obras de diversas engenharias humanas. Encontro alguma felicidade e consolo de chave de fendas, philips ou aparafusadora na mão. Do empirismo das ferramentas alimenta-se muito boa gente. Não necessito sujar as mãos de óleo para comer e não tenho de trabalhar como operário, como o fez parte dos meus no passado para que pudesse estudar e optar por outro rumo profissional. Hoje olho para o que faço e sei que, quando tudo parece não ter sentido no meu trabalho, posso encontrar as minhas pequenas obras desenrascadas com parafusos que por aí andaram tão perdidos como eu...

quarta-feira, outubro 23, 2019

Castro Alves o "poeta dos escravos"

Machado de Assis chamou-lhe «poeta dos escravos» e, só por isso, fiquei com vontade de conhecer a obra de Castro Alves. Comecei por estes versos, num histórico e belo alfarrabista de Lisboa:
"Oh! Bendito o que semeia
Livros... livros à mão cheia...
E manda o povo pensar!
O livro cahindo n'alma
É germen - que faz a palma.
É chuva - que faz o mar."

Ed Arruda





terça-feira, outubro 22, 2019

«Filho de peixe sabe nadar...»

"O filho de peixe sabe nadar porque o papá pagou aos tratadores do aquário por um tratamento especial e uma comida rica em proteínas". Este é um "update" do velho provérbio português que aqui deixo para não me esquecer... Ou talvez devesse esquecer... Sentir-me indignado não é uma coisa que me faça bem à saúde.

segunda-feira, outubro 21, 2019

A paisagem...

A paisagem é
mais do que se vê, é o
que temos dentro.

PAI/PADRE (MÁRIO CASTRIM)

PADRE (MÁRIO CASTRIM)

difícil casi

durmiéndome

te oigo metiendo
la llave en la puerta

Empujándola. Cerrándola
dulcemente.

Entrando en la habitación
a oscuras.

Acercándose. Besándome
el sueño.

La barba
pica.

Serenamente en fin la casa duerme.


PAI

difícil quase
a dormir

oiço meter
a chave à porta

Empurrá-la. Fechar
docemente.

Entrar no quarto
às escuras.

Abeirar-se. Beijar-me
o sono.

A barba
pica.

Serenamente enfim a casa dorme.

MÁRIO CASTRIM, in A MOEDA DO SOL (Campo das Letras, 2006)

domingo, outubro 20, 2019

Ser ouvido...

Ser ouvido, que me prestem atenção, que façam aquilo que solicito, eis o grande objectivo da minha atividade laboral. Há já muitos anos que sou consciente disso e são incontáveis as formações que frequentei (e até ministrei) para saber motivar, estimular, despertar no outro interesse por aprender. É algo transversal a várias profissões, porém, quando penso nisso, vem-me sempre à cabeça a de palhaço.
 
Para além de profissional, como pai, sinto o peso dessa obrigação. É onde, talvez, sinta mais frustração. Não quero que eles sejam desse tipo de pessoas que não fazem caso ao que se lhes diz, ao que se lhe explica com argumentos razoáveis e instruções simples de entender. Não tenho dúvida que a minha profissão me afecta como pai, que me subtrai paciência em certos momentos, e que me faz pensar em realidade mais além de qualquer tipo de pretensa vocação.

Fui educado a prestar atenção ao que me diziam, mesmo sendo eu um despistado. Fui educado nos valores de que havia de prestar atenção, fazer caso, aos mais velhos, quer para aprender, quer por uma questão de respeito. Não tenho nenhum trauma por isso, nem senti abusos de autoridade com os quais não soubesse lidar com o exemplo desses a quem ia prestando atenção. Actualmente, isto é algo estranho para muita gente.

Há pouco, os meus filhos, simplesmente, ignoraram os reiterados pedidos feitos por mim e pela sua mãe. O resultado afecta o resto da tarde e exige roupa seca que não temos à mão. Não sofro por vê-los cheios de lama e roupa rasgada. Sofro por ver como ignoraram tudo o que lhes pedi com argumentos perfeitamente inteligíveis e claros. Sofro por imaginá-los no magote da indiferença a quem os pode ensinar, a quem os pode ajudar a serem seres humanos um pouco mais evoluídos e menos neandertais. Sofro porque, por mais métodos e técnicas pedagógicas ao meu dispor, sei que tenho de ser eu o responsável por tudo, pelo seu "sucesso" e pelo meu "sucesso" como educador. 

Mao Tsé Tung era conhecido como «O Grande Educador» e não era nada democrático, nem sensível a argumentos lógicos para além de "livros vermelhos". Não posso estar de acordo com esta designação para o ditador chinês, mas não posso aceitar que se me exija tanto do que por vezes já duvido se sou capaz...

De quem é a culpa de me sentir assim? É minha. Se para o trabalho penso que era vocação, para a paternidade é obrigação. Sei que posso ser melhor pai, mas sou eu quem se tem ouvir a si mesmo...

É um sinal de falta de atenção.../Es una señal de falta de atención...

É um sinal de falta de atenção acreditar que a solidão é uma condição humana. 
Es una señal de falta de atención creer que la soledad es una condición humana.



sábado, outubro 19, 2019

Schweizer Hof Hotel (Manuel António Pina)



Recordamos hoje Manuel António Pina, que faleceu a 19 de outubro de 2012. Um de tantos poemas que lemos e relemos...


Schweizer Hof Hotel

Já aqui estive, já fiz esta viagem,
e estive neste bar neste momento
e escrevi isto diante deste espelho
e da minha imagem diante da minha imagem.

Não mudou nada, nem eu próprio; a mão
escreve os mesmos versos no papel obscuro.
Que aconteceu então fora de tudo?
De que esquecimento se lembra o coração?

Algum passado, alguma ausência,
se passam talvez a meu lado,
talvez tudo exista exilado
de alguma verdadeira existência.

E eu, os versos, o bar, o espelho,
sejamos só imagens noutro espelho
diante de algum Deus em cujo lasso
olhar se fundem outro e mesmo, tempo e espaço.

Manuel António Pina


Um sítio onde pousar a cabeça (1991)


quarta-feira, outubro 16, 2019

O fácil não se encontra facilmente...

Com as devidas distâncias, e com um profundo respeito por vidas verdadeiramente difíceis, tenho a certeza que a palavra fácil não domina a maior parte da minha existência. Sei-o porque todas as minhas pequenas "vitórias",  esses logros úteis ou inúteis, sempre foram alagadas a suor. Não vou por ideologias capitalistas de "self-made man", onde tudo pesa na vontade do indivíduo que sobressai no colectivo. Parece-me que um homem feito por ele próprio é uma falácia, pois, com mais ou menos auxílio (a não ser que um gajo seja ermita...), há sempre alguém que nos dá a mão, ou para um cumprimento ou para fazer esses negócios de milhões como muitos gostam de se gabar.
Principalmente através do exemplo e da confiança, tenho tido o privilégio de encontrar-me com gente generosa, tenho tido a sorte de me terem ensinado a suar, a não ficar parado à espera que as coisas apareçam feitas ou, como mau crente que sou, me caiam do céu. Como eles, não me resta outra opção do que continuar a contar com as minhas glândulas sudoríparas.

terça-feira, outubro 15, 2019

Ramón dizia...

Ramón Gómez de la Serna dizia que "há síntomas precisos de velhice" e tinha razão. Ainda não passei a fasquia de poder dizer que já não morrerei jovem, à maneira de Jules Renard quando passou o meio século, contudo dou por mim a sentir alguma hipocondria ramoniana ao olhar para trás e ver os rastos de «ismos» aos quais me assomei: cristianismo, nihilismo, existencialismo, modernismo, panteísmo, comunismo, socialismo, budismo, humanismo... 
O mestre espanhol dos «Ismos» fez-me pensar que, cada vez mais, os meus se reduzem a um minimalismo ideológico, silencioso, e sem grandes ambições teóricas. Se estou a ficar velho antes dos quarenta, não sei. No entanto, os síntomas agradam-me. Sinto-me bem dentro da escola do «perspectivismo», sem amarras ao edifício, à instituição, ou a conceitos para além do meu olhar. E o meu olhar, a par dos outros sentidos, alimenta o meu instinto...

Ai, o Godinho






segunda-feira, outubro 14, 2019