segunda-feira, fevereiro 08, 2021
O património da nossa Península é tão vasto e digno de ser preservado. A “lhéngua mirandesa” é disso um notável exemplo.
sábado, fevereiro 06, 2021
Pergunta o meu filho de cinco anos...
Estou sempre a escrever sobre mim ou não? Sobre mim ou sobre os outros que nunca conheci e me engano ao pensar conhecer?
sexta-feira, fevereiro 05, 2021
Casablanca 25.06.1993 (Ahmed Barakat)
Casablanca 25.06.1993
está tudo bem
a rádio transmite no início de cada hora
as palpitações de um grande coração
as paredes não se queixam de mal dos pulmões
as ruas podem com um bocadinho de esforço ser limpas
das marcas das lágrimas
o céu não precisa senão de uns retoques
e de algumas novas imagens de anjos
até os que morreram por vossa causa vos perdoarão numa festa
animada
Ahmed Barakat
(Tradução: André Simões)
terça-feira, fevereiro 02, 2021
Una greguería de Ramón Gómez de la Serna
Los chinos escriben de arriba abajo porque la palabra comienza en el cielo y acaba en el abismo.
Ramón Gómez de la Serna
domingo, janeiro 31, 2021
A gratidão é como o sal...
E, mais uma vez, a fronteira se impôs...
sábado, janeiro 30, 2021
Trovoada (Ana Cássia Rebelo)
Começou a chover. Parece chuva de trovoada. Olho uma última vez a estatueta de porcelana. Com a ponta de um lenço de assoar, que humedeço com saliva, limpo as pequenas reentrâncias onde o pó se acumula. Pouso-a em cima da cómoda. Escuto passos que rangem no soalho do corredor. Já passa da meia-noite, a minha espera terminou. Mal me deito, a vivacidade do meu pensamento abandona-me, deixa-me numa fadiga que me torna as ideias confusas. Conheço esse adormecimento, desejo-o, nunca contrario a sua chegada. O meu marido entra no quarto. Parece não trazer pressa, anda devagar, e, ao contrário do que é habitual, alguma energia transparece no seu passo. A expressão do seu rosto também está diferente, descontraída, um sorriso aberto, olhos brilhantes, bochechas elevadas. O que tornará a sua passada mais enérgica? E o seu rosto animado? Talvez seja ainda a euforia do futebol que nele transparece, talvez as sobras dessa satisfação o tornem assim, revigorado, ágil. Senta-se na cama, mãos apoiadas no colchão, a olhar a janela. Deixa-se estar nessa posição durante algum tempo a escutar a chuva nas vidraças. Não diz nada, volta a sorrir, dá uma palmadinha na minha perna como que a querer partilhar comigo a sua satisfação. Depois de dar uma fungadela no spray que usa para as alergias, diz-me boa noite e apaga a luz. Não fecho os olhos. Gosto de olhar a escuridão, descobrir o que nela se esconde, vejo manchas irregulares, parecem lagartos gigantes, cobras gordas, serpenteando por ali. Quando um carro chega à praceta e o clarão dos faróis entra pelas frinchas dos estores, chega-me uma memória antiga, quase esquecida: estou deitada com a Violante num campo de ervas altas a adivinhar as formas das nuvens, divertimo-nos a encontrar coelhos, vacas, galos, algumas nuvens parecem objectos, outras parecem gente. Olha a D. Antónia, de marreca e tudo!, diz de repente a minha irmã e rimos com a descoberta. A recordação desse instante traz-me uma tristeza passageira, mas muito intensa, volto à infância, um tempo antigo em que fui feliz. Pouco a pouco, os meus olhos deixam de ver sombras alaranjadas, a escuridão cresce, só o coração luminoso da estatueta de loiça a quebra. A escuridão confunde. É na noite que o corpo do meu marido ganhará dureza. Escuto o ruído da sua respiração e, pouco depois, sinto o seu corpo voltar-se na minha direcção.
Não perde tempo, os seus braços aumentam de volume, alongam-se, parecem ser capazes de dar várias voltas ao meu corpo. A sua respiração é cada vez mais acelerada, sinto o seu bafo na cova do meu pescoço. Lá fora, o céu desfaz-se agora em pingos grossos, a chuva estala nos vidros. O meu marido levanta-me a camisa de noite, as suas mãos tocam-me. Deixo que me tome. O meu corpo está aqui, na cama, à sua mercê, para que faça dele o que quiser. Um corpo é apenas um corpo, o meu fica aqui, daqui a nada, quando tudo acabar, venho buscá-lo para o lavar e tratar. Ausento-me: estar deitada na cama ou sentada na sala em frente do televisor ou na cozinha a lavar a loiça passa a ser igual. Tanto faz. Estou simplesmente deitada, sem fazer nada, à espera que isto acabe depressa. Mal me liberto do meu corpo sinto-me tranquila, cheia de silêncio. Pairo como um fantasma sobre o meu quarto, sobre a minha cama, sobre o meu corpo. Agora é a altura certa para me entregar aos meus pensamentos íntimos. Procuro o coração luminoso da estatueta de loiça. Aqui está, mesmo ao meu lado, uma pequena lágrima de luz capaz de quebrar a escuridão mais cerrada. El corazón de los novios alumbra la oscuridad, disse-me o homem naquela tarde e abraçou-me. Recordo o desconhecido de Ceuta, o armazém abafado, a realidade suspensa num abraço demorado. Um instante eterno, sem futuro, nem passado. Começou a trovejar. Continuo a ter medo de trovoadas, mentalmente, começo a dizer a oração a Santa Bárbara, só ela é capaz de apaziguar as tempestades que a natureza lança aos homens. O tempo parece alongar-se. Geralmente, em três, quatro minutos, tudo está terminado, mas hoje o meu marido não só intensifica a firmeza dos seus movimentos como parece querer prolongar o tempo que leva a satisfazer-se. Em movimentos repetidos, entra e sai, sai e entra, sempre na mesma persistência. O movimento parece não ter fim. Oiço os seus gemidos, sinto o cheiro do seu suor peganhento, a murchidão da barriga a roçar-me o ventre, tudo é desolador, mas descanso na perfeição dos meus pensamentos secretos. O meu marido transpira de esforço. Sinto-o dentro de mim, sinto as contracções dos músculos, o sangue a latejar. O meu marido está caído sobre o meu corpo, mas eu não estou aqui. Estou longe, muito longe, nos braços de um homem que me aperta. Consigo sentir o cheiro desse homem. Consigo sentir até a sua respiração no meu rosto. O calor desse abraço, clandestino, mas puro, perdura na minha vida. Escuta-se outro trovão, mais forte do que o primeiro. O meu marido larga por fim um grito descontrolado de dor e prazer. Sinto-me aliviada por tudo ter finalmente terminado. Assim que o meu marido resvala para o lado, acendo a luz. Levanto-me com cuidado, procuro a camisa de noite e visto o robe que está aos pés da cama. Caminho até à casa de banho para me lavar. O calor que se sente é cada vez maior, parece escorrer pelos azulejos, cobrir as loiças sanitárias, esconde-se dentro do pequeno armário com puxadores dourados. Abro a pequena janela da casa de banho, mas da rua chega apenas ar quente. Os trovões estão mais espaçados, cada vez mais longínquos, mal se ouvem. Olho-me no espelho. Noto o cabelo em desalinho, o meu rosto está tenso e, exposta à luz fosforescente da casa de banho, a minha pele mostra marcas evidentes de cansaço, as rugas parecem mais profundas, os olhos estão inchados, as olheiras, escuras, parecem borrões de tinta. Regresso ao quarto, os meus passos tornam-se leves, os pés mal tocam no chão. Vou sossegada. O cheiro da cera do soalho volta a confortar-me; a minha irmã sorri na moldura que está sobre o móvel da entrada e a Nossa Senhora, olhos moles de solidão, padece, como é próprio da sua natureza, no seu nicho de gesso dourado. Entro no quarto e sento-me na cama. Sinto-me esgotada, finalmente poderei deitar-me, fechar os olhos, adormecer, deixar o cansaço escorrer do meu corpo. Talvez já não o sinta ao acordar. O meu marido ressona baixinho, tem a boca ligeiramente aberta e a cabeça apoiada nas mãos entrelaçadas. Apago a luz. Lá fora, escuta-se apenas o vento nos plátanos da praceta. Depois da trovoada, a noite voltou a encher-se de silêncio.
Ana Cássia Rebelo
No seu blogue ana de amsterdão (16 de janeiro de 2017)
sexta-feira, janeiro 29, 2021
Um provérbio cigano
quarta-feira, janeiro 27, 2021
Uma fotografia de José Carlos Filizola
sexta-feira, janeiro 22, 2021
terça-feira, janeiro 19, 2021
Nestas coisas da política de extremos, costumo lembrar-me duma crónica do Fernando Aramburu...
Una 'gloriería' de Gloria Fuertes
El hombre crece
cuando se agacha
para jugar con un niño.
Gloria Fuertes
(Fotografia de BuZoquete, Juegos de ratón)
Um anoitecer de Janeiro...
segunda-feira, janeiro 18, 2021
Luiz Felipe Sahd
domingo, janeiro 17, 2021
4 Cavaleiros (Daniel Cramer)
quinta-feira, janeiro 14, 2021
Em louvor da boa linguagem (Jorge de Sena)
EM LOUVOR DA BOA LINGUAGEM
Lendo asnos do seu tempo
Filinto disse: –
«A boa linguagem dá batecus da raiva»
Jorge de Sena
Sequências (1980, póstumo)
Filinto Elísio (1734 - 1819)
domingo, janeiro 10, 2021
Os professores (Valter Hugo Mãe)
Os professores
Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade.
A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria do mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.
Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe.
Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesses crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.
Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.
Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se tivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.
Dá-me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias.
Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto.
As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.
Valter Hugo Mãe
'Autobiografia Imaginária' | Valter Hugo Mãe | JL Jornal de Letras, Artes e Ideias | Ano XXII | Nº 1095 | 19 de Setembro de 2012.
Fonte: SPGL – Sindicato dos Professores da grande Lisboa (Portugal)
quinta-feira, janeiro 07, 2021
Quem roubaria esta bicicleta?
A very careful bicycle owner that removed: - the front and back wheel and the saddle and has applied a sophisticated padlock. Sesimbra.
Fotografia de Pedro Ribeiro Simões.
quarta-feira, janeiro 06, 2021
Quando as paredes...
terça-feira, janeiro 05, 2021
"Os meus sapatos..." - Gonçalo M. Tavares ("Expresso", 24/XII/2020)
segunda-feira, janeiro 04, 2021
De Joan Margarit, Prémio Cervantes 2019
| Fotografia de Inès Baucells |
Dois poemas do Prémio Cervantes de 2019, Joan Margarit, poeta bilingue em catalão e castelhano. É ele próprio quem escreve as versões dos seus poemas na língua de Cervantes. Em baixo temos a versão original do segundo poema.
ADIÓS AL TÍO LUIS
No acabó nunca en su interior la guerra.
La muerte es aquel frente de Teruel,
donde hoy avanza el desastroso ejército
con destellos de escarcha en los capotes.
Están lejos, muy lejos,
pero ya han comenzado a regresar.
Dejó pocos enseres al morir:
entre ellos encuentro
un ruinoso casete con su cinta magnética.
Al principio se oía solamente
el tímido rumor del mecanismo.
Hasta que ha comenzado,
con fuerza y nitidez, el melancólico
canto de un ruiseñor.
Dentro de mi cabeza, después del cementerio,
sigo escuchando la preciosa voz.
El estruendo moral que era la guerra
cesaba junto al río, entre los árboles.
Ruiseñor miliciano, el más humilde
de aquel ejército de la República.
Te has enrolado ahora en un ejército
de pájaros nocturnos.
Cálculo de estructuras (2005)
DE DÓNDE VIENES, HACIA DÓNDE VAS
Mirar a mis abuelos a la cara
era seguir el rastro de un fugitivo herido
que se oculta en la historia.
Quedaba la vergüenza, no la rabia, enterrada:
lo mismo que las mulas y los perros
debajo el sembrado.
Y también nuestra lengua:
roída junto al fuego por los rostros
secos y desconfiados,
con su leve sonrisa de ironía rural.
Y también las ventanas,
humildes, generosas,
en el silencio aliado con la luz.
Todavía arde el fuego. La canción de la lengua.
Por lo que se refiere a las ventanas,
siempre he vivido junto a sus cristales.
Son el único frío que me ampara del frío.
Se pierde la señal (2012)
DÓN SER, ON ANAR
Mirar la cara als avis era com seguir el rastre
d’un fugitiu ferit que s’amaga en la història.
Quedava la vergonya, no la ràbia,
enterrada com feien amb les mules
i els gossos als sembrats.
I, malgrat tot, la nostra llengua. Rosegada
vora la llar de foc pels rostres secs,
desconfiats, però amb un lleu somriure
d'ironia rural. I, malgrat tot,
les finestres. Humils y generoses
en la llum aliada amb el silenci.
El foc no s'ha apagat. La llengua canta.
Pel que fa a les finestres,
sempre he viscut vora els seus vidres.
Són l'únic fred que m'empara del fred.
Joan Margarit (Sanaüja, 11 de maio do 1938) é um poeta, arquitecto e catedrático aposentado da Universidade Politècnica de Catalunya
A página do poeta em catalão, castelhano e inglês: Joan Margarit
Un Cervantes para el bilingüe Margarit
El poeta obtiene el premio por una obra confesional donde conviven catalán y castellano. “No voy a renunciar a las dos lenguas digan lo que digan los políticos”, asegura
(El País, 14-9-2019)
quarta-feira, dezembro 30, 2020
"Vida mansa não tem pressa"
terça-feira, dezembro 29, 2020
Crónica: "Nota que não chegou a diário..." de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº154, p. 68)
Crónica: "Nota que não chegou a diário..." de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº154, p. 68)
2020 foi prolífico em publicações, principalmente diários e crónicas nas redes sociais, no entanto, o meu confinamento não foi propício para o exercício da escrita. Recatei-me na leitura, no estudo, só rabiscando notas soltas, rotineiras, vácuas como o silêncio a fazer-me falta. E, pela primeira vez, senti que envelheci. Talvez porque me tornei “quarentão em quarentena”, num país onde só podia esticar as pernas no supermercado... Já desconfinado, a última “Mais Alentejo” albergou uma “Nota que não chegou a diário” e que resume este meu ano, finalmente, a acabar.
Este ano deixou mossa em muitos sectores da nossa sociedade, a imprensa escrita é um deles, portanto, se puder, em 2021, continue a apoiar, nas bancas, projetos jornalísticos como o da equipa da “Mais Alentejo”. Eu vou tentar. Votos de um bom ano novo!
2020 fue prolífico en publicaciones, principalmente diarios y crónicas en las redes sociales, sin embargo, mi confinamiento no fue propicio al ejercicio de la escritura. Me recaté en la lectura, en el estudio, solo garabateando notas sueltas, rutinarias, vacuas como el silencio que me hacía falta. Y, por la primera vez, sentí que envejecí. Tal vez porque me hice “cuarentón en cuarentena”, en un país donde únicamente podía estirar las piernas en el supermercado... Ya desconfinado, la última “Mais Alentejo” albergó una “Nota que no llegó a diario” y que resume este año mío, finalmente, terminando.
Este año dejó marcas en muchos sectores de nuestra sociedad, la prensa escrita es uno de ellos, por lo tanto, si es posible, en 2021, siga apoyando, en los kioscos, proyectos periodísticos como el del equipo de la “Mais Alentejo”. Yo lo voy a intentar. ¡Feliz año nuevo!
segunda-feira, dezembro 28, 2020
Tabuada de diminuir
domingo, dezembro 27, 2020
Algures no Brasil
quarta-feira, dezembro 23, 2020
Confúcio chorou...
terça-feira, dezembro 22, 2020
Crónica: "Rafeiro como Eu" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº153, p. 48)
O que é que o Nero, o Pantufa, o Júnior, o Jacó e o Rocky têm em comum para além de terem sido os cães da minha família? A resposta é fácil: eram rafeiros. Isto é, segundo o dicionário, cães sem “raça definida, resultado do cruzamento de diversas raças” ou, se enveredarmos pelo uso coloquial e pejorativo, algo “que não presta, de má qualidade, com mau aspecto” ou, simplesmente, “vadio”.
A canzoada só não tinha raça definida, pois, cada um à sua maneira, especialmente o Júnior (o incondicional amigo que o Ti Luís, o pai da nossa Sara Rodi, me deu), eram animais dignos, nobres, belos e cheios de humor. Como o Jacó, um Joe Pesci coelheiro de orelhas pontiagudas, mafioso de quatro patas que, depois de um périplo de meses, retornou a casa só para nos esfregar no focinho que jamais lhe domaríamos a Camorra que levava no sangue.
Tive a sorte, desde puto, da amizade canina, porém, a vida afastou, quase duas décadas, a sua presença na minha casa. Senti a saudade do passeio pelo campo, da cabeça nas pernas a pedir festas, da alegria do rabo a abanar ao ver-me, dos sprints atrás da bola ou das divagações do faro à procura de gatos, lebres ou comida no lixo. Na memória, ficou o cheiro a cão, a baba nas calças e esse domingo de convívio do grupo de casais ao qual os meus pais pertenciam na nossa paróquia.
Passei a maior parte do tempo a brincar com um cachorrinho gordo, peludo, uma espécie peluche vivo, sempre atrás dos meus Nike de ir à missa. Lembro-me de perguntar ao dono, um jovem latifundiário, qual era a raça do bichano.
- É um rafeiro alentejano. Queres ver os pais dele?
Já sabia o que era um rafeiro, mas aquele cachorro era como eu, alentejano e sem quaisquer virtudes de berço, além da teimosia atrás dos atacadores e da franqueza da paisagem. O canil era enorme, apesar da corpulência daqueles dois animais, sóbrios e de expressão calma. O macho, maior do que a fêmea, pareceu-me mais cabeçudo. Vieram de imediato ter com o dono que lhes afagou o pêlo grosso e me pôs à vontade para os acariciar, eles não me fariam mal. Um rafeiro alentejano é dócil e cúmplice da criançada. Excelente cão de guarda, seguro e confiante, vigilante nas horas de escuridão, não hesita em usar corajosamente as suas presas robustas para defender os seus de qualquer tipo de intruso.
- Andam soltos à noite pelo monte, à mínima dão logo sinal. Ele tem quatro anos e ela é pouco mais velha. O canito com que andas na brincadeira está à mama sozinho, é um belo bicho! Um amigo meu vem buscá-lo para a semana...
Creio que foi o meu olhar fascinado, ou talvez o lavrador tenha intuído a heráldica do meu apelido, mas as suas palavras tornaram-se um sonho que recordo com sorriso gaiato.
- Se quiseres, para a próxima ninhada, guardo-te um.
O meu pai, ali por perto, assentiu.
Durante meses perguntei se havia notícias do simpático senhor do monte. Soube, anos depois, que lamentavelmente nos deixou antes de tempo. E o meu rafeiro alentejano foi crescendo longe de mim. Acredito que os seus antepassados molossos o impelissem a buscar outros rebanhos por esta Península Ibérica fora. Eu fiz o mesmo.
Quem nasce rafeiro, e alentejano, não escapa ao seu carácter, à planura do seu espírito. E, há um ano, quando a minha alma se amedrontava perante um lobo negro, tão cobarde quanto a sua alcateia dissimulada, regressou ao meu território o rafeiro que me foi oferecido, retomando o seu lugar na família.
O Donnie, o nosso rafeiro alentejano, esse cachorro abandonado aos sete meses, de pelagem lobeira, com o seu peito largo e profundo, pôs-se ao meu lado, recuperando a força da minha vasta planície, profunda em silêncio e teimosa como o sol a romper por entre farrapos de nuvens.
Vive livre pela raia e escolheu ser leal aos meus. Territorial, zela pela tranquilidade do nosso monte. Este cão, que o bom terratenente me guardou, foi duma ninhada tardia. Tem o pedigree que verdadeiramente me importa. O da terra imensa, da tranquilidade, do pão. A herança de gente simples, tisnada de sol e de agruras, cuja genética amastinada me corre pelas veias e me protege o perímetro vital se algum lobo se aproxima.
Crónica: "Rafeiro como Eu" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº153, p. 48)
Já não está nas bancas, e até a podemos encontrar na "Mundo Rural TV" em espanhol, mas aproveito estes dias para partilhar a crónica "Rafeiro como Eu", publicada na "Mais Alentejo" nº153, em que falo um pouco sobre os cães da minha vida, sobre esta minha predileção pelo Rafeiro Alentejano e, para variar, me ponho a divagar. Se vos apetecer ler, aqui está (recomendo a versão do blog), no entanto, vamos ao mais importante: Boas Festas!
Ya no está en los quioscos, e incluso podemos encontrar en "Mundo Rural TV" su versión española, pero aprovecho estos días para compartir la crónica "Rafeiro como Eu", publicada en la “Mais Alentejo” nº153, en la que hablo un poco sobre los perros de mi vida, sobre esta predilección mía por el “Rafeiro Alentejano” (mastín del Alentejo) y, para variar un poco, me pongo a divagar. Se os apetece leer, aquí la tenéis (recomiendo la versión del blog), sin embargo, vamos a lo más importante: ¡Felices Fiestas!
Azul ar (Alexandre O'Neill)
azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu
Alexandre O´Neill
segunda-feira, dezembro 21, 2020
Ninjas na Guiné-Bissau
sábado, dezembro 19, 2020
O catavento da aldeia dos meus antepassados faz por me lembrar que também eu pendo para o lado do vento suão.
sexta-feira, dezembro 18, 2020
"Será possível viver sem antecipar o dia seguinte?"
"Será possível viver sem antecipar o dia seguinte?" oiço, sem ser questionado, e tento responder para mim mesmo. A resposta chegou cansada e sem antecipar nada, excepto a fragilidade destes dias.
quinta-feira, dezembro 17, 2020
Um estranho lume no corpo (António Gonçalves + David Barbosa)
E, ao correr da pena, escreveu este poema num guardanapo:
Dezoito anos. Quase loiros os cabelos.
O verde nos olhos. E um estranho lume
no corpo quando dança.
Saiu agora da longa casa da infância,
e trabalha das nove às seis
algures num subúrbio.
Não gosto de pensar que em breve
não mais terá dezoito anos,
nem quase loiros os cabelos.
Talvez o verde nos olhos, mas já não
um estranho lume no corpo quando dança.
Ramón - Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores
Uma ilustração da portuguesa © Susana Carvalhinhos (1981) para esta greguería do espanhol Ramón Gómez de la Serna (1888 - 1963)
Para saber mais de Susana Carvalhinhos.
terça-feira, dezembro 15, 2020
"Pre-Textos para Pensar" - José Manuel Méndez Sierra (2020)
Uma fotografia de Robert Doisneau
domingo, dezembro 13, 2020
"soltar amarras, para singrar no oceano..." - António Sérgio
"soltar amarras, para singrar no oceano da procura livre, com o horizonte limpo a todos os rumos e aberto à audácia da investigação" - António Sérgio
quarta-feira, dezembro 09, 2020
100 anos do nascimento de Clarice Lispector
Clarice Lispector, nascida Chaya Pinkhasovna Lispector (em russo: Хая Пинхасовна Лиспектор; Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 — Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977).
A QUINTA HISTÓRIA
terça-feira, dezembro 08, 2020
Um cabide na cabeça...
3 de maio (Oswald de Andrade)
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi
Oswald de Andrade
domingo, dezembro 06, 2020
Camões em crioulo cabo-verdiano
A árvore é um todo que entende a harmonia necessária a todas as partes...
quarta-feira, dezembro 02, 2020
"Plandemia"
1 de Dezembro de 2020
terça-feira, dezembro 01, 2020
El invierno del dibujante (Paco Roca)
El invierno del dibujante es una novela gráfica de Paco Roca, publicada originalmente en 2010 por Astiberri Ediciones. (Wikipedia)
Paco Roca investiga en El invierno del dibujante la salida de los autores estrella de la editorial Bruguera para fundar, en tiempos oscuros, una revista que les hiciera más libres.
La vida en Bruguera con la dictadura de Franco como telón de fondo y la salida de sus dibujantes estrella para fundar Tío Vivo, una nueva revista que les permitiera conseguir mayores recursos, mantener el control creativo de sus personajes, etc. –lograr una mayor libertad, en definitiva–, como metáfora del régimen franquista, es el marco y la esencia de El invierno del dibujante, la nueva obra de Paco Roca, Premio Nacional del Cómic 2008 con Arrugas.
Y es que en la España de 1957 ser historietista era un oficio. No eran artistas, eran obreros de la viñeta. Cobraban a tanto por página (o por viñeta), trabajaban a destajo, siguiendo unos patrones establecidos e inamovibles. Renunciaban a sus originales y a sus derechos de autor a cambio del dinero cobrado. Pero en ese 1957 ocurrió algo que quebró la monotonía y sembró la esperanza. Cinco extraordinarios historietistas, famosos por sus personajes, osaron rebelarse.
(Continúa en Astiberri)
Premio al mejor guión de autor español de 2011 en el Salón Internacional del Cómic de Barcelona
Premio a la mejor obra de autor español de 2011 en el Salón Internacional del Cómic de Barcelona
Premio al mejor autor extranjero en el Treviso Comic Book Festival 2011 (Italia)
Premio al mejor guión nacional en Expocómic 2011, el Salón Internacional de Cómic de Madrid
































