sábado, outubro 04, 2014

A minha manhã mais matinal (António Lobo Antunes)

"Assim a minha mãe: morreu à clara luz do dia e foi sepultada à clara luz do dia. Afastei-me um pouco porque sentia a terra das pás a cair-me no corpo". 
António Lobo Antunes in "Visão" (2/10/2014)



segunda-feira, setembro 22, 2014

domingo, setembro 21, 2014

Somos Cante

Somos sangue.
Somos terra.
Somos quente suor.
Somos um rosto de frente.

O sangue torna-se terra,
O suor absorve o lenço
A cara dá-se pelos avós
E a voz torna-se cante.

Eu que nasci no Alentejo
Serei chão
Quando a seca me chegar às veias.

A alma
Essa, pelas veredas,
Além, à sombra,
Caminhará de braço dado
E passo lento,
Sincopado pelo coração
Que nos late à capela.
Comunga-se com água a ferver
Coentros, poejos e alho


E esperamos que o paraíso tenha taberna.

"Pois é" - António Lobo Antunes

quinta-feira, setembro 11, 2014

PAÍS DE AZULEJOS PARTIDOS - Mário Dionísio

PAÍS DE AZULEJOS PARTIDOS - Mário Dionísio
País de azulejos partidos
de erva trepando entre paredes em ruína
País entregue à sua sina
sem olhos e sem ouvidos
País voraz ruminando o almoço
rindo ou chorando incapaz de sorrir
País de corpo aberto a quem está a seguir
País do rastejar entre a pele e o osso
Pulinhos para trás e para a frente
de polegar na cava do colete
foguetes procissões uns copos de palhete
país da pequenez de si mesma contente
País indiferente aos que dão por ele a vida
País herói se não há perigo em sê-lo
País de velhos do Restelo
dado à mão-baixa perto e consentida
País que tudo quer e nada quer tudo suporta
País do faz como vires fazer
País do quero lá saber
do quem vier depois que feche a porta
Mário Dionísio,"Terceira Idade",1982
(1916-1993)

domingo, agosto 31, 2014

O Consentimento do Ódio (foto da Wikipedia, autor desconhecido)


O Consentimento do Ódio (Texto)

Com a mente aturdida, mas passo-a-passo com o mestre sincronizado, um discípulo assume a sua confusão.
- Mas, Mestre está a dizer-me que soltar o nosso ódio resulta benéfico?
Ao qual, o mesmo respondeu, da forma como estavam habituados a reflectir através do diálogo, com outra interrogação.  
- Pensa bem, jovem amigo, não é positivo odiar a iniquidade, a discriminação, o egocentrismo, a altivez e todas essas particularidades que desfiguram o nosso coração?
Continuaram a caminhar lado a lado, à sombra rasgada pelos raios matinais de sol, e chegam a uma pequena clareira no bosque de bambu que com eles madrugava. O mestre contemplou o jovem rosto. Suavemente com uma mão de realidade, mas sem frenesi de verdade, apoiou-a absoluta e sem peso no ombro esquerdo do dilecto jovem.

- Na natureza existe, exibe-nos constantemente a sua total repulsa para manter o seu equilíbrio, para melhorar-se, para desenvolver-se uma e outra vez. Nós somos natureza, mas ao assumirmos diversos tipos de rejeição, acedemos à nossa humanidade. Negar o ódio, sim, é negativo. Nega-se assim o que a natureza partilha livremente connosco. Florescer de cabeça erguida, como agora aqui estamos, iguais ante o mesmo sol.  

Ultimate Fighting Toys

Um combate épico no “Ultimate Fighting Toys”! Dois brinquedos da feira da ladra digladiaram-se na arena da Foz do Arelho para ver quem é que vinha dentro ou fora da mochila do Santiago. Apesar da armadura espacial do Batman, e do "Batman Punch" o Nick Fury levou-o ao tapete com um “flying juji gatame”! "Tap out"! Marvel:1 DC:0.Haverá “rematch”? Terá de ser no inverno…





quinta-feira, agosto 28, 2014

"Corpo" - Valério Licínio (Joaquim Pessoa)

Tenho a certeza que Joaquim Pessoa não tem o seu merecido lugar na lírica portuguesa do final do século XX e, mesmo, na viragem para o século XXI. O motivo, o porquê, dessa ausência de reconhecimento dever-se-á, seguramente, a posturas políticas e sociais assumidas pelo poeta que, como é apanágio do “mainstream” de cabeças pensantes e dominantes, subjugam e promovem o “espectro cultural” de qualquer país. 

Creio que ainda está no activo, mas perdi contacto com as suas últimas obras. Talvez o peso do apelido Pessoa (penso que em homenagem ao polifacetado mestre Fernando) não ajude para o marketing da “coisa”, mas fazendo minhas as suas palavras «julgo que a poesia tem, também, a obrigação de palpar o mundo, de estar atenta aos sintomas e ajudar ao diagnóstico.»

Há quase 20 anos descobri o que significava “apócrifo” graças a uma antologia sua. “Os Herdeiros do Vento”.  À parte de manuais escolares, ou leituras obrigatórias, tenho quase a certeza que foi o primeiro livro de poesia que comprei na vida e na já extinta livraria do centro comercial Eborim, numa dessas minhas peregrinações habituais antes de ir ver algum filme aos, também já extintos, cinemas Alfas Duplex de Évora.

Desse livro guardo e destaco um poema apócrifo de Valério Licínio intitulado “Corpo”. Lio-o tantas vezes nestas duas décadas que pouco falta para o saber de cor. Assim é a memória afectiva, selectiva por bem-estar, faz-nos sentir que há coisas que parecem que foram feitas, escritas, sentidas, exactamente para nós. Porque não ser feliz nesta ilusão?

Apropriar-se do imaterial, para consumo próprio, não aflige o artista, não abusa dos direitos de autor, não é mercantilismo de propriedade intelectual. É, em “stricto sensu”, identificação. Não há nenhum autor que não o almeje, com maior ou menor veemência, por vezes mesmo eclipsada por desprendimento, que quem o lê, aceita a sua partilha, reconheça a sua composição ou, se é caso disso, se reconheça nela. 

Agora revisito-a aqui. Originalmente esta antologia foi dedicada a ilustres amigos do autor como Isabel da Nóbrega, José Saramago, Pedro Tamen e Carlos Pinto Coelho. Como me apropriei deste poema, porque não dedicar-vos? 
Aquele abraço.



quarta-feira, agosto 13, 2014

O que pode voltar a dar entusiasmo e confiança

Há uns quantos dias encontrei esta citação num livro que lhe recomendo vivamente, “Verbo, Deus como Interrogação na Poesia Portuguesa”, de selecção e prefácio do grande Tolentino Mendoça e do Pedro Mexia, e apontei-a logo pelo interesse que me despertou.
Dizer que nutria simpatia pelo autor enquanto figura que ocupa o lugar de Pedro na terra estava a mentir com todos os dentes que tenho na boca, mas no que respeita ao seu fascínio pela experiência do belo, quase ascética, contemplativa, já não posso dizer o mesmo.
Partilho-a aqui consigo, Tio Paulo, porque penso que poderá ser do seu interesse também.
No outro dia, numa mensagem ao meu grande amigo Jorge Neto, lembrei-me de uns versos do Vitorino Nemésio, que não sou capaz de reproduzir “ipsis verbis”, que enunciam que “já não somos homens de Deus, mas continuamos meninos de Deus”…

“O que pode voltar a dar entusiasmo e confiança, o que pode encorajar o ânimo humano a reencontrar o caminho, a elevar o olhar para o horizonte, a sonhar uma vida digna da sua vocação, a não ser a beleza? Vós bem sabeis, queridos artistas, que a experiência do belo […] não é algo acessório ou secundário na busca do sentido e da felicidade, porque esta experiência não afasta da realidade, mas, ao contrário, leva a um confronto cerrado com a vida.”

Joseph Aloisius Ratzinger/ Bento XVI

terça-feira, agosto 12, 2014

O Clube dos Radialistas Aposentados

Em direto com o 1º Ministro, depois de sermos louvados pelo Presidente da República.
O primeiro gravador de k7s que tive na vida foi uma herança partilhada com a minha irmã. Era um daqueles metálicos com um deck e uma coluna plana, de som mais que Mono e sem perspectivas de Stereo. Fora uma transição das mãos do meu pai (que o comprara com restos do soldo do ultramar) para as minhas e as da minha irmã Ana. Aí ouvíamos as nossas k7s, algumas originais como a do Cat Stevens ou dos Beatles (o álbum “Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band”!), gravávamos outras à beirinha da rádio (de indicador e médio ágeis para carregar no play e rec simultâneos), sempre desejando que o locutor não falasse e interrompesse a melodia para dizer “Rádio Jovem” em noventa e qualquer coisa FM.

As rádios locais, algumas piratas, eram o mais global que aquela juventude tinha na época e a rádio da minha terra era um espectáculo! Era bem jovem para aquela cidade branca que pouco mais oferecia a quem lá vivia, o que talvez fosse muito… Se estivéssemos numa de fraternidade, direccionavam-se as antenas para Espanha e gravavam-se os programas dos “40 Principales” o que nos abria as portas para algo mais que os “La Frontera”.

Lá para os idos de 1988, depois de termos visto, num VHS do videoclube, o “Bom Dia Vietnam”, com um então desconhecido Robin Williams para nós, a minha irmã e eu desgravámos umas quantas k7s BASF que o meu pai lá tinha e emulávamos a voz do original locutor do filme no velho e roufenho gravador: “BOOOMMM DIA ÉVORAAAAA!!!”.  
A programação era variadíssima, desde anúncios escatológicos com caca de cão nos “perdidos&achados” (o que confirma a tese do Gato Fedorendo que uma piada com cocó faz sempre rir e que aquelas duas crianças já então o subscreviam), atuações, ao vivo e em directo da minha irmã, de temas atualizados do Paco Bandeira (“sou contrabandista de drogas bem fortes, heroína, cocaína”…), anedotas à velhos dos Marretas, e, obviamente, a não nos faltar no catolicismo de bairro operário, as orações ao anjinho da guarda, de inspiração, quiçá, no terço hertziano em directo de Fátima da RR, com a supervisão, sempre cristã, da minha mãe (tipo Vítor Melícias ou o do apresentador do “70x7” cujo o nome não me lembro e não me apeteceu ir confirmar à net).

As k7s eram giras. Os nossos programas nem tanto. Eram às cores. Amarelas, laranjas, roxas até. Com a modernidade a caminhar para o Stereo e Dolby Surround perdeu-se o encanto colorido pelo preto e branco e, na melhor das hipóteses, lá se encontrava uma transparente a verem-se as bobines, sempre prontas a serem rebobinadas por uma Bic ou Molín sempre à mão.

A ironia de uma tarde a vermos o filme do Robin Williams, ou de esta tarde em que a sua morte me fez rebobinar a minha vida, encontra-se num espólio radiofónico perdido de uma infância feliz, numa irmã ex-locutora de rádio (que o continuará a ser por vocação) e num gajo que se continua a rir com uma piada que meta caca à mistura e sabe que nunca chegará aos calcanhares de um professor como o John Keating.

segunda-feira, agosto 11, 2014

A morte nunca está oculta se se está atento à vida.

A morte nunca está oculta se se está atento à vida.
Querer e assumir o final foi-nos negado
Pelo pecado cometido pela religião
Ao criar deuses à semelhança do homem,
Com necessidade de adoração,
De culto inculto e verdades absolutas
Às quais não se exige fundamentação.

Sem fome corpórea, com nutrida reflexão
Se aborda a morte em tertúlia ou meditação.
É necessidade aguçada para papilas gustativas
De um espirito a salivar.
Buscando um manancial infinito
Para matar a sede, salgada, que gera a morte.

Deus nunca está oculto se se assume a dúvida que existe.
Desejar conhecer o além incerto é-nos recordado constantemente
Por o ruído incómodo de um coração que late.
Disseca-se, certamente, a incerteza que se teve em vida com a morte.
E, a verdade, de contas ao fim, não é coisa que se partilhe.

O canto, homérico e sentido.

O canto pode não ser livre da história, dos grilhões de um presente determinado, delimitado por conjecturas ou presunções ideológicas, mas esse tempo afectará o modo do poeta, será a centelha da liberdade real, pois a liberdade não tem estética…

terça-feira, julho 22, 2014

Assim fico eu sem ti... (Diários)

Durante muitos anos, parte do meu dia-a-dia tinha de se viver longe da Elsa. Hoje não é assim. Os expressos fizeram parte da nossa vida, os seus assentos duros e de cabeceiras brancas, renováveis viagem a viagem, acomodaram a tristeza da despedida mas também a alegria de voltar a quem se partiu.
Há algo nesta fotografia, é difícil de explicar agora reencontrada oito anos depois, que quis que a voltasse a contemplar. Não é um prenúncio de voltar à estrada, da qual me perece que nunca deixaremos, mas o confirmar que é a ela que volvidos estes anos quero continuar a voltar...
A pé, de carro, na rede de expressos... 

O sistema é uma ficção criada pelo homem. Estaremos com falta de imaginação?


...

Esta foto, de um polémico grafitti Lisboeta, tem 5 anos e foi obturada à saída de um qualquer metro que apanhei. Hoje encontro-a no baú digital tristemente atual. Será que não aprendemos mesmo nada com a história?

quarta-feira, julho 16, 2014

Word Written World

Com marcador grosso da vontade, escreve-se, salvo erro como dizia Descartes, o grande livro do mundo.
Se não há espaço evidente, folhas em branco, passagens por inventar, espera, olha em teu redor, entende as limitações das tuas intenções e o passado que levas às costas.
Se não se chega lá com um banco, não tenhas medo de subir a um escadote. Lá de cima vê-se algo mais que a altura administrativa que tens no teu bilhete de identidade.
Continuas a ser tu, baixo se é o caso, mas uns degraus a ver o mundo mais alto.

What the world need is a hug... (Munich)



Herrsching (II) - some seconds later...



Herrsching (I) - Munique


Pêndulo de Foucault (Deutsches Museum)


Um pêndulo de Foucault... sem o Umberto Eco. "A originalidade do pêndulo reside no fato de ter liberdade de oscilação em qualquer direção, ou seja, o plano pendular não é fixo". Passar-se-á o mesmo com o ser humano? A terra girará em seu torno?Não me parece mas quer-me parecer.

segunda-feira, julho 07, 2014

A curiosidade não matou o gato.

A curiosidade não matou o gato.
Isso é uma falsidade feita naturalmente facto
Para que ratos não se misturem contranatura com gatos.

Frase feita farsa
De labor forçado, fechado em cobaia de laboratório,
Ou de holocausto cinza de crematório.
Ou de bibliotecas ateadas pelo fervor inquisitório
Da ideologia dominante do dia.

Curiosidade não mata. Iniquidade sim.

E há labirintos, arames farpados, electrificados,
Que contêm a miséria roedora apenas nos esgotos.
Mas há ironia na fértil demografia andrajosa que rebenta em contenda
Musculada em carne de canhão de ratazana africana ou da China, pelos vistos, comunista.

[Manipula-se o rato na alcatifa em forma maçã de Wall Street
O gato persa de traje europeu, deslembrando o seu perfil egípcio
Ao usar nó inglês no pescoço da gravata].

Alcantarilhas à pinha,
A rebentarem de curiosidade enfática e de condição estática…
“Como é que será ascender a gato?”

A inconveniência chega à costa a bordo de improvisados destroços do asseio felino
Boiando à deriva da vontade de provar queijo manchego, do Loire, ou apenas pão e não
Sobras feita caridade descartada, vomitada em pêlos farta
Pelo gato de morte certa pela oportunidade da curiosidade…

À rataria resta restos e gritaria.
Emigraria com papéis verdes se pudesse
Para onde de curiosidade se morresse.
Ou, já que se é manipulado, que seja em tapete vermelho deslizando
Modernidade de braço dado com um bom teclado.

À falta de indiscreta sorte,
Morre-se de fome e de E-605 forte.

Quero acreditar que ao abrir a curiosidade de um livro, abre uma nova divisão dentro do seu ser

 Pouco mais te posso deixar.

terça-feira, julho 01, 2014

“O Culto do Chá” de Wenceslau de Moraes

“O Culto do Chá” de Wenceslau de Moraes é um pequeno grande livro que se recomenda pelo aroma, pela leveza da infusão e pelo “vago discorrer da alma sonhadora…”


“Mais do que isto: a alma das coisas, o que de inexplicável e de subtil parece emanar de um conjunto qualquer onde os olhos poisem – tranquilidade das sombras, arrogância de um tronco, ternura das relvas… - devia ressaltar sugestivamente do jardinzinho japonês, imprimir-lhe um carácter, uma filosofia, acordando na mentalidade dos visitantes um sentimento de paz, de triunfo, de saudade… “. in p.33, “O Culto do Chá”, Wenceslau de Moraes (1905). 

domingo, junho 29, 2014

Tema del traidor y del héroe (Jorge Luis Borges)



Sho the Platonic Year
Whirls out new right and wrong
Whirls in the old instead,
All men are dancers and their tread
Goes to the barbarous clangour of a gong.

W.B. Yeats: TheTower


Bajo el notorio influjo de Chesterton (discurridor y exornador de elegantes misterios) y del consejero áulico Leibniz (que inventó la armonía preestablecida), he imaginado este argumento, que escribiré tal vez y que ya de algún modo me justifica, en las tardes inútiles. Faltan pormenores, rectificaciones, ajustes; hay zonas de la historia que no me fueron reveladas aún; hoy, 3 de enero de 1944, la vislumbro así.

La acción transcurre en un país oprimido y tenaz: Polonia, Irlanda, la república de Venecia, algún estado sudamericano o balcánico... Ha transcurrido, mejor dicho, pues aunque el narrador es contemporáneo, la historia referida por él ocurrió al promediar o al empezar el siglo XIX. Digamos (para comodidad narrativa) Irlanda; digamos 1824. El narrador se llama Ryan; es bisnieto del joven, del heroico, del bello, del asesinado Fergus Kilpatrick, cuyo sepulcro fue misteriosamente violado, cuyo nombre ilustra los versos de Browning y de Hugo, cuya estatua preside un cerro gris entre ciénagas rojas.

Kilpatrick fue un conspirador, un secreto y glorioso capitán de conspiradores; a semejanza de Moisés que, desde la tierra de Moab, divisó y no pudo pisar la tierra prometida, Kilpatrick pereció en la víspera de la rebelión victoriosa que había premeditado y soñado. Se aproxima la fecha del primer centenario de su muerte; las circunstancias del crimen son enigmáticas; Ryan, dedicado a la redacción de una biografía del héroe, descubre que el enigma rebasa lo puramente policial. Kilpatrick fue asesinado en un teatro; la policía británica no dio jamás con el matador; los historiadores declaran que ese fracaso no empaña su buen crédito, ya que tal vez lo hizo matar la misma policía. Otras facetas del enigma inquietan a Ryan. Son de carácter cíclico: parecen repetir o combinar hechos de remotas regiones, de remotas edades. Así, nadie ignora que los esbirros que examinaron el cadáver del héroe, hallaron una carta cerrada que le advertía el riesgo de concurrir al teatro, esa noche; también Julio César, al encaminarse al lugar donde lo aguardaban los puñales de sus amigos, recibió un memorial que no llegó a leer, en que iba declarada la traición, con los nombres de los traidores. La mujer de César, Calpurnia, vio en sueños abatida una torre que le había decretado el Senado; falsos y anónimos rumores, la víspera de la muerte de Kilpatrick, publicaron en todo el país el incendio de la torre circular de Kilgarvan, hecho que pudo parecer un presagio, pues aquél había nacido en Kilgarvan. Esos paralelismos (y otros) de la historia de César y de la historia de un conspirador irlandés inducen a Ryan a suponer una secreta forma del tiempo, un dibujo de líneas que se repiten. Piensa en la historia decimal que ideó Condorcet; en las morfologías que propusieron Hegel, Spengler y Vico; en los hombres de Hesíodo, que degeneran desde el oro hasta el hierro. Piensa en la transmigración de las almas, doctrina que da horror a las letras célticas y que el propio César atribuyó a los druidas británicos; piensa que antes de ser Fergus Kilpatrick, Fergus Kilpatrick fue Julio César. De esos laberintos circulares lo salva una curiosa comprobación, una comprobación que luego lo abisma en otros laberintos más inextricables y heterogéneos: ciertas palabras de un mendigo que conversó con Fergus Kilpatrick el día de su muerte, fueron prefiguradas por Shakespeare, en la tragedia de Macbeth. Que la historia hubiera copiado a la historia ya era suficientemente pasmoso; que la historia copie a la literatura es inconcebible… Ryan indaga que en 1814, James Alexander Nolan, el más antiguo de los compañeros del héroe, había traducido al gaélico los principales dramas de Shakespeare; entre ellos, Julio César. También descubre en los archivos un artículo manuscrito de Nolan sobre los Festspiele de Suiza: vastas y errantes representaciones teatrales, que requieren miles de actores y que reiteran episodios históricos en las mismas ciudades y montañas donde ocurrieron. Otro documento inédito le revela que, pocos días antes del fin, Kilpatrick, presidiendo el último cónclave, había firmado la sentencia de muerte de un traidor, cuyo nombre ha sido borrado. Esta sentencia no condice con los piadosos hábitos de Kilpatrick. Ryan investiga el asunto (esa investigación es uno de los hiatos del argumento) y logra descifrar el enigma.

Kilpatrick fue ultimado en un teatro, pero de teatro hizo también la entera ciudad, y los actores fueron legión, y el drama coronado por su muerte abarcó muchos días y muchas noches. He aquí lo acontecido:

El 2 de agosto de 1824 se reunieron los conspiradores. El país estaba maduro para la rebelión; algo, sin embargo, fallaba siempre: algún traidor había en el cónclave. Fergus Kilpatrick había encomendado a James Nolan el descubrimiento de ese traidor. Nolan ejecutó su tarea: anunció en pleno cónclave que el traidor era el mismo Kilpatrick. Demostró con pruebas irrefutables la verdad de la acusación; los conjurados condenaron a muerte a su presidente. Este firmó su propia sentencia, pero imploró que su castigo no perjudicara a la patria.

Entonces Nolan concibió un extraño proyecto. Irlanda idolatraba a Kilpatrick; la más tenue sospecha de su vileza hubiera comprometido la rebelión; Nolan propuso un plan que hizo de la ejecución del traidor el instrumento para la emancipación de la patria. Sugirió que el condenado muriera a manos de un asesino desconocido, en circunstancias deliberadamente dramáticas, que se grabaran en la imaginación popular y que apresuraran la rebelión. Kilpatrick juró colaborar en este proyecto, que le daba ocasión de redimirse y que rubricaría su muerte.

Nolan, urgido por el tiempo, no supo íntegramente inventar las circunstancias de la múltiple ejecución; tuvo que plagiar a otro dramaturgo, al enemigo inglés William Shakespeare. Repitió escenas de Macbeth, de Julio César. La pública y secreta representación comprendió varios días. El condenado entró en Dublín, discutió, obró, rezó, reprobó, pronunció palabras patéticas, y cada uno de esos actos que reflejaría la gloria, había sido prefijado por Nolan. Centenares de actores colaboraron con el protagonista; el rol de algunos fue complejo; el de otros, momentáneo. Las cosas que dijeron e hicieron perduran en los libros históricos, en la memoria apasionada de Irlanda. Kilpatrick, arrebatado por ese minucioso destino que lo redimía y que lo perdía, más de una vez enriqueció con actos y palabras improvisadas el texto de su juez. Así fue desplegándose en el tiempo el populoso drama, hasta que el 6 de agosto de 1824, en un palco de funerarias cortinas que prefiguraba el de Lincoln, un balazo anhelado entró en el pecho del traidor y del héroe, que apenas pudo articular, entre dos efusiones de brusca sangre, algunas palabras previstas.

En la obra de Nolan, los pasajes imitados de Shakespeare son los menos dramáticos; Ryan sospecha que el autor los intercaló para que una persona, en el porvenir, diera con la verdad. Comprende que él también forma parte de la trama de Nolan... Al cabo de tenaces cavilaciones, resuelve silenciar el descubrimiento. Publica un libro dedicado a la gloria del héroe, también eso, tal vez, estaba previsto.

Jorge Luis Borges

Ficciones (1941)



sexta-feira, junho 27, 2014

O cimento renega à chuva pretensões de infiltra-se na sua essência concreta.

In a weat morning with Jack London.

O cimento renega à chuva pretensões de infiltra-se na sua essência concreta.
Fá-lo veemente, assertivo na sua mestiçagem de duas pás de areia e uma de cimento.
O seu argumento é interrompido por um conselho de Jack London:
- Sai. Não te preocupes. Um livro encharcado conheceu algo mais que o bolor da biblioteca.
Viro página. Dobro ponta e situo a cabeça na cinzenta boina seca.
O papel assente à chuva o desejo de entranhar-se no seu ser por concretizar-se.


IV/2014

quinta-feira, junho 26, 2014

Há sinceridade nos sentidos. O olfacto tem memória e existe uma história e geografia dos cheiros.

A carrinha do centro de dia era velha e cheirava a velho. Uma Bedford que o Sr. Silva conduzia a meias com tantos outros voluntários do volante que dava voltas à cidade de Évora e arredores para depositar a noite de vários idosos que ali àquela instituição, por tantos motivos, foram parar. Houve outras carrinhas, mas é desta que eu particularmente me lembro, com ar condicionado pelo exterior, mais ainda quando se tem pouco, mais ou menos, de catorze anos.
Há um cheiro a velho nas pessoas. Sei que é uma frase cruel para as sensibilidades assépticas do século XXI, em que a juventude está nas teclas de um smartphone, num deslizar digital de uma rede social ou na imortalidade de uma selfie. Velho. Adjetivo que caracteriza a acumulação de tempo.
Havia um cheiro de acumulação de tempo naquele sítio onde passei tantas horas, por tantos motivos que iam para além do facto de a minha mãe lá trabalhar. Nunca me desagradou, e reconheço que muitas vezes fui obrigado a ir ajudar, quer por imposição familiar, quer por obrigação de dar o exemplo ao receber os trocos dos programas ocupacionais do IPJ. Eram 15 contos e com eles abri uma conta, comprei roupa da moda, ténis de marca registada e bandas desenhadas. Era exigência familiar, maternal, que, em passados imperfeitos, conjugados com circunstâncias de dias que já passaram, hoje agradeço.
Gosto do cheiro do tempo. Gosto do cheiro a velho. Conheci-o primeiro e reconheci-lhe valor quando ainda quase não deixara os cueiros, ou entrara levemente na idade do suor adolescente, do “bacalhau sueco”, como a minha irmã gostava de dizer, ou do olor de quem recentemente descobriu os trabalhos manuais com a ajuda de páginas concretas de revistas ou de cassetes de vídeo gastas sítios específicos.
Há sinceridade nos sentidos. O olfacto tem memória e existe uma história e geografia dos cheiros. Hoje voltei a levantar-me cedo, antes de ir para a escola, fui fazer a volta da carrinha do centro. Quem me esperava era o Ti Veladas, o motorista de turno.
Pelo caminho, com a mochila, cheia de livros e com uma t-shirt para pôr no cacifo, entre mim e o Ti Veladas, fui buscar o Ti Zé da Burra que se riu velhaco de mim e me perguntou se já fodia. A Ida, que catrapiscou o Coelho porque tem um mata-velhos que a levará aos sonhos de passeios e noites de companhia lá para os lados de S. José da Ponte. O Macarrão que me mostrou pela primeira vez o que é ter um AVC. O Ti Manel, cuja filha me costurou uma alva para que me sentisse, ou ela, mais perto de deus. A mãe do Malato que me confessou nunca dera um peido na vida, porque provavelmente o marido deu-os todos por ela, evitando-se assim as suspeitas. E o Sr. António Campaniço. O manco socialista que idolatra o Dr. Mário Soares, que me ensinou, com espectativas de que eu viesse a ser um jovem mais culto, a não dar os meus sentimentos a ninguém, porque são meus, e sim o pêsame de que se chegou ao final da vida. Já cá não está, a mulher morreu sem filhos e ele deve ter tido vaga no Barahona. Terá ficado com a convicção do meu socialismo. Espero que a tenha. Merece-a. Não sou socialista, mas sou um presente que o sente e o guardo para mim, como aquelas lágrimas que derramou quando os nazis ocuparam Paris.
Já estão todos no centro. Ajudei-os a descerem da carrinha, mãos nas mãos, apoiados nos meus antebraços, uma gratidão acompanhada de um sorriso que me tocou com a epiderme enrugada. Já estão todos entregues.
Vou para a escola. Alguma coisa mudou. Já não estou sentado ao lado da Tânia, nem da Carla. Caio em mim e sou professor. Abrimos os livros, escrevemos a giz a data, uno um fio condutor com a aula passada. (Os meus alunos nunca saberão que há um fio que me une a uma carrinha Bedford, a um centro de dia, às voltas e voltas num novelo de vidas velhas, hoje mortas, a um cheiro que não é nostálgico, nem saudoso. Duvido que eles queiram saber. Para eles, 34 anos é um número que vai para velho e o tempo não é coisa que os preocupe no seu tempo).
Apago a giz a data. Volto da escola e faço a volta de regresso a casa. Só tenho um passageiro e não vamos de Bedford. Vamos a pé. Tem três anos e é meu filho. Ainda cheira e bebé. Ainda não acumulou tempo suficiente. Qualquer dia apanhamos a carrinha...

sexta-feira, junho 20, 2014

Troika e 25 de Abril (André Carrilho)

Saída limpa



25 de Abril, 40 anos


André Carrilho is a designer, illustrator, cartoonist, animator and caricature artist, based in Lisbon, Portugal.

He has won several national and international prizes and has shown his work in group and solo exhibitions in Portugal, Spain, Brazil, France, Czech Republic and USA.


(Dados da sua página em Flickr. A sua galeria)







terça-feira, junho 10, 2014

Manhã de sábado.

Levanto-me da semana. Descalço em junho frio e com os óculos por pôr na cara levada pela almofada. De um lado o sono de uma esposa que repousa e é melhor não acordar para uma rotina cansada da espertina madrugadora. Pode ter uma consequência mal-humorada. Do outro, ainda silencioso, o dormir a brincar do meu filho sem léxico de colégio. O silêncio da casa é impossível pelos acervos de brinquedos e pelos livros soltos patrulhados por gatas que lambem patas. Levanto-me para o papel. A noite deu-me sonho e a madrugada pôs-me uma nota no bolso. Tenho de a ler antes que vá à máquina de lavar, como tantas outras notas, bilhetinhos discretos, que a vida me dá e apenas se estilhaçam na algibeira. Saboreio o hálito do hábito das manhãs sentado na mesa onde escrevo. No entorno do computador tenho um torno. Vermelho. Enroscado na madeira. Aqui aperto palavras. Ligeiramente aperto para a direita. Alivio algo, caso sinta queixa do que se aperta. As palavras também se serram, se limam, se fresam. E continuam iguais. Palavras. Tal como a madeira ou o metal. Sinto-me um artesão sempre que uso as minhas mãos. Sou feliz ao pensar-me assim. Do outro lado ouço lençóis que falam com um fungar no nariz. Oiço uma chupeta que me chama papá. Desaperto o torno e solto a manhã.
Vou fazer café.


7/VI/2014

terça-feira, junho 03, 2014

"Península, ponto de interrogação" - José Luís Peixoto


Arregaçada manga

Arregaçada manga
Queimado suor no antebraço
Descobre cicatrizes que já não se esforçam por se ocultar.

Actrizes de um palco duro,
Aberto a pulso e machadada,
Dessas que nunca serão premiadas
Nem com um fútil aplauso de gala.

Descobre-se o tempo no mecanismo,
Aberto no botão de punho do empirismo.
As mãos, em pontas de dedos com espinhas saídas de cima
De unhas feridas, abrem a fivela do passado tapado num relógio.
As lâminas distinguidas, arremangados fantasmas do meu desígnio, do dia do meu suicídio.


(Thinking of Tom Joad)

Arregaçada manga


sábado, maio 24, 2014

O Pássaro


O Pássaro

[Com herança de caçador que tenho, com as armas que sei manejar, este tentei salvá-lo. 
Tentei mesmo. Talvez tivesse sido melhor ter a coragem de lhe dar um tiro.]


O Pássaro

O pássaro entrou na biblioteca
Fugido da incerteza da natureza do mês de maio.
Da intempérie abrigou-se pelas várias estantes,
Adoptado ao cuidado dum livro,
Antigo de história e de fotografias,
Do seu exterior convicto de biologia.

Passaram-se os dias e a ave viu
O sol raiar nos atris extremos de oriente.
Olhou ao seu redor. De Baroja despediu-se com um pio
Agradecido. Reconheceu a León Felipe a realeza.
Súbdito de versos e orações de caminhante,
Fizera ninho num cantinho dedicado à lira.

E como se Deus o quisera, vislumbrou o horizonte
Nascente. A poente ficava o legado dos seus mestres.
Ligeiro voou, consolado que voava abrigado
Pelo bater das páginas dum outrora silencioso albergue.

Voou, voou. De árvores apenas via o seu papel
Duma janela transparente de barreira entre ele
E os seus.

As penas livres de movimento, mas de liberdade barrada por um vidro.
Acalmou suas penas, voou, do desânimo à confiança, à secção dos atlas
E encontrou na geografia um erro de ortografia e não de cartografia.

Pôs para trás das asas o fascínio das prateleiras que o abrigaram.
Pousou na realidade de madeira, aceitou o cansaço escapular,
Do regaço escapou-se ânimo e esperança. O toque final na asa
Deu-o ao aceitar o desespero, ignorando que o sofrimento e a dor
Não são o verdadeiro predador.

Caçador de si, esquivou chumbadas biográficas
E repousou, uma última vez, numa lombada de ficção.
Aterrou o olhar que ainda sobrevoava o corpo,
No outro lado, no cantinho onde descobrira naturalmente a poesia.

Um piar, sem lírica, expiou com pia violência
A sua alma aos campos da sua criação,
Dos seus pais, dos rios dos seus amores,
Ao vento, no qual ainda educou a voar seus filhos.

Desviveu, cansado do voar de tomo em tomo.
A direcção da saída camuflada estava. Desarrumada
Por uma pilha de livros. Morreu. Encontrei o seu cadáver
Na prateleira quando procurava “Os Jogos da Fome”.


segunda-feira, maio 19, 2014

Corporis (dedicado a José Manuel Méndez)

¿Cuántos universos caben en el desnudo cuerpo de un segundo?
¿En un segmento de un momento?
¿En el ignoto ego despojado?
¿En una cámara de tormento?
¿En un desnudo a la minute?

La multitud de versos,
Convexos y blancos como el lienzo de la noche,
Lejano del presente
Que grita
Que no estás.

Eres la duda.
El abismo huérfano de ti mismo
Y del futuro viuda de velo
Que descubre que piel y alma
Son lo mismo.

Si la sal que traigo en la epidermis,
Y no la estampa de tu sudor encima de mí,
Son de lágrimas residuos…
Que sea a blanco y negro.

Saturada
Siento y me siento…
Igual que tú en cuclillas. Ausente.
Corpóreo en un gesto
Pero con una mirada aún por revelar.  


(Foto de José Manuel Méndez, modelo Luisa Martinez)

quinta-feira, maio 08, 2014

A uma freira chamada dona Beatriz Pereira...

Gravura feita em 1792 pelo arquiteto francês Jean-Jacques Lequeu


A uma freira chamada dona Beatriz Pereira
de Manuel Soares de Albergaria

Crescei, meu doce amor, minha Pereira,
Na devação que tendes a João,
Que inda podeis dar fruto temporão
Se acaso vos fazeis são joaneira.

Se não fora essa grade e a porteira,
Eu vos dera um enxerto de enche-mão,
Com o qual o travesso hortelão
Dá c'o ninho dávesso de uma freira.

Porém quando vos eu tal garfo der,
Haveis de dar a Amor dele tributo,
Que de qualquer trabalho sempre o quer.

Se saímos de aqui a pé enxuto,
Farei como homem, vós como mulher,
De outrem será a enveja, e nosso o fruto.


(Lido aqui: Árvore de Letras)



terça-feira, abril 29, 2014

O aroma do alento

O aroma do alento
Trá-lo de suão o vento,
Mas no Alentejo dos temperos
Encontra-lo num raminho de coentros.

António Orla

sexta-feira, abril 25, 2014

quinta-feira, abril 24, 2014

Acta de Abril (ainda por aprovar)

Acta de Abril (ainda por aprovar)

Num país obscuro, numa exacta madrugada do vigésimo quinto dia do quarto mês do ano de 1974, no Terreiro do Paço (posteriormente no Largo do Carmo) e tendo a maioria cidadã recém-desoprimida, teve lugar o começo de uma utopia florida a cravo vermelho.
Na impossibilidade de nomear todos os presentes, identifica-se apenas o seu porta-voz:
Fernando José Salgueiro Maia.
Patente:
De cavalaria capitão.
Estiveram ausentes:
Todos os descrentes que em cada rosto existe igualdade.
Ordem do dia:
1)      Restaurar a liberdade;
2)      Recuperar a dignidade;
3)      Reimplantar a esperança;
4)      Readquirir o direito a questionar em alta voz.
Todos os presentes efusivamente renegam o dia 24. A emancipação de um povo saiu à rua. A imperfeição não se erradicou, apenas disso ficou a sensação. A integridade voltou para os braços da sua mulher em Santarém.  

E, nada mais havendo a tratar, foi lavrada a presente acta que, nunca será lida nem aprovada, muito menos vai ser assinada pelo actual Presidente da República, apenas por mim, um sonhador, na qualidade de secretário, que a redigi.

Acta de Abril (ainda por aprovar)


domingo, abril 13, 2014

segunda-feira, abril 07, 2014

Sul (Jorge Fallorca)


Memória descritiva

Sul

O Sul não existe.
E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.

Jorge Fallorca 

[Longe do mundo; frenesi, 2004]


O cheiro dos livros é o blogue de Jorge Fallorca, que infelizmente morreu há poucos dias. Vale a pena visitá-lo, a sério.



A ti me confesso converso.

Como começar um verso
que não tem passado
nem futuro?
Com o presente da incerteza
ou com a delicadeza do acaso,
Furtuito e furtivo,
Em cada minuto que vivo
Anelando
Uma qualquer paz perspicaz?

Todo o universo não cabe num verso.
Um verso, uno, dificilmente divisível,
Jaz fraccionado pelo ego e seu manejo.
À nossa frente está o acidente do presente.
Não há verso, reverso, perverso… incontrolado.
Fernando. Onde estás travesso?
- Aqui, de pé, cómodo encostado à cómoda.
Ouço alguém a entrar e fechar a porta.
A oportunidade, mãe de verdade, tem tendência à orfandade.
Não quero ar fresco. Gosto de ambientes tétricos. Ridículos.
Do outro lado está o mistério métrico dum verso.
Ansiando um começo, tropeço, em mim mesmo, e escrevo:
Prosa, a ti os meus versos devo.