terça-feira, junho 10, 2014

Manhã de sábado.

Levanto-me da semana. Descalço em junho frio e com os óculos por pôr na cara levada pela almofada. De um lado o sono de uma esposa que repousa e é melhor não acordar para uma rotina cansada da espertina madrugadora. Pode ter uma consequência mal-humorada. Do outro, ainda silencioso, o dormir a brincar do meu filho sem léxico de colégio. O silêncio da casa é impossível pelos acervos de brinquedos e pelos livros soltos patrulhados por gatas que lambem patas. Levanto-me para o papel. A noite deu-me sonho e a madrugada pôs-me uma nota no bolso. Tenho de a ler antes que vá à máquina de lavar, como tantas outras notas, bilhetinhos discretos, que a vida me dá e apenas se estilhaçam na algibeira. Saboreio o hálito do hábito das manhãs sentado na mesa onde escrevo. No entorno do computador tenho um torno. Vermelho. Enroscado na madeira. Aqui aperto palavras. Ligeiramente aperto para a direita. Alivio algo, caso sinta queixa do que se aperta. As palavras também se serram, se limam, se fresam. E continuam iguais. Palavras. Tal como a madeira ou o metal. Sinto-me um artesão sempre que uso as minhas mãos. Sou feliz ao pensar-me assim. Do outro lado ouço lençóis que falam com um fungar no nariz. Oiço uma chupeta que me chama papá. Desaperto o torno e solto a manhã.
Vou fazer café.


7/VI/2014

terça-feira, junho 03, 2014

"Península, ponto de interrogação" - José Luís Peixoto


Arregaçada manga

Arregaçada manga
Queimado suor no antebraço
Descobre cicatrizes que já não se esforçam por se ocultar.

Actrizes de um palco duro,
Aberto a pulso e machadada,
Dessas que nunca serão premiadas
Nem com um fútil aplauso de gala.

Descobre-se o tempo no mecanismo,
Aberto no botão de punho do empirismo.
As mãos, em pontas de dedos com espinhas saídas de cima
De unhas feridas, abrem a fivela do passado tapado num relógio.
As lâminas distinguidas, arremangados fantasmas do meu desígnio, do dia do meu suicídio.


(Thinking of Tom Joad)

Arregaçada manga


sábado, maio 24, 2014

O Pássaro


O Pássaro

[Com herança de caçador que tenho, com as armas que sei manejar, este tentei salvá-lo. 
Tentei mesmo. Talvez tivesse sido melhor ter a coragem de lhe dar um tiro.]


O Pássaro

O pássaro entrou na biblioteca
Fugido da incerteza da natureza do mês de maio.
Da intempérie abrigou-se pelas várias estantes,
Adoptado ao cuidado dum livro,
Antigo de história e de fotografias,
Do seu exterior convicto de biologia.

Passaram-se os dias e a ave viu
O sol raiar nos atris extremos de oriente.
Olhou ao seu redor. De Baroja despediu-se com um pio
Agradecido. Reconheceu a León Felipe a realeza.
Súbdito de versos e orações de caminhante,
Fizera ninho num cantinho dedicado à lira.

E como se Deus o quisera, vislumbrou o horizonte
Nascente. A poente ficava o legado dos seus mestres.
Ligeiro voou, consolado que voava abrigado
Pelo bater das páginas dum outrora silencioso albergue.

Voou, voou. De árvores apenas via o seu papel
Duma janela transparente de barreira entre ele
E os seus.

As penas livres de movimento, mas de liberdade barrada por um vidro.
Acalmou suas penas, voou, do desânimo à confiança, à secção dos atlas
E encontrou na geografia um erro de ortografia e não de cartografia.

Pôs para trás das asas o fascínio das prateleiras que o abrigaram.
Pousou na realidade de madeira, aceitou o cansaço escapular,
Do regaço escapou-se ânimo e esperança. O toque final na asa
Deu-o ao aceitar o desespero, ignorando que o sofrimento e a dor
Não são o verdadeiro predador.

Caçador de si, esquivou chumbadas biográficas
E repousou, uma última vez, numa lombada de ficção.
Aterrou o olhar que ainda sobrevoava o corpo,
No outro lado, no cantinho onde descobrira naturalmente a poesia.

Um piar, sem lírica, expiou com pia violência
A sua alma aos campos da sua criação,
Dos seus pais, dos rios dos seus amores,
Ao vento, no qual ainda educou a voar seus filhos.

Desviveu, cansado do voar de tomo em tomo.
A direcção da saída camuflada estava. Desarrumada
Por uma pilha de livros. Morreu. Encontrei o seu cadáver
Na prateleira quando procurava “Os Jogos da Fome”.


segunda-feira, maio 19, 2014

Corporis (dedicado a José Manuel Méndez)

¿Cuántos universos caben en el desnudo cuerpo de un segundo?
¿En un segmento de un momento?
¿En el ignoto ego despojado?
¿En una cámara de tormento?
¿En un desnudo a la minute?

La multitud de versos,
Convexos y blancos como el lienzo de la noche,
Lejano del presente
Que grita
Que no estás.

Eres la duda.
El abismo huérfano de ti mismo
Y del futuro viuda de velo
Que descubre que piel y alma
Son lo mismo.

Si la sal que traigo en la epidermis,
Y no la estampa de tu sudor encima de mí,
Son de lágrimas residuos…
Que sea a blanco y negro.

Saturada
Siento y me siento…
Igual que tú en cuclillas. Ausente.
Corpóreo en un gesto
Pero con una mirada aún por revelar.  


(Foto de José Manuel Méndez, modelo Luisa Martinez)

quinta-feira, maio 08, 2014

A uma freira chamada dona Beatriz Pereira...

Gravura feita em 1792 pelo arquiteto francês Jean-Jacques Lequeu


A uma freira chamada dona Beatriz Pereira
de Manuel Soares de Albergaria

Crescei, meu doce amor, minha Pereira,
Na devação que tendes a João,
Que inda podeis dar fruto temporão
Se acaso vos fazeis são joaneira.

Se não fora essa grade e a porteira,
Eu vos dera um enxerto de enche-mão,
Com o qual o travesso hortelão
Dá c'o ninho dávesso de uma freira.

Porém quando vos eu tal garfo der,
Haveis de dar a Amor dele tributo,
Que de qualquer trabalho sempre o quer.

Se saímos de aqui a pé enxuto,
Farei como homem, vós como mulher,
De outrem será a enveja, e nosso o fruto.


(Lido aqui: Árvore de Letras)



terça-feira, abril 29, 2014

O aroma do alento

O aroma do alento
Trá-lo de suão o vento,
Mas no Alentejo dos temperos
Encontra-lo num raminho de coentros.

António Orla

sexta-feira, abril 25, 2014

quinta-feira, abril 24, 2014

Acta de Abril (ainda por aprovar)

Acta de Abril (ainda por aprovar)

Num país obscuro, numa exacta madrugada do vigésimo quinto dia do quarto mês do ano de 1974, no Terreiro do Paço (posteriormente no Largo do Carmo) e tendo a maioria cidadã recém-desoprimida, teve lugar o começo de uma utopia florida a cravo vermelho.
Na impossibilidade de nomear todos os presentes, identifica-se apenas o seu porta-voz:
Fernando José Salgueiro Maia.
Patente:
De cavalaria capitão.
Estiveram ausentes:
Todos os descrentes que em cada rosto existe igualdade.
Ordem do dia:
1)      Restaurar a liberdade;
2)      Recuperar a dignidade;
3)      Reimplantar a esperança;
4)      Readquirir o direito a questionar em alta voz.
Todos os presentes efusivamente renegam o dia 24. A emancipação de um povo saiu à rua. A imperfeição não se erradicou, apenas disso ficou a sensação. A integridade voltou para os braços da sua mulher em Santarém.  

E, nada mais havendo a tratar, foi lavrada a presente acta que, nunca será lida nem aprovada, muito menos vai ser assinada pelo actual Presidente da República, apenas por mim, um sonhador, na qualidade de secretário, que a redigi.

Acta de Abril (ainda por aprovar)


domingo, abril 13, 2014

segunda-feira, abril 07, 2014

Sul (Jorge Fallorca)


Memória descritiva

Sul

O Sul não existe.
E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.

Jorge Fallorca 

[Longe do mundo; frenesi, 2004]


O cheiro dos livros é o blogue de Jorge Fallorca, que infelizmente morreu há poucos dias. Vale a pena visitá-lo, a sério.



A ti me confesso converso.

Como começar um verso
que não tem passado
nem futuro?
Com o presente da incerteza
ou com a delicadeza do acaso,
Furtuito e furtivo,
Em cada minuto que vivo
Anelando
Uma qualquer paz perspicaz?

Todo o universo não cabe num verso.
Um verso, uno, dificilmente divisível,
Jaz fraccionado pelo ego e seu manejo.
À nossa frente está o acidente do presente.
Não há verso, reverso, perverso… incontrolado.
Fernando. Onde estás travesso?
- Aqui, de pé, cómodo encostado à cómoda.
Ouço alguém a entrar e fechar a porta.
A oportunidade, mãe de verdade, tem tendência à orfandade.
Não quero ar fresco. Gosto de ambientes tétricos. Ridículos.
Do outro lado está o mistério métrico dum verso.
Ansiando um começo, tropeço, em mim mesmo, e escrevo:
Prosa, a ti os meus versos devo.

quinta-feira, março 27, 2014

Diário I: A minha aparição, nesta linha onde o Bexiguinhas matou aquela galinha.

“E, todavia como é difícil explicar-me! Há no homem o dom perverso da banalização. Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir com palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco. Mas as palavras são pedras.” 
 Vergílio Ferreira, Aparição


Sento-me aqui nesta linha e recordo.
(Uma linha de pouco serve
Se se sentencia tudo pela mesma bitola)
Pé ante pé, na ferrugem do carril
Da largura da minha sola de sapato
Como percorri gerações de caminhos
De ferro por onde já poucas vezes passam
Comboios, automotoras, dresines.
Gente.

Todas as infâncias têm um descampado.
Algumas têm uma linha.
O meu passado escampado
Tem uma cabana,
A morte num cão, uma campa
Florida, rendida à inocência de dois irmãos e uma vizinha.
Tem uma raposa morta,
Uma salta-pocinhas escalpada
Da curiosidade esfolada à putrefacção.
Tem cardos. Tem fardos na paisagem seca da eira.
Mas tem pistas, montes, barrancos de bmx,
(Identificadas com esponjas no volante, cobertas com napa agarradas ao velcro)
Território ocupado pela gaiatagem do bairro que tanto
Atraiu outros ao seu território, atraiu a passar a linha.
As batalhas fronteiriças resolviam-se à pedrada,
A munição mais à mão de semear
Imperfeita como paralelos mas ótima para arremessar.
Não participei nestas épicas batalhas de joelheiras nas calças sem marca de ganga.
Não tinha idade, nem cabedal de fisga, para me alistar.
A salvo, pela linha, não fugi para casa, fiquei a observar
Camaradas a apedrejar pelo que era seu,
Sustido por carris aparafusados a travessas secas,
Manchadas a óleo
Das engrenagens do comboio.

Para que esta crónica seja digna
Encontrar-lhe-emos um prego,
Com um número qualquer
De dois algarismos.

Do maquinista que percorre a linha nasceu este cronista.
Montado no seu cavalo de ferro
Trazia para casa o bom cheiro
Que leva o que leva o viajante.
O cheiro do maquinista que, como aqui escrevo, conquista
O direito a apear-nos sãos e salvos, mais ricos.

O descampado não tinha trabalhos de casa. Já tinham que estar feitos e sem nenhum trauma.
Tinha a odisseia da feia vegetação e do entulho ilegal que todos entulhávamos e com o qual coexistíamos. Era esse o ambiente dos guardiães da linha.
Esta não seria a mesma sem um quarteto fantástico, como o que lia em bandas desenhadas brasileiras, mas americanas, com as minhas ilusões de heroísmo.
Eu. Um amigalhaço de bombeiros. Amigalhaço (amizade forte como o aço).
Com o Carlos. O melhor amigo que o Karate Kid podia ter.
E dois gémeos. Diferentemente iguais. Arqui-inimigos de primária sem os quais o meu heroísmo de bd não podia viver.
Como havia tanto amor em não suportar essas almas.
O Nuno Gémeo era para sempre o meu colega de carteira e certeiro com o seu sorriso que melhor me faz. (desculpa a camisa rasgada na emboscada na entrada da casa, dos prédios da caixa, da avó do Caíta)
O Luís Gémeo, irrequieto e desperto, colecionador de sacos de plástico de giz. (a professora ficou espantada depois de dizer:
- tragam todo o giz que tiverem em casa!
E aí a deixaste plantada, com a sinceridade de criança num saco de plástico cheio de cal branca com o qual escreveste esse episódio)
Lembras-te quando sacaste o corta-unhas (com capa grilos) ao Carlos? Que violência tão descarada! Como a espessura da tua juba, louca, adjectivo da pluralidade da nossa puerilidade.

A linha do nosso descampado unia todos. Une. Mesmo a linha ténue da memória. Da estação até Mora, Estremoz, Portalegre, ou até qualquer um de nós. Apeava e albergava um Carlos, um Luís, dois gémeos. Traçava a boa saúde de um bairro e parecia-nos, diante dos olhos, nos delinear a infância, dando-nos, ao mesmo tempo, hora a hora, um comboio para sair.
Eu saí. Apanhei o Lusitânia.
Mas continuo convosco sentado naqueles montes de torrões. Naquela terra.
A contarmos vagões.
Um. Dois. Três com a sigla da CP.
À frente conduz o meu pai. Esperamo-lo no descampado.
Olha pá, o Sr. Pinto acenou-nos descansado.
Tem a certeza que já fizemos o ditado
Porque esse era o nosso TPC.

quarta-feira, março 26, 2014

ABRIL por Luis Leal (artigo para "Moñino Times", 2014)

No es la primera vez que escribo sobre abril. Ni la segunda, y no me parece que vaya a ser la última. No escribo sobre el cuarto mes del año, ni de su perspectiva en el calendario, de cómo puede tener aguas mil o primaverales sonrisas abiertas por días soleados. Eso tiene que ver con milenios de herencia climatológica y no se puede confundir con este Abril de la “ternura de los cuarenta” o, teniendo en cuenta la coyuntura actual, el Abril de la crisis de los cuarenta, como le venden la moto, sin que le haga falta probar que mantiene su espíritu original.
Seguro que, los más atentos, o los que conozcan un poco del siglo XX portugués, sabéis que escribo sobre “otro” Abril, que me atrevo a escribir con mayúscula, quizás más lírico que primaveral, un Abril florido por la libertad agarrada, con el puño cerrado, a un clavel. Eso se pasó hace precisamente cuatro décadas, en el 25, ese clavel salió a la calle y acabó con una de las dictaduras más largas del último siglo.
Portugal, este país aquí al lado, este hermano de raya recortada de 1234 km dibujada a lo largo de ocho siglos, es evidentemente pequeño y residual para la economía mundial. Se caracteriza por PIBs y presupuestos generales raros, rectangulares (como la forma geográfica que adoptó como su frontera, la más antigua de Europa), con crisis anacrónicas que insisten en seguir en el orden del día (al mismo tiempo tan útiles para justificar desigualdades que se perpetúan en su DNA sociocultural), pero a esto se junta un efecto antiinflamatorio y baños de iodo en un atlántico paliativo vigilado por Fátima, la virgen vigilante de la playa.
Si hablamos en estos términos tan de moda de macroeconomías  (léxico de microespíritus y empatías deficitarias), potencias, tipo G7 (una menos, porque estamos enfadados con la Federación Rusa), el país vecino no se impone. La única G que conoce es de la ametralladora G3, recuerdo del estrés postraumático del Ultramar, herida abierta obligada, infectada, o, en buen día, en un ambiente de optimismo que no abunda hoy en día en el seno de Troikas, FMIs o austeridades, le podrá recordar que esa misma arma fue callada por claveles rojos, sin ideología pero de esperanza.
Es en este ámbito que Portugal se puede imponer. Con su cultura, su historia real, no solamente trágica, para justificar un “fado” patrimonio intangible de la humanidad, el lirismo es igual de intangible y su insolvencia mata tanto como la escasez de pan.  
Hace cuarenta años, este pequeño país amordazado devolvió la esperanza de libertad a una península sumergida, aislada, por dos regímenes cómplices, pero, convenientemente, de espaldas.
Hace cuarenta años, en una mañana fría de abril, según los versos de Pedro Ayres de Magalhães, “un gesto puro coincidió con la multitud que todo esperaba y descubrió que la razón de un pueblo entero lleva tiempo a construirse”.
Hace cuarenta años, quien vivió Abril, se acostaba con la sensación que había cambiado el mundo. La historia hoy nos dice que sí. Es verdad. La gente ya podía ver en los cines la violencia “for the sake of violence” de “La Naranja Mecánica”, el erotismo de mantequilla de “El Último Tango en París” y, también, el sentido común de Burt Lancaster en “El Gatopardo”.
Se pasaron cuarenta años. El gesto puro creció y una multitud centrífuga le apartó de su esencia. Es decir, emigró. La esperanza se fue con el huracán Maddof (de los mercados), pero en facebook dijeron que algunos pelos se quedaron en los árboles. Pronto se esperan más tweets.  
Sin embargo, yo sigo aquí, delante del ordenador, seguro que escribo sobre un Abril portugués, pero con la sensación que, si TVE me llamara, sería capaz de hacer una transición democrática para un episodio de “Cuéntame”, hacer el puente con la realidad de la simpática familia Alcántara. 

segunda-feira, março 17, 2014

El reloj de la biblioteca


El reloj de la biblioteca

En la pared de la biblioteca,
Las agujas del reloj se vuelven atrás.
El defectuoso mecanismo,
[Crónico],
Me obliga a aceptar,
[Colgado],
Que el pasado
Es evidente delante de nuestros ojos.

Todo este tictac,
Viajero en el tiempo,
Me despierta,
Como una aguja que me pincha,
Con el dolor
De no poder volver atrás.
Abrazar tu olor.

Pero, lo peor,
Es que este reloj
No tiene futuro.
Ni esperanza de arreglo.
Pues no merece la pena
Invertir tiempo en el tiempo.

Definição de lirismo

Li-ris-mo:
(substantivo masculino)
Hipotecar-se para que a sua poesia possa publicar-se.

sexta-feira, março 14, 2014

domingo, fevereiro 23, 2014

Um desenho de Paulo Ito





Paulo Ito, paulista, desenhou este Dia mundial com carro. E deu os parabéns aos motoristas... :) 



sábado, fevereiro 22, 2014

Câmeras fotográficas antigas #2: 1880-1900



Nas últimas décadas do século XIX as câmeras fotográficas evoluíram bastante e tornaram-se mais pequenas, mais leves e mais acessíveis. Um dos factores por trás desta evolução foi o aperfeiçoamento das chapas e das emulsões sensíveis; o outro chamou-se George Eastman. Este é o segundo artigo dedicado às câmeras fotográficas antigas.

Obvious (tem também o primeiro artigo)





sexta-feira, fevereiro 21, 2014

A uma quadrada pedra que apanhei e me acompanha no caminho...

A Pedro L. Cuadrado.
Que nunca quis ser meu mestre,
mas sim meu amigo…
Não há forma mais humilde de mestria.

33 anos nos separam desde o meu berço.
É a única raia, certificada, que entre nós existe.
O nó cego, esse, bem penteado, não se desate,
não desaperte a corda atada a Pedro, minha

pedra, papel, pilar lírico de apontamentos
na margem esquerda do livro, o lembrete,
a lápis que não rejeita um verso, quanto
mais três, a quem quer que por bem vier.  

A mestria da grandeza do infinito é subtil,
e inútil, convenhamos. Adversa à rima,
à métrica, a cartesiana estética do útil

não nos faz advir sem a tétrica do contratempo.
Encurtam-se braços de abraços. Apartam-se pedras
de sendas angulares e, a paisagem, essa, paupérrima.


(Sem que de isso, uma inteira existência, nos tenhamos dado conta. Passa-se e não nos apercebemos que os melhores pilares são feitos de pedra. Granito frio, extraído em Zamora e trabalhado por mães de artesãos salmantinos. A erosão do tempo foi-o levando rumo ao sul… onde, como dizia Gedeão, “me sento e descanso”)

quinta-feira, fevereiro 20, 2014

Carta ao Pai (Fernado Tordo)


Seguem-se as linhas que o escritor João Tordo dedicou em carta ao seu pai, o músico Fernando Tordo, que aos 65 anos, emigrou para o Brasil.


" Ontem, o meu pai foi-se embora. Não vem e já volta; emigrou para o Recife e deixou este país, onde nasceu e onde viveu durante 65 anos.

A sua reforma seria, por cá, de duzentos e poucos euros, mais uma pequena reforma da Sociedade Portuguesa de Autores que tem servido, durante os últimos anos, para pagar o carro onde se deslocava por Lisboa e para os concertos que foi dando pelo país. Nesses concertos teve salas cheias, meio cheias e, por vezes, quase vazias; fê-lo sempre (era o seu trabalho) com um sorriso nos lábios e boa disposição, ganhando à bilheteira.

Ontem, quando me deitei, senti-me triste. E, ao mesmo tempo, senti-me feliz. Triste, porque o mais normal é que os filhos emigrem e não os pais (mas talvez Portugal tenha sido capaz, nos últimos anos, de conseguir baralhar essa tendência). Feliz, porque admiro-lhe a coragem de começar outra vez num país que quase desconhece (e onde quase o desconhecem), partindo animado pelas coisas novas que irá encontrar.

Tudo isto são coisas pessoais que não interessam a ninguém, excepto à família do senhor Tordo. Acontece que o meu pai, quer se goste ou não da música que fez, foi uma figura conhecida desde muito novo e, portanto, a sua partida, que ele se limitou a anunciar no Facebook, onde mantinha contacto regular com os amigos e admiradores, acabou por se tornar mediática. E é essa a razão pela qual escrevo: porque, quase sem o querer, li alguns dos comentários à sua partida.

Muita gente se despediu com palavras de encorajamento. Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros.

Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa cheia de defeitos como todos nós – e como todos os autores destes singelos insultos –, fez aquilo que lhe restava fazer.

Quer se queira, quer não, ele faz parte da história da música em Portugal. Sozinho, ou com Ary dos Santos, ou para algumas das vozes mais apreciadas do público de hoje – Carminho, Carlos do Carmo, Mariza, são incontáveis –, fez alguns dos temas que irão perdurar enquanto nos for permitido ouvir música.

Pouco importa quem é o homem; isso fica reservado para a intimidade de quem o conhece. Eu conheço-o: é um tipo simpático e cheio de humor, que está bem com a vida e que, ontem, partiu com uma mala às costas e uma guitarra na mão, aos 65 anos, cansado deste país onde, mais cedo do que tarde, aqueles que o mandam para Cuba, a Coreia do Norte ou limpar WC e cozinhas encontrarão, finalmente, a terra prometida: um lugar onde nada restará senão os reality shows da televisão, as telenovelas e a vergonha.

Os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos, que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país. A segunda foi a felicidade, que está ausente dos rostos de quem anda na rua todos os dias. A terceira foi a esperança. E a quarta foi o meu pai, e outros como ele, que se recusam a ser governados por gente que fez tudo para dar cabo deste país – do país que ele, e milhões de pessoas como ele, cheias de defeitos, quiseram construir: um país melhor para os filhos e para os netos. Fracassaram nesse propósito; enganaram-se ao pensarem que podíamos mudar.

Não queremos mudar. Queremos esta miséria, admitimo-la, deixamos passar. E alguns de nós até aí estão para insultar, do conforto dos seus sofás, quem, por não ter trabalho aqui – e precisar de trabalhar para, aos 65 anos, não se transformar num fantasma ou num pedinte –, pegou nas malas e numa guitarra e se foi embora."

João Tordo
in PÚBLICO, 19/02/2014

terça-feira, fevereiro 18, 2014

O resgate do soldado português - António Orla (1998)


Amor

O amor não se encontra. Faz-se.
Respira-se, transpira-se, chora-se, ri-se.
Nasce e morre.

O amor não tem primeira,
Nem última vista. É míope.
Vê melhor ao perto que ao longe.

O amor não tem idade.
Aprendes a relativizar


Na infantil maturidade.
E, com sorte,
Antes que te separe a morte,
Rir-te-ás com humor de velho
(cúmplice de ti mesmo
numa gargalhada rouca de companhia
daquele com quem pudemos ter
a última conversa do dia).

O amor é aquilo que se vai fazendo dele.
Em português são quatro letras
Para cinco sentidos

E apenas uma vida.

domingo, fevereiro 09, 2014

segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Uma questão de costumes (Fernando Campos)



Uma questão de costumes, de Fernando Campos, no seu blogue osítiodosdesenhos.






Drummond e O'Neill



Só pelo acaso é que aparecem aqui estes poemas de Drummond e O'Neill. Bem-vindos sejam sempre estes dois poetas às nossas mãos.


JANELA

Tarde dominga tarde
pacificada como os atos definitivos.
Algumas folhas de amendoeira expiram em degradado vermelho.
Outras estão apenas nascendo,
verde polido onde a luz estala.
O tronco é o mesmo
e todas as folhas são a mesma antiga
folha
a brotar de seu fim
enquanto roazmente
a vida, sem contraste, me destrói.

Carlos Drummond de Andrade

Lição de coisas (1965)


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TOMA TOMA TOMA

Ainda prefiro os bonecos de cachaporra,
contundentes, contundidos, esmocados,
com vozes de cana rachada e um toma toma toma
de quem não usa a moca para coçar os piolhos,
mas para rachar as cabeças.

O padreca, o diabo, a criadita,
o tarata, a velha alcoviteira, o galã
e, às vezes, um verdadeiro rato branco trapezista,
tramavam para nós a estafada estória
da nossa própria vida.

Mundo de pasta e de trapo
que armava barraca em qualquer canto
e sem contemplações pela moral de classe
nem as subtilezas de quem fica ileso
desancava os maus e beijocava os bons.

Ainda prefiro os bonecos de cachaporra.

Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses
matraquilhos da comédia humana.

Alexandre O'Neill

A saca de orelhas (1979)





quarta-feira, janeiro 22, 2014

O mau uso da lei da gravidade - Gonçalo M. Tavares

Dentro de mim, tenho a certeza que o Gonçalo M. Tavares quando escreveu o ponto número seis desta crónica se lembrou de um dia, há um ano atrás, em que um "espanholito", de boina inquieta e filosófica, lhe falou, em terras pacences, acerca do seu apreço pela obra do poeta Paul Celan. Esse dia, o mais chuvoso da minha vida, ficou-nos marcado pela erosão da água em ambos. Não de Tavares, mas sim em mim e nesse meu “hermano” que, no pânico e violência da água, não se veem rosas. Somente a pressão do ferrolho de que não controlamos o nosso destino. Alternamos entre portas bem fechadas e postigos que vislumbram roseiras belas com orvalho, a pingar, nos picos.

Ronaldo, o Estrangeirado


domingo, janeiro 19, 2014

domingo, janeiro 12, 2014

"Especulações Escatológicas" Dois poemas de Augusto Gil

Há já algum tempo que não percorria estes “senderos”. Verdade. Fruto do imediatismo das redes sociais esqueci um pouco este espaço que para mim é mais que uma mera gaveta de papéis digitais. Menos mal que o meu grande amigo Pedro L. Cuadrado, o melhor cúmplice que poderia ter neste espaço, não o deixa morrer. Então, neste primeiro post de 2014, volto com um tema (ou temas) para mim tão especiais. Poesia e escatologia. Apresento-vos esta pequena obra do poeta da Guarda, Augusto Gil, “Especulações Escatológicas” publicadas pela “Bosq-íman:os”. Um especial obrigado à minha amiga Catarina Lages que mo apresentou.





sábado, novembro 30, 2013

Do blogue 'Bianda'


Ó Luís, de um blogue feito em Cabo Verde: se calhar dá para acrescentares a esse teu trabalho dos palavrões, esse work in progress:


Filhos Radicais (Pais segurando firme)

Naia: Pai, hoje começamos a aprender os ordinais: sexagésimo, septuagésimo, octogésimo..
Eu: Uau, consegues até dizer essas palavras todas de enfiada!...
Naia: É, a professora disse que são palavrões, mas palavrões que podemos dizer - tratou de pontuar.
Eu (com súbito interesse): Ah é? E que palavrões que não podem dizer?
Naia: Mas não posso dizer!!..Mas tu dizes, papá, quando estás chateado..Dizes muito um que começa com P e termina com A.
Eu: Ah é, digo tanto assim? Hmm...E que outros conheces?
Naia (com um sorrisão): conheço um que está em "computador"
AHAHAHAHAHAH (Saiu-me uma gargalhada dessas do fundo do poço!)
Eu (com acrescentado interesse): Que mais?
Naia: Tem um que começa com M e termina com A
Eu (apavorado com a direção da conversa / mantendo a pose de cool)
Naia:...Acho que só conheço esses 3... (ela deve ter lido uma prisão de ventre repentina na minha cara e saiu com esse tranquilizante)
Eu (fingindo autoridade): Mas diz-me, onde se aprende isso tudo?
Naia: Ora, os meus colegas dizem palavrões a toda hora!..(a safadinha se safou)


Blogue Bianda (pub. 13.11.13)




sexta-feira, novembro 22, 2013

O rapaz da camisola verde (Pedro Homem de Mello)



 Poema de Pedro Homem de Mello cantado por Sérgio Godinho.


O rapaz da camisola verde

De mãos nos bolso e de olhar distante,
Jeito de marinheiro ou de soldado,
Era um rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Perguntei-lhe quem era e ele me disse
“Sou do monte, Senhor, e um seu criado”.
Pobre rapaz de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Porque me assaltam turvos pensamentos?
Na minha frente estava um condenado.
Vai-te, rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Ouvindo-me, quedou-se o bravo moço,
Indiferente à raiva do meu brado,
E ali ficou de camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Soube depois ali que se perdera
Esse que só eu pudera ter salvado.
Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.

Ai do rapaz da camisola verde,
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.
Negra madeixa ao vento,
Boina maruja ao lado.


Pedro Homem de Melo



(Mais dados em Santa Nostalgia)





segunda-feira, novembro 18, 2013

Auto-retrato (Alexandre O'Neill)



Depois de reler mais uma vez o auto-retrato do grande Bocage, venha cá o auto-retrato do grande Alexandre O'Neill:


AUTO-RETRATO

"O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angustia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omite-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada …)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse ..."




quarta-feira, novembro 13, 2013

Segundo balcão dos bombeiros (Fernando Assis Pacheco)


SEGUNDO BALCÃO DOS BOMBEIROS

Nesse tempo eu já lera as Brontë mas
como era um adolescente retardado
passava a noite em atrozes dilemas
que mais vale: amar, ser doutrem amado?

ainda não descobrira o simples disto
nem o essencial disto que é tão claro
se tudo no amor vem do imprevisto
deitar regras ao jogo pode sair caro

por isso eu amo e sou ou não benquisto
depende do instante bem ou mal azado
amor tem alegria, tem enfaro
o happy end é coisa dos cinemas

Fernando Assis Pacheco

(Em Arlindo Correia)


domingo, novembro 10, 2013

Ofício de amar (Al Berto)



OFÍCIO DE AMAR

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio
de outras galáxias, e o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras
abandonei-me ao silencio.....
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo

Al Berto





quarta-feira, novembro 06, 2013

LISBOA-1971 (Jorge de Sena)













LISBOA-1971


O chofer de taxi queixava-se da vida.
Ganha 400$00 por semana, o patrão conta
que ele se arranje do a mais com as gorjetas.
Os meus amigos morrem de cancro,
de tédio, de páginas literárias,
vi um rapaz sem as duas mãos que perdeu
na guerra (e o ortopedista ria-se de que ele
só queria por enquanto «calçar» uma das
que, artificiais, lhe preparou tão róseas).
As pessoas esperam com raiva surda e muita paciência
o autocarro, aumento de ordenado, a chegada
do Paracleto, bolsas de sopa do convento.
Mas o chófer de taxi contou-me que
discutira com um asno e lhe dissera:
«...V. que nesse tempo andava a fugir
de colhão para colhão de seu pai
para ver se escapava a ser filho da puta...»
E é isto: andam de colhão para colhão
a ver se escapam – e muitos não escapam.
E os outros não escapam aos que não escaparam.

Lisboa, 5 Agosto 1971

segunda-feira, novembro 04, 2013