sexta-feira, maio 20, 2022

Entrevista a Luis Leal sobre "António Ferro - Ficção" (E-Primatur), 01/XII/2021

Há uns meses, ainda o meu filho era recém-nascido, fui contactado por um meio de comunicação português para responder a uma entrevista sobre a publicação de "António Ferro, Ficção" (para a qual tive a honra de elaborar a introdução). Apesar de andar com os sonos trocados, e estarmos cansadíssimos em casa devido ao novo descendente, sem hesitar respondi sim, pois os implicados na publicação da E-Primatur merecem o meu esforço e grato por se terem lembrado de mim para refletir sobre esta faceta de Ferro. Portanto, com a melhor vontade e da melhor maneira possível, cumpri com a minha palavra e respondi às perguntas colocadas, que, teoricamente, seriam publicadas nesse meio de comunicação que me contactou.
Admito que as respostas não tenham interesse editorial, admito também que outras vozes sejam mais interessantes do que a minha para falar sobre este assunto, porém, não admito é que me façam perder tempo. Digo isto após ter respondido ao solicitado sem sequer haver a decência de uma breve nota ou explicação do tipo "já não nos interessa a sua entrevista, não está dentro da nossa linha editorial". Nem menciono a consideração de um possível e-mail com um "obrigado e desculpe tê-lo feito perder o seu tempo", após as minhas infrutíferas tentativas de comunicação.
Locais, regionais, nacionais ou internacionais, todos os media (e profissionais sérios) merecem o meu respeito. Neste caso, merece um respeito proporcional à consideração que tiveram com o meu tempo e a descortesia de nem dar uma lacónica explicação.
No entanto, a entrevista está feita e publico-a aqui, no meu blog pessoal, para ficar ao escrutínio de quem tiver interesse em conhecer a obra ficcional desse intelectual, tão polémico como interessante, que foi António Ferro. Se se sentirem a perder tempo com as minhas respostas, avanço desde já as minhas desculpas, longe de mim querer ser mal-educado e roubar-vos um bem tão precioso. 

Entrevista a Luis Leal sobre "António Ferro - Ficção" (E-Primatur)
(01/XII/2021)

1. José Augusto França disse que a obra de António Ferro acrescentou ao modernismo português “uma dimensão em certa medida mundana, algo superficial e banalizadora”. José Barreto, em “Fernando Pessoa e António Ferro”, descreveu-o como um modernista menor. Na introdução às ficções, procura colocá-lo num lugar de maior destaque, dizendo que o trio Pessoa, Sá-Carneiro e Almada “sempre encontrará um denominador comum António Ferro”. Afinal, qual foi o papel de Ferro no modernismo em Portugal? E em termos literários? Tinha a qualidade do trio referido ou era de facto mediano?

Quando me refiro a António Ferro como um denominador comum a este trio de peso do Primeiro Modernismo português faço-o sem uma perspectiva de crítica literária, isto é, sem querer reivindicar comparações qualitativas entre a obra destes autores. Faço-o sim com a intenção clara de recuperar a figura de António Ferro para o conjunto de literatos vanguardistas deste período, principalmente pelo papel activo que desempenhou na promoção destes três autores, tanto dentro como fora de Portugal. Como é bem sabido, e de forma resumida, António Ferro foi “recrutado” para editor da Orpheu, por Mário de Sá-Carneiro (com o beneplácito de Pessoa), dado que ainda era menor e, portanto, inimputável. Parece-me injusto não reconhecer o interesse pessoal dos directores da revista, tal como não referir que, sem negar panegíricos, polémicas e interesses pessoais de ambas partes, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e, principalmente, Almada Negreiros beneficiaram da sua relação pessoal com António Ferro. Recorde-se, sucintamente, a publicação de Mensagem de Fernando Pessoa pelo SPN capitaneado por Ferro, que, sendo ou não do agrado do poeta dos heterónimos, é um facto, tal como menções constantes à obra de Mário de Sá-Carneiro (colega do Liceu Camões a quem António Ferro dedicou A Amadora dos Fenómenos, reeditada neste volume) podem ser encontradas em vários momentos da biografia de Ferro, e a peculiar relação com Almada Negreiros, quem mais veementemente excluiu António Ferro do movimento de Orpheu, principalmente depois da visita do “académico Marinetti” a Portugal, em 1932. É curioso comprovar como, escassos anos antes, em 1930, a relação entre Almada e Ferro apresentava contornos diferentes, sendo António Ferro visto por Almada como uma companhia que desafiava “as leis do espaço e do tempo”, algo bem grafado pelo punho e letra do polémico anti-Dantas numa carta dirigida a Ferro desde Madrid, a propósito de uma possível visita dos espanhóis Antoniorobles e José López Rubio, dois nomes bastante conotados com o legado da célebre tertúlia do Café Pombo na capital espanhola. Poder-se-ia reforçar este argumento com os trabalhos artísticos que Almada Negreiros fez para António Ferro, como a capa de A Idade do Jazzband (1923), porém, em épocas posteriores, já na génese do órgão da propaganda salazarista, basta remeter para o cartaz de propaganda à Constituição de 1933 e o selo que ilustrou o slogan do Estado Novo “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”. Há algumas perspectivas que parecem remeter unicamente para um António Ferro oportunista, carreirista, com intenções ocultas em busca de protagonismo. Não o nego, mas ao mergulharmos na história (epistolografia principalmente) constatamos que o futuro homem forte da Política do Espírito do Salazarismo não foi o único, o que é perfeitamente normal à luz das circunstâncias da época. 
Explicado este denominador comum, apesar de polemista, creio que o papel de António Ferro no Modernismo em Portugal foi sobretudo de divulgação. Na sua autopromoção, principalmente no Brasil e na vizinha Espanha, António Ferro também divulgou nomes maiores (e menores, para recorrer aos adjetivos que usou na sua pergunta) inerentes ao Modernismo português. Merece a pena estudar o périplo de Ferro pelo Brasil em 1922 e as colaborações em 1928 em La Gaceta Literaria, de Giménez Caballero, publicação madrilena na qual o português foi codirector, com Ferreira de Castro, do suplemento La Gaceta Portuguesa.  Aproveito para responder à última questão da qualidade da seguinte forma: não me parece sequer pertinente confrontar a obra literária de António Ferro a um colossal Fernando Pessoa. Quanto a Sá-Carneiro e a Almada também não me parecem adequadas comparações. Porém, não considero o percurso literário de António Ferro menor, muito menos tendo em conta como a sua figura vincula a literatura portuguesa da época ao Modernismo brasileiro ou ao “Ultraísmo” espanhol.  A título pessoal, parecem-me redundantes rótulos de maior ou menor, quer no âmbito artístico, quer no âmbito da investigação. Prefiro conceber autores centrais e periféricos e, efectivamente, António Ferro tem andado na periferia dos estudos literários. Trazê-lo para o centro do meu estudo tem sido sumamente interessante e devo dizer que tenho bastante curiosidade em aprofundar a poesia de António Ferro editada postumamente em Saudades de Mim (1957), que, segundo alguma crítica, não suscitou qualquer interesse.

2. Pessoa, Sá-Carneiro e Almada, que conheceram Ferro e com ele privaram, puseram em causa a sua adesão ao movimento modernista, que de facto nunca chegou a ser total, como mostra a sua curta associação ao “Orpheu”, do qual se afastou definitivamente após a infame carta de Álvaro de Campos à Capital. O próprio Ferro fez questão de se desvincular do modernismo e foram vários os críticos, alguns deles citados na questão anterior, que defenderam que a sua obra ficcional e poética não era suficientemente importante no contexto do movimento em Portugal. Tendo em conta tudo isto, é justo classificar Ferro como modernista e estabelecer uma ligação entre ele e o chamado primeiro modernismo português?

Creio que a resposta anterior já aborda a questão que agora me é feita. Não me parece que António Ferro se tenha querido desvincular do Modernismo com a questão do “editor irresponsável” dos dois primeiros números da Orpheu. Alfredo Guisado, o “poeta galego” como era conhecido, assumiu uma postura afim à de Ferro e tal não se deveu a unicamente pressupostos estéticos, mas também políticos. O Modernismo português não se esgota no movimento de Orpheu, nem no âmbito da literatura, e, no caso de António Ferro, podemos encontrá-lo vinculado à “Questão dos Novos” da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1921, ou à revista Contemporânea de José Pacheko, a título de exemplo. A cisão foi com os “orpheístas”, não com o Modernismo, ou Vanguardismo, como o próprio preferia denominar o movimento estético. Outra prova do que afirmo é o panfleto-manifesto Nós (1920), publicado posteriormente no nº3 da revista Klaxon (revista veicular emblemática do Modernismo brasileiro), que, apesar de haver sido renegado por um Ferro reconvertido em homem do regime, vinculam o seu percurso literário com as vanguardas literárias da época. A meu ver, negligenciar ou omitir o nome de António Ferro deste período é empobrecer a história da literatura portuguesa.

3. Ferro tem sido sucessivamente ligado ao modernista espanhol Ramon Gómez de la Serna, não só pela amizade que os unia, mas também por uma alegada influência literária. A obra “Teoria da Indiferença” tem sido descrita como pertencente ao género greguerístico, inventado por Gómez de la Serna. Na introdução, afirma que “o estudo da morfologia da greguería, a par do estudo da obra vanguardista de Ferro, permite afirmar que o autor não praticou o género”. Porquê?

Para lhe responder como gostaria, necessitaríamos abordar em profundidade o género de Gómez de la Serna, que no cânone literário espanhol assume mesmo estatuto de ismo, o “Ramonismo”, e, por antonomásia, ficou para a história da literatura universal conhecido como Ramón. Contudo, de forma resumidíssima, o género da greguería tende a esbater o ego de quem as enuncia e, normalmente, prima pela ausência de um olhar lírico expresso na primeira pessoa do singular, acabando mesmo por não necessitar sequer de sujeito de enunciação para expressar todo o seu fulgor e, da mesma maneira, possibilitar identificações alheias, por exemplo (recorrendo a uma tradução da minha autoria): “Pedais da bicicleta: máquinas de cortar o cabelo às distâncias”. É interessante constatar que, anulando o humorismo greguerístico, encontramos características semelhantes no haiku. Note-se que a própria greguería pode ser tida como um exemplo paradigmático de toda a obra de Gómez de la Serna, caracterizada por uma mundivisão humorística, mas ingénua, virgem, repleta desse pensamento mágico que associamos à primeira infância, porém, atenta à casualidade, eis o porquê de ser tão próxima do género japonês. 
Por sua vez, em António Ferro encontramos uma aparente indiferença, e um humor petulante, a isolar-se em si mesmo (em palavras do próprio “A minha indiferença isola-me. Só me conheço a mim... por isso, só me admiro a mim...”). Mediante o seu indigitamento como jovem literato português (e futuro cultor duma Política do Espírito), não se encontra propensão ao acaso fora do âmbito do culto da sua personalidade e da sua própria autoestima. Daí não poder subscrever possíveis teses de António Ferro ter praticado o género da greguería, o que não invalida ter sido um leitor (e interlocutor) privilegiado, permeável à influência estética do espanhol. A Ramón associa-se uma estética afável, comparada a “um sorvo de água fresca, vinda do poço de um homem bondoso, ingénuo e roussoniano”. Em António Ferro encontramos uma intenção de manifesto, de afirmação pessoal e artística, não encobrindo um egocentrismo quase inexistente no seu congénere espanhol. 
Portanto admito que, à simples vista, a obra de cariz aforístico de Ferro possa remeter o leitor para essa dimensão mundana, algo superficial e banalizadora que antes referiu, contudo, quando me adentrei no estudo biobibliográfico de António Ferro, tendo acesso a um espólio epistolar riquíssimo com grandes vultos da cultura do século XX, patente na Fundação António Quadros – Cultura e Pensamento, afastei-me dessa ideia que muitas vezes me parece preconcebida, tanto pelas conotações de António Ferro com o Salazarismo, como por desconhecimento.

Rámon Gomez de la Serna numa foto no seu El Ventanal, Estoril, à conversa com António Ferro. (Diário de Notícias, 1924)

4. Diz que o facto de Ferro não ter praticado a greguería “não invalida” que tenha sido “permeável à influência estética de Gómez de la Serna”. Em que é que se traduziu essa influência?

António Ferro começou a moldar o seu perfil de literato no início dos anos 20, quase em simultâneo com a sua carreira como repórter, e na sua escassa obra demonstrou ser proclive à estética do átomo, do fracionamento, que convida a reconfigurar, pelos espaços que gera e nexos implícitos a um tema subjacente, uma unidade encoberta, abrangente, polimorfa, como a que se associa ao género da greguería. O prefácio de António Ferro para a tradução de La Roja (1923) de Ramón é uma prova evidente (fortemente amparada por um epistolário de três dezenas de cartas enviadas pelo espanhol ao seu amigo português) que este foi um conhecedor privilegiado da obra de Gómez de la Serna, desde a mais minúscula greguería até às grandes monografias e novelas, nas quais o madrileno (que chegou a ser um ilustre residente do Estoril) se dedicou a desconstruir, a decompor, para depois voltar a reunir, a associar o desarticulado numa vasta collage. A greguería – género novo, estrutura quase única e paradigmática da obra ramoniana – apresentou-se a António Ferro como uma estrutura emergente e dinâmica, uma estrutura “a libertar-se”, passível de concentrar-se ou expandir-se para, de seguida, transformar-se e libertar os restantes géneros que toca. Posto tudo isto, parece-me improvável que um intelectual, com o perfil de António Ferro, ficasse indiferente a um contacto tão privilegiado com o génio de Ramón Gómez de la Serna.

5. A par de Gómez de la Serna, as influências de Ferro parecem ter sido sobretudo estrangeiras. Podemos dizer que os referentes do escritor estavam fora de Portugal e que os modernistas portugueses, a quem esteve brevemente associado e que depois criticou, não exerceram qualquer influência sobre a sua obra escrita?

Apesar de ter sido apelidado como “o Gómez de la Serna português”, tenha-se em conta que António Ferro negou publicamente, em 1928, nas páginas de La Gaceta Literaria, o magistério de Ramón, rematando o assunto de qualquer afinidade estética para a leitura atenta da obra de ambos. Segundo Ferro, quando este conheceu a obra do pai das greguerías o seu espírito já estava em marcha, já estava formado, partilhando com o espanhol apenas a época, o tempo e uma estreita camaradagem. Aproveita para recordar que Valéry Larbaud, conhecedor de ambas obras, o coloca na mesma família literária de Gómez de la Serna, mas em modalidades diferentes e, caso se assemelhasse a alguém, seria ao francês Joseph Delteil. Esta afirmação de Ferro afasta-me um pouco da perspectiva de António Rodrigues que conflui a obra de António Ferro para a estética futurista de Marinetti ou, até mesmo, para o Dadaísmo. A alusão de Joseph Delteil por parte do próprio António Ferro, a par de um confesso fascínio pelo ambiente parisino, não o perfila no ambiente Dada de Zurique. No entanto, dados os pontos de convergência entre Dadaísmo e Surrealismo no seio das vanguardas literárias, considero que António Ferro foi bastante permeável a ambos, mais do que aos seus contemporâneos modernistas em Portugal. 

6. A ficção de Ferro decorre sobretudo na cidade de Lisboa, num ambiente cosmopolita e moderno. Como é que se explica a centralidade da capital portuguesa na sua obra e a escolha de ambiente?

Perdoe-se-me a analogia, mas na obra literária de António Ferro “Lisboa é Portugal e o resto é paisagem (ou reportagem)”. Por favor, não confundamos esta faceta de António Ferro com o seu papel como Teseu da propaganda salazarista. O cosmopolitismo do jornalista com estatuto de repórter estrela do Diário de Notícias, esse “enviado-especial” da imprensa portuguesa da época, não era propício ao ambiente natural e aos elementos bucólicos. Nada melhor do que as palavras do próprio nas páginas da Ilustração Portuguesa, revista de O Século da qual foi director no início dos anos 20: “Lisboeta do Chiado, da Serra do Chiado, custou-me a habituar à serra do Gerês, custou-me a receber a intimação dos montes... Ontem, porém, lá fui, lá investi com a montanha, contrafeito, esquivo, como quem vai fazer a reportagem dum crime, como quem vai para uma repartição pública, a repartição pública da Natureza...”. Sem dúvida, a “natureza do Chiado” é a que predomina na literatura de António Ferro. 

7. Sugere que Ferro abandonou a escrita por simples desencanto e não pela sua entrada na vida política ativa. O que é que o leva a afirmar isso?

Apesar de estar ciente do perfil político e de autopromoção de António Ferro, inquestionavelmente conotado com o regime ditatorial mais longevo da história da Europa, sou capaz de admitir tal desencanto. Como também admito que me entristece ver neste presente que tal admissão possa ser vista como um atrevimento, uma ousadia de pensamento. A leitura da última novela, relativamente desconhecida e agora recuperada nesta edição, intitulada “Suicídio” (1929) publicada na revista Civilização de Ferreira de Castro (como quem codirigiu La Gaceta Portuguesa e, ao parecer, também cortou relações depois de 1933) ampara esta minha sugestão. Por mais ambição que se lhe possa associar, por mais poder (real ou simbólico) que possa ter tido, António Ferro era humano, no sentido em que se algo caracteriza o carácter humano é que não é estático, oscila entre estados de espírito, estímulos, sucessos e reveses. À luz da psicologia contemporânea, há autores que encontraram em António Ferro síndrome de “um verdadeiro workaholic”, misturado num turbilhão de cultura e criatividade, da qual se beneficiou o Estado Novo de Salazar, daí que admitir cansaço e desencanto acaba por apenas humanizar uma figura controversa que adquiriu a rigidez da história e a falta de flexibilidade de algumas mentes dogmáticas.

8. José Barreto, num texto incluído no livro “Portuguese Modernisms: Multiple Perspectives on Literature and the Visual Arts” (2011), contemplou uma outra possibilidade, a de o fim da carreira literária de Ferro se ter devido à implementação da censura, que o próprio aceitou e apoiou. Parece-lhe uma hipótese plausível? 

Muito plausível e um amplo conhecimento das várias facetas da sua vida permite equacionar e até justificar tal cenário, contudo, esse mesmo conhecimento, a par de uma análise textual da obra de António Ferro, igualmente permite contemplar a perspectiva que antes mencionei, sem cair em qualquer tipo de preconceito, seja ele de carácter estético ou ideológico.

9. A obra literária de António Ferro tem recebido pouca atenção. Considera que isso se deve exclusivamente ao papel que desempenhou no regime salazarista e à dificuldade de tratar a sua obra literária ignorando esse mesmo papel? Ou será que a pouca atenção que tem recebido tem a ver com o papel secundário que muitos consideram ter desempenhado e com a qualidade mediana dos seus textos? 

Ainda que escassa, estamos perante a obra literária do verdadeiro engenheiro do espírito de um regime ditatorial constitucionalmente instaurado, vigente desde 1933 até ao 25 de Abril de 1974, e que permite asseverar que Ferrismo é o ismo epistémico do Salazarismo. O papel que António Ferro desempenhou à frente da propaganda do Estado Novo tem uma importância superior ao seu legado como escritor e isso é evidente, contudo, estudos recentes que vinculam a sua figura a grandes nomes da literatura mundial (Ramón Gómez de la Serna é disto um exemplo paradigmático), faz com que devamos prestar mais atenção ao António Ferro literato. Se não tivesse ocorrido um incêndio na Calçada dos Caetanos nos anos 60, onde António Ferro residiu com a sua esposa Fernanda de Castro e a sua família, possivelmente, o já fecundo espólio da Fundação António Quadros – Cultura e Pensamento seria visto como outros mais mediáticos, porém com um valor documental menos relevante. Quero dizer, de volta e meia, encontrar-se-ia – como frequentemente acontece – mais um interessante documento (carta, texto, simples recorte de imprensa ou livro dedicado, etc.) e tal achado teria uma atenção pública merecida, principalmente porque o espólio da família Ferro/Castro/Quadros em Rio Maior não se cinge à literatura. Como investigador, centrado nos estudos literários ibéricos, creio que António Ferro um dos protagonistas culturais do século XX e muito ainda está por se discernir nos seus textos alheios à Política do Espírito do Estado Novo. 
António Ferro - Ficção (introdução Luis Leal), 2021, E-Primatur






quinta-feira, maio 19, 2022

Entre la censura...

Entre la censura de toda la vida y la actual "cultura de la cancelación", la principal diferencia es que la segunda, además de cancelar muchas opiniones e iniciativas, hace perder el tiempo al supuesto cancelado. Puesto que ambas tienen por base la infinita estupidez humana, si tengo que elegir, prefiero la típica censura, esa inquisitorial señora que no tiene que travestirse para quedar bien con nadie y nunca nos hará perder nuestro precioso tiempo vital e intelectual.

quarta-feira, maio 18, 2022

Conoce medio mundo y se presenta como viajero...

Conoce medio mundo y se presenta como viajero. Es indiscutible el kilometraje (o las millas de avión) que este hombre tiene en la superficie de la tierra, sin embargo, por más montañas que haya subido, por más mares en que se haya sumergido y en más supuestos contactos haya tenido con los bajos fondos de las sociedades que conoce, no me impresiona pues únicamente presume del viaje y del estatuto que quiere ver reconocido a su persona. Por eso tiene la sala llena, le adulan y le piden autógrafos. Es un escritor "globetrotter", que, además de enseñar constantemente su pasaporte, también se reconoce como poeta. No le quito su mérito, pero estoy en una fase que este tipo de "globetrotter" de las letras ya no me llega y, al contrario de los Harlem Globetrotters, no me divierten más allá de la sonrisa que atestigua que no soy el único ser ridículo que prolifera por estos pagos.

Paradojas de nuestra era...

Paradojas de nuestra era (apuntado em mi instrumento de vigilancia): 
"La tecnología de la información digital hace de la comunicación un medio de vigilancia. Cuantos más datos generemos, cuanto más intensamente nos comuniquemos, más eficaz será la vigilancia. El teléfono móvil como instrumento de vigilancia y sometimiento explota la libertad y la comunicación. Además, en el régimen de la información, las personas no se sienten vigiladas, sino libres. De forma paradójica, es precisamente la sensación de libertad la que asegura la dominación." in "Infocracia: La digitalización y la crisis de la democracia" de Byung-Chul Han, trad. Joaquín Chamorro Mielke, 2022. 
Paradoxos da nossa era (anotado no meu instrumento de vigilância): 
"A tecnologia da informação digital faz da comunicação um meio de vigilância. Quantos mais dados geremos, quanto mais intensamente nos comuniquemos, mais eficaz será a vigilância. O telemóvel como instrumento de vigilância e submissão explora a liberdade e a comunicação. Além disso, no regime da informação, as pessoas não se sentem vigiadas, mas sim livres. De forma paradoxal, é precisamente a sensação de liberdade a que assegura a dominação." (trad. Luis Leal)

terça-feira, maio 17, 2022

Apunte mental

Uno se puede despistar una vez, pero despistarse dos o tres ya empieza a ser estupidez.

segunda-feira, maio 16, 2022

El algoritmo...

El algoritmo es la esperanza cartesiana de que la inteligencia artificial pueda tener un sexto sentido.

O algoritmo é a esperança cartesiana de a inteligência poder ter um sexto sentido. 

sexta-feira, maio 13, 2022

Unknown photographer

 





La gasolina siempre se ha creído superior al gasóleo.

La gasolina siempre se ha creído superior al gasóleo. Es más fogosa, más explosiva, más refinada. Pero en el fondo del depósito lo que tiene es una tremenda envidia del diésel, más cercano y accesible, más campechano, que le da igual la alta gama o el polvo del tractor y, en sus entrañas petrolíferas, sin duda un combustible bastante más lubricado...

El agujero, harto de que tropezaran en él y se le echara la culpa por su naturaleza depresiva, se compró una tabla y la apoyó en sus extremos. Se dió cuenta que, además de que se acabaron las quejas, empezó a relacionarse con aquellos que lo miraban con atención y se daban cuenta de su real profundidad.

Sexta-feira, 13 de Maio

Sexta-feira, 13 de Maio: Não é nenhum "dia do azar", é apenas um dia em que não estarei onde gostaria de estar. Isto é, em San Vicente de Alcántara, com amigos que tanto estimo a entregar o VIII Prémio de Poesia Jovem Hispano-Português Ángel Campos Pámpano, e na Zamora de Claudio Rodríguez, em companhia da minha amiga Concha López Jambrina, a assitir às suas iniciativas no Festival Poético "Poetiza". Fico por onde tenho de estar, mas se alguém pode, vale verdadeiramente a pena "estar" nestes sítios e com esta boa gente.

Viernes, 13 de mayo: No es ningún "día de la mala suerte", es únicamente un día en que no estaré donde me gustaría estar. Es decir, en San Vicente de Alcántara, con amigos que tanto aprecio entregando el VIII Premio de Poesía Joven Hispano-Portugués Ángel Campos Pámpano, y en la Zamora de Claudio Rodríguez, en la compañía de mi amiga Concha López Jambrina, asistiendo a sus iniciativas en el Festival Poético "Poetiza". Me quedo donde tengo que estar, pero si alguien puede, merece la pena "estar" verdaderamente en estos sitios y con esta buena gente.

sexta-feira, maio 06, 2022

Otro día por vivir.../Outro dia por viver...

Mi buen amigo Pedro va a ir mañana a ver a Theodor Kallifatides en la Feria del Libro de Salamanca y me obsequia con este aforismo del autor "La Patria está allá donde la vida no necesita explicaciones". Me gustaría acompañarlo, poder saludar a D. Theodor y decir al escritor que su obra me ha ayudado a encontrarme más allá de la tierra de mis ancestros y de nuestra Iberia. ¿Dónde está exactamente ese lugar? Cada uno tiene sus propias coordenadas.

O meu bom amigo Pedro amanhã vai ver o Theodor Kallifatides à Feira do Livro de Salamanca e faz-me o obséquio de me enviar este aforismo do autor "A Pátria é lá onde a vida não precisa de explicações". Gostaria de acompanhá-lo, poder cumprimentar o Sr. Kallifatides e dizer ao escritor que a sua obra me tem ajudado a encontrar-me para além da terra dos meus antepassados e da nossa Ibéria. Onde é exactamente ese lugar? Cada um tem as suas próprias coordenadas.

Escrever indiferente a qualquer leitor...

Escrever indiferente a qualquer leitor é o ambiente propicio para uma escrita mais comprometida com a ética do que com a estética.

terça-feira, maio 03, 2022

Theodor Kallifatides - «A Pátria é lá onde a vida não precisa de explicações.»

 


Θοδωρής Καλλιφατίδης: «Πατρίδα είναι εκεί όπου η ζωή δεν χρειάζεται εξηγήσεις»





segunda-feira, maio 02, 2022

Fui plantado em Évora há 42 anos...

Badajoz, 2/V/2022

Fui plantado em Évora há 42 anos. A terra era fértil e fora bem cuidada por gente que sabia ser importante ter um solo mexido pois não se enraíza com facilidade quando o mesmo está compactado. 
Tive a sorte de conhecer as quatro estações nos primeiros anos da minha vida. As Primaveras cuidaram-me bem e foram generosas em água que não me faltou. Nos Verões, houve sempre algum sobreiro que me ensinou a procurar a sombra e a sobreviver às canículas. Os Outonos e os Invernos foram as estações da dormência, da dificuldade em ver como ao meu redor o mundo ficava despido e como a geada queimava mais os troncos dignos do que os ramos superfluos. 
A contemplar a natureza, e sem o saber, aprendi a ver nela uma ética e uma estética. Mas começou a água a escassear, gotas que não choviam, aguadeiros que morriam e barragens de egoísmo. O crescimento rápido dos primeiros anos estancou num porte médio, a dar para o baixo, discreto apesar de por vezes se apresentar viçoso e a partilhar pequenas flores de alegria que deram belos frutos. Quando não se tem água onde se foi plantado poucas hipóteses se tem para além da secura final. Ou se é transplantado ou se enraíza com mais força e mais profundidade.
Durante anos pensei que me tivessem transplantado, que me tivessem levado com raízes impregnadas de substrato eborense e replantado em solo "extremeño". Não é que fosse uma ilusão ou um sonho que vivi acordado, também aqui encontrei sombra e humidade suficiente para brotarem os melhores rebentos e momentos que imaginei ter. Porém, o invisível não deixa de ser verdade por estar oculto. Hoje, molhado pelo horizonte atlântico, aprofundei-me no que me parece ser uma realidade pouco pensada e subterrânea. O que me fui tornando como homem pouco se tornou evidente à superficie, para além desses rebentos e momentos celebrados com gratidão. 
A necessidade de água levou-me ao inconsciente, parou no sal do mar e alastrou-se num sistema radicular complexo, que recorre principalmente ao Guadiana para não secar, mas que, entre jazigos de mármore e granito, se expande a Norte, se protege na serrania e se alastra pelo planalto, onde se sente bem recebido, mas continua caminho até à Galiza onde procurou um passado, já se tornou passado e não imagina futuro.
Há 42 anos pensei ter sido plantado em Évora. Há alguns anos pensei que tinha sido transplantado de Évora, no entanto não sou uma árvore, nem uma planta, nem uma raíz, nem um cavador. Sou apenas solo mexido, a compactar-se entre a ansiedade e a quietude.

domingo, maio 01, 2022

El verdadero panteón de la humildad...

El verdadero panteón de la humildad es la tumba llana. Los que nacen grandes no necesitan edificarse y vuelven al humus, a la sencillez de no ser uno sino ser todo.

O verdadeiro panteão da humildade é a campa rasa. Os que nascem grandes não necessitam edificar-se e voltam ao húmus, à simplicidade de não se ser um, mas sim ser todos.

A frivolidade preocupada...

A frivolidade preocupada com a eternidade manifesta-se no anseio de deixar um apelido e um jazigo como legado.

La frivolidad preocupada por la eternidad se manifiesta en la ansiedad en dejar un apellido y un panteón como legado.

quarta-feira, abril 27, 2022

"¿Hombre bueno o buen hombre?"

"¿Hombre bueno o buen hombre?" se pregunta a la hora de componer un personaje, pero la verdadera pregunta es ¿tiene sentido concebir cualquier intensidad a la virtud de la bondad? 

segunda-feira, abril 25, 2022

El que escribe en dos lenguas...

El que escribe en dos lenguas dobla la posibilidad de equivocarse, vive en constante interferencia, pero también es más plural.

Mayo de 1975: um ano depois, ainda Franco era vivo (Que inveja dos Portugueses!)




“Mayo de 1975. Agonizante dictadura española. Franco estaba vivo todavía, muerto en vida prácticamente, hasta que llegó el día 20 de noviembre de ese mismo año."


domingo, abril 24, 2022

Há 48 anos...

Há 48 anos um grupo de militares pôs em marcha uma revolução que acabaria com 48 anos de ditadura no país onde nasci há quase 42 anos já em democracia (imperfeita, lá dizia o estadista inglês do charuto, mas o mais perfeito dos sistemas políticos). Hoje, por correio, tive a possibilidade de agradecer esse acto a um "Capitão de Abril". Fi-lo porque a oportunidade mo permitiu e porque sei que me arrependeria para o resto da minha vida se não o fizesse. Esteja onde estiver, enquanto as minhas faculdades mentais mo permitirem este dia será sempre celebrado com alegria e gratidão. 25 de Abril Sempre!

Hace 48 años un grupo de militares puso en marcha una revolución que acabaría con 48 años de dictadura en el país donde nací hace casi 42 años ya en democracia (imperfecta, como decía el estadista inglés del puro, pero el más perfecto de los sistemas políticos). Hoy, por correo, he tenido la posibilidad de dar las gracias por ese acto a un "Capitán de Abril". Lo he hecho porque la oportunidad me lo ha permitido y porque sé que me arrepentiría para el resto de mi vida si no lo hubiese hecho. Esté donde esté, mientras mis facultades mentales me lo permitan este día será siempre celebrado con alegría y gratitud. ¡25 de Abril Siempre!

sábado, abril 23, 2022

"X" no nosso calendário

23/IV/2022 Sou de poucas celebrações (apesar de Abril ser um mês excepcional) pois todos os dias são uma oportunidade para louvar ou para olvidar. Recorrer ao calendário é uma das mais eficazes formas de marketing, mas prefiro usá-lo como uma forma organizada de resistir ao esquecimento. Quis o acaso, alguns pensarão em São Jorge, que dia 23 de Abril nascesse um filho a um homem que encontra na palavra um refúgio e nos livros os seus maiores mestres. Interpreto esta circunstância como um aviso para uma alma a lutar contra alguns dragões para não se deixar derrotar pela ilusão de sabedoria que pode gerar o ambiente literário-filosófico. Basta lembrar como ainda há pouco tempo vi como um eminente cronista desprezava a opinião de outro porque este escrevia sobre "os seus filhinhos". Fiquei a pensar neste desprezo publicado, mas estou rodeado pela curiosidade infinita da infância e depressa me esqueci desta arrogância disfarçada de argumentos. 
(Felizmente, hoje o meu calendário tem um enorme "X" marcado e isso é o que me importa!)
23/IV/2022 Soy de pocas celebraciones (a pesar de la excepcionalidad de Abril) pues todos los días son una oportunidad para alabar o para olvidar. Recurrir al calendario es una de las formas más eficaces de marketing, pero prefiero usarlo como una forma organizada de resistir al olvido. Quiso el azar, algunos pensarán en San Jorge, que el 23 de Abril nasciera un hijo a un hombre que encuentra en la palavra cobijo y en los libros a sus mayores maestros. Interpreto esta circunstancia como un aviso a un alma luchando contra algunos dragones para que no sea derrotada por la ilusión de sabiduría que puede generar el mundillo literario-filosofico. Basta recordar como hace poco vi como un eminente cronista despreciaba la opinión de otro porque este escrebía sobre "sus hijitos". Me quedé pensando en este desprecio publicado, pero estoy rodeado de la curiosidad infinita de la infancia y pronto me olvidé de esta arrogancia disfrazada de argumentos. 
(Afortunadamente, hoy mi calendario tiene una enorme "X" marcado ¡y eso es lo que me importa!)





Pequeño poder

El pequeño poder es el gran objetivo del tirano mediocre, sin embargo para el tirano de relieve son meras prácticas antes de poner mano en el poder de verdad.

sexta-feira, abril 22, 2022

Aceitar o cansaço

Ser pai cansa e é um papel que tenho de desempenhar quando só me apetece desconectar ou, simplesmente, dormir. Dizê-lo (ou escrevê-lo neste caso) não é queixume é constatar um facto num dia em que assisto à deriva populista do povo francês e tentei transmitir como docente, e como progenitor, a minha única ideologia, o "zequismo". Isto é, a doutrina do "povo é quem mais ordena" (entenda-se povo como maioria) e de "em cada rosto igualdade". Fi-lo como pude e com boas intenções, mas para a maioria a liberdade não é uma preocupação deste presente. Não me resignei, mas, à força das circuntâncias do mundo, não me resta alternativa que a de aceitar o meu cansaço.

Os ovinhos das nossas galinhas na Páscoa 2022 (15.04.22)

Christopher Waltz in "The Talks" about "passion"...

Is passion also a luxury, in your opinion?

Passion basically has been declared a commodity of the moment. Everything has to be done with passion, people are being told that life will be more meaningful and more fulfilling if they follow their passions. But in the end, it’s just about selling something to someone. Live your passion! Find yourself. It’s all a load of nonsense.

What makes you think that?

Well, firstly, not everyone can stick it, to live their passion. And secondly, not everything is connected to passion. And third, not everyone might have these kinds of passion, so you can’t just make them appear out of thin air. Most importantly, there is no compelling factor, let alone a reason, to assume that anything will be improved if you live your passion. Just because you don’t have a burning passion for your job, does not automatically mean something is missing for you.

But for you, surely acting is a passion, no?

Not at all! It’s my profession, no different than it is for any other profession. In medicine, the best caregivers are those without passion. The doctors that are too passionate are very often the ones who make serious mistakes.

What mistakes would you make if you were an actor with passion?

The biggest of them all: I would try to convince you just how passionate I am. But actually, to me it’s all about the story. That there might be passion in there — or maybe you can’t completely free yourself of some passionate tendencies, that may well be. But it has nothing to the with the job itself.

domingo, abril 17, 2022

La vulnerabilidad no tiene guión...

La vulnerabilidad no tiene guión. En el arte, la vulnerabilidad, por más cruda o bella, siempre será más una expresión de sinceridad que de artificialidad, por más trucos y astucias le encontremos en la labor del artista herido.

Quando o teu desprezo...

Quando o teu desprezo por algo ou alguém se manifesta até em sonhos, andas a perder tempo e a ser parvo, tanto a dormir como acordado.

quarta-feira, abril 13, 2022

Marketing do Silêncio

"Marketing do Silêncio": Valorizo o silêncio, preciso de silêncio, mas ver como este dom cada vez mais é mercantilizado e explorado pela lógica do marketing causa-me bastante repulsa. Seremos tão otários para comprar o que é, desde sempre, nosso por direito? 

"Marketing del silencio": Valoro el silencio, preciso de silencio, pero ver como este don cada vez más es mercantilizado y explotado por la lógica del marketing me provoca bastante repulsión. ¿Seremos tan pringados para comprar lo que desde siempre es nuestro por derecho?

Abrir la navaja...

Abrir la navaja con una mano: hábito necesario disfrazado de motricidad fina.

domingo, abril 10, 2022

Solidão no Japão

 


Scarlett Johansson em Lost in Translation (2003), de Sophia Coppola.







sábado, abril 09, 2022

Uma epifania de algibeira...

Uma epifania de algibeira ocorre quando andas meio perdido e te encontras no que levas nos bolsos. A pinça da papelada, o telemóvel chinês, a fiel navalhita, a caneta subtraida ao teu filho, a pastilha esquecida, o ticket da charcutaria, o recorte amarrotado da velhice do Savater e a dolorosa factura do gás. Enfim, mentos e (frag)mentos de um ser a preparar as calças e a purificar o espírito, entre restos de cotão, antes de ir à máquina de lavar.

Una epifanía de bolsillo ocurre cuando estás medio perdido y te encuentras en lo que llevas en los bolsillos. La pinza del papeleo, el móvil chino, la fiel navajita, el boli sustraído a tu hijo, el chicle olvidado, el ticket de la charcutería, el recorte arrugado de la "vejez" de Savater y la dolorosa factura del gas. En fin, mentos y (frag)mentos de un ser preparando los pantalones y purificando el espíritu, entre vestigios de pelusas, antes de poner la lavadora.

terça-feira, abril 05, 2022

Cuando no esté...

Conversación de final del día:
'Hijos, recordad este nombre: Marco Aurelio. Fue un emperador romano y, en la probabilidad de que yo os falte un día, él no os decepcionará. Meditad con sus "Meditaciones" y no os olvidéis de lo que os hace difíciles de vencer.".

Fotos fora de tempo

No es posible la humillación...

No es posible la humillación del verdadero humilde pues este conoce la verdad de la tierra, nunca abandonó el humus que le permite ser parte del todo y al mismo tiempo no aspirar a ser más de lo que es.

No es contemporáneo de si mismo...

No es contemporáneo de si mismo. Coexiste únicamente consigo mismo y aún así es difícil que acepte la unicidad de su existencia.

domingo, abril 03, 2022

Entre jaras, cuidando del campo, con el abuelo... (02/IV/2022)

30 anos sem o "Nosso Capitão"

Treinta años sin "Nuestro Capitán": actos de valor como el suyo jamás son perdonados por los mediocres, esa es la realidad de la historia, sin embargo jamás serán la verdadera memoria. 

Trinta anos sem o "Nosso Capitão": actos de coragem como o seu jamais serão perdoados pelos mediocres, essa é a realidade da história, no entanto jamais serão a verdadeira memória. 
Salgueiro Maia (Foto de Alfredo Cunha)


sábado, abril 02, 2022

Bertolt Brecht - Louvor do Aprender



Louvor do Aprender

Aprende o mais simples! Pra aqueles
Cujo tempo chegou
Nunca é tarde de mais!
Aprende o abc, não chega, mas
Aprende-o! E não te enfades!
Começa! Tens de saber tudo!
Tens de tomar a chefia!

Aprende, homem do asilo!
Aprende, homem na prisão!
Aprende, mulher na cozinha!
Aprende, sexagenária!
Tens de tomar a chefia!
Frequenta a escola, homem sem casa!
Arranja saber, homem com frio!
Faminto, pega no livro: é uma arma.
Tens de tomar a chefia.

Não te acanhes de perguntar, companheiro!
Não deixes que te metam patranhas na cabeça:
Vê c'os teus próprios olhos!
O que tu mesmo não sabes
Não o sabes.
Verifica a conta:
És tu que a pagas.
Põe o dedo em cada parcela,
Pergunta: Como aparece isto aqui?
Tens de tomar a chefia.

Bertolt Brecht

Tradução de Paulo Quintela



Lob des Lernens

Lerne das Einfachste! Für die
Deren Zeit gekommen ist
Ist es nie zu spät!
Lerne das Abc, es genügt nicht, aber
Lerne es! Laß es dich nicht verdrießen!
Fang an! Du mußt alles wissen!
Du mußt die Führung übernehmen

Lerne, Mann im Asyl!
Lerne, Mann im Gefängnis!
Lerne, Frau in der Küche!
Lerne, Sechzigjährige!
Du mußt die Führung übernehmen.
Suche die Schule auf, Obdachloser!
Verschaffe dir Wissen, Frierender!
Hungriger, greif nach dem Buch: es ist eine Waffe.
Du mußt die Führung übernehmen.

Scheue dich nicht zu fragen, Genosse!
Laß dir nichts einreden
Sieh selber nach!
Was du nicht selber weißt
Weißt du nicht.
Prüfe die Rechnung
Du mußt sie bezahlen.
Lege den Finger auf jeden Posten
Frage: Wie kommt er hierher?
Du mußt die Führung übernehmen.




Crónica: "Homem de Lealdades" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº159, p. 96)

"Homem de Lealdades" - Luis Leal

Ignoro se o escritor Miguel Delibes alguma vez esteve no Alentejo. Admito que sim, dado o seu amplo percurso de vida, com obra editada em português, porém, a sua biografia não o vincula a Portugal, nem sequer a outras regiões espanholas para além do seu espaço vital, o que faz deste referente das letras espanholas ser considerado um escritor com território, o de “Castilla”. Aceita-se, no entanto, a ligeira incursão na Extremadura com “Os Santos Inocentes”, adaptada à sétima arte por Mario Camus, sendo considerada um ícone cultural espanhol da segunda metade do século passado, cuja temática de desigualdade social e ambiente de latifúndio senhorial seria perfeitamente verossímil no nosso Alentejo de então (e, infelizmente, com resquícios no presente).
O apego territorial por parte de Delibes não o circunscreve aos domínios físicos, evolui pela ética e poucos podem ser tão representativos de uma “ética da fidelidade” como D. Miguel. Esta deontologia, basilar na moral do escritor, foi justificada pelo próprio ao enunciar que era “um homem de fidelidades: a uma mulher, a um jornal, a um editor, a uma cidade...”. No caso de Eugenio D’Ors, ético é evoluir e páro a refletir sobre mim mesmo, em pleno século XXI, a viver entre territórios, e o certo é que (para fugir ao intertexto delibeano e fazer jus ao meu apelido) sou um “homem de lealdades”: a uma mulher, a algumas publicações, ao nosso editor, a duas cidades...”. Quem me conhece, apesar dos artifícios de quem escreve, sabe que sou sincero e tento não perder a minha “autenticidade” quando me entrego a este ofício de verter em palavras as minhas percepções, mas, pelos vistos, as minhas “lealdades” relegam-me para o território do conservadorismo, isto é, para um armário de mofo e naftalina, onde as pressões sociais e o progressismo da moda me exiliam na gaveta da anormalidade. Afirmo isto, tendo em mente um artigo de opinião num meio de referência, intitulado “Sou conservador. Sou menos bom por isso?”, em que a autora pergunta “se serão as ideias conservadoras totalmente erradas?”, avançando uma linha argumental interessante, contudo, questionando a sociedade através da premissa única de uma acção ser de cariz conservador pelo simples facto de haver sido algo tradicional em gerações anteriores.
Eu prefiro perguntar: Sou conservador por ser fiel a uma mulher ou um homem? Sou conservador por não ter curiosidade com o “poliamor”? Sou conservador por estar casado e supor que as relações exigem perseverança mútua? Sou conservador por ter filhos e isso faz de mim membro de alguma seita? Sou conservador devido à minha matriz católica e devido à minha fé insegura e discreta? Sou conservador por estar no mesmo ramo de trabalho há quase 20 anos? Sou conservador por gostar de rotinas? Sou conservador por ver virtude na simplicidade, na frugalidade? Sou conservador por acreditar numa certa disciplina – a simples diferença entre sim e não – e querer evitar nos meus filhos maus hábitos pois, mais cedo ou mais tarde, os mesmos acabam por se tornar carácter? Sou conservador por aceitar como natural, se necessário, plantar ou tirar a vida a animais com as próprias mãos para alimento? E podia continuar a indagar, mas receio subir de categoria e passar de conservador a inquisidor. Lembro-me sim de Delibes, dessa forma exemplar, desse difícil equilíbrio entre os planos da estética e da moral. Era caçador (sem troféus como o seu tocaio Torga), daqueles que suam atrás da sua presa. E era um verdadeiro ecologista, dos primeiros “verdes” a denunciar um mundo a agonizar, porém, algo inconcebível para o purista, incapaz de admitir sensatez na atividade cinegética regulada. 
Nunca cheguei a ser um verdadeiro caçador, apesar da linhagem e das licenças. Talvez tenha progredido quando abdiquei, com pesar e alívio, da arma herdada de um passado de leais caçadores, calcorreadores de ladeiras, que nunca permitiram crueldade de gatilho. Mas, segundo os critérios da inteligência “woke”, este meu perfil nem é de menos bom (estilo Neandertal comparado com Homo Sapiens), é de Australopiteco! 
        Até me podia sentir ofendido, mas também sou racionalista e os sentimentos não são argumentos, portanto, aceito as minhas lealdades retrógradas. Contudo, professo-me um conservador-herético, dado que as heresias são contrárias aos dogmas e este progressismo em voga assume-se irrefutável, ou seja, insurjo-me perante este ismo tão pouco credível e disparatado como o meu.   

Miguel Delibes, un "hombre de fidelidades".

Crónica: "Homem de Lealdades" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº159, p. 96)

Se o facto de ser um "homem de lealdades" faz de mim um gajo conservador, então serei conservador. Se lhe juntarmos a heresia de pensar com os meus próprios neurónios, então só poderei ser um conservador herético! Enfim, se estiverem com paciência para perspectivas “canceladas” pela sensibilidade "woke", leiam-me na "Mais Alentejo" nº159, se não podem ir às bancas e encontrar já o seguinte número, com novo design e elegância reafirmada, onde podem encontrar mais uma crónica não censurada do vosso leal e, pelos vistos, conservador amigo...

Si el hecho de ser un "hombre de lealtades" me convierte en un tío conservador, entonces seré conservador. Si le añadimos la herejía de pensar con mis propias neuronas, ¡entonces sólo podré ser un conservador herético! En fin, si estáis con paciencia para perspectivas "canceladas" por la sensibilidad "woke", leedme en "Mais Alentejo" nº159, si no podéis ir a los kioscos y encontrar ya al siguiente número, con nuevo design y elegancia reafirmada, donde encontrareis una crónica más no censurada de vuestro leal y, por lo visto, conservador amigo…

Crónica: "Homem de Lealdades" de Luis Leal (in "Mais Alentejo" nº159, p. 96)



quinta-feira, março 31, 2022

Mentía con todos los dientes...

Mentía con todos los dientes que tenía en la boca, pero un día la verdad llegó como un puño que le puso la cavidad bucal en manos de un profesional. Los puños no cambian a la gente, justo después de la ortodoncia y del arreglo dental, salió de la consulta hablando mal y difamando al dentista. 

quarta-feira, março 30, 2022

"Los errores fundamentales del género humano son la base de nuestras verdades."

Ramón Andrés me hace reflexionar sobre los Óscares de los bofetones: "Los errores fundamentales del género humano son la base de nuestras verdades." .

Ramón Andrés leva-me a reflectir sobre os Óscares dos chapadões: "Os erros fundamentais do género humano são a base das nossas verdades.".(Ramón Andrés, in "Poesía reunida. Aforismos", 2016)



terça-feira, março 29, 2022

Perdido nos meandros do pensamento... (II)

Perdido nos meandros do pensamento, descobriu-se na ansiedade de um complexo labirinto. Cansado e ajoelhado num pranto sem saída, sente a raíz do ridículo a puxar-lhe os cantos da boca para terminarem em gargalhadas descomplexadas. A rir, ergueu-se dentro e fora de si mesmo. De subserviente, passou a considerar-se uma perigosa anedocta. As paredes tornaram-se pó, a genuflexão abandonou o servilismo do chão e a gargalhada ecoou em revolta. Não, não é o Joker. Aqui não há super-heróis ou super-vilões, há a consciência do ridículo de se ser humano.

Ambiente que desconhece o silêncio...

Ambiente que desconhece o silêncio, seguramente conhece ou conhecerá em algum momento uma ala psiquiátrica.

Josef Koudelka - Lisboa, Portugal, 1975

 



Josef Koudelka




domingo, março 27, 2022

Perdido nos meandros...

Perdido nos meandros do pensamento, descobriu-se na ansiedade de um complexo labirinto. Cansado e ajoelhado num pranto sem saída, sente a raíz do ridículo a puxar-lhe os cantos da boca para terminarem em gargalhadas descomplexadas. A rir, ergueu-se dentro e fora de si mesmo. De subserviente, passou a considerar-se uma perigosa anedocta. As paredes tornaram-se pó, a genuflexão abandonou o servilismo do chão e a gargalhada ecoou num horizonte livre de revolta. 


Formado na escola socrática...

Formado na escola socrática, chegou ao século XXI e exclamou: "Só sei que nada sei, mas sei que vocês ainda sabem menos do que eu!". Ninguém levantou a cervical do jugo do telemóvel, à excepção do sistema, atento tirano, que não lhe deu cicuta, apenas o bloqueou, cancelando-lhe qualquer valor de humildade e de complexidade de pensamento.

My generation...


A ouvir "Talking about my generation" dos The Who penso na minha: Chamaram-lhe rasca, vive à rasca, mas a realidade é que é uma geração bastante desenrascada.
Escuchando "Talking about my generation" de The Who pienso en la mía: Le llamaron cutre, vive necesitada, pero la realidad es que se trata de una generación bastante apañada.

sábado, março 26, 2022

Um haikai de Paulo Leminski




Lua na água
alguma lua
lua alguma





“Fotografía en Blanco y Negro” de José Miguel Santiago Castelo

Depois da seleção criteriosa por parte de D. José Luis Bernal de “Fotografia en Blanco y Negro” da autoria de José Miguel Santiago Castelo, o patrono deste “V Prémio Internacional de Fotografia 2021 (Alentejo/Centro/Extremadura)” promovido pelo Centro Unesco de Extremadura, coube-me a tarefa de verter o mesmo para português e assim encerrar este belo catálogo. 

Después de la selección criteriosa por parte de D. José Luis Bernal de “Fotografía en Blanco y Negro” de la autoría de José Miguel Santiago Castelo, el patrono de este “V Premio Internacional de Fotografía 2021 (Alentejo/Centro/Extremadura)” promovido por el Centro Unesco de Extremadura, me tocó la tarea de verter el mismo al portugués y de esta manera encerrar este bello catálogo. 






segunda-feira, março 21, 2022

Camões - Esparsa ao desconcerto do mundo (mais versão em dialecto macaense)



ESPARSA AO DESCONCERTO DO MUNDO

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais m´espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado.
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que só para mim
Anda o mundo concertado

Luís de Camões







Petros Toubis - O Λαθρεπιβάτης

 

    

Uma fotografia de Petros Toubis: O Λαθρεπιβάτης (2013). O dicionário grego-português da Infopédia diz-nos que λαθρεπιβάτης (laθrɛpiˈvatis) é uma palavra masculina que significa "passageiro clandestino".

Reparem como o artigo masculino singular do grego coincide com o português!


 

domingo, março 20, 2022

VIII Prémio de Poesia Hispano-Português Ángel Campos Pámpano

Todos os que trabalhamos com gente jovem ou acreditamos no valor da poesia na sua formação humana podemos divulgar o VIII Prémio de Poesia Hispano-Português Ángel Campos Pámpano e estimular o pessoal a participar. Eis o cartaz e as bases em português, mas podem aceder a mais informação em espanhol nas redes sociais da Asociación Vicente Rollano. Felizmente a memória do poeta persiste e continua a ser honrada numa era de esquecimento amplificado. Já o disse mais do que uma vez, emociona-me ver como os seus (e não só) o mantêm presente.

Todos los que trabajamos con gente joven o creemos en el valor de la poesía en su formación humana podemos divulgar el VIII Premio de Poesía Hispano-Portugués Ángel Campos Pámpano y estimularlos a participar. Aquí tenéis el cartel y las bases en portugués, pero podéis acceder a más información en español en las redes sociales de la Asociación Vicente Rollano. Afortunadamente la memoria del poeta persiste y sigue siendo honrada en una era de olvido amplificado. Ya lo he dicho más de una vez, me emociona ver como los suyos (y no solo) lo mantienen presente. 





sexta-feira, março 18, 2022

Ryu vs Ken

Los miraba y pensaba en estas nuevas generaciones para quien, con tantísimos dispositivos en casa (e incluso en los bolsillos), el hecho de jugar videojuegos (retro en este caso) fuera de casa quizás se pueda convertir en un placer como ir al cine y ver una película en la gran pantalla. Pero pronto dejé de divagar y les enseñé que su viejo es cinturón negro de "Street Fighter II".

Olhava para eles e pensava nestas novas gerações para quem, com tantíssimos dispositivos casa (e inclusivamente nos bolsos), o facto de jogarem videojogos (retro neste caso) fora de casa talvez se possa tornar num prazer como ir ao cinema e ver um filme no grande ecrã. Mas depressa me deixei de divagações e mostrei-lhes que o seu velho é cinturão negro de "Street Fighter II".

"Azar, Café e Música Brasileira" - PLC

quarta-feira, março 16, 2022

"Filosofía de la finitud"

"Filosofía de la finitud", apunto indeciso si tiene potencial de verso. Conecto con facilidad con este pensador, pero encuentro debilidad en su pensamiento y en el mío, pensamientos lejos de reclamar conocimiento y aún más distante de acercarse a lo que se considera sabiduría. Asumir mi ignorancia me ha traído alguna quietud y silencio, paz. El fin, la fragilidad de mi mundo, es una consecuencia directa de mi propia fragilidad biológica y existencial. La calima de hoy ha ocultado el sol, pero no me ha ocultado eso.

segunda-feira, março 14, 2022

Cronos reune-se com três pretendentes a serem seus biógrafos...

Cronos reune-se com três pretendentes a serem seus biógrafos oficiais: o do relógio de sol, o de relógio analógico e o do relógio digital. Depois de os entrevistar, chegou às seguintes conclusões: "o do solar anda sempre de cabeça no ar; o do analógico está constantemente dependente que alguém lhe dê corda; e o do digital, para além de ser a pilhas e poluir o ambiente, é uma chinezice de má qualidade. Em resumo, estes gajos não percebem nada da minha essência, limitam-se a comprovarem uma escala de uma coisa que pensam ser tempo. Mas tempo é o que nos fazem perder. Em vez de contratá-los, o melhor é devorá-los."

domingo, março 13, 2022

Viver a dois é ser como um par de meias.

Viver a dois é ser como um par de meias. Há conforto mútuo, envelhece-se com o uso emparelhado, o roçar de pé com pé. Se fizer falta cose-se algum buraquinho por onde algum dedo espreitou. Mas resiste-se ao mau calçado, adapta-se à temperatura das estações e aprende-se a aceitar o chulé como consequência do esforço de caminhar ou da dignidade de manter-se de pé. O grande problema para uma gaveta harmoniosa é a falta de atenção, principalmente quando vai à máquina com a pressa da outra roupa. Pior que debotar é perderem-se uma da outra. Uma meia estraviada por desatenção é o melhor exemplo para uma relação amorosa pouco cuidada, quase nunca se recupera, leva a afastamentos desnecessários, pode levar a formar conjunto com meias parecidas, mas longe dos elásticos do par original, e, em última instância, é votada à inutilidade de ser singular, chegando mesmo à terrível solidão dos trapos. Quem cuida da sua gaveta das meias como deve de ser presta atenção a quem ama.

Einer Engbrocks - Please me Mr. Einstein!

 


Einer Engbrocks - Please me Mr. Einstein! (2017)




Velhas fotocópias dos tempos da universidade: "A opinionite" por Edgar Morin



 

O poeta brasileiro Paulo Leminski a competir como judoka


 

sábado, março 12, 2022

Es mentira que el tiempo se pare...

Es mentira que el tiempo se pare en ciertos instantes, lo que pasa es que hay instantes en que el tiempo decide retirarse a nuestro favor. Pero siempre vuelta, como tirano gobernante que es.

Amabilidad para los demás y olvido para una parte de ti.

Amabilidad para los demás y olvido para una parte de ti. Si lo ves con distancia no es una mala proporción. A veces, lo mejor es que ni siquiera se acuerden que existes.

La diferencia entre héroe y superhéroe...

La diferencia entre héroe y superhéroe no es cuestión de mitología, sino de hipertrofia.

"Se tivesse podado este arbusto que bela árvore hoje seria..."

"Se tivesse podado este arbusto que bela árvore hoje seria...", pensou de cabelos ao vento. Não se lembrou que a natureza desconhece o condicional, porque é consequente. 

Nas notícias ouvia como a pandemia mudou os comportamento dos seus semelhantes...

Nas notícias ouvia como a pandemia mudou os comportamento dos seus semelhantes, como a distância se impôs em todas as medidas e o confinamento passou a ser um traço de personalidade. Continuou a ouvir o locutor e pensou o quão distante e confinado sempre esteve de si mesmo, antes e depois desta era... 
"Notícia de última hora: começou uma guerra".
Entrou em conflicto interno.

A fé dos outros...

A fé dos outros, desde que não te julgue e não te maltrate, até te pode ajudar a manter a fé no que tu quiseres.

La fe de los demás, desde que no te juzgue y no te maltrate, incluso te puede ayudar a seguir creyendo en lo que quieras.

Como o corpo se alimenta...

Como o corpo se alimenta de pão e não de ar, a consciência alimenta-se de realidade e não de sonhos. Esse é o alimento da esperança.

"A salto de mata" - Luis Leal

Estou a terminar a minha licença por paternidade, porém durante este período em que tudo foi (e continua a ser) prioritário em relação à necessidade da escrita, juntaram-se ecos do passado às pinceladas do presente. Restos diáfanos, ideias inseguras, anotações sorridentes, visões a extrapolar noções e sentimentos que tanto se expressam numa língua mamada no colo materno como numa língua vivida, pensada. "A salto de mata" é a compilação disso e de algo mais, é a arquitectura fragmentária de um sujeito que se vai construindo numa existência inesperada. Não sei se algum dia será publicado (tenho esperança que sim), mas este título sugerido por o grande Pedro L. Cuadrado (desconhecedor, como eu, da obra homónima de Paul Auster no mercado editorial espanhol) já se pode considerar o meu terceiro livro completamente bilingue. Só falta rever, corrigir, polir e organizar da melhor maneira possível, de preferência com colaboração de artistas visuais. Depois, com mais ou menos exemplares, em formato físico ou digital, veremos como se poderá partilhar com quem tiver interesse em lê-lo. 
Estoy terminando mi permiso por paternidad, sin embargo, durante este período en que todo ha sido (y sigue siendo) prioritario en relación a la necesidad de escribir, se han juntado ecos del pasado a pinceladas del presente. Restos diáfanos, ideas inseguras, apuntes sonrientes, visiones extrapolando nociones y sentimientos que tanto se pueden expresar en una lengua mamada en brazos maternos como en una lengua vivida, cavilada. "A salto de mata" es el recopilatorio de eso y algo más, es la arquitectura fragmentaria de un sujeto que se va construyendo en una existencia inesperada. No sé si se publicará (espero que sí), pero este título, sugerencia del gran Pedro L. Cuadrado (desconocedor, igual que yo, de la obra homónima de Paul Auster en el mercado editorial español), ya se puede considerar mi tercer libro completamente bilingüe. Ahora falta revisar, corregir, pulir y organizar de la mejor manera posible, quizás con la colaboración de artistas visuales. Después, con más o menos ejemplares, en formato físico o digital, ya veremos como se podrá compartir con los que tienen interés en leerlo.


quinta-feira, março 10, 2022

Ramón: simplesmente, e literalmente, o meu tractor.

Ramón: o literato amável da frase curta e genial. Ramón: o homem bom e guardião do pensamento mágico da criança que somos. Ramón: a antonomásia a provar que até na síntese, no ínfimo, no âmago de uma frase, inusitada mas inspirada, existe eternidade. Ramón: a minha Espanha em ventanais de saudades atlânticas e encruzilhadas madrilenas. Ramón: mestre que preferiu a catedral da amizade à cátedra ramoniana. Ramón: simplesmente, e literalmente, o meu tractor.

La creatividad es la hermana irreverente...

La creatividad es la hermana irreverente de la norma, siempre está dispuesta a salir de la comodidad de la casa de sus padres y a intentar cambiar el mundo.

quarta-feira, março 09, 2022

Para quê almejar o futuro se, em caso de ser vivido, será sempre presente?

La consciencia al volante de un automóvil es la autoconsciencia.

O facto de o adjectivo...

O facto de o adjectivo "radical" ser usado de forma pejorativa, a remeter para o primitivismo, é uma prova que estamos mais perto da ignorância do que do conhecimento radicular que não é de extremos, mas sim um sobrevivente espistemico a extremas condições. 

Alexandre O’Neill - Discurso

Fotografia de Birdyphotography



DISCURSO

no dize-tu-direi-eu
havia um que dizia
quer dizer é como quem diz
que o mesmo é não dizer nada
tenho dito

Alexandre O'Neill 


 

terça-feira, março 08, 2022

Hamlet o indeciso...

"Hamlet" e o seu "ser ou não ser" na literatura universal é simplesmente o maior símbolo do drama de se ser o indeciso da História!

Sem ilusionismo...

Sem ilusionismo: Como é que poderia tirar um truque da manga se andava com elas sempre arregaçadas?

domingo, março 06, 2022

"The Batman"

West, Keaton, Kilmer, Clonney, Bale, Affleck y, ahora, Pattinson... No sé si es el mejor Batman del séptimo arte pero, para mí, es el que más estilo tiene. "The Batman", 6/III/2022.
West, Keaton, Kilmer, Clonney, Bale, Affleck e agora Pattinson... Não sei se é o melhor Batman da sétima arte mas, para mim, é o que mais estilo tem. "The Batman", 6/III/2022.

A pressa...

A pressa é o maior predador do tempo e do silêncio.
Las prisas son los mayores depredadores del tiempo y del silencio.

quinta-feira, março 03, 2022

70 anos de HASP...

O Sr. Hipólito não é descendente de Teseu nem é particularmente amigo de cavalos. É sim a pessoa mais honesta que conheço e foi quem me ensinou a palavra "brio". Apesar de diferentes em muitas coisas, espero ser como ele, honesto com as minhas raízes e responsável com os meus. Hoje faz 70 anos e o meu presente é este, o profundo reconhecimento e orgulho em ser seu filho. Parabéns pai, é um privilégio estarmos todos juntos.
D. Hipólito no es descendiente de Teseo ni es particularmente amigo de caballos. Sí es la persona más honesta que conozco y fue quien me enseñó la palabra "pundonor". A pesar de que somos diferentes en muchas cosas, espero ser como él, honesto con mis raíces y responsable con los míos. Hoy cumple 70 años y mi regalo es este, el profundo reconocimiento y orgullo en ser su hijo. Felicidades papá, es un privilegio que estemos todos juntos.